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Em Busca de Deus

Em Busca de Deus

 

 

                                    Em Busca de Deus

 

                                  (Teologia da Alegria)

 

 

a plenitude da alegria cristã

 

 

John Piper

 

 

Tradução de Hans Udo Fuchs

 

 

 

 

 

 

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Semeadores da Palavra e-books evangélicos

 

 

Copyright (e) 1996 John Piper

Publicado pela Mullnomah Books, EUA

Título Original: Desiring God

1ª Edição - 2001

1a Reimpressão - 2003

 

Publicado no Brasil com a devida autorização

e com todos os direitos reservados por

Shedd Publicações Ltda-Me

Rua São Nazário, 30, Sto Amaro

São Paulo-SP - 04741-150

Proibida a reprodução por quaisquer

meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos,

fotográficos, gravação, estocagem em banco de

dados, etc), a não ser em citações breves

com indicação de fonte.

Printed in Brazil / Impresso no Brasil

ISBN - 85-88315-07-6

Tradução: Hans Udo Fuchs

Revisão do Português: Robinson Malkomes

Diagramação e Capa: Edmilson Frazão Bizerra

 

 

 

CATALOGAÇÃO NA FONTE DO DEPARTAMENTO NACIONAL DO LIVRO

Piper, John, 1946-

Teologia da alegria: a plenitude da satisfação em Deus / John Piper ;

Tradução de Hans Udo Fuchs. –

São Paulo : Shedd, 2001, 304 p. ; 23cm.

ISBN 85-88315-07-6 (broch.) Tradução de: Desiring God:

meditations of a Christian hedonist.

 

1. Teologia. I. Título                                                 CDD: 230

 


 

ÍNDICE

 

Prefácio. 5

Introdução. 6

Como Passei a Buscar o Prazer Cristão. 6

Capítulo 1.  A felicidade de Deus. 13

A Base do Prazer Cristão. 13

Capítulo   2.  A Conversão. 26

A Criação de um Cristão que  Busca o  Prazer 26

Capítulo   3.  Adoração. 39

O Banquete do Prazer Cristão. 39

Capitulo 4.  Amor 56

O  Esforço do Prazer Cristão. 56

Capítulo   5.  A Bíblia. 73

Alimento para o Prazer 73

Capítulo   6  Oração. 82

O Poder do Prazer Cristão. 82

Capítulo   7. Dinheiro. 96

A MOEDA DO PRAZER CRISTÃO.. 96

Capitulo   8.  Casamento. 106

UMA FONTE DO PRAZER CRISTÃO.. 106

Capítulo    9.  Trabalho Missionário. 115

O Grito de Guerra do Prazer Cristão. 115

Capítulo    10  Sofrimento. 131

O Sacrifício do Prazer Cristão. 131

Epílogo.  Por que Escrevi Este livro. 148

Sete Razões. 148

Apêndice    1.  O Propósito de Deus na História da Redenção. 159

Apêndice    2.  Será Que a Bíblia é um Guia Confiável Para a Alegria Duradoura?. 167

Apêndice    3.  O Que Significa Amar o Próximo Como a Si mesmo?1 174

 

 

 

 

Prefácio

Conheci o Dr. John Piper, somente após ter lido o seu livro, agora apresentado integralmente em português. Para mim, o livro Teologia da Alegria foi revolucionário, uma verdadeira mudança de paradigmas. O autor argumenta, de modo convincente, que servir a Deus por obrigação não satisfaz o coração de Deus. O que o Pai quer são filhos que lhe obedeçam em amor e espontaneidade. Depois de participar de uma conferência para pastores, juntamente com o Dr. Piper, percebi que ele é uma pessoa que vive de forma consistente o que prega e escreve.

Uma das palavras, com que Piper choca seus leitores, é "hedonismo" (traduzido no livro por prazer). O hedonismo cristão deve ser condenado sem tréguas, mas quem alguma vez nos desafiou, afirmando que buscar alegria ou felicidade em Deus seria a mais alta motivação para o cristão? Quem acreditaria que pecamos se agimos apenas por obrigação?

A Bíblia tem muito a dizer sobre o prazer e a alegria, aliás, um dos mandamentos, pouco enfatizados - é aquele que nos manda sempre alegrar-nos no Senhor (Fl 4.4). Quem, entretanto, sabe distinguir entre hedonismo contaminado pelo pecado e um "hedonismo" que tem a sua origem em Deus? Esta diferença fundamental é o grande valor deste livro, uma vez que o Dr. Piper descreve, em cada capítulo, como a alegria precisa e pode ser o grande incentivo em toda as facetas da vida com Deus.

Um dos capítulos mais fascinantes trata do tema do dinheiro. Imagine um irmão dando uma oferta expressiva na busca de mais felicidade! Para a maioria dos membros das igrejas evangélicas, o dever de contribuir com um dízimo é inegável. Muitos dão os seus dízimos e ofertas como um dever, na esperança de que Deus retribua com maiores bênçãos materiais, e não porque têm tanto prazer em dar. Mas este livro mostra que há um caminho melhor.

Dr. John Piper pastoreia uma grande igreja batista em Mineapolis, nos Estados Unidos, por muitos anos, depois de lecionar no Bethel College. Seu doutorado é pela Universidade de Munique na Alemanha. Já veio ao Brasil onde palestrou em uma conferência patrocinada pela Editora Fiel. Seus livros têm abençoado milhares de cristãos de várias denominações, em seu país, e tenho a plena convicção de que também abençoará ricamente a Igreja brasileira.

A Deus toda a glória!

Russell P. Shedd

 

 

 

—Foi muita bondade da sua parte cuidar de Quentin.

—Bondade! — ela exclamou. — Bondade! Oh, Anthony!

—Bem, foi mesmo — respondeu ele. — Ou bondade em você.

Como é preciso ser exato com as preposições!

Talvez tenha sido uma preposição errada que pôs esse mundo todo em confusão.

 

Charles Williams,

The place of the lion

 

 

 

Introdução

Como Passei a Buscar o Prazer Cristão

 

Você pode virar o mundo de pernas para o ar apenas mudando uma palavra em seu credo. A tradição antiga diz:

O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus

E gozá-lo plena e eternamente.

"E"? Como arroz e feijão? Às vezes você glorifica Deus e às vezes se alegra nele? Às vezes ele recebe a glória, e às vezes você recebe a alegria? "E" é uma palavra muito ambígua! Que relação essas duas coisas têm entre Si?

É evidente que os antigos teólogos não achavam que estavam falando de duas coisas. Eles disseram "fim supremo e principal", não "principais finalidades". Glorificar a Deus e gozá-lo eram uma só finalidade em sua mente, não duas. Como pode ser isso?

É disso que trata esse livro.

Não que eu me importe muito com a intenção de teólogos do século XVII. Importo-me, porém, tremendamente com a intenção de Deus na Bíblia. O que Deus tem a dizer sobre a principal finalidade do ser humano? Como Deus nos ensina a dar-lhe glória? Ele nos ordena a nos alegrar nele? Nesse caso, como essa busca da alegria em Deus se relaciona com tudo mais? Sim, tudo! "Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus".

A preocupação principal desse livro é que em tudo na vida Deus seja glorificado da maneira que ele indicou. Com esse objetivo, esse livro pretende convencê-lo de que:

O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus

AO

gozá-lo plena e eternamente.

 

Como passei a buscar o prazer cristão

Quando estava na universidade eu tinha uma noção vaga e difusa de que, se eu fizesse alguma coisa boa porque isso me deixaria feliz, eu estragaria o que havia de bom nela.

Descobri que o que havia de bom nas minhas ações morais era diminuído à medida que eu era motivado pelo desejo do meu próprio prazer. Naquela época, comprar sorvete na cantina dos estudantes apenas por prazer não me incomodava, porque as conseqüências morais dessa ação pareciam ser tão insignificantes. Mas ser motivado pelo anseio por felicidade ou prazer quando me apresentava como voluntário para o trabalho cristão ou quando ia ao culto —  isso me parecia egoísta, utilitário, mercenário.

Isso era um problema para mim, porque não conseguia formular um motivo alternativo que funcionasse. Encontrei em mim um anseio imenso de ser feliz, um impulso tremendamente poderoso para buscar o prazer, mas a cada momento de tomar uma decisão moral eu dizia a mim mesmo que esse impulso não devia influenciar-me.

Uma das áreas de maior frustração era a de adoração e louvor. Minha noção vaga de que, quanto mais elevada fosse a atividade, menos deveria haver de interesse próprio nela, fazia-me pensar no louvor quase exclusivamente em termos de dever. E isso tira a essência da coisa.

Então fui convertido ao prazer cristão. Em questão de semanas vim a compreender que é antibíblico e arrogante tentar adorar a Deus por qualquer outra razão que não o prazer de estar nele. (Não passe por cima dessa última palavra: nele. Não em seus dons, mas nele. Não em nós mesmos, mas nele.) Permita-me descrever a série de constatações que me levaram a buscar o prazer cristão. Ao longo do caminho espero que fique claro o que quero dizer com essa frase tão estranha.

1) Durante o meu primeiro trimestre no seminário fui apresentado ao argumento em favor do prazer cristão e a um dos seus grandes defensores, Blaise Pascal. Ele escreveu:

Todas as pessoas buscam a felicidade. Não há exceção para isso. Sejam quais forem os meios diferentes que empreguem, todos objetivam esse alvo. A razão de alguns irem à guerra, e de outros a evitarem, é o mesmo desejo em ambos, visto de perspectivas diferentes. A vontade nunca dará o último passo em outra direção. Esse é o motivo de cada ação de todo ser humano, mesmo dos que se enforcam.1

 

Essa declaração combinou tão bem com meus próprios anseios profundos e com tudo o que sempre tinha visto nos outros, que a aceitei e jamais encontrei alguma razão para duvidar dela. O que chamou especialmente minha atenção foi que Pascal não estava fazendo algum julgamento moral desse fato. No que lhe dizia respeito, buscar a própria felicidade não era pecado; é um traço comum da natureza humana. É uma lei do coração humano, assim como a gravidade é uma lei da natureza.

Esse pensamento fez muito sentido para mim, e abriu o caminho para a segunda descoberta.

2) No tempo da faculdade, eu aprendera a apreciar muito a obra de C. S. Lewis. Contudo, apenas bem mais tarde comprei o sermão intitulado "Peso de glória". A primeira página desse sermão é uma das mais influentes páginas literárias que jamais li. Diz assim:

Se você perguntasse a vinte homens íntegros dos nossos dias qual acreditam ser a maior das virtudes, dezenove responderiam: "abnegação". Mas se perguntasse a qualquer um dos grandes cristãos do passado ele diria: "amor". Você percebe o que aconteceu? O termo positivo foi substituído por um negativo, e isso tem importância maior do que apenas o aspecto filológico. O ideal de abnegação traz consigo, basicamente, a noção não de procurar o beneficio dos outros, mas de prescindirmos nós desse benefício, como se o importante fosse não a felicidade alheia, mas a nossa abstenção. Não me parece ser essa a virtude cristã do amor. O Novo Testamento tem muito a declarar sobre renúncia, mas não da renúncia como um fim em si. Ele diz-nos que devemos negar a nós mesmos e tomar a nossa cruz para poder seguir a Cristo. E quase todas as descrições da recompensa que se seguirá a essa renúncia contêm um apelo ao desejo natural de felicidade.

 

Se hoje a noção de que é errado desejar a nossa felicidade e esperar ansiosamente gozá-la esconde-se na maioria das mentes, afirmo que ela surgiu em Kant ou nos estóicos, mas não na fé cristã. Na realidade, se considerarmos as promessas pouco modestas de galardão e a espantosa natureza das recompensas prometidas nos evangelhos, diríamos que nosso Senhor considera nossos desejos não demasiadamente grandes, mas demasiadamente pequenos. Somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições, desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia. Contentamo-nos com muito pouco.2

Estava tudo ali às claras, e para minha mente era totalmente convincente: não o errado desejar o próprio bem. De fato, o grande problema das pessoas é que é muito fácil satisfazê-las. Não buscam o prazer nem de longe com a determinação e a paixão com que deveriam. Assim, contentam-se com bolos de barro, e não com delícias infinitas.

Nunca antes em minha vida eu tinha ouvido algum cristão, muito menos um da estatura de Lewis, dizer que todos nós não apenas buscamos (como disse Pascal), mas também devemos buscar nossa própria felicidade.

Nosso erro não está na intensidade do nosso anseio por felicidade, mas na sua fraqueza.

3) A terceira conclusão estava ali no sermão de Lewis, mas Pascal a deixou mais explícita. Ele continua e diz:

O homem já teve a verdadeira felicidade, da qual agora resta nele apenas o sinal e o espaço vazio, que ele tenta em vão preencher com as coisas ao seu redor, procurando em coisas ausentes a ajuda que não obtém nas coisas presentes. Essas, porém, são todas incapazes, porque o abismo infinito pode ser preenchido somente por um objeto infinito e imutável, ou seja, apenas pelo próprio Deus.3

 

Olhando para trás agora, isso parece tão evidentemente óbvio, que não sei como pude deixar de vê-lo antes. Por todos aqueles anos eu tentara reprimir meu tremendo anseio por felicidade para poder louvar a Deus honestamente a partir de algum motivo mais "elevado", menos egoísta. Agora começara a fazer sentido que esse suspiro persistente e inegável por felicidade não devia ser reprimido, mas satisfeito — em Deus! A convicção crescente de que o louvor devia ser motivado apenas por essa felicidade que encontramos em Deus pareceu-me cada vez menos estranha.

4) A próxima percepção veio novamente de C. S. Lewis, só que desta vez das suas Reflections on the Psalms. O capítulo nove desse livro tem o modesto título: "Uma palavra sobre o louvor". Em minha experiência, essa tem sido a palavra sobre louvor — a melhor palavra sobre a natureza do louvor que jamais li.

Lewis diz que, quando estava começando a crer em Deus, um grande empecilho foram as várias exigências, dispersas pelos salmos, de que deveria louvar a Deus. Ele não via o sentido disso tudo; além disso, parecia que isso mostrava Deus ansiando "por nossa adoração como uma mulher vaidosa por elogios". Ele passa a mostrar porque estava errado:

O fato mais óbvio sobre o louvor, porém — seja de Deus, seja de qualquer coisa— estranhamente me escapara. Eu o considerava um tipo de elogio, aprovação, ou honra. Jamais eu percebera que toda alegria transborda espontaneamente cm louvor. [...] O mundo ressoa do louvor: apaixonados louvam suas amadas; leitores, seu poeta favorito; caminhantes, a paisagem; jogadores, seu jogo predileto...

Minha dificuldade maior e mais geral com o louvor de Deus dependia do absurdo de querer negar, no que tange ao Valor supremo, o que gostamos de fazer, o que na verdade não conseguimos deixar de fazer, acima de qualquer outra coisa que valorizamos.

Creio que gostamos de louvar o que nos alegra porque o louvor não apenas expressa mas completa a alegria; ele é sua consumação pretendida.4

 

Esse era o elemento que faltava à minha busca do prazer. Louvar a Deus, a vocação mais elevada da humanidade e nosso chamado eterno, não implicava renúncia, antes a consumação da alegria que eu tanto desejava. Meu antigo esforço de realizar a adoração sem interesse próprio nela provou ser uma contradição de termos. Nós adoramos apenas o que nos compraz. Não existe algo como adoração triste ou louvor infeliz.

Temos um nome para os que tentam louvar quando não têm prazer no objeto. Nós os chamamos de hipócritas. Esse fato — que o louvor significa prazer completo e que a finalidade primordial do ser humano é beber intensamente desse prazer— talvez tenha sido a descoberta mais libertadora que jamais fiz.

5) Em seguida, voltei aos salmos em proveito próprio, e encontrei a linguagem do prazer em todo lugar. A busca do prazer nem mesmo era opcional, mas compulsória: "Agrada-te do Senhor, e ele satisfará os desejos do teu coração" (Sl 37.4).

O salmista tentou fazer exatamente isso: "Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo" (Sl42.1, 2). "A minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água" (Sl 63.1). O tema da sede tem sua contrapartida de matar a sede quando o salmista diz que as pessoas "fartam-se da abundância da tua casa, e na torrente das tuas delícias lhes dás de beber" (Sl 36.8).

Descobri que a bondade de Deus, que é a própria base da adoração, não é algo que você saúda num gesto de reverência desinteressado. Não, devemos nos regozijar nela: "Oh! Provai e vede que o Senhor é bom" (Sl 34.8). "Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais que o mel à minha boca" (Sl 119.103).

Como diz C. S. Lewis, nos salmos Deus é o "objeto que a tudo satisfaz". Seu povo o adora sem constrangimento, pela "grande alegria" que encontra nele (Sl 43:4). Ele é a fonte de prazer completo e infindável: "Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente" (Sl 16.11).

Essa é a breve história de como passei a ser um cristão que busca o prazer. Tenho meditado nessas coisas por cerca vinte e oito anos, e disso emergiu uma filosofia que toca praticamente todas as áreas da minha vida. Tenho a convicção de que ela é bíblica, de que preenche os anseios mais profundos do meu coração e de que honra o Deus e Pai do nosso senhor Jesus Cristo. Escrevi esse livro para recomendar essas coisas a todos os que quiserem escutar.

Muitas objeções se levantam na mente das pessoas quando me ouvem falando desse jeito. Espero que o livro responda aos questionamentos mais sérios. Mas talvez eu possa desarmar de antemão um pouco da resistência, fazendo alguns comentários esclarecedores.

Primeiro, o prazer cristão, no sentido com que eu uso o termo, não quer dizer que Deus se torna um meio de ajudar-nos a conseguir prazeres mundanos. O prazer que o cristão busca é o que está no próprio Deus. Ele é o fim da nossa busca, não o meio para algum outro fim. Nossa grande alegria é ele, o Senhor — não as ruas de ouro, ou a reunião com parentes ou qualquer outra bênção do céu. O prazer cristão não reduz Deus a uma chave que abre um baú cheio de prata e ouro. Antes, ele busca transformar o coração de tal modo que "o Todo-poderoso será o teu ouro e a tua prata escolhida" (Jó 22.25).

Segundo, o prazer cristão não faz do nosso prazer um deus. Ele diz que já fizemos um deus de tudo mais em que temos prazer. O objetivo do prazer cristão é ter o maior prazer no único Deus, evitando assim o pecado da cobiça, que é idolatria (Cl 3.5).

Terceiro, o prazer cristão não nos coloca acima de Deus quando o buscamos com interesse pessoal. Um paciente não é maior que seu médico. Direi mais sobre isso no capítulo três.

Quarto, o prazer cristão não é uma "teoria geral de justificação moral".5 Em outras palavras, em nenhum lugar eu digo: uma ação é correta porque gera prazer. Meu objetivo não é decidir o que é certo usando a alegria como critério moral. Meu objetivo é fundamentar o fato espantoso e muito negligenciado de que algumas dimensões da alegria são um dever moral em toda adoração genuína e em todos os atos virtuosos. Eu não digo que amar a Deus é bom porque traz alegria. Eu digo que Deus ordena que encontremos alegria amando a Deus ("Deleita-te no Senhor", Sl 37.4). Eu não digo que amar pessoas é bom porque traz alegria. Eu digo que Deus nos ordena que encontremos alegria em amar as pessoas ("Quem exerce misericórdia, [faça-o] com alegria", Rm 12.8).6

Não me aproximo da Bíblia com uma teoria hedonista de justificação moral. Pelo contrário, encontro na Bíblia o mandamento divino de ser alguém que busca o prazer - Isto é, de esquecer os prazeres do mundo, inferiores, pouco vantajosos, efêmeros, que nunca satisfazem, destroem pessoas e desfazem de Deus, e de vender tudo "transbordante de alegria" (Mt 13.44 ) para ler o reino do céu, e assim "entrar no gozo do seu senhor" (Mt 25:21,23). Em resumo, sou um cristão que busca o prazer não por alguma razão filosófica ou teórica, mas porque Deus o ordena (mesmo concedendo que ele não manda que usemos esses termos!).

Quinto, eu não digo que a relação entre amor e felicidade é esta: "verdadeira felicidade requer amor". Isso seria uma simplificação exagerada, que deixa de lado a questão crucial e definitiva. O traço que distingue o prazer cristão não é que a busca do prazer requer virtude, mas que a virtude consiste essencialmente, mesmo que não apenas, na busca do prazer.

A razão por que chego a essa conclusão é que não estou agindo aqui como um hedonista filosófico, mas como um teólogo bíblico e pastor (im­precisa seguir os mandamentos divinos:

De "amar a misericórdia" (não apenas exercê-la, Mq 6.8);

De "exercer misericórdia com alegria" (Rm 12.8);

De sofrer "com alegria o espólio dos bens", em benefício dos prisioneiros (Hb 10.34);

De "dar com alegria" (2Co 9.7);

De tornar nossa alegria a alegria dos outros (2Co 2.3);

De pastorear o rebanho de Deus de boa vontade, "desejoso de servir" (1Pe 5.2, nvi); e

De atender às necessidades espirituais das pessoas "com alegria" (Hb 13.17).

 

Quando você reflete por tempo e profundidade suficientes nesses mandamentos surpreendentes, as implicações morais são de nos deixar pasmos. O cristão que busca o prazer tentará levar esses mandamentos divinos vitalmente a sério. A conclusão é penetrante e muda radicalmente nossa vida: a busca da virtude genuína inclui a busca da alegria, porque a alegria é um componente essencial da verdadeira virtude. Isso é diametralmente oposto a dizer: Vamos todos ser bons porque isso nos fará felizes.

Sexto, o prazer cristão não é uma distorção dos catecismos de fé reformados e históricos. Essa foi uma das críticas de Richard Mouw em seu livro The God who commands. Disse ele:

Piper talvez consiga alterar a primeira resposta no Catecismo de Westminster — de modo que glorificar e gozar a Deus se torna glorificar ao gozar a divindade— para servir a seus propósitos hedonistas, mas é um pouco mais difícil alterar as primeiras linhas do Catecismo de Heidelberg: que eu, de corpo e alma, na vida como na morte, não pertenço a mim mesmo, mas ao meu fiel Salvador Jesus Cristo.7

 

O que é marcante no começo do Catecismo de Heidelberg não é que eu não posso alterá-lo com propósitos hedonistas, mas que eu não preciso fazê-lo. Já se coloca todo o catecismo sob o anseio humano de "consolo". Primeira pergunta: "Qual é sua única fonte de consolo na vida e na morte?". A questão premente para os críticos do prazer cristão é: Por que os homens que elaboraram esse catecismo de quatrocentos anos estruturam todas as 129 perguntas de modo tal que elas são uma exposição da pergunta: "Qual é minha única fonte de consolo?".

Ainda mais digno de nota é ver a preocupação com a "felicidade" emergir explicitamente na segunda pergunta do catecismo, que serve de esboço para as restantes: "Quantas coisas você precisa saber para poder viver e morrer feliz (seliglich) nesse consolo (Troste)?". Assim, o tema abrangente do "consolo" é esclarecido essencialmente como "felicidade", e todo catecismo é uma resposta à preocupação de como viver e morrer feliz.

A resposta a essa segunda pergunta do catecismo é: "Três coisas: primeira, a enormidade do meu pecado e minha miséria. Segunda, como sou redimido de todos os meus pecados e miséria. Terceira, como devo ser grato a Deus por tamanha redenção". Em seguida, o restante do catecismo é dividido em três seções, para tratar dessas três coisas: "Primeira parte: a desgraça humana" (perguntas 3-11); "Segunda parte: a redenção humana" (perguntas 12-85); e "Terceira parte: a gratidão" (perguntas 86-129). O sentido disso é que todo o Catecismo de Heidelberg foi escrito para responder à pergunta: O que preciso saber para viver feliz?

Fico surpreso por alguém pensar que o prazer cristão precisa "alterar as primeiras linhas do Catecismo de Heidelberg". O fato é que todo o catecismo foi estruturado da maneira como o prazer cristão o faria. Por isso o prazer cristão não distorce os catecismos reformados históricos. Tanto o Catecismo de Westminster como o de Heidelberg começam com a preocupação com o prazer do ser humano em Deus, ou sua busca por "viver e morrer feliz". Não tenho qualquer desejo de inventar novidades doutrinárias. Estou contente por ter sido o Catecismo de Heidelberg escrito quatrocentos anos atrás.

Definindo o que é prazer cristão

Maneiras novas de olhar para o mundo (mesmo que sejam de séculos atrás) não se prestam a definições simples. É preciso um livro inteiro para que as pessoas possam começar a entender. Juízos rápidos e superficiais estarão quase com certeza errados. Abstenha-se de conjecturar o que está nas páginas desse livro! A suposição de que aqui temos mais um subproduto da escravização do homem moderno à centralidade de Sl mesmo passará longe do alvo. Ah, quantas surpresas estão pela frente!

Eu preferiria deixar uma definição do prazer cristão para o fim do livro, quando os mal-entendidos deverão ter sido desfeitos. Um escritor geralmente deseja que sua primeira frase seja lida à luz da última, e vice-versa! Mas, tudo bem, é preciso começar em algum lugar. Assim, forneço a seguinte pré-definição, na esperança de que ela seja interpretada com simpatia, à luz do restante do livro:

O prazer cristão é uma filosofia de vida baseada nas cinco convicções seguintes:

1) O anseio por ser feliz é uma experiência humana universal, e é algo bom, não pecaminoso;

Jamais devemos tentar negar ou resistir ao nosso anseio por ser felizes, como se isso fosse um impulso mau. Pelo contrário, devemos tentar intensificar esse anseio e alimentá-lo com tudo que proveja a satisfação mais profunda e permanente;

A felicidade mais profunda e permanente encontra-se apenas em Deus. Não com origem em Deus, mas em Deus;

A felicidade que encontramos em Deus atinge sua consumação quando compartilhada com outros nos multiformes caminhos do amor;

Na mesma medida em que tentamos abandonar a busca do prazer próprio, deixamos de honrar a Deus e de amar as pessoas. Ou, para usar termos afirmativos: a busca do prazer é parte necessária de toda adoração e virtude. Ou seja,

O fim supremo e principal do homem é glorificar a Deus

AO

gozá-lo plena e eternamente.

 

A raiz da questão

Esse livro será predominantemente uma meditação nas Escrituras. Será expositivo e não especulativo. Se eu não puder mostrar que o prazer cristão vem da Bíblia, não posso esperar que alguém se interesse por ele, muito menos que se convença. Há milhares de filosofias feitas por homens na vida. Se esta for mais uma, deixe-a de lado. Há apenas uma rocha: a Palavra de Deus. No final das contas, apenas uma coisa importa: glorificar a Deus da maneira por ele indicada. É por isso que busco o prazer cristão. Por isso escrevi esse livro.

 

NOTAS

1Blaise Pascal, Pascais Pensées. Nova York, E. P. Dutton, 1958, p. 113, pensamento nº 425

2C. S. Lewis, Peso de glória. São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 11-12.

3Pascais Pensées, p. 113.

4C. S. Lewis, Reflections on the Psalms. Nova York, Harcourt, Brace and World, 1958, p. 94, 95

5Uma das críticas mais extensas e sérias ao prazer cristão publicada depois de Desiring God é de Richard Mouw, The God who commands (Notre Dame, Notre Dame Press, 1990). A citação foi tirada da p. 33 (ênfase acrescentada).

6Entre outros textos que revelam o dever da alegria em Deus ordenado por Deus estão Dt 28.47; ICr 16.31,33; Ne 8.10; Sl 32.11; 33.1; 35.9; 40.8, 16; 42.1, 2; 63.1, 11; 64.10 95.1; 97.1, 12; 98.4; 104.34; 105.3; Is 41.16; Jl 2.23; Zc 2.10; 10.7; Fp 3.1; 4.4. Entre os textos que mencionam o mandamento divino de alegrar-se amando os outros estão 2Co 9.7; cf. At 20.35; Hb 10.34; 13.17; lPe 5.2. 7Richard Mouw, The God who commands, p. 36.

 

 

 

O nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz.

Salmos 115.3

 

 

Aconteceu uma alteração maravilhosa em minha mente, com respeito

à doutrina da soberania de Deus. [...] A doutrina tem-me parecido

com freqüência extremamente agradável, clara e doce. Soberania absoluta

é o que quero atribuir a Deus.

Jonathan Edwards

 

 

O clímax da felicidade de Deus

é o prazer que ele tem

nos reflexos da sua excelência

nos louvores do seu povo.

John Piper

 

 

 

Capítulo 1.
A felicidade de Deus

A Base do Prazer Cristão

 

O alicerce do prazer cristão é o fato de que Deus é supremo em suas próprias afeições:

O principal propósito de Deus é glorificar a Deus e ter prazer em Si mesmo para sempre.

A razão de isso soar estranho para nós é que estamos mais acostumados a pensar em nossas obrigações do que nas intenções de Deus. E quando perguntamos pelas intenções de Deus, estamos muito propensos a descrevê-las conosco no centro das afeições de Deus. Podemos dizer, por exemplo, que seu propósito é redimir o mundo. Ou salvar pecadores. Ou restaurar a criação. Coisas assim.

As intenções salvíficas de Deus, porém, são penúltimas, não últimas. Redenção, salvação, restauração não são o objetivo primordial de Deus. Ele as efetua em prol de algo maior: a alegria que ele tem em glorificar a Si mesmo. O alicerce do prazer cristão é a lealdade de Deus não a nós, mas a Si mesmo.

Se Deus não se dedicasse infinitamente à preservação, à manifestação e ao deleite da sua própria glória, não poderíamos ter esperança de encontrar felicidade nele. Mas se ele realmente usa todo o seu poder soberano e sabedoria infinita para maximizar o prazer na sua própria glória, então temos um fundamento sobre o qual podemos nos firmar e alegrar.

Sei que isso, à primeira vista, pode nos deixar perplexos. Assim, tentarei subdividir o assunto e apreciar uma parte de cada vez, para voltar a reunir tudo no fim do capítulo.

A soberania de Deus: a base da felicidade dele e nossa

Deus tem o direito, o poder e a sabedoria

para fazer tudo o que o faça feliz.

Nenhum dos seus propósitos pode ser frustrado.

Por isso, ele nunca tem deficiência nem necessidade.

Nunca está de mau humor nem desanimado.

Ele está sempre pleno, transbordante de energia

para agir em favor do seu povo,

que busca a felicidade nele.

 

"O nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz" (Sl 115.3, arc). A implicação desse texto é que Deus tem o direito e o poder de fazer tudo que o deixa feliz. É isso que significa dizer que Deus é soberano.

Pense um pouco nisso: se Deus é soberano e pode fazer tudo o que lhe apraz, então nenhum dos seus propósitos pode ser frustrado.

O Senhor frustra os desígnios das nações e anula os intentos dos povos. O conselho do Senhor dura para sempre; os desígnios do seu coração, por todas as gerações (Sl 33.10, 11).

 

E se nenhum dos seus objetivos pode ser frustrado, ele deve ser o mais feliz de todos os seres. Sua felicidade infinita e divina é a fonte de onde o prazer cristão bebe e deseja beber cada vez mais.

Você consegue imaginar como seria se o Deus que governa o mundo não fosse feliz? Como seria se Deus tivesse a tendência de reclamar, ficar com tédio e deprimido, como algum gigante de João e o pé de feijão no céu? Como seria se Deus ficasse frustrado, desanimado, mal-humorado, sinistro, descontente e abatido? Poderíamos por acaso nos juntar a Davi e dizer: Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água" (Sl 63.1)?

Duvido. Todos nos relacionaríamos com Deus como crianças pequenas que têm um pai frustrado, sombrio, desanimado e descontente. Elas não conseguem se alegrar nele. Podem apenas tentar não incomodá-lo, e talvez tentar trabalhar para ele para conseguir algum pequeno favor.

Por isso, se Deus não é feliz, o prazer cristão não tem alicerce, porque o objetivo daquele que busca o prazer cristão é ser feliz em Deus para deliciar-se nele, cultivar e ter prazer em sua comunhão e boa vontade. Crianças não podem ter comunhão alegre com seu pai ele é infeliz. Por  essa razão, a base do prazer cristão é a felicidade de Deus.

A base da felicidade de Deus, por sua vez, é a sua soberania: "O nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz". Se Deus não fosse soberano, se o mundo que ele fez estivesse fora de controle, frustrando seus desígnios vez após vez, Deus não seria feliz.

Assim como nossa alegria se baseia na promessa de que Deus é suficientemente forte e sábio para fazer todas as coisas cooperarem para o nosso bem, a alegria de Deus está baseada no mesmo controle soberano: ele faz todas as coisas cooperarem para a sua glória.

Já que tanta coisa depende da soberania de Deus, devemos nos certificar de que a base bíblica dela é sólida.

A base bíblica da felicidade soberana de Deus1

Deus diz:

—Meus desígnios prevalecerão, e realizarei todos os meus intentos.

 

Por isso Jó diz:

—Nenhum propósito seu pode ser frustrado.

 

Seus propósitos abrangem todas as coisas, incluindo o pecado. Por isso a crucificação de Cristo foi da vontade de Deus, apesar de ter sido o maior pecado jamais cometido. "A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão."2 O próprio fato de que Deus é Deus implica que seus propósitos não podem ser frustrados —  como diz o profeta Isaías:

Eu sou Deus, e não há outro, eu sou Deus, e não há outro semelhante a mim; que desde o princípio anuncio o que há de acontecer e desde a antigüidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade (Is 46.9, 10).

 

Os propósitos de Deus não podem ser frustrados; não há ninguém como Deus. Se algum propósito de Deus fracassasse, isso implicaria que há um poder maior que o de Deus. Implicaria que alguém pode impedir sua ação quando ele decide fazer algo. Mas ninguém pode "deter a sua mão", como entendeu Nabucodonosor:

Seu domínio é sempiterno, e seu reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Dn 4.34, 35).

 

Sua soberania supera calamidades

Essa foi também a confissão final de Jó, depois que Deus lhe falou do redemoinho: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado" (Jó 42.2). "O nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz" (Sl 115.3).

Isso levanta a questão de também serem o mal e os eventos calamitosos no mundo parte do plano soberano de Deus. Jeremias olhou para a carnificina em Jerusalém quando de sua destruição e chorou:

Com lágrimas se consumiram os meus olhos, turbada está a minha alma,e o meu coração se derramou de angústia por causa da calamidade da filha do meu povo; pois desfalecem os meninos e as crianças de peito pelas ruas da cidade (Lm 2.11).

 

Porém, quando ele olhou para Deus, não pôde negar a verdade:

Quem é aquele que diz, e assim acontece, quando o Senhor o não mande? Acaso, não procede do Altíssimo tanto o mal como o bem? (Lm 3.37, 38).

 

"Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?"

Se Deus reina soberano sobre o mundo, então o mal no mundo não está fora do seu desígnio. "Sucederá algum mal à cidade, sem que o Senhor o tenha feito?" (Am 3.6).

A frase acima foi a expressão reverente de Jó, servo de Deus, afligido por tumores: "Temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal?" (Jó 2.10). Ele disse isso apesar de o texto declarar que "saiu Satanás da presença do Senhor e feriu a Jó de tumores malignos" (Jó 2.7). Estava Jó errado em atribuir a Deus o que veio de Satanás? Não, porque o escritor nos diz imediatamente após as palavras de Jó: "Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios" (Jó 2.10).

O mal que Satanás causa acontece apenas com a permissão de Deus. Por isso Jó não está errado em vê-lo como originário da mão de Deus. Seria antibíblico e irreverente atribuir a Satanás (ou a seres humanos pecadores) o poder de frustrar os planos de Deus.

Quem planejou o assassinato de Cristo?

O exemplo mais claro de que até o mal moral se enquadra nos planos de Deus é a crucificação de Cristo. Quem negaria que a traição de Jesus por Judas foi um ato moralmente mau?

Contudo, em Atos 2.23, Pedro diz: "Esse Jesus, sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos". A traição foi pecado, mas fez parte do plano determinado por Deus. O pecado não frustrou seu plano nem deteve sua mão.

Ou quem poderia dizer que o desdém de Herodes (Lc23.11) ou a atitude covarde de Pilatos (Lc 23.24) ou o grito dos judeus: "Crucifica-o! Crucifica-o!" (Lc 23.21) ou a zombaria dos soldados gentios (Lc 23.26) — quem diria que essas atitudes não eram pecados? Todavia, Atos 4.27,28 registra a oração dos santos:

Verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazer tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram.

 

As pessoas erguem a mão para rebelar-se contra o Altíssimo, apenas para descobrir que sua rebeldia está, contra a sua vontade, a serviço dos maravilhosos desígnios de Deus. Nem mesmo o pecado pode frustrar os propósitos do Todo-poderoso. Ele não comete pecado, mas decretou que houvesse atos que são pecado — pois os atos de Pilatos e Herodes foram predestinados pelo plano de Deus.

Deus muda a situação como lhe apraz

De modo semelhante, quando chegamos ao fim do Novo Testamento e da história no Apocalipse de João, encontramos Deus no controle completo de todos os reis maus que fazem a guerra. No capítulo 17, João fala de uma meretriz sentada sobre um monstro com dez chifres. A meretriz é Roma, bêbada com o sangue dos santos; o monstro é o anticristo, e os chifres são dez reis, os quais "oferecem à besta o poder e a autoridade que possuem, [e] pelejarão contra o Cordeiro" [v. 13, 14].

Será que esses reis maus estão fora do controle de Deus? Será que estão frustrando os planos de Deus? Longe disso. Sem saber, estão fazendo sua vontade. "Porque em seu coração incutiu Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e dêem à besta o reino que possuem, até que se cumpram as palavras de Deus" (Ap 17.17). Ninguém na terra pode escapar ao controle soberano de Deus: "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do Senhor; este, segundo o seu querer, o inclina" (Pv 21.1; cf. Ed 6.22).

As intenções malignas das pessoas não podem frustrar as determinações de Deus. Essa é a lição da história da humilhação e exaltação de José no Egito. Seus irmãos o venderam como escravo. A esposa de Potifar fez que fosse encarcerado. O copeiro do faraó esqueceu-o na prisão por dois anos. Onde estava Deus em todo esse pecado e desgraça? José responde em Gênesis 50.20. Ele diz aos seus irmãos culpados: "Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida".

A desobediência teimosa do coração das pessoas não leva ao fracasso dos planos de Deus, mas à sua concretização.

Pense na dureza de coração em Romanos 11.25,26: "Não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo". Quem governa a ida e a vinda dessa dureza de coração, de modo que tenha um limite estabelecido e, na hora prevista, dê lugar à salvação garantida de "todo o Israel"?

Ou pense na desobediência em Romanos 11.31. Paulo fala aos seus leitores gentios sobre a desobediência de Israel ao rejeitarem o Messias: "Estes [Israel] foram desobedientes, para que, igualmente, eles [os gentios] alcancem misericórdia". Quando Paulo diz que Israel foi desobediente para que os gentios pudessem receber os benefícios do evangelho, os planos de quem ele tem em mente?

Só podem ser os de Deus. Israel, com certeza, não imaginou sua desobediência como maneira de abençoar os gentios ou obter misericórdia para Si mesmo, dando toda essa volta! Não seria, então, a lição de Romanos 11.31 que Deus rege a desobediência de Israel e a volta exatamente para os propósitos que planejou?

Mera coincidência não existe

A soberania de Deus sobre os assuntos humanos não se compromete nem pela realidade do pecado e do mal no mundo. Ela não se limita às boas ações das pessoas ou aos eventos agradáveis da natureza. O vento pertence a Deus, quer conforte, quer mate.

Eu sei que o Senhor é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses.   Tudo quanto aprouve ao Senhor, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos. Faz subir as nuvens dos confins da terra, faz os relâmpagos para a chuva, faz sair o vento dos seus reservatórios (Sl 135.5-7).

 

No fim, temos de reconhecer que, se há um Deus no céu, não existem meras coincidências, nem mesmo nos menores detalhes da vida: "A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão" (Pv 16.33). Nenhum pardal "cairá em terra sem o consentimento de vosso Pai" (Mt 10.29).

A luta e a solução de Jonathan Edwards

Como Deus pode ser feliz e decretar a calamidade? Imagine que ele tem a capacidade de ver o mundo

através de duas lentes.

Olhando pela mais estreita,

ele fica triste e irado com pecado e sofrimento.

Pela mais larga,

ele vê o mal em relação a seus propósitos eternos.

A realidade é como um mosaico.

As partes podem ser feias em si,

mas o todo é belo.

 

Muitos de nós já passaram por um período de grande luta com a doutrina da soberania de Deus. Se levarmos nossas doutrinas para dentro do coração, onde é o lugar delas, elas podem causar agitação, emoção e noites insones. Isso é muito melhor do que brincar com idéias acadêmicas que nunca tocam a vida real. Pelo menos existe a possibilidade de que a agitação desemboque em um novo período de calma e confiança.

Com muitos de nós acontece como com Jonathan Edwards. Ele foi pastor e um teólogo brilhante na costa leste dos Estados Unidos no começo do século XVIII. Foi o líder do Primeiro Grande Despertamento. Suas principais obras ainda desafiam as grandes mentes do nosso tempo. Sua junção extraordinária de lógica e amor fazem dele um escritor que comove profundamente. Cada vez que me sinto improdutivo e fraco, vou à minha coleção das obras de Edwards e animo-me com um dos seus sermões.

Ele relata a crise por que passou em relação à doutrina da soberania de Deus:

Desde a minha infância, minha mente esteve cheia de objeções à doutrina da soberania de Deus. [...] Para mim, era uma doutrina horrível. Mas eu me lembro muito bem do tempo em que pareci estar convencido, e plenamente satisfeito, dessa soberania de Deus.

Contudo, jamais pude dar um relato de como ou por qual meio fui convencido, e nem de longe imaginar, nem na época nem muito tempo depois, que houve nisso uma influência extraordinária do Espírito de Deus; eu simplesmente agora enxergava mais longe, e minha razão apreendeu a justiça e a lógica da doutrina. Entretanto, minha mente descansou nela; e dei fim a todas as contestações e objeções.

 

Houve uma mudança maravilhosa em minha mente, com respeito à doutrina da soberania de Deus, daquele dia em diante; de modo que, desde então, não mais surgiu em mim alguma objeção a ela, absolutamente. |...] Desde aquela época, com freqüência tive não apenas a convicção, mas uma convicção prazerosa. A doutrina muitas vezes pareceu-me extremamente agradável, clara e doce. Soberania absoluta é o que gosto de atribuir a Deus, Mas essa não foi minha primeira convicção.3

Portanto, não é surpreendente que Johathan Edwards tenha lutado séria e profundamente com um problema com que nos defrontamos agora. Como podemos afirmar a felicidade de Deus com base em sua soberania, quando muito do que Deus permite no mundo é contrário aos seus próprios mandamentos na Bíblia? Como podemos dizer que Deus é feliz quando há tanto pecado e desgraça no mundo?

Edwards não alegava ter esgotado o assunto nessa vida. Mas ele nos ajuda a encontrar um caminho possível para evitar contradições frontais e ao mesmo tempo ser fiel às Escrituras. Usando minhas palavras, ele disse que a complexidade infinita da mente divina é tal que Deus tem a capacidade de ver o mundo através de duas lentes. Ele pode olhar por uma lente estreita e por outra de ângulo aberto.

Quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente estreita, ele vê a tragédia ou o pecado pelo que ela é em si mesma, e fica irado e triste. "Não tenho prazer na morte de ninguém, diz o Senhor Deus" (Ez 18.32).

Mas quando Deus olha para um evento doloroso ou perverso através da sua lente de ângulo aberto, ele vê a tragédia ou o pecado em relação a tudo o que a causou e a tudo o que deriva dela. Ele a vê em relação a todas as ligações e efeitos que formam um padrão ou mosaico que se estende até a eternidade. Esse mosaico com todas as suas partes — boas e más— lhe apraz.4

"Ao Senhor agradou moê-lo"

Deus quis a crucificação do seu Filho.

O pecado e a dor,

ele abominou

(através da lente estreita).

Na obediência que cobriu o pecado e derrotou a morte,

ele se alegrou

(através da lente de ângulo aberto).

Assim é com toda dor e pecado:

Triste em si, ela não frustra seus planos

nem diminui sua mais profunda satisfação.

 

Por exemplo, a morte de Cristo foi vontade e obra de Deus Pai. Isaías escreve: "Nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. [...] Ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar" (53.4, 10). Mesmo assim, certamente, quando Deus Pai viu a agonia do seu Filho amado e a maldade que o levou à cruz, não teve prazer nessas coisas em si (vistas pela lente estreita). Deus abomina o pecado como tal e o sofrimento do inocente.

Apesar disso, de acordo com Hebreus 2.10, Deus Pai achou apropriado aperfeiçoar o Pioneiro da nossa salvação por meio do sofrimento. Deus quis aquilo que ele abominava. Ele o abominou na visão da lente estreita, mas não na visão de ângulo aberto da eternidade. Quando considerava a universalidade das coisas, o Pai via a morte do Filho de Deus como uma forma magnífica de demonstrar sua justiça (Rm 3.25, 26), de conduzir seu povo à glória (Hb 2.10) e de manter os anjos louvando por todo o sempre (Ap 5.9-13).

Por essa razão, quando digo que a soberania de Deus é a base da sua felicidade, não estou desprezando nem minimizando a ira e a tristeza que Deus pode expressar com o mal. Todavia, também não estou inferindo dessa ira e tristeza que Deus é um Deus frustrado que não consegue manter sua criação sob controle. Ele planejou desde a eternidade um mosaico magnífico da história da redenção e está moldando cada evento de forma infalível.'' A contemplação desse mosaico (com suas pedras claras e escuras) enche seu coração de alegria.

E se o coração do nosso Pai está cheio de felicidade profunda e inabalável, nós podemos ter certeza de que, quando buscamos nossa felicidade nele, não o encontramos "de mau humor". Não encontraremos um Pai frustrado, sombrio, irritadiço que quer ser deixado em paz, mas um Pai cujo coração está tão cheio de alegria que transborda para todos os que estão sedentos (e buscam o prazer cristão).

A felicidade de Deus está nele mesmo

Deus usa sua soberania para mostrar

o grande objeto do seu prazer,

sua GLÓRIA,

a beleza das suas perfeições multiformes.

Ele faz tudo o que faz para exaltar o valor da sua glória.

Ele seria injusto se valorizasse qualquer coisa

além daquilo que tem valor supremo,

que é ele mesmo.

 

Comecei este capítulo dizendo que o fundamento do prazer cristão e o fato de que Deus é supremo em suas próprias afeições:

O principal propósito de Deus é glorificar a Deus

e ter prazer em Si mesmo para sempre.

 

Vimos até aqui que Deus é absolutamente soberano sobre o mundo e que, por isso, pode fazer qualquer coisa que lhe agrade, de modo que não é um deus frustrado, mas um Deus profundamente feliz, que se regozija em todas as suas obras (Sl 104.31), quando as considera em relação à história da redenção.

O que ainda não vimos é como essa felicidade inabalável de Deus é realmente felicidade em Si mesmo. Vimos que Deus tem o poder soberano para fazer tudo o que lhe agrada, mas ainda não vimos especificamente o que é que lhe agrada. Por que contemplar o mosaico da história da redenção alegra o coração de Deus? Será que isso não é idolatria — que Deus tem prazer em algo que não ele mesmo?

Portanto, agora temos de perguntar: O que deixa Deus feliz? O que há na história da redenção que alegra o coração de Deus? O caminho para a resposta é investigar o que Deus procura com todas as suas ações. Se pudermos descobrir qual é essa coisa que Deus busca em tudo o que faz, saberemos o que mais o alegra. Saberemos o que está em primeiro lugar em suas afeições.

Deus tem prazer em sua glória

No apêndice 1, trago um breve estudo dos pontos de destaque da história da redenção, para descobrir o objetivo primordial de Deus em tudo o que ele faz. Se o que segue abaixo parece estar fora de sintonia com a Bíblia, recomendo que se examinem os elementos do apêndice que apóiam esses pontos.

Ali concluo que a glória do próprio Deus é suprema em suas afeições. O objetivo de tudo que ele faz é preservar e manifestar essa glória. Dizer que sua glória é suprema em suas próprias afeições significa que ele dá valor a isso mais do que a qualquer outra coisa. Ele tem prazer em sua glória acima de todas as outras coisas.

Não é fácil definir glória. É como a beleza. Como se definiria a beleza? Podemos apontar para algumas coisas, mas não defini-la. Permita-me, entretanto, uma tentativa. Ela pode referir-se ao brilho claro e terrível que às vezes irrompe em manifestações visíveis. Ou pode referir-se à grandeza moral infinita do seu caráter. Em qualquer dos dois casos significa uma realidade de grandeza e valor infinitos. C. S. Lewis nos ajuda com seu próprio esforço de apontar para ela:

A natureza nunca me ensinou que existe um Deus de glória e majestade infinita. Tive de aprender isso de outras maneiras. Mas a natureza deu à palavra glória um sentido para mim. Ainda não sei onde mais eu poderia ter encontrado um sentido. Não vejo como o "temor" de Deus poderia jamais ter significado outra coisa para mim a não ser os mais ínfimos esforços de prudência para estar seguro, se não tivesse visto algumas ravinas amedrontadoras e escarpas inacessíveis.6

 

Portanto, o objetivo principal de Deus é preservar e manifestar sua grandeza e valor infinitos e terríveis, ou seja, sua glória.

Deus tem muitos outros objetivos no que faz. Nenhum deles, porém, e mais importante que esse. São todos subordinados. A paixão predominante e Deus é exaltar a grandiosidade da sua glória. Com esse fim ele procura manifestá-la, combater os que desfazem dela, e fazê-la prevalecer sobre todo desprezo. Ela claramente é a realidade suprema em suas afeições. Ele ama sua glória infinitamente.

Isso é o mesmo que dizer: ele ama a Si mesmo infinitamente. Ou: ele mesmo é supremo em suas afeições. Um instante de reflexão revela a justiça inexorável desse fato. Deus seria injusto (assim como nós) se valorizasse qualquer coisa além do que tem valor supremo. E é ele que tem valor supremo. Se ele não tivesse prazer infinito no valor da sua própria gloria, seria injusto, porquanto é correto ter prazer em alguém na proporção da grandeza da glória dessa pessoa.

Deus se compraz na glória do seu Filho

"Ele [Cristo] é o resplendor da glória

e a expressão exata do seu Ser [de Deus]."7

Por isso o Pai se compraz infinitamente no Filho.

"Os céus proclamam a glória de Deus."8

Por isso Deus se compraz na criação,

como o derramamento da exuberância

que ele tem em sua própria grandeza.

 

Outra rápida reflexão lembra-nos de que é exatamente isso que firmamos quando afirmamos a divindade eterna do Filho de Deus. Estamos no sopé das montanhas do mistério em todas essas coisas. Mas as Escrituras nos dão alguns vislumbres das alturas. Elas nos ensinam que o Filho de Deus também é Deus: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (Jo 1.1). "Nele habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade" (Cl 2.9).

Por isso, quando o Pai contemplou o Filho desde a eternidade, estava contemplando a representação exata de Si mesmo. Como diz Hebreus 1.3, o Filho "é o resplendor da glória [de Deus] e a expressão exata do seu Ser". IICoríntios 4.4 fala "da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus".

Desses textos depreendemos que, por toda a eternidade, Deus Pai contemplou a imagem da sua própria glória perfeitamente representada na pessoa do seu Filho. Por essa razão, uma das melhores maneiras de pensar no prazer infinito que Deus tem em sua própria glória é vê-lo como o prazer que ele tem em seu Filho, que é o reflexo perfeito dessa glória (veja o 17.24-26).

Quando Cristo veio ao mundo, Deus Pai disse: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo" (Mt 3.17). Ao contemplar a imagem da sua própria glória na pessoa do seu Filho, Deus Pai é infinitamente feliz. "Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz" (Is 42.1).

Dentro da Divindade trina (Pai, Filho e Espírito Santo), Deus tem sido supremo em suas próprias afeições por toda a eternidade. Isso faz parte da sua natureza, pois ele gerou e amou o Filho desde toda a eternidade. Por isso Deus tem sido suprema e eternamente feliz na comunhão da Trindade.9

Deus se alegra na glória da sua obra

Na criação, Deus "veio a público"10 com a glória que reverbera alegremente entre o Pai e o Filho! Há algo na plenitude da alegria de Deus que a torna propensa a transbordar. Há uma qualidade expansiva nessa alegria. Ela quer compartilhar-se. O impulso de criar o mundo não foi fruto da fraqueza, como se Deus estivesse carente de alguma perfeição que a criação poderia lhe suprir. "O fato de que uma fonte tem a tendência de transbordar não é um argumento que prova que ela está seca ou deficiente."11

Deus gosta de contemplar sua glória refletida em suas obras. Assim a felicidade eterna do Deus trino transbordou na obra da criação e da redenção. E como essa felicidade original era o prazer que Deus tem em sua própria glória, a felicidade que ele tem em toda a sua obra de criação e de redenção nada mais é que o prazer em sua própria glória. Essa é a razão por que Deus fez todas as coisas, da criação à consumação, pela preservação e manifestação da sua glória. Todas as suas obras são simplesmente o transbordar da sua infinita exuberância, para sua própria grandeza.

Deus existe para nós ou para ele mesmo?

Deus faz todas as coisas em favor de Si mesmo.

"Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isso. [...]

A minha glória, não a dou a outrem."12

Isso é amor,

porque ao buscar o louvor do seu nome

no coração do seu povo,

ele ordena aquilo que completa nossa alegria.

Deus é o único ser no universo

para quem a exaltação própria

é a mais alta virtude

e o ato mais amoroso.

 

Agora surge a questão: se Deus está tão totalmente inspirado em sua própria glória, como pode ser um Deus de amor? Se ele inapelavelmente faz todas as coisas por amor a Si mesmo, como podemos ter esperança de que fará alguma coisa por amor a nós? Não disse o apóstolo: o amor "não procura os seus interesses" (ICo 13.5)?

Agora começamos a ver como a questão da felicidade de Deus pode sustentar ou destruir a filosofia do prazer cristão. Se Deus fosse tão egocêntrico que não tivesse qualquer inclinação para amar suas criaturas, então o prazer cristão estaria morto. O prazer cristão depende dos braços abertos de Deus. Ele depende da disposição de Deus de aceitar, salvar e satisfazer o coração de todos os que buscam sua alegria nele. Porém se Deus saiu em campanha por Si mesmo e está fora de alcance, então é cm vão que buscamos nossa felicidade nele.

Deus existe para nós ou para Si mesmo? Exatamente ao responder essa questão é que descobriremos o grande alicerce do prazer cristão.

Deus é vaidoso ou amoroso ao ordenar nosso louvor?

A Bíblia está repleta de ordens para que se louve a Deus. Ele ordena o louvor porque esse é o objetivo principal de tudo o que ele faz — "ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram" (2Ts 1.10). Três vezes em Efésios 1 esse grande objetivo é anunciado: Deus, "em amor, nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, [...] para louvor da glória da sua graça!" (1.4-6), "predestinados [...] a fim de sermos para louvor da sua glória" (v. 11, 12), e o Espírito Santo "é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória" (v. 14).

Todas as diferentes maneiras que Deus escolheu para manifestar sua glória na criação e redenção parecem atingir seu ponto culminante nos louvores do seu povo redimido. Deus governa o mundo com glória exatamente para que possa ser admirado, aplaudido, exaltado e louvado. O clímax da sua felicidade é o prazer que tem nos reflexos da sua grandeza nos louvores dos santos.

Contudo, cada vez mais tenho visto pessoas tropeçarem nessa verdade. As pessoas não gostam de ouvir que Deus é supremo em suas próprias afeições, ou que faz todas as coisas para sua própria glória, ou que exalta a Si mesmo e busca o louvor do ser humano.

Por quê? Há pelo menos duas razões. Primeira, não gostamos de pessoas assim. A outra é que a Bíblia nos ensina a não ser assim. Examinemos essas objeções e vejamos se elas podem ser aplicadas a Deus.

Deus é "de segunda mão"?

Em primeiro lugar, não gostamos de pessoas que parecem inspirar-se em sua própria inteligência ou força ou habilidade ou boa aparência ou riqueza. Não gostamos de eruditos que tentam exibir seu conhecimento de especialista, ou que nos recitam todas as suas publicações mais recentes.

Não gostamos de homens de negócios que nos contam com que astúcia investiram seu dinheiro e como se mantiveram na dianteira do mercado, entrando por baixo e saindo por cima. Não gostamos de crianças que ficam se vangloriando (O meu é maior! O meu é mais rápido! O meu é mais bonito!). E, a não ser que sejamos um deles, desaprovamos homens e mulheres que não se vestem de modo simples e funcional, mas para atrair os outros com a última moda.

Por que não gostamos de tudo isso? Eu acho que, no fundo, é porque pessoas assim não são autênticas. Elas são o que Ayn Rand chama "de segunda mão". Elas não vivem da alegria que vem de alcançar o que valorizam por Si mesmo. Em vez disso, vivem de segunda mão, do elogio dos outros. Elas têm um olho em sua ação e outro em seus espectadores. Nós simplesmente não admiramos pessoas de segunda mão. Admiramos pessoas suficientemente seguras e serenas, que não precisam escorar suas fraquezas e compensar suas deficiências tentando receber elogios.

É lógico, então, que qualquer ensino que coloque Deus na categoria de segunda mão é inaceitável para os cristãos. E para muitos o ensino de que Deus procura manifestar sua glória e conseguir o louvor das pessoas de fato o coloca nessa categoria. Mas seria esse o caso?

Uma coisa é certa: Deus não é fraco e não tem deficiências. "Dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas" (Rm 11.36). "[Ele não] é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais" (At 17.25). Tudo o que existe deve sua existência a ele, e ninguém pode acrescentar qualquer coisa a ele, que já não esteja fluindo dele. Por isso o empenho de Deus em buscar sua própria glória e ser louvado pelas pessoas não pode advir da necessidade de escorar alguma fraqueza ou compensar alguma deficiência. À primeira vista, ele pode ser semelhante a essas pessoas de segunda mão, mas não é como elas, e a semelhança superficial tem de ser explicada de outra maneira.

"O amor não busca os seus interesses" —  a não ser na alegria dos outros"

As regras de humildade pertinentes à criatura

não podem se aplicar igualmente ao Criador.

A autonegação total seria idolatria em Deus.

Ao preservar sua própria glória,

ele preserva a base da nossa alegria.

E isso é amor.

 

A segunda razão por que as pessoas tropeçam no ensino de que Deus exalta sua própria glória e procura ser louvado pelo seu povo é que a Bíblia nos ensina a não ser assim. Por exemplo, a Bíblia diz que o amor "não busca os seus interesses" (ICo 11.5). Como Deus pode ser amoroso e ao mesmo tempo estar completamente empenhado em buscar sua própria glória, louvor e alegria? Como Deus pode existir para nós se ele existe tão totalmente para Si mesmo?

A resposta que proponho é essa: por Deus ser único como ser todo-glorioso e totalmente auto-suficiente, ele precisa existir para Si mesmo para poder existir para nós. As regras de humildade pertinentes à criatura não podem se aplicar igualmente ao Criador. Se Deus fosse dar as costas a Si mesmo como a fonte da alegria infinita, deixaria de ser Deus. Estaria negando o valor infinito da sua própria glória. Estaria dizendo que existe algo mais valioso fora dele mesmo. Estaria caindo em idolatria.

Isso não seria de qualquer proveito para nós, porque aonde poderíamos ir se nosso Deus se tornou injusto? Onde encontraríamos uma rocha de integridade no universo, se o coração de Deus deixasse de dar valor supremo ao que é de valor supremo? Para onde voltaríamos nossa adoração se o próprio Deus se esquecesse de alegar valor e beleza absolutos?

Não, nós não transformamos a auto-exaltação de Deus em amor exigindo que Deus deixe de ser Deus. Pelo contrário, temos de compreender que Deus é amor exatamente porque busca incansavelmente os louvores do seu nome no coração do seu povo.

O prazer é incompleto enquanto não se expressa

Pense nisso: considerando o infinito poder, sabedoria e beleza de Deus, o que seu amor ao ser humano envolveria? Ou, em outras palavras: o que Deus poderia dar para o nosso prazer que provaria que é extremamente amoroso? Há apenas uma resposta possível: ele mesmo! Se ele nos priva da contemplação dele e da sua comunhão, não importa o que mais ele nos dê, não estará amando.

Agora chegamos à beira de uma descoberta que mudou a minha vida. O que todos nós fazemos quando alguém nos dá ou mostra algo belo ou excelente? Nós o louvamos! Nós louvamos bebês recém-nascidos: "Olha, que cabecinha linda! E todo esse cabelo! E essas mãos, não são perfeitas?!" Louvamos uma pessoa amada depois de longa ausência: "Seus olhos são como um céu sem nuvens! Seu Cabelo é tão sedoso!" Louvamos as árvores no outono na margem do rio.

A grande descoberta para mim, como disse, veio quando li "Uma palavra sobre o louvor" em Reflections on the Psalms de C. S. Lewis. Seus pensamentos — nascidos da luta com a idéia de que Deus não apenas deseja nosso louvor, mas o ordena— são dignos de ser revisitados de modo mais completo:

O fato mais óbvio sobre o louvor, porém — seja de Deus, seja de qualquer coisa— estranhamente me escapara. Eu o considerava um tipo de elogio, aprovação, ou honra. Jamais eu percebera que toda alegria transborda espontaneamente em louvor a não ser que (e às vezes mesmo se) se permita deliberadamente que a timidez ou o medo de entediar os outros o refreie. O mundo ressoa de louvor: apaixonados louvam suas amadas; leitores, seu poeta favorito; caminhantes, a paisagem; esportistas, seu jogo predileto— louvor do tempo, dos vinhos, dos pratos, dos atores, dos motores, dos cavalos, das universidades, dos países, de personagens históricos, de crianças, flores, montanhas, selos raros, besouros exóticos, e às vezes até de políticos e professores. Eu ainda não tinha percebido como as mentes mais humildes, e ao mesmo tempo mais equilibradas e abertas, louvavam mais, enquanto as rabugentas, desajeitadas e descontentes louvavam menos. [...]

Nem percebera eu que, assim como as pessoas louvam espontaneamente o que quer que valorizem, elas espontaneamente nos incentivam a nos juntar ao seu louvor: "Ela não é linda? Não foi espetacular? Você não acha que foi maravilhoso?" Os salmistas, ao dizerem a todo mundo que louvem a Deus, estão fazendo o que todas as pessoas fazem quando falam do que ocupa sua atenção. Minha dificuldade maior e mais geral com o louvor de Deus dependia do absurdo de querer negar, no que tange ao Valor supremo, o que gostamos de fazer, o que na verdade não conseguimos deixar de fazer, acima de qualquer outra coisa que valorizamos.

Creio que gostamos de louvar o que nos alegra porque o louvor não apenas expressa mas completa a alegria; ele é sua consumação pretendida. Não é pelo elogio que os apaixonados continuam dizendo um ao outro como são belos; o prazer não se completa enquanto não é expresso.13

 

Essa é a solução! Louvamos o que gostamos porque o prazer não se completa enquanto não se expressa em louvor. Se não nos for permitido falar do que valorizamos, e celebrar o que amamos, e louvar o que admiramos, nossa alegria não será plena. Assim, se Deus nos ama o suficiente para tornar nossa alegria completa, tem de nos dar não apenas ele mesmo; ele também precisa conquistar o louvor do nosso coração — não porque precise escorar alguma fraqueza em Si mesmo ou compensar alguma deficiência, mas porque nos ama e busca a plenitude da nossa alegria, que pode ser encontrada somente em conhecer e louvá-lo, ele que é o ser mais magnífico que existe. Se ele existe realmente por nós, tem de existir para Sl!

Deus é o único ser em todo o universo para quem buscar o próprio louvor é o maior ato de amor. Para ele, a exaltação própria é a virtude mais elevada. Quando ele faz todas as coisas "para o louvor da sua glória", está preservando para nós e oferecendo-nos a única coisa em todo o mundo que pode satisfazer nossos anseios. Deus existe por nós! E a base desse amor é que Deus tem existido, existe agora e sempre existirá para Si mesmo.

Resumo

A felicidade de Deus em Deus

é a base da nossa felicidade em Deus.

Se Deus não exaltasse e manifestasse alegremente sua glória,

seríamos privados da base da nossa alegria.

Os fatos de Deus procurar nosso louvor

e de nele buscarmos prazer

estão em perfeita harmonia.

Porque Deus é mais glorificado em nós

quando estamos mais satisfeitos nele.

 

Deus é absolutamente soberano. "O nosso Deus está nos céus: faz tudo o que lhe apraz" (Sl 115.3, arc). Por isso não está frustrado. Ele se alegra em todas as suas obras quando as contempla como cores do mosaico magnífico da história da redenção. Ele é um Deus inabalavelmente feliz.

Sua felicidade é o prazer que tem em Si mesmo. Antes da criação, regozijava-se na imagem da sua glória na pessoa do seu Filho. Depois a alegria de Deus "veio a público" na obra da criação e da redenção. Essas obras alegram o coração de Deus porque refletem sua glória. Ele faz tudo o que faz para preservar e manifestar sua glória, porque nisso sua alma se alegra.

Todas as obras de Deus culminam nos louvores do seu povo redimido. O clímax da sua felicidade é o prazer que tem nos reflexos da sua grandeza nos louvores dos santos. Esse louvor é a consumação da nossa alegria em Deus. Por isso o fato de Deus procurar nosso louvor e o buscarmos nele o prazer são a mesma coisa. Esse é o grande evangelho! Esse é o fundamento do prazer cristão.

 

NOTAS

1     Para uma defesa muito mais completa da soberania de Deus em tudo o que ele faz, veja John Piper, The pleasures of God: meditations of God's delight in being God. Sisters/OR, Multnomah Books, 1991, p. 47-78, 123-160; e The justification of God: an exegetical and theological study of Romans 9.1-23. Grand Rapids, Baker Book House, 1993.

2     Provérbios 16.33

3 "Personal narrative", em E. H. FAUST e T. H. Johnson (eds.), Jonathan Edwards: representative selections. Nova York, Hill and Wang, 1962, p. 58-59.

4 Edwards resolve esse problema fazendo distinção entre dois tipos de vontade de Deus (o que está implícito no que eu disse). A "vontade preceptiva" de Deus (ou vontade revelada) é o que ele ordena na Bíblia (não matarás, etc). Sua "vontade decretatória" (ou vontade secreta ou soberana) é o que ele infalivelmente faz acontecer no mundo. As palavras de Edwards são complexas, mas valem o esforço se você ama as coisas profundas de Deus:

Quando se faz distinção entre a vontade revelada de Deus e sua vontade secreta, ou entre sua vontade preceptiva e a decretatória, "vontade", certamente, nessa distinção, é empregada em dois sentidos. Sua vontade decretatória não é sua vontade no mesmo sentido que sua vontade preceptiva. Por isso, não é difícil supor que uma pode ser diferente da outra: nos dois sentidos, sua vontade é sua inclinação. Porém, quando dizemos que ele quer a virtude, ou ama a virtude ou a felicidade da sua criatura, subentende-se que a virtude ou felicidade da criatura, considerada de modo absoluto e simples, concorda com a inclinação da sua natureza.

Sua vontade decretatória é sua inclinação para uma coisa, não de modo absoluto e simples, mas com respeito à universalidade das coisas que foram, são ou serão. Assim, Deus, apesar de odiar uma coisa como ela simplesmente é, pode inclinar-se para ela com referência à universalidade das coisas. Apesar de odiar o pecado em Si mesmo, pode decidir permiti-lo, para a maior promoção da santidade na universalidade, incluindo todas as coisas, e em todos os tempos. Assim, apesar de não ter inclinação para a desgraça de uma criatura, considerada de modo absoluto, ele pode decidir por ela, para a maior promoção da felicidade nessa universalidade.

5     A expressão "história da redenção" refere-se simplesmente à história dos atos de Deus registrados na Bíblia. É chamada assim não porque não seja história verídica, mas porque é história vista da perspectiva do propósito redentor de Deus.

6     Citado de The four loves, em Clyde Kilby (ed.), A mind awake: an anthology of C. S. Lewis. Nova York, Harcourt, Brace and World, 1968, p. 202.

7     Hebreus 1.3.

8     Salmos 19.1.

9     Caso alguém pergunte que lugar o Espírito Santo tem nessa maneira de entender a Trindade, quero dirigir sua atenção para duas obras de Jonathan Edwards: "Treatise on grace" e "An essay on the Trinity". Ele resume sua maneira de entender a Trindade nos seguintes termos:

Assim suponho ser essa bendita Trindade de que lemos nas Escrituras Sagradas: O Pai é a divindade que subsiste da maneira primeva, não originada e mais absoluta, ou a divindade em sua existência direta. O Filho é a divindade gerada pelo entendimento de Deus, ou tendo uma idéia de Si mesmo e subsistindo nessa idéia. O Espírito Santo é a divindade subsistindo em ação, ou a essência divina fluindo e expirada no infinito amor de Deus e no prazer em Si mesmo. E eu creio que toda a essência divina subsiste verdadeira e distintivamente tanto na idéia divina como no amor divino, e que cada um é uma pessoa apropriadamente distinta. ("An essay on lhe Trinity", em Paul Helm, ed., Treatise on grace and other posthumously published writings. Cambridge, James Clark and Co., 1971, p. 118.)

Em outras palavras, o Espírito Santo é o prazer que o Pai e o Filho têm um no outro. Assim, o Espírito Santo, de algum modo inefável e inimaginável, procede e é expirado do Pai e do Filho, pela essência divina que é totalmente derramada e flui nesse amor e prazer infinitamente intenso, santo e puro que expira de modo contínuo e imutável do Pai e do Filho, primordialmente um em direção ao outro e em segundo lugar em direção à criatura, fluindo assim em uma subsistência ou pessoa diferente, de uma maneira totalmente inexplicável e incompreensível para nós, e que isso é a pessoa que é derramada no coração de anjos e santos. ("Treatise on grace", em Treatise on grace and other posthumously puhlished writings, p. 63).

10    Empresto essa expressão do livro de Daniel Fuller, The unity of the Bible: unfolding God's planforhumanity. Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1992. Veja esp. os cap. 8 e 9.

11    "Dissertation concerning the end for which God created the world", em The works of Jonathan Edwards, vol. 1, p. 102. Essa "dissertação" é de imenso valor no tratamento de toda essa questão da meta de Deus na história.

12    Isaías 48.11.

13    C. S. Lewis, Reflections on the Psalms. Nova York, Harcourt, Brace and World, 195H, p. 93-95.

 

 

 

 

 

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor!

entrará no reino dos céus."

Mateus 7.21

 

 

O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo,

o qual certo homem, tendo-o achado, [...] vai, vende

tudo o que tem e compra aquele campo."

Mateus 13.44

 

 

 

 

Capítulo   2.
A Conversão 

A Criação de um Cristão que  Busca o  Prazer

 

"A porta é estreita"

Se todo mundo estivesse destinado a entrar no reino dos céus, não precisaríamos falar de conversão. Mas nem todos entrarão. "Estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela" (Mt 7.14).

O capítulo 1 terminou com a descoberta de que o fato de Deus buscai nosso louvor e o fato de buscarmos nele prazer representam a mesma coisa. O objetivo de Deus de ser glorificado e nosso objetivo de sermos satisfeitos são atingidos nessa única experiência: nosso prazer em Deus, que transborda em louvor. Para Deus, o louvor é o reflexo agradável da sua própria grandeza no coração do seu povo. Para nós, o louvor é o auge da satisfação que vem de viver em comunhão com Deus.

Com o mesmo zelo que Deus tem por sua própria glória

ele nos persegue com bondade e misericórdia.

Mas "nós" quem?

"Aqueles que amam a Deus, que são

chamados segundo o seu propósito."1

Para pertencer a esse grupo,

é preciso ser convertido.

Isso é a criação de um cristão que busca o prazer.

 

A aplicação surpreendente dessa descoberta é que toda a energia onipotente que induz o coração de Deus a buscar sua própria glória também o induz a satisfazer o coração dos que buscam sua alegria nele. As boas novas da Bíblia são de que Deus de forma alguma está avesso a satisfazer o coração dos que põem sua esperança nele. Pelo contrário, exatamente aquilo que pode nos tomar as mais felizes das criaturas é a coisa em que Deus tem prazer de todo o seu coração e de toda a sua alma.

Selarei com eles uma aliança eterna, pela qual eu não deixarei de segui-los para fazer-lhes o bem. [...] Terei minha alegria em fazer-lhes o bem [...] de todo o meu coração e de toda a minha alma (Jr 32.40,41).

 

De todo o seu coração e de toda a sua alma, Deus se junta a nós na busca da nossa alegria eterna, porque a realização dessa alegria nele redunda na glória do seu próprio valor infinito. Todos os que se lançam nos braços de Deus descobrem que são levados a alegria sem fim pela dedicação onipotente de Deus à sua própria glória:

Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a darei a outrem (Is 48.11).

 

Sim, a Alegria onipotente busca o bem de todos os que se põem na dependência de Deus! "Agrada-se o Senhor [...] dos que esperam na sua misericórdia" (Sl 147.11). Isso, todavia, não se refere a qualquer pessoa.

"Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito" (Rm 8.28) — não para todos. Há ovelhas e há cabritos (Mt 25.32). Há sábios e há imprudentes (Mt 25.2). Há os que estão sendo salvos e os que estão perecendo (ICo 1.18). E a diferença é que uns se converteram e os outros não.

O objetivo deste capítulo é mostrar a necessidade da conversão e provar que ela é nada menos que a criação de um cristão que busca o prazer.

Por que não dizer simplesmente "crer"?

Alguém talvez pergunte: "Se seu objetivo é a conversão, por que você não usa logo o mandamento bíblico: creia no Senhor Jesus e será salvo? Por que introduzir essa nova terminologia do prazer cristão?

Minha resposta tem duas partes: Primeira, estamos cercados de pessoas não convertidas que acham que crêem em Jesus. Há bêbados nas ruas que dizem que crêem. Casais que dormem juntos sem serem casados dizem que crêem. Pessoas idosas que não têm freqüentado cultos nem procurado comunhão durante quarenta anos dizem que crêem. Todos os tipos de freqüentadores mornos e mundanos da igreja dizem que crêem. O mundo está cheio de milhões de pessoas não convertidas que dizem crer em Jesus.

Não adianta dizer a essas pessoas que creiam no Senhor Jesus. A frase é vazia para eles. Minha responsabilidade como pregador do evangelho e mestre na igreja não é preservar e repetir expressões bíblicas tradicionais, mas traspassar o coração com a verdade bíblica.

Isso leva à segunda parte da minha resposta. Há outros mandamentos bíblicos diretos além de "creia no Senhor Jesus e será salvo". A razão de introduzir a idéia do prazer cristão é forçar-nos a dar atenção a esses mandamentos.

Como seria se hoje o mandamento bíblico mais direto, em termos de conversão, não fosse "creia no Senhor" mas "tenha prazer no Senhor"? Será que não poucos que têm o coração adormecido não seriam despertados ao ser atingidos pelas palavras: "Se alguém não for nascido de novo para ser um cristão que busca o prazer, não pode ver o reino de Deus"?

Seis verdades cruciais para resumir nossa necessidade e a provisão de Deus2

Por que a conversão é tão crucial? O que há entre Deus e o ser humano que a torna necessária? E o que Deus fez para satisfazer nossa necessidade desesperadora? E o que nós temos de fazer para gozar os benefícios dessa provisão? Grandes são essas questões. Tentarei dar uma resposta resumida com as seis verdades abaixo, extraídas da Bíblia:

Como falhamos?

1) Deus nos criou para a sua glória.

2) Portanto é nossa obrigação viver para a sua glória.

 

1)          Deus nos criou para a sua glória

Trazei meus filhos de longe e minhas filhas, das extremidades da terra, a todos os que são chamados pelo meu nome, e os que criei para minha glória (Is 43.6, 7).

A compreensão correta de tudo na vida começa com Deus. Ninguém jamais entenderá a necessidade da conversão se não souber por que Deus nos criou. Ele nos criou "à sua imagem", para difundirmos sua glória no mundo. Fomos feitos para sermos prismas que refratam a luz da glória de Deus em tudo na vida. Por que Deus quis deixar que ajudássemos a refletir sua glória é um grande mistério. Chame-o graça, ou misericórdia, ou amor — é uma maravilha indizível. Antes não éramos. Passamos a existir — para a glória de Deus!

2)          Portanto é nossa obrigação viver para a sua glória

Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus (ICo 10.31).

Se Deus nos fez para a sua glória, é evidente que devemos viver para a sua glória. Nosso dever vem do desígnio de Deus.

Que significa glorificar .a Deus?

Não significa torná-lo mais glorioso. Significa reconhecer sua glória, valorizá-la acima de todas as coisas e fazê-la conhecida. Implica gratidão de coração: "Aquele que me traz ofertas de gratidão, esse me honra" (Sl 50.23, BLH). Também implica confiança: Abraão, "pela fé, se fortaleceu, dando glórias a Deus" (Rm 4.20).

Glorificar a Deus é dever não apenas dos que ouviram a pregação do evangelho, mas também dos povos que têm apenas o testemunho da natureza e da sua própria consciência:

Desde que Deus criou o mundo, as suas qualidades invisíveis, tanto o seu poder eterno como a sua natureza divina, têm sido vistas claramente. Os seres humanos podem ver tudo isso no que Deus tem feito e, portanto, eles não têm desculpa nenhuma. Embora conheçam a Deus, não lhe dão a honra que merece e não lhe são agradecidos (Rm 1.20, 21, blh).

 

Deus não julgará alguém por deixar de cumprir um dever se a pessoa não teve acesso ao conhecimento desse dever. Mas mesmo sem a Bíblia, todas as pessoas têm acesso ao conhecimento de que fomos criados por Deus e por isso dependemos dele para tudo, devendo-lhe gratidão e confiança do nosso coração. Bem dentro de nós todos sabemos que é nosso dever glorificar nosso Criador agradecendo-lhe tudo o que temos, confiando nele para tudo o que precisamos e obedecendo a toda a sua vontade revelada.

Quão desesperadora é nossa condição?

3) Todos deixamos de dar glória a Deus

4) Todos estamos sujeitos à condenação eterna

 

3) No entanto, todos deixamos de dar glória a Deus como deveríamos

Todos pecaram e carecem da glória de Deus (Rm 3.23)

O que quer dizer "carecer" da glória de Deus? Não significa que deveríamos ser tão gloriosos como Deus, mas que não somos. Nesse sentido, devemos carecer da glória! A melhor explicação de Romanos 3.23 é Romanos 1.23, onde se afirma que aqueles que não glorificaram ou não agradeceram a Deus "tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens". É assim que nos "tornamos carentes" da glória de Deus: nós a trocamos por algo de menor valor. Todo pecado resulta de não darmos valor supremo à glória de Deus — essa é a própria essência do pecado.

Todos nós pecamos. "Não há justo, nem sequer um" (Rm 3.10). Nenhum de nós tem confiado em Deus como deveríamos. Ninguém sentiu a profundidade e a coerência da gratidão que lhe devemos. Ninguém obedeceu a ele segundo sua sabedoria e direito. Trocamos e desonramos sua glória vez após vez. Confiamos em nós mesmos. Aceitamos créditos pelas dádivas dele. Desviamo-nos do caminho dos seus mandamentos porque achamos que sabemos melhor.

Em tudo isso desprezamos a glória do Senhor. O grande mal do pecado não é o dano que causa a nós ou a outros (apesar de ele ser imenso!). A malignidade do pecado é devida ao desdém implícito por Deus. Quando Davi cometeu adultério com Bate-Seba e até mandou matar o marido dela, o que Deus lhe disse pela boca do profeta Natã? Ele não lembrou ao rei que o matrimônio não deve ser rompido ou que a vida humana é sagrada. Ele disse: "... porquanto me desprezaste" (2Sm 12.10).

Essa, porém, não é a análise completa da nossa condição. Nós não apenas escolhemos pecar, nós somos pecadores. A Bíblia diz que nosso coração é cego (2Co 4.4), duro (Ez 11.19; 36.26), morto (Ef 2.1, 5) e incapaz de submeter-se à lei de Deus (Rm 8.7, 8). Somos, por natureza, "filhos da ira" (Ef 2.3).

4) Por isso, todos estamos sujeitos à condenação eterna de Deus

O salário do pecado é a morte (Rm 6.23).

 

Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder (2Ts 1.9).

Visto que desprezamos a glória de Deus com nossa ingratidão, desconfiança e desobediência, somos sentenciados à exclusão do gozo dessa glória para todo o sempre, na eterna desgraça do inferno.

A palavra "inferno" (geena) ocorre 12 vezes no Novo Testamento — 1l nas palavras de Jesus. Não é um mito criado por pregadores sinistros e zangados. É a advertência solene do Filho de Deus que morreu para libertar pecadores da sua maldição. Quem não lhe dá atenção incorre em grande risco.

O inferno é um lugar de tormento. Não é meramente a ausência de prazer. Não é aniquilação.3 Jesus repetidas vezes o descreve como uma experiência de fogo: "... e quem lhe chamar [a seu irmão]: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo" (Mt 5.22); "Melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo" (Mt 18.9); "É melhor entrares no reino de Deus com um só dos teus olhos do que, tendo os dois, seres lançado no inferno, onde não lhes morre o verme, nem o fogo se apaga" (Mc 9.47, 48). Jesus advertiu várias vezes que ali haveria "choro e ranger de dentes" (Mt 8.12; 22.13; 24.15; 25.30).

O lugar não apenas é de tormento, mas também é eterno. O inferno não é terapêutico, como muitos escritores populares estão dizendo em nossos dias.4 Jesus termina a parábola do julgamento final com essas palavras: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. [...] E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna" (Mt 25.41, 46). O "castigo" é eterno assim como a "vida" é eterna.

Outro indício de que o inferno é eterno é o ensino de Jesus de que há pecado que não será perdoado na era vindoura. "Se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir" (Mt 12.32). Se o inferno é terapêutico e um dia será esvaziado de todos os pecadores, eles terão de ser perdoados. Mas Jesus diz que há pecado que jamais será perdoado.

João resume as realidades terríveis de tormento e eternidade em Apocalipse 14.11: "A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite".

Por isso o inferno é justo. Há quem tenha objetado que um castigo eterno é desproporcional à seriedade do pecado cometido. Mas isso não é verdade, porque a seriedade do nosso pecado é infinita. Veja essa explicação de Jonathan Edwards:

O crime de um ser que despreza e desrespeita outro é mais odioso ou menos na proporção em que o primeiro tinha maior ou menor obrigação de obediência ao outro. Por isso, se existe um ser que infinita e obrigatoriamente ternos de amar, honrar e obedecer, o contrário será culpa infinita diante dele.

Nossa obrigação de amar, honrar e obedecer qualquer ser é proporcional à sua amabilidade, honra e autoridade. [...] Deus é um ser infinitamente amável, porque é de perfeição e beleza infinitas.

[...]

Portanto, o pecado contra Deus, como violação de uma obrigação infinita, tem de ser um crime infinitamente hediondo e, assim, merecedor de punição infinita. [...] A eternidade do castigo das pessoas ímpias torna-o infinito e, [...] por isso, não mais que proporcional à odiosidade da qual são culpadas.5

 

Quando todo ser humano enfrentar a Deus no dia do juízo, ele não precisará usar nenhuma frase da Bíblia para nos mostrar nossa culpa e como nossa condenação é apropriada. Ele precisará apenas fazer três perguntas:

1)  Não estava claro na natureza que tudo o que você tinha era uma dádiva e que você dependia de quem o fez quanto à vida, respiração e tudo o mais?

2)  O sentimento judicial6 em seu próprio coração não considerava as outras pessoas culpadas quando não manifestavam a gratidão que deveriam ter em resposta a um gesto de bondade da sua parte?

3)  Sua vida foi cheia de gratidão e confiança para comigo, proporcionais à minha generosidade e autoridade? Caso encerrado.

O que Deus fez para nos salvar da sua ira?

5) "Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores."

5) Mesmo assim, em sua grande misericórdia, Deus enviou seu Filho, Jesus Cristo, para salvar pecadores morrendo em lugar deles na cruz e ressuscitando corporalmente.

Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores (lTm 1.15).

[Jesus] foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação (Rm 4.25).

Em contraste com a notícia terrível de que caímos sob a condenação do nosso Criador e de que ele é obrigado, pelo seu próprio caráter justo, a preservar o valor da sua glória derramando a ira eterna sobre o nosso pecado, temos as maravilhosas novas do evangelho. Essa é uma verdade que ninguém jamais poderá aprender da natureza. Ela tem de ser transmitida aos vizinhos, pregada nas igrejas e levada por missionários.

A boa nova é que o próprio Deus decretou uma maneira de satisfazer as exigências da sua justiça sem condenar toda a raça humana. O inferno e uma maneira de acertar as contas com os pecadores e fazer prevalecer a justiça de Deus. Há, porém, outra maneira. A sabedoria de Deus determinou uma maneira de o amor de Deus livrar-nos da ira de Deus sem comprometer a justiça divina.

De que trata essa sabedoria?

Da morte do Filho de Deus pelos pecadores! "Pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios; mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus" (ICo 1.23, 24).

A morte de Cristo é a sabedoria de Deus, pela qual o amor de Deus salva pecadores da ira divina, sem deixar de preservar e mostrar a justiça de Deus. Romanos 3.25, 26 talvez sejam os versículos mais importantes da Bíblia:

Deus propôs [Cristo], no seu sangue, como propiciação,7 mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo o justificador daquele que tem fé em Jesus.

 

Não ou um ou outro! Ambos! Deus é totalmente justo! E justifica o ímpio! Ele absolve o culpado, mas não tem culpa ao fazê-lo. Essas são as melhores notícias do mundo!

Aquele que não conheceu pecado [Cristo], ele [Deus] o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus (2Co 5.21).

Enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado, [...] condenou Deus, na carne, o pecado (Rm8.3).

[...] Carregando ele mesmo [Cristo] em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados (lPe 2.24).

Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus (1 Pe 3.18).

Se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição (Rm 6.5).

 

Se a notícia mais aterradora no mundo é que caímos sob a condenação do nosso Criador e que ele é obrigado pelo seu próprio caráter justo a preservar o valor da sua glória derramando sua ira sobre nosso pecado, então a melhor notícia do mundo (o evangelho!) é que Deus decretou um meio de salvação que também preserva o valor da sua glória. Ele entregou seu Filho para morrer por pecadores e vencer a morte deles por sua própria ressurreição.

O que temos de fazer para ser salvos?

6) Dar as costas ao pecado e confiar no Salvador

 

6) Os benefícios comprados pela morte de Cristo pertencem àqueles que se arrependem e confiam nele

Arrependei-vos e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados (At 3.19).

Crê no Senhor Jesus e serás salvo (At 16.31).

 

Nem todo mundo é salvo da ira de Deus só porque Cristo morreu pelos pecadores. Há uma condição que precisamos satisfazer para sermos salvos.

Tentarei mostrar que essa condição, descrita aqui como arrependimento e fé, e conversão, e que conversão é nada menos que a criação de um cristão que busca o prazer.

Que é conversão?

A palavra "conversão"8 é usada apenas uma vez na Bíblia, em Atos 15.3: Paulo e Barnabé "atravessaram as províncias da Fenícia e Samaria e, narrando a conversão dos gentios, causaram grande alegria a todos os irmãos". Essa conversão abrangia arrependimento e fé, como mostram os outros relatos em Atos.

Por exemplo, em Atos 11.18 os apóstolos responderam ao testemunho de Pedro sobre a conversão dos gentios nesses termos: "Também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida". E em Atos 14.27 Paulo e Barnabé relatam a conversão dos gentios, dizendo que "Deus [...] abria aos gentios a porta da fé".

Conversão, portanto, é arrependimento (dar as costas ao pecado e a incredulidade) e fé (confiar apenas em Cristo para a salvação). Na verdade trata-se dos dois lados da mesma moeda. Um lado é cauda — dar as costas aos frutos da incredulidade. O outro lado é cabeça — voltar-se diretamente para Jesus e confiar em suas promessas. Não se pode ter um sem o outro, assim como não se pode andar em dois caminhos ao mesmo tempo nem servir a dois senhores.

Isso significa que a fé salvadora em Cristo sempre inclui uma profunda mudança do coração. Não é apenas concordar com a verdade de uma doutrina. Satanás concorda com a verdadeira doutrina (Tg 2.19). A fé salvadora é bem mais profunda e penetrante que isso.

A conversão é um dom de Deus

A dureza natural do nosso coração nos torna

indispostos e incapazes

de deixar o pecado e confiar no Salvador.

Por isso, a conversão envolve um milagre de novo nascimento.

Assim, o novo nascimento vem antes

e possibilita fé e arrependimento.

Mesmo assim, fé e arrependimento são ações nossas.

Somos responsáveis por elas.

Pelo milagre do novo nascimento,

por pura graça,

Deus nos concede a disposição que carecemos.

 

Ficamos com a impressão de que há algo temível por trás de arrependimento e fé quando vemos indicações no livro de Atos de que a conversão e dádiva de Deus. "Deus concedeu o arrependimento para vida" (At 11.18). "Deus [...] exaltou [Cristo] a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento" (At 5.31). "Deus [...] abriu aos gentios a porta da fé" (At 14.27). "O Senhor abriu o coração [de Lídia] para atender às coisas que Paulo dizia"(At 16.14).

Jamais entenderemos completamente que coisa profunda e terrível é a conversão enquanto não nos dermos conta de que ela é um milagre. É uma dádiva de Deus. Lembre-se mais uma vez de que não apenas pecamos, mas também somos pecadores. A Bíblia deixa claro que nosso coração é cego (2Co 4.4), duro (Ez 11.19; 36.26), está morto (Ef 2.1, 5) e é incapaz de submeter-se à lei de Deus (Rm 8.7,8). Por natureza, somos "filhos da ira" (Ef 2.3). Assim, ao ouvirmos o evangelho, de forma alguma responderemos de modo positivo, a não ser que Deus efetue o milagre da regeneração.9

A fé é ação nossa, mas ela é possível por causa da ação de Deus

Arrependimento e fé são ações nossas. Todavia, não nos arrependeremos nem creremos enquanto Deus não fizer seu trabalho de vencer nosso coração duro e rebelde. Essa obra divina é chamada regeneração. Nossa obra é chamada conversão}0

A conversão de fato inclui um ato da vontade, pelo qual renunciamos ao pecado, submetemo-nos à autoridade de Cristo e pomos nossa esperança e confiança nele. Nós somos responsáveis por isso e seremos condenados se não o fizermos. Mas, ao mesmo tempo que a Bíblia ensina isso com toda a clareza, ela também mostra que, devido ao nosso coração duro, cegueira intencional e insensibilidade espiritual, não o conseguimos.11

Temos de experimentar primeiro a obra regeneradora do Espírito Santo. As Escrituras prometeram muito tempo atrás que Deus se dedicaria a esse trabalho, a fim de criar para si um povo fiel:

O Senhor, teu Deus, cincuncidará o teu coração e o coração de tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o coração e de toda a tua alma, para que vivas (Dt 30.6).

Dar-lhes-ei coração para que me conheçam que eu sou o Senhor; porque se voltarão para mim de todo o seu coração (Jr 24.7).

Dar-lhes-ei um só coração, espírito novo porei dentro deles; tirarei da sua carne o coração de pedra e lhes darei coração de carne; para que andem nos meus estatutos, e guardem os meus juízos, e os executem; eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus (Ez 11.19, 20).

Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedia e vos darei coração de carne. Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis (Ez 36.26, 27).

 

Essas grandiosas promessas do Antigo Testamento descrevem uma obra de Deus que transforma um coração de pedra em um coração de carne e faz as pessoas "conhecerem", "amarem" e "obedecerem" a Deus. Sem esse transplante cardíaco espiritual, as pessoas não conhecerão nem amarão nem obedecerão a Deus. É essa obra anterior de Deus que chamamos de regeneração.

Somos "chamados" do mesmo modo que Jesus chamou Lázaro: da morte para a vida

No Novo Testamento, Deus está claramente em ação, criando um povo para si, chamando-o12 das trevas e capacitando-o a crer no evangelho e andar na luz. João é quem ensina mais claramente que a regeneração precede e possibilita a fé:

Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus (1Jo 5.1, BJ).

 

Os tempos dos verbos deixam a intenção de João inconfundível: "Todo aquele que continua crendo [ação contínua no presente] que Jesus é o Cristo nasceu de Deus [perfeito, ação completa com efeitos permanentes]". A fé é a evidência do novo nascimento, não a causa dele. Isso está em sintonia com todo o livro (cf. Uo 2.29; 3.9; 4.2, 3, 7).

Como fé e arrependimento são possíveis apenas por causa da obra regeneradora de Deus, ambos são chamados dádivas de Deus:

Estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça sois salvos. [...] Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isso13 não vem de vós; é dom de Deus (Ef 2.5, 8).

 

É necessário que o servo do Senhor não viva a contender e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade (2Tm 2.24-26).

A conversão é uma condição da salvação e um milagre de Deus

O novo nascimento não é condicional. Nenhum ato nosso o produz.

Ele é sobrenatural.

A salvação Final do julgamento futuro é condicional.

Ela não acontecerá se não perseverarmos na fé.

O ato sobrenatural de Deus no novo nascimento

e o ato humano crucial de perseverar na fé

mostram como é séria a mudança que necessitamos

a fim de sermos salvos.

 

Essa meditação sobre a natureza e sobre a origem da conversão esclarece duas coisas. Uma é o sentido em que a conversão é uma condição para a salvação. Causa-se muita confusão nessa questão por não se definir a salvação de modo mais preciso.

Se "salvação" se refere ao novo nascimento, a conversão não é uma condição para ela. O novo nascimento vem primeiro e possibilita fé e conversão. Antes do novo nascimento estamos mortos, e pessoas mortas não preenchem condições. A regeneração é totalmente incondicional. Ela é devida unicamente à graça gratuita de Deus. "Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Rm 9.16).14 Nós não ficamos com nenhum crédito. Ele recebe toda a glória.

Porém, se "salvação" se refere à nossa libertação futura da ira de Deus e ao julgamento e entrada na vida eterna, então a conversão é, sim, uma condição para a salvação. Quando clamamos: "O que tenho de fazer para ser salvo?", estamos perguntando como receber perdão do pecado, ter comunhão com Deus e escapar da ira vindoura. A resposta é sempre esta: preencha esta condição: converta-se!

Isso nos leva à segunda coisa que ficou clara em nossa discussão. A conversão não é meramente uma decisão humana. Ela é uma decisão humana, mas, ah!, é muito mais do que isso! A fé penitente (ou o arrependimento em fé) baseia-se em um milagre imenso feito pelo Deus soberano. Ela é a respiração de uma nova criatura em Cristo.

A fé salvadora não é algo simples. Ela tem muitas dimensões. "Creia no Senhor Jesus" é uma ordem abrangente. Ela contém uma centena de outras coisas. Se não virmos isso, o conjunto de condições para a salvação no Novo Testamento nos deixará completamente perplexos. Veja esta lista parcial abaixo:

O que tenho de fazer para ser salvo?

A resposta em Atos 16.31 é: "Crê no Senhor Jesus".

Em João 1.12 temos de receber Cristo: "A todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus".

A resposta em Atos 3.19 é: "Arrependei-vos e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados".

Em Hebreus 5.9 é obediência a Cristo. Ele "tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem". Igualmente em João 3.36: "O que se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida".

O próprio Jesus respondeu à pergunta de várias maneiras. Por exemplo, ele disse em Mateus 18.3 que ser semelhante a uma criança constitui condição para a salvação: "Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus".

Em Marcos 8.34, 35 a condição é autonegação: "Se alguém quer vir após mim, a Si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á".

Em Mateus 10.37 Jesus impõe a condição de amá-lo mais que qualquer outra pessoa: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim". O mesmo se expressa em ICoríntios 16.22: "Se alguém não ama o Senhor, seja anátema".

Ainda em Lucas 14.33, a condição para a salvação é que estejamos livres do amor por nossas propriedades: "Todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo".

Essas são apenas algumas das condições que o Novo Testamento diz que temos de preencher para herdar a salvação final. Temos de crer em Jesus, recebê-lo, dar as costas ao pecado, obedecer a Cristo, nos humilhar como criancinhas, amá-lo mais do que nossa família, nossos bens ou mais do que nossa própria vida. Isso é o que significa converter-se a Cristo. Esse é o único caminho para a vida eterna.

E o que reúne todas as condições e lhes confere unidade?15 E o que as impede de se tornarem uma maneira de obter a salvação pelas obras? Uma resposta é a realidade terrível da fé salvadora: confiar no perdão de Deus, nas promessas de Cristo e no poder do Espírito Santo, não em nós mesmos.

Sim, mas o que há na fé salvadora que une e muda tantas coisas em nossa vida?

A criação de um cristão que busca o prazer

A conversão é o que acontece no coração

quando Cristo se torna para nós

uma arca do tesouro de alegria santa.

A fé salvadora é a convicção do coração

de que Cristo é totalmente confiável

e supremamente desejável.

 

O que há de novo em um convertido ao cristianismo é o novo gosto espiritual pela glória de Cristo.

 

Jesus mostrou a resposta na pequena parábola de Mateus 13.44.

O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de [literalmente a partir de sua] alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo.

Essa parábola descreve como alguém se converte e é levado para dentro do reino dos céus.16 A pessoa descobre um tesouro e é impelida pela alegria a vender tudo o que tem para adquirir esse tesouro. O reino dos céus é a morada do Rei. O anseio de estar ali não é um desejo de ter um terreno no céu, mas de ser companheiro do rei. O tesouro no campo é a comunhão com Deus em Cristo.

Eu concluo com essa parábola que para entrarmos no reino dos céus nossa conversão deve ser profunda, e convertemo-nos quando Cristo se torna para nós uma arca do tesouro de alegria santa.

A criação de um novo gosto

Que relação, então, essa chegada da alegria tem com a fé salvadora? A resposta mais comum é que a alegria é fruto da fé. E, em certo sentido, é mesmo. "O Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer" (Rm 15.13). É "crendo" que somos cheios de alegria. A confiança nas promessas de Deus supera a ansiedade e nos enche de paz e alegria. Paulo até a chama de "gozo da fé" (Fp 1.25).

Mas há uma maneira diferente de ver a relação entre alegria e fé. Em Hebreus 11.6 afirma-se: "Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam". Em outras palavras, a fé que agrada a Deus é a confiança de que Deus nos recompensa quando nos achegamos a ele. Com certeza isso não quer dizer que devemos ser motivados por coisas materiais. É claro que ansiamos pela recompensa, que é a glória do próprio Deus e a companhia perfeita de Cristo (Hb 2.10; 3.6; 10.34; 11.26; 12.22-24; 13.5). Vendemos tudo para possuir o tesouro do próprio Cristo.

Assim, a fé que agrada a Deus é a certeza de que, se nos voltamos para ele, encontramos o tesouro que a tudo satisfaz. Achamos o prazer eterno do nosso coração. Todavia, você está vendo o que isso implica? Implica que aconteceu algo em nosso coração antes do ato de fé. Implica que sob e por trás do ato de fé que agrada a Deus foi criado um novo gosto. Um gosto pela glória de Deus e pela beleza de Cristo. Eis que nasceu a alegria!

Antes não tínhamos prazer em Deus, e Cristo era apenas uma vaga personagem histórica. O que apreciávamos era comida, amizades, produtividade, investimentos, férias, lazer, jogos, leituras, compras, sexo, esportes, arte, televisão, viagens, mas não Deus. Ele era uma idéia —  até que boa— e um tema para discussão; mas não era um tesouro de prazer,

Então aconteceu algo milagroso. Foi como abrir os olhos de um cego diante de um alvorecer dourado. Primeiro o silêncio atônito diante da beleza indizível da santidade. Depois o choque e o terror diante do falo de que realmente antes gostávamos das trevas. Em seguida a quietude tranqüila da alegria de que esse é o alvo da alma. A luta acabou. Daríamos tudo pela garantia de viver para sempre na presença dessa glória.

Em seguida, fé — a confiança de que Cristo abriu um caminho para que eu, pecador, viva para sempre em sua comunhão gloriosa, a confiança de que, se eu me achegar a Deus por meio de Cristo, ele atenderá o desejo do meu coração de participar da sua santidade e contemplar a sua glória.

Contudo, antes da confiança vem o anseio. Antes da decisão vem o prazer. Antes da entrega vem a descoberta do tesouro.

Vamos a Cristo quando amamos a luz

Não é esse o ensino de João 3.18-20?

Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más. Pois todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras.

 

A razão por que as pessoas não vão para a luz é que não a amam. O amor pela luz não é causado pela ida à luz. Nós vamos porque a amamos. Se­não, nosso ir não honra a luz. Pode haver alguma motivação santa para crer em Cristo onde não há gosto pela beleza de Cristo? Na verdade, podemos ser motivados pelo desejo de escapar do inferno, ou de ter riquezas materiais, ou de reencontrar um ente querido que partiu. Como, porém, isso honra a luz, se a única razão de irmos para ela é encontrar as coisas que amávamos nas trevas? Será que isso é fé que salva?

Cristo morreu para nos dar o que nosso coração deseja: Deus

A fé que salva é o clamor de uma nova criatura em Cristo. E o que é novo na nova criatura é que ela tem um gosto novo. O que antes tinha gosto ruim ou insosso agora é desejado. O próprio Cristo tornou-se uma arca do tesouro de alegria santa. A árvore da fé cresce apenas no coração que anseia pelo dom supremo, que levou Cristo a morrer para poder concedê-lo a nós: não saúde, nem riqueza, nem prestígio, mas Deus!17

"Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, [...] para conduzir-vos a Deus" (lPe 3.18). "Por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito" (Ef 2:18). "Por intermédio dele obtivemos acesso, pela fé, a esta graça; [...] e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. [...] Nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo" (Rm 5.2, 11).

Uma nova paixão pelo prazer da presença de Deus

O despertar de uma sede irresistível por Cristo

é a criação de um cristão que busca o prazer.

A busca da alegria em Deus

não é apenas inocente, ela é essencial.

O nascimento dessa busca é o nascimento da vida cristã.

 

A busca da alegria em Deus não é opcional. Não é "algo mais" em que a pessoa pode crescer depois de chegar à fé. Enquanto seu coração não tiver atingido essa busca, sua "fé" não pode agradar a Deus. Não é fé que salva.

Fé salvadora é a confiança de que, se você vender tudo o que tem e esquecer todos os prazeres pecaminosos, o tesouro oculto da alegria santa satisfará seus desejos mais profundos. A fé salvadora é a convicção sentida pelo coração de que Cristo não é somente confiável, mas também desejável. É a confiança de que ele cumprirá suas promessas e de que aquilo que ele promete vale mais a pena ser desejado do que todo o mundo.

Podemos falar da "alegria da fé" em três níveis. Primeiro, há o novo gosto espiritual criado pelo Espírito de Deus para a glória de Deus. Esse novo gosto é a semente e raiz da alegria. Assim, ele é, digamos, a "alegria da fé" em forma embrionária. Segundo, há o broto, o caule da própria fé indo em direção de tudo o que Deus é para nós em Cristo. O cerne desse caule é a alegria em Deus. Não é possível que a fé vital, genuína, na Fonte da Alegria não participe dessa alegria. Seguir sem alegria o Deus da esperança, pelo que ele realmente é, revela-se impossível. Terceiro, há o fruto da felicidade diária de que Paulo fala em Romanos 15.13: "O Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer". Aqui alegria e paz fluem da fé para toda a vida.

Na conversão encontramos o tesouro oculto do reino de Deus. Arriscamos tudo nele. E, ano após ano, nas lutas da vida, comprovamos repetidamente o valor do tesouro e descobrimos novas profundidades de riquezas que não conhecíamos. Assim a alegria da fé cresce. Quando Cristo nos chama para um novo ato de obediência que nos custe algum prazer temporal, lembramo-nos do valor insuperável que é segui-lo e, pela fé no seu valor provado, esquecemos o prazer mundano. Qual é o resultado? Mais alegria! Mais fé! Mais profunda que antes. E assim avançamos de alegria em alegria, de fé em fé.

Por trás do arrependimento que dá as costas ao pecado e por trás da fé que se entrega a Cristo esta o nascimento de um novo gosto, de um novo anseio, de uma nova paixão pelo prazer da presença de Deus. Essa é a raiz da conversão. Essa é a criação de um cristão que busca o prazer.

 

NOTAS

1     Romanos 8.28

2     Se você achar que esse resumo do evangelho pode ser-lhe útil em seu relacionamento com os outros, nós o temos à disposição em separado sob o título "Quest for Joy", no endereço dgministry@aol.com.

3     Para apoio bíblico contra a teoria da aniquilação e a favor do inferno como tormento consciente eterno, veja John Piper, Let the nations beglad: the supremacy of God in missions. Grand Rapids, Baker Book House, 1993, cap. 4.

4     Entre os evangélicos a reputação das obras de George MacDonald divulgou sua idéia do inferno como terapêutico e não eterno. Por exemplo, em seu sermão intitulado "Justice" em Creation in Christ (Roland Hein, ed., Wheaton, Harold Shaw Publishers, 1976, p. 63-81), MacDonald argumenta com veemência contra o conceito ortodoxo do inferno:

Veja que não estou dizendo que não é correto punir [pessoas más]; estou dizendo que a justiça não é e jamais pode ser satisfeita pelo sofrimento —  não, ela não pode ter nenhuma satisfação no sofrimento. [...] Uma justiça como a de Dante conserva a maldade viva em suas formas mais terríveis. A vida de Deus se manifesta para informar, ou pelo menos abrigar o mal vitorioso. Não é ele derrotado cada vez que uma dessas almas perdidas o desafia? Deus é derrotado triunfantemente, eu digo, em todo o inferno da sua vingança. Apesar de ser contra o mal, o que vemos não passa de crueldade vã e desperdiçada de um tirano. [...] A punição tem por objetivos correção e expiação. Deus é obrigado por seu amor a punir o pecado a fim de libertar sua criatura; ele é obrigado por sua justiça a destruir o pecado em sua criação (p. 71-72). J. I. Packer analisa as formas contemporâneas dessa posição em "Good pagans and God's kingdom", em Christianity Today, 17 de janeiro de 1986, p. 22-25.

5 "The justice of God in the damnation of sinners", em The works of Jonathan Edwards, vol. 1. Edinburgh, Banner of Truth Trust, 1974, p. 669.

6 Quero expressar gratidão e profunda admiração pelo penetrante estudo de Edward John Carnell sobre o "sentimento judicial" e sua relação com a existência de Deus. O sentimento judicial é a faculdade mental que é justamente ofendida quando somos maltratados. Abaixo trago uma amostra das suas palavras, do profundo e belo livro Christian commitment (Nova York, Macmillan, 1957):

Enquanto a consciência acusa a própria pessoa, o sentimento judicial acusa os outros. A direção da acusação é o que importa. A consciência monitora a conduta moral da própria pessoa, enquanto o sentimento judicial monitora a conduta moral dos outros.

Além disso, a consciência está sujeita aos condicionamentos sociais e culturais, enquanto o sentimento judicial não está. Uma pessoa normal, no passado, presente ou futuro, experimenta o mesmo sentimento judicial aguçado sempre que for pessoalmente maltratada (p. 110).

O sentimento judicial despertado é nada menos que a advertência do céu de que a imagem de Deus está sendo ultrajada. Os condicionamentos culturais podem alterar a direção do sentimento judicial, mas não alteram a faculdade em si (p. 112).

A voz do sentimento judicial é a voz de Deus (p. 136).

7 Propiciação é uma palavra rara hoje em dia. Ela foi substituída em muitas traduções por termos mais comuns (como expiação, sacrifício expiatório). Eu a conservo para sublinhar o sentido original, ou seja, aquilo que Cristo fez ao morrer na cruz por pecadores foi aplacar a ira de Deus contra os pecadores. Ao exigir de seu Filho tal humilhação e sofrimento por causa da glória divina, Deus demonstrou abertamente que não varre o pecado para debaixo do tapete. Todo desprezo da sua glória é punido devidamente, ou na cruz, onde a ira de Deus é propiciada em favor dos que crêem, ou no inferno, onde a ira de Deus é derramada sobre os que não crêem.

8 A forma verbal de "conversão" (converter-se) é usada na tradução mais antiga em inglês no Novo Testamento em Mateus 13.15 (= Mc 4.12; Jo 12.40; At 28.27), Mateus 18.3, Atos 3.19, Lucas 22.32 e Tiago 5.19, 20.

9     Regeneração é uma palavra grande para novo nascimento. Ele ocorre no texto grego (palingenesia) apenas uma vez no Novo Testamento (Tt 3.5), referindo-se ao novo nascimento da pessoa (também uma vez referindo-se ao renascimento da criação na era vindoura, em Mt 19.28).

10    "A pessoa age na conversão, e esta é inteiramente um ato seu; na regeneração o Espírito de Deus é a única causa ativa." Samuel Hopkins, "Regeneration and Conversion" em Edward Hindson (ed.), Introduction to Puritan theology. Grand Rapids, Baker Book House, 1976, p. 180. Recomendo todo esse artigo como uma excelente exposição da relação

entre regeneração (novo nascimento) e conversão (arrependimento e fé).

11    Essa é uma grande pedra de tropeço para muita gente — afirmar que somos responsáveis por fazer o que somos moralmente incapazes de fazer. A razão principal para afirmá-lo não é que isso deriva obviamente do nosso uso normal da razão, mas que a Bíblia o ensina de forma muito clara. Todavia, pode ajudar se considerarmos que a incapacidade de que falamos não é devida a deficiências físicas mas à corrupção moral. Nossa incapacidade de crer não é resultado de um cérebro fisicamente danificado, mas de uma vontade moralmente pervertida. A incapacidade física retiraria de nós a responsabilidade. Esse não é o caso com a incapacidade moral. Não conseguimos ir para a luz porque nossa natureza corrupta e arrogante odeia a luz. Assim, quando alguém vai para a luz, "vê-se claramente que as suas obras são realizadas por intermédio de Deus" (Jo 3.21, nvi). O melhor tratamento desse assunto difícil que conheço é de Jonathan Edwards, Freedom of the will. New Haven, Yale University Press, 1957, original de 1754, também contido em The works of Jonathan Edwards, vol. 1.

12A Bíblia exige que falemos do "chamado" de Deus em pelo menos dois sentidos distintos. Um é o chamado geral ou externo, expresso na pregação do evangelho. Toda pessoa que ouve a mensagem do evangelho ou lê a Bíblia é chamada nesse sentido Mas Deus chama em outro sentido, alguns que ouvem o evangelho. Esse é o chamado interno ou eficaz de Deus. Ele muda o coração da pessoa, para garantir a fé. É como a exclamação "Haja luz!" ou "Lázaro, vem para fora!" Ele cria o que exige. A passagem principal que exige essa distinção é ICoríntios 1.23, 24: "Pregamos a Cristo crucificado [chamado geral], escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas para os que foram chamados [chamado eficaz], tanto judeus como gregos, poder de Deus e sabedoria de Deus". Entre os que receberam o chamado geral há um grupo "chamado" de tal maneira que foi capacitado a valorizar o evangelho como sabedoria e poder. A mudança efetuada pelo chamado eficaz não é nada menos que a transformação da regeneração. As palavras traduzidas por "graça" e "fé" são femininas no grego. A palavra traduzido por "isso" é de gênero neutro. Algumas pessoas usaram essa divergência para dizer que a dádiva aqui não é a fé. Mas com isso ignoram a implicação do versículo 5: "Estando nós mortos!" Graça é graça porque nos salvou quando estávamos mortos. Mas ela salva "pela fé". Como salva os mortos pela fé? Despertando o morto para a vida de fé. É por isso que a fé é uma dádiva em Efésios 2.5-8. "Isso" refere-se a todo o evento da salvação pela graça através da fé, e por isso inclui a fé como dádiva (cf At 18.27: "Tendo chegado, auxiliou muito aqueles que, mediante a graça, haviam crido").

14    Algumas pessoas tentaram argumentar que Romanos 9 nada tem que ver com indivíduos e seu destino eterno. Mas eu tentei provar que é exatamente isso que Paulo tem em mente, porque o problema com o qual ele está-se ocupando nesse capítulo é como indivíduos judeus dentro do povo escolhido de Deus, Israel, podem ser condenados sem que a palavra de Deus perca sua validade. Veja Romanos 9.3-6. Escrevi um livro inteiro para demonstrar essa interpretação: The justification of God: an exegetical and theological study of Romans 9.1-23. Grand Rapids, Baker Book House, 2a ed. 1993.

15    Para uma análise mais extensa das condições da salvação e como todas convergem para fé e amor, veja John Piper, The purifying power of living by faith in future grace. Sisters, Multnomah Books, 1995, cap. 19 e 20, esp. p. 255-259.

16    Há uma interpretação que defende que o tesouro é Israel, o campo, o mundo, e o homem que vende tudo o que tem para adquirir o campo é Cristo. O argumento segue esta linha:

O campo é o mundo porque é assim na parábola do joio e do trigo (Mt 13.38);

O tesouro é Israel porque em Êxodo 19.5 Deus refere-se assim a Israel;

Cristo nunca está à venda, nem pode a salvação ser comprada.

Eu prefiro entender a parábola do modo tradicional. A lição é que o reino é mais valioso que qualquer coisa que alguém possa ter e que devemos estar dispostos a abrir mão com alegria de tudo para obtê-lo. Meu argumento é este:

a)   O reino é apenas semelhante a um homem que vende tudo para comprar um campo que contém um tesouro. As parábolas não devem ser forçadas a ponto de cada palavra corresponder exatamente a determinado elemento da realidade. Forçar os detalhes nas parábolas abre caminho para alegorizações fantasiosas, sem controle sobre o sentido que atribuímos aos detalhes.

Portanto, a compra do campo não precisa implicar que a salvação ou Cristo ou o reino são comprados por nós. Precisa apenas implicar que o tesouro do reino é mais valioso do que tudo o que temos e que devemos estar dispostos a abrir mão de tudo para ter o reino.

O mero fato de que a palavra "campo" significa "mundo" na interpretação de Jesus da parábola do joio (Mt 13.38) não quer dizer que tem de significar "mundo" aqui em Mateus 13.44. A palavra "campo" não significa mundo por exemplo na parábola do grande banquete em Lucas 14.18.

Por que teríamos de voltar até Êxodo 19.5 para determinar o que Jesus quis dizer com "tesouro"? Seu uso comum do termo não seria uma indicação melhor do que ele tem em mente — especialmente se ele ocorre em contextos semelhantes a esse?

O paralelo mais próximo desse texto é Marcos 10.21, em que Jesus diz ao jovem rico: "Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me". Quando o homem foi embora, Jesus disse que é realmente difícil para um rico entrar no reino dos céus. Em outras palavras, o reino é o verdadeiro tesouro que o homem poderia ter se estivesse disposto a vender todas as suas posses e seguir Jesus. A semelhança entre a terminologia desses dois textos é tão nítida que não consigo fugir da implicação de que Jesus está realmente ensinando a mesma coisa nos dois lugares:

Mateus 13.44: "Vai, vende tudo o que tem".

Marcos 10.21: "Vai, vende tudo o que tens".

Nos dois casos a recompensa de ir e vender é o "tesouro". Em Marcos ele e identificado explicitamente com o reino. E muito improvável, portanto, que o tesouro em Mateus 13.44 não seja o reino.

Por isso, eu concluo—1) a partir do uso comum da palavra "tesouro" por Jesus, 2) da grande semelhança de palavras entre Marcos 10.21 e Mateus 13.44, e 3) da natureza especulativa dos argumentos contrários— que a interpretação tradicional e correta. Como disse João Calvino no século XVI:

O sentido direto das palavras é que o evangelho não estará recebendo a honra que lhe é devida enquanto não o colocarmos acima de todas as riquezas, prazeres, honras e conforto do mundo; e, de fato, que devemos estar tão contentes com as bênçãos espirituais que ele promete que deixamos de lado tudo o que nos pode afastar dele Isso porque aqueles que aspiram pelo céu precisam estar livres de todos os empecilhos (A harmony of the gospels Matthew, Mark and Luke, vol. 2. Grand Rapids, Eerdmans, 1975, p.83).

17 Recordando nosso estudo da Trindade no cap. 1 (nota 5), vale a pena deter-se nas implicações de que o Espírito Santo é o artífice divino que nos dá um novo coração de fé, e é pessoalmente a personificação da alegria que o Pai e o Filho têm um no outro. Poderíamos dizer que a mudança que precisa ocorrer no coração humano para tornar a fé salvadora possível é o impregnar-se do Espírito Santo, que é nada menos que impregnar-se da própria alegria que Deus Pai e Deus Filho têm cada um com a beleza do outro. Em outras palavras, o gosto por Deus que gera a fé salvadora é o gosto do próprio Deus por Si mesmo, transmitido a nós sob medida pelo Espírito Santo.

 

 

 

 

 

 

 

"Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em

espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus

é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade."

João 4.23, 24

 

 

 

Capítulo   3.
Adoração 

O Banquete do Prazer Cristão

 

O caçador de almas

Às vezes as pessoas que estão dormindo espiritualmente precisam receber um choque. Se você quer que elas ouçam o que você tem para dizer, talvez até tenha de escandalizá-las. Jesus é especialista nisso. Para nos ensinar algo sobre adoração, ele usa uma prostituta!

—Vá chamar seu marido— ele diz à mulher samaritana.

—Não tenho marido— responde ela.

—Você está certa— replica-lhe Jesus.

—Mas já teve cinco, e o homem com quem anda dormindo não é seu marido.

 

Ela ficou chocada. Nós ficamos chocados! Mas Jesus está simplesmente sentado ali à beira do poço, com as mãos apoiadas no colo, olhando para a mulher com seu olhar cortante, pronto para nos ensinar sobre adoração.

A primeira coisa que aprendemos é que adoração tem que ver com a vida real. Não é um interlúdio mítico em uma semana de realidade. Adoração tem que ver com adultério, fome e conflito racial.

Jesus está extremamente cansado da viagem. Está com calor e com sede. Então decide: "Sim, agora mesmo, exatamente agora, procurarei alguém para adorar o Pai — uma adúltera samaritana. Mostrarei aos meus discípulos como meu Pai procura adoração no meio da vida real, da pessoa mais improvável. Ela é samaritana. É mulher. É meretriz. Sim, e vou aproveitar para lhes mostrar uma ou duas coisas sobre como colher verdadeiros adoradores da seara madura das prostitutas de Samaria".

Elevando o nível de perplexidade

Voltemos para o começo da história. "Era-lhe necessário atravessar a província de Samaria", a caminho da Galiléia. "Chegou, pois, a uma cidade samaritana, chamada Sicar. [...] Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta da hora sexta [meio-dia]" (Jo 4.4-6).

Os samaritanos eram o que restava do reino israelita do Norte e haviam se misturado com estrangeiros depois que a elite do país fora levada para o exílio no ano 722 a.E. Chegaram a construir um lugar de culto próprio no seu monte Gerizim. Rejeitavam o Antigo Testamento, com exceção da sua própria versão dos primeiros cinco livros de Moisés. Sua animosidade em relação aos judeus (como Jesus) existia havia séculos.

Jesus caminha diretamente em direção a essa hostilidade, senta-se e pede um copo de água. A mulher fica perplexa pelo próprio fato de Jesus lhe dirigir a palavra:

—Como, sendo o senhor judeu, pede de beber a mim, que sou mulher samaritana?

Em vez de responder-lhe diretamente, Jesus eleva um pouco mais o nível de perplexidade dela, dizendo:

—Se você conhecesse o dom de Deus e quem é o que lhe pede: dê-me de beber, você lhe pediria, e ele lhe daria água viva.— O que foi realmente surpreendente não é que ele lhe pedira água, mas que ela não pediu a ele! Ele tem "água viva" e a chama "o dom de Deus".

A mulher, porém, não consegue atingir essa altura. Ela diz simplesmente:

—Como é que o senhor pode dar-me água, se nem mesmo tem um balde?— Ela ainda não sintonizou a freqüência de Jesus.

 

Assim, Jesus eleva ainda mais o nível de perplexidade:

—Quem beber dessa água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.—

 

O que surpreende não é que ele pode dar-lhe água sem ter um balde, mas que sua água satisfaz para sempre. Mais ainda: depois que você a bebe, sua alma torna-se uma fonte. É água milagrosa: ela penetra em solo arenoso e dali jorra como fonte de vida.

O que significa isso?

A água que se torna uma fonte

"O ensino do sábio é fonte de vida", diz Provérbios 13.14. Talvez, então, Jesus esteja querendo dizer que seu ensino é uma fonte de vida. Quando alguém que está sedento bebe dela, reanima-se e depois passa-a aos outros. Não dissera ele: "As palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida" (Jo 6.63)?

O paralelo mais próximo da figura da alma que se torna uma fonte, porém, está em João 7.37-39: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem".

Portanto, a água que Jesus dá é o Espírito Santo. A presença do Espírito de Deus em sua vida elimina a frustrante sede da alma e transforma você em uma fonte em que outros podem encontrar vida.

É provável, contudo, que os dois sentidos estejam corretos. Tanto o ensino de Jesus como o Espírito Santo satisfazem o anseio da nossa alma e nos tornam fonte para outros. Jesus conservou juntos a Palavra e o Espírito.

Por exemplo, em João 14.26 ele disse: "O Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito". O trabalho do Espírito de Cristo é fazer com que a palavra de Cristo seja clara e satisfaça a alma.

A água oferecida à samaritana adúltera foi a palavra da verdade e o poder do Espírito. Quando vamos a Cristo para beber, o que bebemos é a verdade —  não uma verdade seca, sem vida e sem poder, mas verdade encharcada do Espírito vivificador de Deus! A palavra da promessa e o poder do Espírito são a água viva oferecida à meretriz de Samaria.

Atingindo o coração por meio de uma ferida

Mais uma vez a mulher não entende. Ela não consegue elevar-se acima dos seus cinco sentidos:

—Senhor, dê-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.— Todavia, tome cuidado para não desistir muito rapidamente de alguém. Jesus pusera seus olhos salvadores sobre essa mulher. Ele tinha por objetivo criar uma adoradora de Deus "em espírito e em verdade".

Por isso, agora toca o ponto mais sensível e vulnerável da sua vida:

—Vá e chame seu marido.— O caminho mais rápido para o coração é através de uma ferida.

Por que Jesus desnuda a vida interior da mulher desse jeito? Porque ele dissera em João 3.20: "Todo aquele que pratica o mal aborrece a luz e não se chega para a luz, a fim de não serem argüidas as suas obras". Pecado escondido nos impede de ver a luz de Cristo.

O pecado é como lepra espiritual. Ele mata nossos sentidos espirituais de tal modo que você pode rasgar sua alma e não sente nada. Jesus, porém, expõe a lepra espiritual da mulher:

—Você já teve cinco maridos, e o homem com quem você anda dormindo não é seu marido.

Um animal preso na armadilha arranca a própria perna

Veja agora o reflexo universal de alguém que tenta escapar da condenação. A mulher tem de admitir que Jesus tem uma percepção extraordinária:

— Vejo que o senhor é um profeta.— Todavia, em vez de andar na direção que ele indicou, ela tenta desviar-se para uma controvérsia acadêmica: — Nossos pais adoravam neste monte; vocês, entretanto, dizem que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. O que o senhor me diz disso?

Um animal preso na armadilha arranca a própria perna para escapar. Um pecador apanhado mutila a própria mente e rasga as regras da lógica:

—Sim, é claro, falando do meu adultério, mas qual é sua opinião sobre o lugar onde as pessoas devem adorar?— Isso é conversa evasiva dupla, próprio de pecadores apanhados.

Só que do grande Caçador de Almas não é fácil se livrar. Ele não insiste em ficar na trilha; não hesita em seguir a caça para o mato. Ou será que ele dera a volta e estava à espera dela quando ela levanta a questão da adoração? Ele não voltou mais ao tema do adultério. Este servira para fazer pressão contra a porta trancada do coração dela. Agora, no entanto, o seu pé está na porta, e ele se dispõe a tratar da questão da adoração.

Como e a quem adorar

Ela levantara a questão de onde as pessoas deviam adorar. Jesus responde, dizendo:

—Essa controvérsia não se compara em importância com a questão de como e a quem adorar.

Primeiro ele chama a atenção dela para o como:

—Mulher, você pode acreditar que vem a honra em que nem neste monte nem em Jerusalém vocês adorarão o Pai.— Em outras palavras, não se deixe levar por controvérsias sem importância. Pode-se adorar a Deus em vão tanto no seu lugar como no nosso! Deus não dissera: "Este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim" (Is 29.13)? A questão não é onde, mas como.

Em seguida, Jesus volta a atenção dela para quem:

—Vocês adoram o que não conhecem; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus.— São palavras ríspidas. Mas quando vida e morte estão em jogo, você chega a um ponto em que diz as coisas com franqueza — como dizer a alguém que está com os pulmões doentes que deixe de fumar.

Os samaritanos rejeitavam todo o Antigo Testamento, com exceção da sua própria versão dos primeiros cinco livros. Seu conhecimento de Deus era deficiente. Por isso, Jesus diz à mulher que a adoração dos samaritanos é deficiente. Importa conhecer aquele que você adora!

Como e a quem é crucial, não onde. A adoração precisa ser vital e real no coração e tem de apoiar-se sobre uma percepção correta de Deus. É preciso espírito e é preciso verdade. Por isso Jesus diz:

—Vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade.— As palavras "espírito e verdade" correspondem ao como e a quem da adoração.

Adorar cm espírito é o contrário de adorar de maneiras meramente externas. É o contrário do formalismo e do tradicionalismo vazios. Adorai em verdade é o contrário da adoração baseada em um entendimento inadequado de Deus. A adoração precisa ter coração e cabeça. Ela tem de envolver as emoções e o pensamento.

Verdade sem emoção produz ortodoxia morta e uma igreja cheia (ou pela metade) de admiradores artificiais (como pessoas que escrevem cartões de aniversário genéricos para vender). Por outro lado, emoção sem verdade produz agitação vazia e cultiva pessoas superficiais que rejeitam a disciplina do raciocínio exato. A adoração verdadeira, porém, vem de pessoas com emoções profundas, grande amor e doutrina sadia. Afeições fortes por Deus, arraigadas na verdade, são ossos e medula da adoração bíblica.

Combustível, fornalha e calor

Talvez possamos juntar todos esses elementos com esta figura: o combustível da adoração é a verdade de Deus, a fornalha da adoração é o espírito do ser humano, e o calor gerado é a afeição vital da reverência, contrição, confiança, gratidão e alegria.

Há, todavia, algo faltando nesta figura. Temos combustível, fornalha e calor, mas não temos fogo. O combustível da verdade na fornalha do nosso espírito não produz automaticamente o calor da adoração. Precisa haver ignição e fogo. Isso é o Espírito Santo.

Quando Jesus diz: "Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade", alguns intérpretes acham que isso é uma referência ao Espírito Santo. Eu entendo que se trata do nosso espírito. Mas talvez as duas interpretações não estejam muito separadas na mente de Jesus. Em João 3.6, Jesus liga o Espírito de Deus e o nosso espírito de modo notável.

Diz ele: "O que é nascido do Espírito é espírito". Em outras palavras, enquanto o Espírito Santo não avivar nosso espírito com a chama da vida, nosso espírito está tão morto e sem reação que nem mesmo merece ser chamado espírito. Somente o que é nascido do Espírito é espírito. Assim, quando Jesus diz que os verdadeiros adoradores adoram o Pai "em espírito", o sentido tem de ser que a verdadeira adoração vem apenas de espíritos vivificados e sensibilizados pelo Espírito de Deus.

Agora podemos completar nossa figura. O combustível da adoração e uma visão correta da grandeza de Deus; o fogo que faz o combustível queimar com calor extremo é o avivamento do Espírito Santo; a fornalha acesa e aquecida pela chama da verdade é nosso espírito renovado; e o conseqüente calor da nossa afeição é a adoração poderosa, que abre caminho por meio de confissões, anseios, aclamações, lágrimas, cânticos, exclamações, cabeças curvadas, mãos erguidas e vidas obedientes.

De questões de comida para questões de fé

Voltemos por um instante para Samaria. Os discípulos tinham ido à cidade buscar comida. Jesus estivera sozinho com a mulher no poço. Quando os discípulos voltaram, ofereceram o almoço a Jesus, mas ele fez com eles o mesmo que fizera com a mulher —  pulou de questões de comida para questões de fé. "Tenho uma comida para comer que vocês não conhecem." Jesus estivera comendo todo o tempo que eles estiveram fora. Mas o quê? "A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra." E qual é a obra do Pai? O Pai está à procura de pessoas que o adorem em espírito e em verdade.

Toda a conversa de Jesus com a samaritana adúltera é trabalho de Deus gerando uma adoradora genuína. Em seguida Jesus aplica o episódio aos discípulos — e a nós! "Vocês não dizem que ainda há quatro meses até à ceifa? Mas eu lhes digo: ergam os olhos e vejam os campos, pois já branquejam para a ceifa." Ele está dizendo: "Há uma colheita madura de prostitutas em Samaria. Acabei de transformar uma delas em adoradora de Deus. Foi para isso que o Pai me enviou — e eu envio vocês. Vão à procura de pessoas que o adorem em espírito e em verdade. Aí está a cidade de Sicar, pronta para ser colhida. Se vocês amam a glória de Deus, preparem-se para colher".

Cristo nos propôs um roteiro para o restante deste capítulo sobre adoração. O que realmente significa adorar "em espírito e em verdade"? Qual é a resposta do espírito humano avivado pelo Espírito? Que relação a verdade tem com essa experiência? Esse é o nosso plano: ponderar a natureza da adoração como uma questão do coração e depois como uma questão da mente. Então, no fim, veremos rapidamente a forma exterior da adoração.

Um assunto do coração

Praticamente todo mundo concorda que a adoração bíblica implica algum tipo de ação externa. A própria palavra, em hebraico, significa inclinar-se. Adorar é curvar-se, erguer as mãos, orar, cantar, recitar, pregar, seguir rituais na alimentação, purificação, ordenação, etc.

Surpreendente é que todas essas coisas podem ser feitas em vão. Podem ser sem sentido, inúteis e vazias. Essa é a advertência de Jesus em Mateus 15.8, 9, em que ele arrasa os fariseus com a palavra de Deus de Isaías 29.13:

Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram.

 

Em primeiro lugar, observe que o paralelo entre "honra-me" e "me adoram" mostra que adoração e essencialmente uma maneira de honrar a Deus. É claro que isso não significa torná-lo honroso ou aumentar sua honra. Significa reconhecê-la, sentir seu valor e atribuí-la a ele de todas as maneiras condizentes com seu caráter.

Glória e majestade estão diante dele, força e formosura, no seu santuário. Tributai ao Senhor, ó famílias dos povos, tributai ao Senhor glória e força. Tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome; trazei oferendas e entrai nos seus átrios (Sl 96.6-8).

 

Assim, a primeira coisa a observar nas palavras de Jesus é que adoração é uma maneira de refletir alegremente, de volta para Deus, o brilho do seu valor.

A razão de eu dizer "alegremente" é que até montanhas e árvores refletem de volta para Deus o brilho do seu valor: "Louvai ao Senhor da terra, [...] montes e todos os outeiros, árvores frutíferas e todos os cedros" (SL 148.7, 9). Esse reflexo da glória de Deus pela natureza, todavia, não é consciente. As montanhas e outeiros não adoram com disposição própria. Em toda a terra, apenas os seres humanos têm essa capacidade singular.

Se não refletimos alegremente a glória de Deus na adoração, não deixaremos de refletir a glória da sua justiça em nossa condenação: "Até a ira humana há de louvar-te" (SL 76.10). Só que esse reflexo involuntário do valor de Deus não é adoração. Por isso é necessário definir adoração não simplesmente como uma maneira de refletir de volta para Deus o brilho do seu valor mas, para ser mais exato, como uma maneira de fazer isso alegremente.

A palavra "alegremente" pode ser mal-entendida porque (como veremos logo abaixo) adoração às vezes inclui contrição e arrependimento, que não costumamos ligar a alegria. Contudo, eu mantenho a palavra porque, se dizemos apenas, por exemplo, que adoração é um reflexo "disposto" do valor de Deus de volta para ele, então estamos à beira de um mal-entendido pior, ou seja, que adoração pode ser voluntária quando o coração na verdade não tem vontade ou, como diz Jesus, quando o coração está "longe de Deus". Mais que isso, eu creio que veremos que, na contrição bíblica genuína, há pelo menos uma semente de alegria, que vem da esperança incipiente de que "Deus vivifica o coração dos contritos" (Is 57.15).

Como adorar a Deus em vão

Isso nos leva à segunda coisa em Mateus 15.8: podemos "adorar" a Deus em vão. "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim." Um ato de adoração é vão e fútil quando não vem do coração. Isso estava implícito nas palavras de Jesus à adúltera samaritana: "[...] os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores" (Jo 4.23). Mas o que é essa experiência do espírito? O que acontece no coração quando a adoração não é em vão?

É mais do que um mero ato de força de vontade. Todos os atos exteriores de adoração são atos da vontade. Isso, porém, não os torna autênticos. A vontade pode estar presente (por todos os tipos de razão) sem que o coração esteja genuinamente envolvido (ou, como diz Jesus, "longe"). A atuação do coração na adoração é o despertar de sentimentos, emoções e afetos do coração.1 Lá onde os sentimentos por Deus estão mortos, a adoração está morta.

Os afetos que tornam autêntica a adoração

Agora sejamos específicos. Quais são esses sentimentos ou afetos que tornam autênticos os atos exteriores de adoração? Para chegar à resposta, recorreremos aos salmos e aos hinos inspirados do Antigo Testamento. Um conjunto de afetos diferentes entrelaçados pode tomar conta do coração a qualquer momento. Portanto, a extensão e seqüência da lista abaixo não têm a intenção de limitar as possibilidades de prazer no coração de alguém.

Talvez a primeira resposta do coração ao ver a santidade majestosa de Deus seja o silêncio perplexo. "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus" (Sl 46.10). "O Senhor está em seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra" (Hc 2.20).

Do silêncio brota um sentimento de temor, reverência e maravilha diante da imensa grandeza de Deus. "Tema ao Senhor toda a terra, temam-no todos os habitantes do mundo" (Sl 33.8).

E por sermos todos pecadores, em nossa reverência há um medo santo do poder justo de Deus. "Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, seja ele o vosso espanto" (Is 8.13). "Entrarei na tua casa e me prostrarei diante do teu santo templo, no teu temor" (Sl 5.7).

Esse temor, porém, não é um terror paralisante, cheio de ressentimento contra a autoridade absoluta de Deus. Ele encontra alívio na contrição, no arrependimento e na tristeza por nossa distância de Deus. "Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus" (Sl 51.17). "Assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos" (Is 57.15).

Misturado ao sentimento genuíno de contrição e tristeza pelo pecado aparece um anseio por Deus. "Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo" (Sl 42.1, 2). "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (Sl 73. 25,26). "Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água" (Sl 63.1).

Deus não fica indiferente ao anseio contrito da alma. Ele vem, retira a carga do pecado e enche nosso coração de alegria e gratidão. "Converteste-o meu pranto em folguedos; tiraste o meu pano de saco e me cingiste de alegria, para que o meu espírito te cante louvores e não se cale. Senhor, Deus meu, graças te darei para sempre" (Sl 30.11, 12).

Nossa alegria, porém, não é resultado apenas da gratidão gerada pelo olhar em retrospectiva. Ela também vem do olhar esperançoso prospectivo:

"Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu" (Sl 42.5). "Aguardo o Senhor, a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra" (Sl 130.5).

No fim das contas, o coração não anseia por qualquer das dádivas de Deus, mas pelo próprio Deus. Vê-lo, conhecê-lo e estar em sua presença e o maior banquete da alma. Depois disso ela não quer mais nada. As palavras passam a ser insuficientes. Nós falamos de prazer, alegria, delícia, mas esses são apenas frágeis indicadores da experiência indizível.

"Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo" (Sl 27.4). "Na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente" (Sl 16.11). "Agrada-te do Senhor" (Sl 37.4).

Esses são alguns dos afetos do coração que podem evitar que a adoração seja "em vão". Adorar é uma maneira alegre de refletir de volta para Deus o brilho do seu valor. Não é um mero ato de vontade, pelo qual executamos ações externas. Sem a participação do coração, não adoramos de verdade. O envolvimento do coração na adoração é o despertamento de sentimentos, emoções e afetos do coração. Onde os sentimentos por Deus estão mortos, a adoração está morta.

A adoração genuína precisa incluir sentimentos interiores que refletem o valor da glória de Deus. Se não fosse assim, a palavra hipócrita não teria sentido. Mas a hipocrisia existe — ter emoções exteriores (como cantar, orar, dar, recitar) que significam afetos do coração que não existem. "Este povo me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim."

A adoração como um fim em Si mesmo

Ora, que implicação isso tem para o banquete da adoração? Surpreendentemente, implica que a adoração é um fim em Si mesmo. Nós não nos banqueteamos com a adoração como um meio para chegar a alguma outra coisa. Se o que transforma o ritual externo em adoração autêntica é o despertamento dos afetos do coração, então a verdadeira adoração não pode ser apresentada como um meio para alguma outra experiência. Os sentimentos não funcionam assim. Autênticos sentimentos do coração não podem ser fabricados como degraus para alguma outra coisa.

Por exemplo: meu cunhado fez-me um interurbano em 1974 para dizer-me que minha mãe acabara de morrer. Lembro de sua voz entrecortada, quando tomei o fone da minha esposa: "Johnny, meu amigo, aqui é Bob. Tenho más notícias... Sua mãe e seu pai tiveram um sério acidente de ônibus. Sua mãe não resistiu, e seu pai está muito ferido".

Uma coisa é certa: quando recebo uma notícia como essa, eu não sento e digo: "E agora, com que finalidade devo sentir tristeza?" Ao levantar meu filhinho do colo e passá-lo à minha esposa, para andar até o quarto e ficar sozinho, eu não digo: "Que bom propósito posso alcançar se eu chorar pela próxima meia hora?" O sentimento de tristeza é um fim em Si mesmo no que concerne à minha motivação consciente.

Ele surge espontaneamente. Não foi feito para chegar a alguma outra coisa. Não é fruto da vontade consciente. Não segue a uma decisão. Ele vem lá do fundo, de um lugar sob a vontade consciente. Sem dúvida ele terá muitos subprodutos — bons, em sua maioria. Mas estes estão totalmente fora de cogitação, quando eu me ajoelho ao lado da minha cama e choro. O sentimento está ali, jorrando do meu coração. E ele tem um fim em Si mesmo.

A tristeza não é o único exemplo. Se você está boiando em um bote inflável já há três dias, sem água para beber, depois de um naufrágio no mar, e aparece um ponto de terra no horizonte, você não diz: "Com que finalidade devo sentir desejo por essa terra? Que bom propósito deve levar-me a decidir sentir esperança?" Mesmo que o anseio em seu coração lhe dê força renovada para chegar à terra, você não realiza o ato de desejo, esperança e anseio para chegar lá.

O anseio jorra do fundo do seu coração por causa do tremendo valor da água (e da vida!) daquela terra. Não é planejado e realizado (como a compra de uma passagem aérea) como meio de obter o que desejamos. Ele brota espontaneamente no coração. Não é uma decisão tomada a fim de — nada! Como sentimento genuíno do coração, ele é um fim em Si mesmo.

Ou pense no medo. Se você está acampando nas proximidades de um parque nacional, e acorda no meio da noite com um rosnar lá fora, e vê à luz do luar a silhueta de uma enorme onça vindo em direção à sua barraca, você não diz: "Com que propósito devo sentir medo?" Você não avalia os bons resultados que podem advir da adrenalina que o medo produz, e depois decide que o medo pode ser uma emoção apropriada e proveitosa. Ele surge e pronto!

Parado à beira do Grand Canyon pela primeira vez, olhando o sol se pôr, a enviar a escuridão para as camadas geológicas do tempo, você não diz: "Com que propósito devo ficar impressionado e maravilhado com tanta beleza?"

Quando uma criança pequena, no dia de Natal, abre seu primeiro presente e encontra seus patins "favoritos" que queria há meses, ela não pensa: "Com que objetivo devo sentir-me feliz e agradecida?" Dizemos que alguém é ingrato quando palavras de gratidão são ditas por obrigação em vez de saírem espontaneamente do coração.

Uma criança de cinco anos que vai pela primeira vez ao jardim de infância e é cercada por alguns meninos do segundo ano, não "decide" sentir a confiança e o amor brotar em seu pequeno coração com a aproximação do seu irmão maior que está no quarto ano. Ela simplesmente sente.

Toda emoção genuína é um fim em Si mesma. Ela não é causada conscientemente como meio de chegar a outra coisa. Isso não quer dizer que não possamos nem devamos procurar ter certos sentimentos. Devemos e podemos. Podemos nos colocar em situações em que os sentimentos podem ser cultivados mais prontamente. Podemos até prezar alguns resultados desses sentimentos, assim como os próprios sentimentos. Mas no momento da emoção autêntica, todo cálculo desaparece. Somos transportados (talvez apenas por alguns segundos) para acima do nível de raciocínio da mente, para experimentar o sentimento sem referência a implicações lógicas ou práticas.

Isso é o que impede a adoração de ser "em vão". A adoração é autêntica quando surgem afetos por Deus no coração como um fim em Si mesmos. Na adoração, Deus é a voz temida no telefone. Deus é a o ponto de terra no horizonte. Deus é a onça e o pôr-do-sol e os patins "favoritos" e a mãe que os deu e o irmão grande e forte do quarto ano.

Quando a realidade de Deus nos é apresentada em sua Palavra ou em seu mundo, e nós não sentimos em nosso coração nenhuma tristeza, anseio, esperança, medo, reverência, alegria, gratidão ou confiança, então podemos cantar, orar, recitar e gesticular conforme o figurino o quanto quisermos, mas isso não será adoração de verdade. Não podemos honrar a Deus se nosso coração "está longe dele".

Adoração é uma maneira de refletir alegremente de volta para Deus o brilho do seu valor. Isso não pode ser feito por meros atos devidos. Pode ser feito apenas quando afetos espontâneos brotam no coração.

Você tem de me beijar, mas não por obrigação

Pense na analogia do aniversário de casamento. O meu é no dia 21 de dezembro. Imagine que nesse dia eu traga para casa uma dúzia de rosas vermelhas de cabos longos para Noël. Quando ela abre a porta para mim, eu lhe estendo as rosas, e ela diz: "Oh, Johnny, são tão lindas. Obrigada!", e me dá um forte abraço. Imagine que eu levante minha mão e diga, como quem não quer nada: "Não foi nada. É minha obrigação".

Qual é o problema aqui? O exercício do dever não é algo nobre? Não honramos aqueles que são fiéis cumpridores do dever? Não muito. Não se não estiverem com o coração na coisa. Rosas por obrigação são uma contradição de termos. Se eu não for movido por um afeto espontâneo por ela como pessoa, as flores não a honram. Na verdade, a diminuem. São uma tentativa inútil de encobrir o fato de que ela não tem valor ou beleza aos meus olhos para despertar afeto. Tudo o que eu consigo produzir é uma expressão calculada de dever matrimonial.

Edward John Carnell o diz assim:

Imagine um marido perguntando à sua esposa se tem de beijá-la antes de ir dormir. Ela responderá: "Você tem, mas não por obrigação". O que ela quer dizer é isto: "Se não for motivado por um afeto espontâneo por mim, suas propostas estarão despidas de qualquer valor moral".2

 

O que acontece é que muitos de nós deixamos de ver que o dever em relação a Deus jamais pode ser restrito a ações externas. Sim, temos de adorá-lo. "Mas não por obrigação." Como, então? Da maneira como C. S. Lewis descreveu para Sheldon Vanauken: "Como você sabe, todo cristão tem o dever de ser o mais feliz que puder".3

O verdadeiro dever da adoração não é a obrigação externa de falar ou seguir a liturgia. É o dever interior, a ordem: "Agrada-te do Senhor" (Sl 37.4). "Alegrai-vos no Senhor e regozijai-vos" (Sl 32.11).

A razão de esse ser o verdadeiro dever de adorar é que ele honra a Deus, o que não acontece com a realização vazia de um ritual. Se eu levo minha esposa para jantar fora no dia do nosso aniversário de casamento, e ela me pergunta: "Por que você está fazendo isso?" a resposta que mais a honra será esta: "Porque nada me deixaria mais feliz esta noite do que estar com você".

"É minha obrigação" é uma desonra para ela.

"É meu prazer" é para ela uma honra.

 

É exatamente isso! O banquete do prazer cristão. Como devemos honrar a Deus na adoração? Dizendo: "É minha obrigação" ou "é meu prazer"?

Adoração é a maneira de refletir de volta para Deus o brilho do seu valor. Agora vemos que o espelho que capta os raios do seu brilho e os reflete de volta em adoração é o coração feliz. Outro modo de dizer isso é:

O principal propósito do ser humano é glorificar a Deus

AO

alegrar-se nele para sempre.

 

Jamais dê algo a Deus

Agora está ficando claro por que é tão importante que a adoração seja um fim em Si mesmo. Porque este é o principal propósito com que fomos criados.

Também fica claro por que não é idolatria e egocentrismo dizer que nossas emoções são um fim em Si mesmo. Não é egocêntrico porque as emoções da nossa adoração são centradas em Deus! Deixamos de olhar para nós e olhamos para ele, e só depois as multiformes emoções do nosso coração irrompem em adoração.4

Da mesma forma, não é idólatra dizer que nossas emoções na adoração são um fim em Si mesmo, porque nossas emoções por Deus glorificam a Deus, não a nós. Quem jamais pensou que estava glorificando a Si mesmo e não o Grand Canyon ao ficar parado à sua beira por horas, em silêncio respeitoso? Quem me acusaria de glorificar a mim mesmo e não a minha esposa quando lhe digo: "Tenho prazer em passar esta noite com você"? Quem acusaria uma pequena criança de ser egocêntrica no dia de Natal, se ela deixar seus patins novos no chão e correr para abraçar sua mãe e lhe dizer obrigado, por estar transbordando de gratidão feliz?

Alguém poderia objetar que, ao fazer da alegria na adoração um fim em Si mesmo, fazemos de Deus um meio para o nosso fim, e não nosso ser um meio para o seu fim. Assim parecemos elevar-nos acima de Deus. Mas faça-se essa pergunta: O que glorifica mais a Deus: a) uma experiência de adoração que chega ao clímax com prazer na admiração de Deus ou b) uma experiência que chega ao clímax em uma tentativa nobre de libertar-se da admiração para prestar uma contribuição ao objetivo de Deus?

É uma coisa sutil. Lutamos contra a glória de Deus, suficiente em Si mesma, se pensamos que podemos nos tornar um meio para seu fim, sem fazer da alegria nele o nosso fim. O prazer cristão não nos põe acima de Deus ao fazer da alegria da adoração seu alvo. É exatamente ao confessarmos nossa condição frustrada e desesperada sem ele que o honramos. Um paciente não é maior que seu médico por ansiar ser curado. Uma criança não é maior que seu pai ao desejar a satisfação de brincar com ele.

Por outro lado, aquele que realmente se põe acima de Deus é o que imagina vir a Deus para dar e não para receber. Com pretensa auto-negação, ele se apresenta como benfeitor de Deus — como se o mundo e tudo o que ele contém já não fossem de Deus (Sl 50.12)!

Não, aproximar-se de Deus buscando o prazer na adoração é a única coisa humilde a fazer, porque é a única em que nos apresentamos de mãos vazias. O prazer cristão dá honra a Deus ao reconhecer (e sentir de verdade!) que somente ele pode satisfazer o anseio do coração de ser feliz. Adoração é um fim em Si mesma porque glorificamos a Deus ao ter prazer nele para sempre.

Os três estágios da adoração

Isso pode ser mal-entendido. Pode dar a impressão de que não podemos nos achegar a Deus em verdadeira adoração se não estivermos transbordando de afetos de prazer, alegria, esperança, gratidão, admiração, temor e reverência. Não creio que isso esteja necessariamente implícito no que eu disse.

Vejo três estágios no movimento em direção à experiência ideal de adoração. Podemos experimentar todas os três em uma hora, e Deus se agrada de todas elas — se forem de fato estágios no caminho da alegria plena nele. Irei mencioná-las na ordem inversa.

1)Há o estágio final em que sentimos uma alegria totalmente descontraída nas multiformes perfeições de Deus — a alegria da gratidão, da maravilha, da esperança, da admiração. "Como de banha e de gordura farta-se a minha alma; e, com júbilo nos lábios a minha boca te louva" (Sl 63.5). Nesse estágio estamos satisfeitos com a excelência de Deus e transbordamos com a alegria da sua comunhão. É o banquete do prazer cristão.

2)Em um estágio anterior que desfrutamos com freqüência, não sentimos plenitude, mas anseio e desejo. Já tendo degustado o banquete antes, lembramos da bondade do Senhor — mas ela parece distante. Pregamos à nossa alma que não fique abatida, porque temos certeza de novamente louvar o Senhor (Sl 42.5). Porém, no momento, nosso coração não está fervoroso.

Mesmo que isso não atinja o ideal de adoração e esperança vigorosa e sentida, ainda é uma grande honra para Deus. Honramos a água de uma fonte da montanha não apenas com o "ah" satisfeito depois de bebermos, mas também pelo anseio sedento de ser satisfeitos, enquanto ainda estamos na escalada.

Na verdade, esses dois estágios não podem ser separados no verdadeiro crente, porque toda satisfação nessa vida ainda está permeada de anseio, e todo anseio genuíno já saboreou a água da vida que satisfaz. David Brainerd expressou o paradoxo:

Ultimamente Deus tem se agradado em manter minha alma faminta quase constantemente, de modo que tenho estado cheio de um tipo de dor agradável. Quando realmente desfruto Deus, sinto que meus desejos dele são mais insaciáveis, e minha sede de santidade, mais intensa.5

 

3) O estágio inferior da adoração — onde toda adoração genuína começa e aonde com freqüência retorna para um período escuro— é o deserto da alma que quase não sente nenhum desejo, mas mesmo assim recebe a graça do triste arrependimento por ter tão pouco amor. "Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença" (Sl 75.21, 22). E. J. Carnell aponta para esses mesmos estágios quando diz:

Sabemos que se chega a retidão por uma de duas maneiras: ou por uma expressão espontânea do bem, ou pela tristeza espontânea por ter falhado. A primeira é realização direta; a outra, indireta.6

 

Adoração é uma maneira de refletir alegremente de volta para Deus o brilho do seu valor. Esse é o ideal. Deus com certeza é mais glorificado quando nos alegramos em sua magnificência do que quando somos tão pouco tocados por ela que quase não sentimos nada, e apenas desejamos fazê-lo. Mas ele também é glorificado pela faísca de alegria antecipada, que dá lugar à tristeza que sentimos quando nosso coração está morno. Mesmo em meio à culpa miserável que sentimos com nossa insensibilidade embrutecida, a glória de Deus brilha. Se Deus não fosse gloriosamente desejável, por que nos sentiríamos tristes por não nos banquetearmos plenamente em sua beleza?

Contudo, mesmo essa tristeza, para dar honra a Deus, tem de ser, em certo sentido, um fim em Si mesmo — não que não deva levar a algo melhor, mas que deve ser real e espontânea. A glória que carecemos não pode ser refletida em uma tristeza calculada. Como diz Carnell, "a realização indireta está despida de virtude sempre que é transformada em alvo buscado conscientemente. Quem tenta lamentar-se deliberadamente jamais estará triste. A tristeza não pode ser induzida por esforço humano".7

O inimigo moral da adoração

Concluo dessa meditação sobre a natureza da adoração que a revolta contra o prazer matou o espírito de adoração em muitas igrejas e corações. A noção difundida de que ações de elevada moral precisam estar isentas de interesse próprio é um grande inimigo da verdadeira adoração. Adoração e o ato moral mais elevado que um ser humano pode perpetrar; assim, a única base e motivação para ela que muitas pessoas podem conceber é a noção de moralidade como execução desinteressada do dever. Todavia, quando a adoração é reduzida a um dever desinteressado, deixa de ser adoração. Porque adoração é festa.

Nem Deus nem minha esposa são honrados quando celebramos os dias importantes do nosso relacionamento por senso de dever. Eles são honrados quando me delicio neles! Por isso, para honrar a Deus em adoração, não devemos buscá-lo desinteressadamente, por medo de vir a ter alguma alegria na adoração e assim arruinar o valor moral do ato. Em vez disso, devemos buscá-lo objetivando o prazer, do mesmo modo que um cervo sedento busca o ribeirão, precisamente pela alegria de ver e conhecê-lo! Adoração é nada menos que obediência ao mandamento de Deus: "Agrada-te do Senhor!"

Virtude mal dirigida diminui o espírito de adoração. A pessoa que tem a noção vaga de que é virtuoso reprimir o interesse próprio, e que é errado buscar o prazer, dificilmente será capaz de adorar, porque adoração é a atividade mais hedonista da vida, e não deve ser arruinada com o menor pensamento de desinteresse. O grande impedimento à adoração não é que sejamos pessoas que buscam o prazer, mas que estamos dispostos a nos satisfazer com prazeres tão miseráveis.

O profeta Jeremias o disse assim:

Meu povo trocou a sua Glória por aquilo que é de nenhum proveito. Espantai-vos disto, ó céus, e horrorizai-vos! Ficai estupefatos, diz o Senhor. Porque dois males cometeu o meu povo: a mim me deixaram, o manancial de águas vivas, e cavaram cisternas, cisternas rotas, que não retêm as águas (Jr 2.11-13).

 

Os céus ficam espantados e chocados quando pessoas abandonam rapidamente sua busca de prazer e se acomodam com cisternas rachadas.

Contentamo-nos com muito pouco

Uma das coisas mais importantes que já li em minha peregrinação em direção ao prazer cristão foi um sermão pregado por C. S. Lewis em 1941. Disse ele:

Se hoje a noção de que é errado desejar a nossa felicidade e esperar ansiosamente gozá-la esconde-se na maioria das mentes, afirmo que ela surgiu em Kant ou nos estóicos, mas não na fé cristã. Na realidade, se considerarmos as promessas pouco modestas de galardão e a espantosa natureza das recompensas prometidas nos evangelhos, diríamos que nosso Senhor considera nossos desejos não demasiadamente grandes, mas demasiadamente pequenos. Somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições, desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia. Contentamo-nos com muito pouco.8

 

É isso! O inimigo da adoração não é que nosso desejo por prazer é muito forte, mas muito fraco! Nós nos acomodamos com um lar, uma família, alguns amigos, um emprego, televisão, forno de microondas, às vezes um jantar num restaurante, férias uma vez por ano e talvez um computador novo. Nós nos acostumamos a esses prazeres pobres e passageiros, de modo que nossa capacidade de alegrai se encolheu. E nossa adoração também encolheu. Muitos não conseguem imaginar nem o que significa "passar as férias na praia" — a adoração do Deus vivo!

O encolhimento da alma de Darwin

Depois de beber por muito tempo nas cisternas rachadas dos prazeres de bolinhos de areia, muitos perderam quase toda a capacidade de alegrai se em Deus — muito parecido com o que aconteceu com Charles Darwin. Perto do fim da vida, ele escreveu uma autobiografia para seus filhos, e expressou uma queixa:

Até a idade de trinta anos ou um pouco mais, a poesia em suas muitas formas [...] deu-me grande prazer, e já como menino na escola eu gostava muito de Shakespeare. [...] Antes eu me deliciava consideravelmente em quadros, e muito em música. Agora, já há muitos anos, não consigo ler uma linha de poesia sequer: tentei ler Shakespeare, e ele pareceu-me tão bobo que me deu nojo. Igualmente, perdi todo gosto por quadros ou música. [...] Conservei algum gosto pelas paisagens, mas já não me dão prazer especial como antigamente. [...] Minha mente parece ter-se tornado uma máquina que extrai leis gerais de grandes compilações de fatos, mas não consigo imaginar por que isso causou a atrofia apenas daquela parte do cérebro da qual os gostos mais elevados dependem. [...] A perda desses gostos é a perda de felicidade, e pode prejudicar o intelecto, talvez até o caráter moral, enfraquecendo a parte emocional da nossa natureza.9

 

Os cultos de adoração por todo o país apresentam as cicatrizes desse processo. Para muitos, o cristianismo tornou-se a extração de leis doutrinárias gerais de coletâneas de fatos bíblicos. Todavia, o espanto e admiração infantis morreram. A paisagem, poesia e música da majestade de Deus secaram como um pêssego esquecido no fundo da geladeira.

E a ironia é que auxiliamos e aumentamos o processo de encolhimento ao dizer às pessoas que não devem buscar seu próprio prazer, especialmente na adoração.10 Damos a entender de mil maneiras que a virtude de uma ação diminui na proporção em que você gosta de fazê-la, e que fazer algo porque o deixa feliz é mau. Essa noção paira como um gás na atmosfera cristã.

Immanuel Kant e Hebreus 11.6 em litígio

C. S. Lewis achava que Immanuel Kant (falecido em 1804) foi um dos causadores dessa confusão. Ayn Rand, atéia, pensava o mesmo. Sua descrição muito inteligente da ética de Kant, mesmo que nem sempre historicamente exata, pelo menos mostra bem os efeitos paralisantes que ela parece ter tido sobre a igreja:

Kant disse que uma ação é moral apenas se a pessoa não tem o desejo de executá-la, e a faz por um senso de dever, sem tirar qualquer tipo de benefício dela, nem material nem espiritual. Um benefício destrói o valor moral de unia ação. (Portanto, se alguém não tem nenhum desejo de ser mau, não pode ser bom; se tem, pode.)11

 

Ayn Rand confundiu essa noção de virtude com o cristianismo e rejeitou prontamente toda a coisa. Mas isso não é cristianismo! Foi trágico para ela e é trágico para a igreja o fato de essa noção permear o ar da cristandade —  a noção de que buscar a alegria é submoral, se não imoral.

Como seria bom se Ayn Rand tivesse entendido seu contemporâneo cristão Flannery O'Connor:

Não creio que a renúncia ande junto com a submissão, nem mesmo que a renúncia seja um bem em Si mesmo. Você sempre renuncia a um bem menor por outro maior; o oposto disso é pecado. [...] O esforço de submeter-se [...] não é um esforço de submeter-se mas de aceitar, e com paixão. Quero dizer, possivelmente, com alegria. Retrate-me com meus dentes reluzindo de regozijo — também plenamente armado, pois a busca é altamente perigosa.12

Amém!

 

Todo domingo de manhã, Hebreus 11.6 entra em litígio com Immanuel Kant: "Sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam". Você não pode agradar a Deus se não se aproxima dele buscando recompensa! Por isso, a adoração que agrada a Deus é a busca do prazer em Deus. Ele é nossa recompensa excessivamente grande! Em sua presença há plenitude de alegria, e à sua destra, delícias perpetuamente. Adoração é o banquete do prazer cristão.

Um assunto da mente

Deus procura pessoas que o adorem "em espírito e em verdade" (Jo 4.23). Dei muita ênfase no "espírito" de adoração até aqui. Agora preciso equilibrar a questão e reafirmar que a verdadeira adoração sempre une coração e cabeça, emoções e pensamentos, afeto e reflexão, doxologia e teologia.

"... os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade." A verdadeira adoração não vem de pessoas cujos sentimentos são como plantas aéreas, sem raízes no solo firme da doutrina bíblica. Os únicos afetos que honram a Deus são os que estão enraizados na rocha da verdade bíblica.

Que outro sentido teriam as palavras do apóstolo: "Eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento" (Rm 10.2)? O Senhor não orou: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade" (Jo 17.17)? E não disse ele: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32)? Liberdade santa na adoração é fruto da verdade. Sentimentos religiosos que não vêm da compreensão verdadeira de Deus não são nem santos nem realmente livres, não importa quão intensos sejam.

Por essa razão o testemunho pastoral de Jonathan Edwards sempre me pareceu indiscutivelmente bíblico. Ele foi o principal defensor do Grande Avivamento na Nova Inglaterra (nordeste dos Estados Unidos) no começo da década de 1740. O movimento passara a sofrer severas críticas por causa de aparentes excessos emocionais.

Charles Chauncy, pastor da antiga Primeira Igreja de Boston, opôs-se ao avivamento com todo o empenho. Ele denunciou todos os seus excessos como "sair voando para cair no chão mais à frente; [...] gemidos e gritos agudos; lutas e tropeços, agitação e tremores convulsivos".13

Edwards não defendeu os excessos, mas defendeu seriamente o empenho profundo e genuíno dos afetos baseados na verdade. Argumentou com essas palavras cuidadosamente escolhidas:

Devo pensar em mim mesmo em termos do meu dever, que é de elevar os sentimentos dos meus ouvintes o mais que eu puder, desde que estejam tomados apenas pela verdade, e com sentimentos que não divirjam da natureza do que os afetou.14

 

Edwards estava completamente convicto da importância crucial de sentimentos ou afetos poderosos na adoração, porque

As coisas da religião são tão grandes que não pode haver atitude, nos exercícios do nosso coração, adequada à sua natureza e importância, se não forem vivos e poderosos. Em nada o vigor das ações das nossas inclinações é tão requisitado como na religião; e em nada a mornidão é tão odiosa.15

 

Todavia, o único calor que ele admitia na adoração era o calor que vem com a luz. Em 1744 ele pregou um sermão de ordenação a partir do texto sobre João Batista: "Ele era a lâmpada que ardia e alumiava" (Jo 5.35). Deve haver calor no coração e luz na mente — e não mais calor do que o justificado pela luz!

Se um ministro tem luz sem calor, e entretém seus [ouvintes] com discursos eruditos, sem o sabor do poder da espiritualidade, ou sem nenhuma manifestação de fervor de espírito, de zelo por Deus e pelo bem das almas, ele pode satisfazer ouvidos que coçam e encher a cabeça do seu povo com conhecimentos vazios; mas não é muito provável que atinja a alma deles. Se, por outro lado, ele é impulsionado por um zelo feroz e descontrolado, um calor impetuoso, sem luz, é provável que acenda a mesma chama profana em seu povo, incendiando suas paixões e sentimentos corruptos; mas não os tornará melhores, nem os conduzirá um passo sequer para mais perto do céu, mas em passos largos na outra direção.16

 

Sentimentos fortes por Deus, arraigados e moldados pela verdade das Escrituras — esse é o cerne da adoração bíblica.

Por isso, o prazer cristão se opõe apaixonadamente a todas as tentativas de introduzir uma cunha entre o pensamento profundo e o sentimento profundo. Ele rejeita a noção comum de que a reflexão profunda seca o sentimento fervoroso. Ele resiste à idéia de que emoções intensas florescem somente na ausência de doutrina coerente.

Pelo contrário, o prazer cristão está convencido como Edwards de que os únicos sentimentos que engrandecem o valor de Deus são os que vêm da compreensão genuína da sua glória. Se o banquete da adoração está rareando, é porque o povo está passando fome da Palavra de Deus (Am 8.11, 12).

A forma da adoração

Conclui-se que as formas de adoração deveriam proporcionar duas coisas: canais para a mente apreender a verdade da realidade de Deus e canais para o coração responder à beleza dessa verdade — isso é, formas de acender os sentimentos com verdade bíblica e formas de expressar os sentimentos com paixão bíblica.

Naturalmente, formas boas fazem as duas coisas. Bons sermões, hinos e orações expressam e inspiram a adoração. E o fazem melhor quando buscam deliberadamente o prazer e, por isso, são centradas em Deus.

Veja a pregação, por exemplo. John Broadus acertou o alvo quando escreveu, cem anos atrás:

O ministro pode apelar legitimamente ao desejo de felicidade e à sua contrapartida negativa, o temor da infelicidade. Os filósofos [Kant?] que insistem que devemos sempre fazer o que é certo, única e simplesmente porque é certo, nem são filósofos de verdade, porque ou desconhecem grosseiramente a natureza humana [e eu acrescentaria: as Escrituras] ou estão se aventurando em meras especulações fantasiosas.17

Ou veja os hinos! Como eles buscam francamente o prazer! Os hinos são as vozes dos amantes da igreja; e amantes são as pessoas menos voltadas para o dever e mais embriagadas de Deus no mundo.

Jesus, ó alegria dos corações que amam,

Fonte de vida, luz dos homens,

Do melhor prazer que a terra pode dar

Voltamos insatisfeitos para ti.

Bernardo de Claraval

 

Jesus, tesouro sem preço,

Fonte de puro prazer,

Meu mais sincero amigo; Há muito meu coração chora,

Até desfalecer De sede de ti. Sou teu, Cordeiro imaculado,

Sofrerei tudo para possuir-te,

Não desejarei nada além de ti.

Johann Franck

 

Jesus, estou descansando

Na alegria do que tu és;

Estou descobrindo a grandeza

Do teu coração cheio de amor.

Pediste que olhasse para ti,

E tua beleza enche a minha alma,

Porque por teu poder transformador

Curaste o meu ser.

Jean Sophia Pigott

 

E, para as orações da igreja, o que pode ser melhor do que as orações inspiradas (à busca de prazer!) dos salmistas?!

Mais alegria me puseste no coração do que a alegria deles, quando lhes há fartura de cereal e de vinho (SL 4.7).

Regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome (SL 5.11).

Alegrar-me-ei e exultarei em ti; ao teu nome, ó Altíssimo, eu cantarei louvores (SL 9.2).

Eu, porém, na justiça contemplarei a tua face; quando acordar, eu me satisfarei com a tua semelhança (Sl 17.15).

Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu; dentro do meu coração, está a tua lei (SL 40.8).

Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro em mim um espírito inabalável. [...] Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário (SL 51.10, 12).

Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente, a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória. Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam (SL 63.1-3).

Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre (SL 73.25, 26).

 

Quando o povo de Deus — especialmente os que lideram o louvor— começar a orar dessa maneira, buscando o prazer, centrado em Deus, então a forma tanto expressará como inspirará a adoração genuína.

No fim das contas, porém, a forma não é a questão. A questão é se a grandeza de Cristo pode ser vista. A adoração acontecerá quando o Deus que disse "Das trevas resplandecerá a luz" brilhar em nosso coração para nos dar "a iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo" (2Co4.6).

Temos de ver e sentir a grandeza incomparável do Filho de Deus. Incomparável porque nele se encontram glória infinita e humildade sem limite, majestade infinita e mansidão transcendente, reverência mais profunda diante de Deus e igualdade com Deus, dignidade infinita do bem e sublime paciência para sofrer o mal, domínio supremo e obediência extrema, auto-suficiência divina e confiança infantil.18

A ironia da nossa condição humana é que Deus nos pôs ao alcance da vista dos Himalaias da sua glória em Jesus Cristo, mas nós preferimos baixar as venezianas do nosso chalé e mostrar transparências do pico do Jaraguá — mesmo na igreja. Contentamo-nos em continuar fazendo bolinhos de areia na favela porque não conseguimos imaginar o que significa a oferta de férias na praia.

Uma exortação e uma experiência

Termino este capítulo com uma exortação e uma experiência. Não deixe sua adoração reduzir-se ao mero cumprimento de um dever. Não deixe a admiração e maravilha infantil ser abafada por conceitos não bíblicos de virtude. Não deixe a paisagem, a poesia e a música do seu relacionamento com Deus encolher e morrer. Você tem capacidade de alegrar-se a tal ponto que nem imagina. Ela foi-lhe dada para proporcionar-lhe prazer em Deus. Ele pode despertá-la, não imporia quanto tempo tenha estado dormente. Ore pelo seu poder vivificador. Abra seus olhos para sua glória. Ela está em toda a sua volta. "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos."

Certa vez peguei um vôo noturno de Chicago para Minneapolis e estava quase sozinho no avião o piloto anunciou que havia uma tempestade sobre o lago Michigan e sobre parte do estado de Wisconsin. Ele estava desviando a rota para o oeste para evitar turbulências. Sentado ali, com os olhos fixos na escuridão total, de repente todo o céu encheu-se de luz, iluminando uma caverna de nuvens brancas uns cinco quilômetros abaixo do avião, que em seguida desapareceram. Um segundo depois, um enorme túnel branco de luz explodiu do norte para o sul por todo o horizonte, para novamente desaparecer na escuridão. Togo os relâmpagos eram quase constantes, e vulcões de luz irrompiam de montanhas de nuvens e detrás de montes brancos distantes. Fiquei ali sentado, balançando a cabeça quase em descrença. "Ó Senhor, se isso são apenas as faíscas da sua espada sendo afiada, como será o dia da sua vinda!" E lembrei-me da palavra de Cristo;

Assim como o relâmpago, fuzilando,

brilha de uma à outra extremidade do céu,

assim será, no seu dia, o Filho do homem

(Lc 17.24).

 

Ainda hoje, relembrando aquela visão, a palavra glória está cheia de sentimento para mim. Agradeço a Deus porque a cada dia ele tem despertado meu coração para desejá-lo, vê-lo e tomar assento no banquete do prazer cristão e adorar o Rei da Glória. O salão de festas é muito grande:

O Espírito e a noiva dizem: Vem! [...] Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da vida" (Ap 22.17).

 

NOTAS

1     Do modo como eu uso as palavras sentimentos, emoções e afetos neste livro, geralmente não há diferença de sentido entre elas. Se, em algum caso, eu quiser dizer algo diferente, darei alguma indicação no contexto. Via de regra eu as uso como sinônimos, com o significado que Jonathan Edwards lhes deu em seu grande Treatise concerning the religious affections (em The works of Jonathan Edwards, vol. 1. Edimburgo, Banner of Truth Trust, 1974, p. 237).

Edwards definiu os afetos como "os exercícios mais vigorosos e sensíveis da inclinação e vontade da alma". Para entender isso, temos de citar alguns trechos breves sobre sua maneira de entender a alma ou mente humana:

Deus dotou a alma de duas capacidades principais. Por uma ela é capaz de perceber e especular, ou discernir e julgar as coisas; esta é chamada entendimento. Pela outra a alma é, de alguma forma, dirigida com respeito às coisas que vê ou considera, ou as contempla — não como espectador indiferente e impassível— gostando ou desgostando, agradando-se ou desagradando-se, aprovando ou rejeitando. Essa capacidade recebe vários nomes; às vezes é chamada inclinação; com respeito às ações determinadas e governadas por ela, chama-se vontade; e a mente, com respeito ao exercício dessa faculdade, com freqüência é chamada coração. [...]

A vontade e os afetos da alma não são duas faculdades: os afetos, em essência, não são distintos da vontade, nem diferem dos meros atos da vontade e da inclinação, só na vivacidade e sensibilidade do exercício. [...]

Como exemplos de afetos, Edwards menciona (entre outros) amor, ódio, desejo, alegria, prazer, tristeza, luto, medo e esperança. Esses são os "mais vigorosos e sensíveis [isto é, sentidos] exercícios da vontade". Edwards está ciente de que há uma relação profunda e complexa entre o corpo e a mente nesse ponto.

Nossa natureza, e as leis da união de alma e corpo, parecem ser tais que jamais, em nenhum caso, há algum exercício vivo e vigoroso da inclinação sem algum efeito sobre o corpo. [...] Contudo, não é o corpo, mas apenas a mente, a sede apropriada dos afetos. O corpo humano não é mais capaz de ser realmente objeto de amor ou ódio, alegria ou tristeza, medo ou esperança, do que o corpo de uma árvore, ou do que o mesmo corpo humano é capaz de pensar e compreender. Como é apenas a alma que tem idéias, é apenas a alma que se agrada ou desagrada de suas idéias. Como é apenas a alma que pensa, somente a alma ama ou odeia, se alegra ou se entristece com o que pensa.

A evidência bíblica disso é o fato de que Deus, que não tem corpo, mesmo assim tem muitos afetos. Filipenses 1.23 e 2Coríntios 5.8 também ensinam que, após a morte do cristão e antes da ressurreição do corpo, ele está com o Senhor e é capaz de sentir alegrias "muito melhores" do que as que conhecemos aqui.

2 E. J. Carnell, Christian commitment. Nova York, Macmillan, 1967, p. 160-161. Todo o livro de Carnell reflete essa ênfase (p. 162, 176, 196, 206, 213, 222, 289, 301). Veja este trecho profundo da p. 222:

Quanto mais fazemos da retidão  um alvo a ser alcançado com empenho, mais nos afastamos da realização moral, porque a realização moral é algo espontâneo, afetivo. O amor tem seu senso próprio de compulsão. Ele sobe com as asas da lei do espírito da vida. Quando temos de ser motivados por necessidade racional ou legal, o amor dá lugar a projeção, interesse e cálculo.

Digamos que uma mãe acorre para ajudar seu filho aterrorizado. Ela age por amor espontâneo. Ela ficaria ofendida até pelo comentário de que deve ter ajudado seu filho por um senso legal de dever. [...]

Empenho moral é um paradoxo porque jamais iremos amar a Deus sem fazer um esforço consciente; e, mesmo assim, por termos de almejar a retidão legal, provamos que nunca seremos retos. Se nossos afetos são fruto do ambiente moral e espiritual, devemos cumprir a lei com a mesma necessidade inconsciente com que respiramos.

O paradoxo talvez possa ser ilustrado com um pintor que se propôs tentar ser grande. Se não se esforçar, nunca será nem mesmo um artista pequeno, muito menos grande. Todavia, ao tornar a genialidade um alvo a ser buscando deliberadamente, ele prova que não é e nunca será um gênio. Um grande artista é grande sem tentar ser grande. Suas habilidades desabrocham como as pétalas de uma rosa exposta ao sol. A genialidade é um dom de Deus. É fruto, não trabalho.

O mesmo acontece com a adoração!

3     De uma carta a Vanauken, em seu livro A severe mercy. Nova York, Harper and Kow, 1977, p. 189.

4     O prazer cristão sabe que a consciência de Si mesmo mata a alegria e, assim, mata a adoração. No momento em que você volta seus olhos para Si mesmo e se torna ciente de experimentar alegria, ela se foi. O cristão que busca o prazer sabe que o segredo da alegria é esquecer-se de Si mesmo. Sim, vamos ao museu pela alegria de ver pinturas. Mas o conselho do prazer cristão é: ponha toda a sua atenção nos quadros e não em suas emoções, ou você arruinará toda a experiência. Por isso, na adoração deve-se estar voltado radicalmente para Deus, não para nós mesmos.

5     Citado em E. M. Bounds, The weapon of prayer. Grand Rapids, Baker Book House, 1971, p. 136.

6     Christian commitment, p. 213.

7     Christian commitment, p. 213-214.

8     C. S. Lewis, Peso de glória. São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 11-12.

10

'Citado em Virgínia Stem Owens, "Seeing Christians in red and green as well as black and white". Christianity Today, 2 de setembro de 1983, vol. 27, n° 13, p. 38. Por exemplo, Carl Zystra escreveu (em "Just dial the Lord". The Reformed Journal, outubro de 1984, p. 6): "A questão é se a adoração deve realmente ser um momento de realização e prazer pessoal ou, acima de tudo, de serviço e honra a Deus, um sacrifício de louvor". Quando se coloca a questão nesses termos, não se pode responder a ela com veracidade. Ela ficou enganosa. É claro que a adoração é uma hora de honrar a Deus. Porém matamos essa possibilidade ao advertir as pessoas a não buscar seu próprio prazer. Devemos dizer-lhes a cada dia que busquem seu próprio prazer em Deus!

11 For the intellectual. Nova York, Signet, 1961, p. 32.

12    Sally Fitzgerald (ed.), The habit of being. Nova York, Farrar, Straus, Giroux, 1979, p. 126.

13    Citado em E. H. Faust e T. H. Johnson (eds.), Jonathan Edwards: sekctions. Nova York, Hill and Wang, 1962, p. xviii.

14    Jonathan Edwards, Some thoughts concerning the revival, em E. E. GOEN, The Great Awakening. New Haven, Yale University Press, 1972, p. 387.

15    Treatise concerning the religious affections, p. 238.

16    "The true excellence of a Gospel minister", em The works of Jonathan Edwards, vol. 2, p. 958.

17    John Broadus, On the preparation and delivery of sermons, 4a ed., revisada por Vernon Stanfield. Nova York, Harper and Row, 1979, p. 117.

18    Esses elementos dispostos em pares são de um sermão de Jonathan Edwards intitulado "The excellence of Christ". Nele Edwards medita sobre a imagem de Cristo em Apocalipse 5.5, 6 tanto como o Leão de Judá quanto como o Cordeiro que foi morto. O sermão está em The works of Jonathan Edwards, vol. 1, p. 680s.

 

 

Em certo sentido, a pessoa mais benevolente e generosa do mundo busca sua

própria felicidade ao fazer o bem aos outros, porque põe sua felicidade no bem deles.

Sua mente dilata-se para, por assim dizer, recebê-los dentro, de Si mesmo. Por isso,

quando eles estão felizes, ela sente o mesmo; participa com eles e é feliz na felicidade

deles. Isso está tão longe de ser incoerente com a liberdade da beneficência que, pelo

contrário, a benevolência e a bondade fazem parte dela.

Jonathan Edwards

 

 

Deus ama a quem dá com alegria.

Apóstolo Paulo

 

 

 

Capitulo 4.
Amor

O  Esforço do Prazer Cristão

 

Argumentei até aqui que a benevolência desinteressada em relação a Deus é maligna. Se você se aproxima de Deus por dever, oferecendo-lhe a recompensa da sua comunhão em vez de estar sedento pela recompensa da comunhão dele, então você está se exaltando acima de Deus, como benfeitor dele, rebaixando-o a um beneficiário necessitado — e isso é maligno.

A única maneira de glorificar o Deus todo-suficiente na adoração é ir até ele porque "em sua presença há plenitude de alegria, na sua destra, delícias perpetuamente" (SL 16.11). Essa tem sido a questão principal até aqui, e podemos chamá-la de busca do prazer cristão vertical. Entre o ser humano e Deus, no eixo vertical da vida, a busca do prazer não é apenas tolerável — ela é obrigatória: "Agrada-te do Senhor!" O principal propósito do ser humano é glorificar a Deus ao alegrar-se nele para sempre.

O que, contudo, podemos dizer agora da busca do prazer cristão no plano horizontal? O que dizer do nosso relacionamento com outras pessoas? Será que a benevolência desinteressada é o ideal entre as pessoas? Ou é a busca do prazer apropriada e até obrigatória para todo tipo de amor humano que agrada a Deus?

A resposta deste capítulo é que a busca do prazer é uma motivação essencial para toda boa ação. Ou, em outras palavras, se você objetiva abandonar a busca do prazer pleno e duradouro, você não pode amar as pessoas ou agradar a Deus.

Será que o amor busca o que é seu?

Isso vai custar um pouco para explicar e defender! Peço-lhe que seja paciente e aberto. Estou remando contra a correnteza de um rio muito reverenciado, neste capítulo. Certa vez, depois de pregar sobre isso, um professor de filosofia escreveu-me uma carta com a seguinte crítica:

Não é esse o argumento da moralidade, de que devemos fazer o bem porque é o bem? [...] Sugiro que devemos fazer o bem e nos portar virtuosamente porque isso e bom e virtuoso; que Deus o abençoará e nos fará felizes é uma conseqüência, mas não a motivação para fazê-lo.

 

Outro escritor popular diz:

Para o cristão, a felicidade jamais é um alvo a ser buscado. É sempre a surpresa inesperada de uma vida de serviço.

 

Considero essas citações contrárias à Bíblia e contrárias ao amor, e, no final das contas (apesar de não intencionalmente), desonrosas para Deus.

Sem dúvida vêm-nos passagens à mente que parecem dizer exatamente o oposto do que estou dizendo. Por exemplo, no grande "capítulo do amor" o apóstolo Paulo diz: "O amor não procura os seus interesses" (ICo 13.5). Antes neste mesmo livro ele admoestou a igreja: "Ninguém busque o seu próprio interesse e sim o de outrem. [...] Também eu procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos" (ICo 10.24, 33). Em Romanos 15.1-3 ele diz: "Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos. Portanto, cada um de nós agrade ao próximo no que é bom para a edificação. Porque também Cristo não se agradou a Si mesmo".

Uma ênfase isolada e irrefletida em textos como esses dá a impressão de que a essência da moralidade cristã é libertarmo-nos de todo interesse próprio quando se trata de fazer o bem às outras pessoas. No entanto, há boas razões para concluir que essa impressão é errada. Ela não leva em conta todo o contexto, e certamente não consegue explicar muitos outros ensinos no Novo Testamento.

Veja o contexto de ICoríntios 13, por exemplo. O v. 5 diz que o amor não procura os seus próprios interesses. Porém, será que isso tem um sentido tão absoluto que seria errado gostar de ser amoroso? Primeiro leve em consideração o contexto bíblico amplo.

Devemos ter prazer em ser misericordiosos?

Segundo o profeta Miquéias, Deus nos ordenou não apenas que sejamos misericordiosos, mas que amemos a misericórdia. "Ele te declarou, ó homem, o que é bom e o que é que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus" (Mq 6.8). Em outras palavras, a ordem não é apenas perpetrar atos de misericórdia, mas gostar de ser misericordioso e querer ser misericordioso. Se você gosta de ser misericordioso, como abster-se de satisfazer o próprio desejo de praticar atos de misericórdia? Como abster-se de buscar a própria alegria em atos de amor, quando sua alegria consiste em ser amoroso? Será que a obediência ao mandamento de "amar a misericórdia" significa que você tem de desobedecer ao ensino de ICoríntios 13.5, de que o amor não deve "buscar os seus interesses"?

Não. O contexto mais próximo nos dá várias pistas de que 1Coríntios 13.5 não pretende proibir a busca da alegria de amar. Jonathan Edwards traz o verdadeiro sentido ao dizer que o erro ao qual ICoríntios se opõe não e

... até que ponto [a pessoa] ama sua própria felicidade, mas de pôr sua felicidade onde não deve e de limitar e restringir seu amor, Alguns, apesar de amarem sua própria felicidade, não põem essa felicidade em seu próprio bem restrito, ou no bem limitado a eles mesmos, mas concentram-se no bem comum — que é o bem dos outros, ou o bem que deve ser desfrutado nos outros e pelos outros. [...] E quando se diz que a Caridade não busca o que é seu, temos de compreendê-lo como o bem particular — o bem limitado a Si mesmo.1

 

Será que Paulo admite que não quer ganhar nada?

Um indício de que de fato é isso que Paulo quer dizer é a maneira como ele tenta motivar o amor genuíno no v. 3. Diz ele: "Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará". Se o amor genuíno não se atreve a procurar os seus interesses, não é estranho que Paulo nos adverte que não ter amor nos privará de "proveito"? Mas é isso mesmo que ele está dizendo: "Se você não tiver amor real, não terá ganho real".

Sem dúvida alguém dirá que o proveito é um resultado garantido do amor genuíno, mas se ele for o motivo do amor, então o amor não é verdadeiro. Em outras palavras, é bom que Deus recompense atos de amor, mas não é bom que sejamos atraídos para o amor pela promessa de recompensa. Todavia, se isso é correto, então por que Paulo nos diria no v. 3 que perderemos nossa recompensa se não amarmos de verdade? Se esperar pelo "ganho" de amar arruina o valor moral do amor, é pedagogia muito ruim dizer a alguém que ame para não perder seu "proveito".

Dando a Paulo o benefício da dúvida, não deveríamos dizer que há um tipo de "ganho" pelo qual é errado ser motivado (por isso "o amor não procura os seus interesses"), bem como um tipo de "ganho" pelo qual é correto ser motivado (por isso, "se não tiver amor, nada disso me aproveitará")? Edwards diz que o "proveito" pelo qual é apropriado motivar-se é a felicidade que se obtém pelo ato de amar em si, ou pelo bem conseguido por meio dele.

Será que amor desinteressado pode alegrar-se na verdade?

O segundo indício de que Edwards está na trilha certa  é o v. 6: "O amor não se alegra com a injustiça, mas rejubila-se com a verdade [ou: com o que é correto]". O amor não é uma simples escolha ou um mero ato. Ele envolve as afeições. Ele não faz simplesmente a verdade. Nem meramente escolhe o que é certo. Ele se rejubila no caminho da verdade. Portanto, Miquéias 6.8 não foi mesmo um paralelo forçado: devemos "amar a misericórdia"!

No entanto, se o amor se alegra nas escolhas que faz, não pode ser desinteressado. Não pode ser indiferente à sua própria alegria! Alegrar-se em uma ação significa tirar alegria dela. E essa alegria é "ganho". Pode ser que haja muito mais ganho do que este, ou que essa alegria de fato seja as primícias de uma alegria indestrutível e eterna. A esta altura, porém, o mínimo que podemos dizer é que Paulo não pensa que o valor moral de uma ação de amor é arruinado quando somos motivados a fazê-la pela previsão da alegria que nós mesmos teremos nela e a partir dela. Se fosse assim, então uma pessoa má, que odeia a idéia de amar, poderia praticar o amor puro, pois não tiraria alegria dele, enquanto a pessoa boa, que tem prazer na idéia de amar, não poderia amar pois "ganharia" alegria disso e assim o arruinaria.

Portanto, ICoríntios 13.5 ("o amor não busca os seus interesses") não impede a tese de que a busca do prazer é uma motivação essencial para toda boa ação. Na verdade, de modo surpreendente o contexto apóia isso dizendo que "o amor rejubila-se com a verdade" e indicando que, ao amarmos, devemos tomar cuidado para não perder nosso "proveito" — o ganho de alegria que vem do fato de ser uma pessoa que ama, tanto agora como para sempre.

Se essa é a intenção de Paulo em ICoríntios 13.5, podemos dizer o mesmo de 10.24 e 33. São simples exemplos específicos do princípio básico exposto em 13.5, "o amor não procura os seus interesses". Quando Paulo diz que não devemos buscar nossa vantagem mas a do nosso próximo para que ele seja salvo, ele não diz que não devemos nos alegrar na salvação do nosso próximo.

De fato, Paulo disse àqueles que ele levara a Cristo: "Vocês são a minha alegria e meu motivo de satisfação" (lTs 2.19, blh). Em outro lugar ele disse: "Desejo de todo o coração que o meu próprio povo seja salvo. E peço a Deus em favor deles" (Rm 10.1).

Isso não é a voz da benevolência desinteressada. A salvação de outros era a alegria e a paixão da sua vida! Quando negava confortos a Si mesmo para isso, ele era um hedonista cristão, não um estóico cumpridor de deveres. Portanto, a lição de ICoríntios 10.24 e 33 é que não devemos considerar nenhum conforto pessoal uma alegria maior do que a alegria de ver nossos esforços levarem à salvação de outra pessoa.

Esse também é o sentido de Romanos 15.1-13, em que Paulo diz que não devemos agradar a nós mesmos mas nosso próximo, para o bem dele e para sua edificação. Essa lambem é uma aplicação do princípio de que "o amor não procura os seus interesses". Ele não quer dizer que não devemos buscar a alegria de edificar os outros, mas que devemos deixar essa alegria nos libertar da escravidão aos prazeres pessoais que nos tornam indiferentes ao bem dos outros. O amor não procura sua alegria própria, limitada, mas o bem — a salvação e edificação— dos outros.2

Assim começamos a amar do jeito que Deus ama. Ele ama porque gosta de amar. Não procura ocultar de Si mesmo a recompensa do amor para que sua ação não seja arruinada pela alegria que se espera que venha dela.

Eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque dessas coisas me agrado, diz o Senhor (Jr 9.24).

 

Amor é mais do que ações

Passamos agora da defesa ao ataque. Há textos que parecem ser problemáticos, mas muitos outros apontam positivamente para a verdade do amor cristão. Podemos tomar ICoríntios 13.3 como ponto de partida: "Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará". Esse texto é muito incisivo. Foi Jesus mesmo quem disse: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor de seus amigos" (Jo 15.13). Como pode Paulo dizer que dar a vida pode ser uma ação sem amor?

Uma coisa é certa: não se pode dizer que o amor é o mesmo que ações sacrificiais! Ele não é o mesmo que qualquer ação! Isso é um forte antídoto para o ensino comum de que amor não é o que você sente mas o que você faz. O que há de bom nesse ensino popular é a intenção dupla de mostrar 1) que meros sentimentos calorosos jamais podem substituir atos reais de amor (Tg 2.16; 1Jo 3.18) e 2) que se devem fazer esforços de amor mesmo na ausência da alegria que se gostaria de ter. Mas é desatenção e inexatidão sustentar essas duas verdades dizendo que amor é simplesmente o que você faz e não o que você sente.

A própria definição de amor em ICoríntios refuta essa concepção estreita. Por exemplo, Paulo diz que o amor não arde em ciúmes, não se exaspera, rejubila-se na verdade e espera todas as coisas (13.4-7). Tudo isso são sentimentos! Se você sente coisas como ciúme e irritação maligna, você não está amando. E se você não sente coisas como alegria na verdade e esperança, você não está amando. Em outras palavras, sim, amor é mais que sentimentos; mas não, amor não é menos que sentimentos.

Isso pode ajudar a entender a afirmação contundente de que você pode dar seu corpo para ser queimado e mesmo assim não ter amor. É evidente que uma ação não se qualifica como amor se não incluir a motivação correta. Mas será que a disposição de morrer não é um sinal de boa motivação? Você responderia que sim se a essência do amor fosse o desinteresse. Mas alguém poderia dizer que o que arruinou esse ato de auto-sacrifício de amor aparente foi a intenção de herdar a recompensa após a morte ou de deixar uma memória nobre sobre a terra.

Isso pode ser parte da resposta. Mas não é tudo. Não distingue que tipo de recompensa após a morte pode ser um alvo apropriado numa ação de amor (se é que há alguma!). Nem descreve que sentimento, se é que há algum, deve acompanhar uma "ação" externa de amor, para que seja realmente amorosa.

Para responder a essas perguntas temos de fazer mais uma: o que o amor pelas pessoas tem que ver com nosso amor por Deus e sua graça para conosco? Poderia ser que a razão por que alguém daria seu corpo para ser queimado sem ter amor é que sua ação não tem nenhuma relação com um amor genuíno por Deus? Poderia ser que, no conceito de Paulo, o amor de Paulo é autêntico apenas à medida que é uma extensão do amor vertical por Deus? De fato, seria estranho se o apóstolo que disse "Tudo o que não provém de fé é pecado" (Rm 14.23) pudesse definir o amor genuíno sem uma referência a Deus.

Amor é transbordar de alegria em Deus

2Coríntios 8.1-4 mostra que Paulo pensa no amor genuíno somente em relação com Deus:

Irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos.

 

A razão por que Paulo queria que os Coríntios soubessem dessa notável obra de graça entre os macedônios é que ele espera que a mesma coisa seja verdade entre eles. Ele está viajando entre as igrejas recolhendo recursos para os santos pobres em Jerusalém (Rm 15.26; ICo 16.1-4). Escreveu 2Coríntios 8 e 9 para motivar os Coríntios a serem generosos. Crucial para o nosso propósito é observar que, em 2Coríntios 8.8, ele diz que isso é um teste do amor deles: "Não vos falo na forma de mandamento, mas para provar, pela diligência de outros, a sinceridade do vosso amor".

A Implicação clara desse versículo (especialmente a ênfase no "vosso" amor) é que a generosidade dos macedônios é um modelo de amor que os Coríntios devem copiar. Ao contar do amor sincero dos macedônios, Paulo objetiva despertar também os Coríntios para o amor genuíno. Portanto, temos aqui um caso de teste, para ver como o amor de lCoríntios 13 é na vida real. Os macedônios tinham renunciado seus bens a exemplo de ICoríntios 13.3 ("ainda que eu distribua todos os meus bens"). Aqui, porém, há amor verdadeiro, enquanto ali não havia nenhum amor. O que torna a generosidade dos macedônios um ato genuíno de amor?

A natureza do amor genuíno pode ser vista em quatro coisas:

Primeira, é uma obra da graça divina. "Irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia" (2Co 8.1). A generosidade dos macedônios não era de origem humana. Apesar de esses três versículos dizerem que eles "se mostraram voluntários", a disposição deles era uma dádiva de Deus — uma obra da graça.

Pode-se ver essa mesma combinação da graça soberana de Deus com o resultado da voluntariedade humana em 2Coríntios 8.16, 17:

Graças a Deus, que pôs no coração de Tito a mesma solicitude por amor de vós; porque [...] partiu voluntariamente para vós outros.

 

Deus a pôs no coração de Tito. E ele vai voluntariamente. A disposição é uma dádiva — uma obra da graça divina.

Segunda, essa experiência da graça de Deus encheu os macedônios de alegria. "No meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade" (2Co 8.2). Veja que a alegria deles não se devia ao fato de que Deus os fizera prosperar financeiramente. Ele não fizera! Em "profunda pobreza" eles tinham alegria. Por isso essa alegria era alegria em Deus — na experiência da sua graça.

Terceira, a alegria deles na graça de Deus transbordou em generosidade para atender as necessidades de terceiros. "Sua abundância de alegria [...] superabundou em grande riqueza da sua generosidade" (2Co 8.2). Portanto, a liberalidade expressa horizontalmente em relação às pessoas foi um transbordar da alegria na graça de Deus.

Quarta, os macedônios imploraram pela oportunidade de sacrificar seus modestos recursos pelos santos em Jerusalém. "Eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos (2Co 8.3, 4). Em outras palavras, a maneira pela qual a alegria deles em Deus transbordou foi na alegria de dar. Eles queriam dar. Nisso estava a alegria deles!

Agora podemos dar uma definição de amor que leva Deus em conta e também inclui os sentimentos que devem acompanhai" os atos externos de amor: o amor é o transbordar da alegria em Deus que atende alegremente as necessidades dos outros.

Paulo não colocou os macedônios como modelo de amor apenas porque se sacrificaram para suprir as necessidades dos outros. O que ele destaca é como eles adoraram fazer isso (lembre-se de Mq 6.8!). Foi o transbordar de alegria! Eles "pediram com muitos rogos" que pudessem dar. Encontraram seu prazer em canalizar a graça de Deus através da sua pobreza para a pobreza em Jerusalém. É simplesmente de deixar boquiaberto! ...

É por isso que alguém pode dar seu corpo para ser queimado e não ter amor. Amor é o transbordar de alegria em Deus! Não é obrigação por amor à obrigação, nem direito por amor ao direito. Não é o abandono resoluto do bem próprio para ter em vista apenas o bem de outra pessoa. É primeiro uma experiência profundamente satisfatória da plenitude da graça de Deus, e depois a experiência duplamente satisfatória de compartilhar essa graça com outra pessoa.

Quando os macedônios empobrecidos pediram que Paulo lhes concedesse o privilégio de dar dinheiro para outros santos pobres, podemos concluir que é isso o que eles querem fazer, não apenas devem ou têm de fazer; eles realmente anseiam por fazê-lo. É sua alegria — uma extensão da sua alegria em Deus. Estão realmente "negando a Si mesmos" prazeres ou confortos que poderiam ter com o dinheiro que estão entregando, mas a alegria de estender a graça de Deus é uma recompensa bem melhor do que qualquer coisa que o dinheiro poderia comprar. Os macedônios descobriram o esforço do prazer cristão: amor! É o transbordar da alegria em Deus que supre alegremente as necessidades dos outros.

Deus ama a quem dá com alegria

Em 2Coríntios 9.6, 7 temos uma confirmação de que estamos no caminho certo. Paulo continua a motivar os Coríntios a serem generosos. Diz ele:

Aquele que semeia pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não por tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria.

 

Eu entendo que isso quer dizer que Deus não se agrada quando as pessoas agem com benevolência mas não o fazem com alegria. Quando as pessoas não têm prazer (a idéia de Paulo é "júbilo"!) em suas ações de serviço, Deus não tem prazer nelas. Ele ama a quem dá com alegria, a quem serve com alegria. Que tipo de alegria? Com certeza a maneira mais segura de responder a essa pergunta é lembrar que tipo de alegria motivou os macedônios a serem generosos. Foi o transbordar da alegria na graça de Deus. Por isso, o doador que Deus ama é aquele cuja alegria nele transborda "com júbilo" na generosidade em relação aos outros.

Talvez esteja ficando claro por que uma parte da tese deste capítulo é que, se você tenta abandonar a busca da sua alegria plena e duradoura, não pode amar as pessoas ou agradar a Deus. Se amor é o transbordar da alegria em Deus que supre alegremente as necessidades dos outros, então abandonar a busca dessa alegria é abandonar a busca do amor! E se Deus se agrada de doadores jubilosos, então abandonar a busca dessa alegria põe você em um rumo que não compraz a Deus. Se para nós não faz diferença se praticamos uma boa ação alegremente, então estamos sendo indiferentes ao que agrada a Deus. Porque Deus ama a quem dá com alegria.

Por essa razão, é essencial que sejamos cristãos que buscam o prazer no nível horizontal em nosso relacionamento com outras pessoas, e não apenas no eixo vertical do nosso relacionamento com Deus. Se amor é o transbordar da alegria em Deus que atende alegremente as necessidades de outras pessoas, e se Deus ama tais doadores alegres, então essa alegria em dar é um dever cristão, e o esforço de não buscá-la é pecado.

Quem ama se alegra na alegria da pessoa amada

Antes de sairmos de 2Coríntios, veja mais uma passagem cheia de implicações para a natureza do amor. Em 2Coríntios 1.23-2.4, Paulo escreve sobre uma visita que não fez e uma carta penosa que teve de enviar. Ele explica os sentimentos mais profundos do seu coração com tudo isso:

Eu, porém, por minha vida, tomo a Deus por testemunha de que, para vos poupar, não tornei ainda a Corinto; não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas porque somos cooperadores de vossa alegria; porquanto, pela fé, já estais firmados. Isto deliberei por mim mesmo:  não voltarei a encontrar-me convosco em tristeza. Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que está entristecido por mim mesmo? E isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa. Porque, no meio de muitos sofrimentos e angústias de coração, vos escrevi, com muitas lágrimas, não para que ficásseis entristecidos, mas para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida.

 

Observe como o fato de Paulo buscar a alegria deles e a sua própria tem relação com o amor. No v. 2 ele dá a razão por que não fez outra visita dolorosa a Corinto: "Porque, se eu vos entristeço, quem me alegrará, senão aquele que está entristecido por mim mesmo?" Em outras palavras, a motivação de Paulo aqui é preservar a sua própria alegria. Ele está dizendo:

"Se eu destruir a alegria de vocês, a minha também se destruirá. Por quê? Porque a alegria deles é exatamente o que lhe dá alegria!

Em 2Coríntios 1.24 fica claro que a alegria que está em vista é a alegria da fé. É a alegria de conhecer e descansar na graça de Deus — a mesma alegria que levou os macedônios a serem generosos (2Co 8.1-3). Quando essa alegria existe em abundância em seus convertidos, Paulo sente grande alegria pessoalmente. E ele lhes diz sem constrangimento que a razão por que não quer roubar-lhes a alegria é que isso o privaria da alegria dele. É assim que fala um cristão que busca o prazer.

No v. 3 Paulo diz a razão por que lhes enviou uma carta penosa: "Isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa". Aqui sua motivação é a mesma, exceto num ponto. Ele diz que não queria ser entristecido. Ele quer alegria, não sofrimento. Ele é um cristão que busca o prazer! Mas aqui ele vai um passo além do v. 2. Ele diz que a razão por que quer alegria e não sofrimento é que tem confiança de que a alegria dele também é a deles: "Confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa".

Portanto, o v. 3 é o inverso do v. 2. No v. 2 ele afirma que a alegria deles é também a sua; isto é, quando eles estão alegres ele se sente feliz com a alegria deles. E no v. 3 ele afirma que a sua alegria é a alegria deles; isto é, quando ele está feliz eles se sentem felizes com a alegria dele.

Depois, o v. 4 torna a relação com o amor explícita. Ele diz que a razão por que lhes escreveu foi "para que conhecêsseis o amor que vos consagro em grande medida". Então, o que é amor? O amor existe em abundância entre nós quando a sua alegria é minha e a minha alegria é sua. Não estou amando apenas porque busco sua alegria, mas porque a busco como minha.

Digamos que eu fale a um dos meus filhos: "Seja bonzinho com seu irmão, ajude-o a arrumar o quarto, tente fazê-lo sentir-se contente, não infeliz". Como seria se ele ajudasse a limpar o quarto, mas resmungasse o tempo todo e transpirasse descontentamento? Haveria virtude em seu esforço? Não muito. O que está errado é que a felicidade do seu irmão não é a sua. Ao ajudar seu irmão, ele não está buscando sua própria alegria na felicidade do seu irmão. Ele não está agindo como um cristão que vive para o prazer. Seu esforço não é o esforço do amor. É o esforço do legalismo — ele age por mera obrigação, para não ser castigado.

O amor se compraz em causar e contemplar alegria nos outros

Agora pense na relação entre as ilustrações do amor nos capítulos 2 e 8 de 2Coríntios. No capítulo 8, o amor é o transbordar da alegria em Deus que supre alegremente as necessidades dos outros. E o impulso de uma fonte que transborda. Ela tem sua origem na graça de Deus, que transborda livremente porque tem prazer em encher o que está vazio. O amor participa da natureza dessa graça, porque também tem prazer em transbordar livremente para atender as necessidades dos outros.

No capítulo 2, amor é o que existe entre as pessoas que encontram sua alegria na alegria do outro. Isso está em contradição com o amor do capítulo 8, em que o amor vem de Deus e transborda para os outros? No capítulo 2 a impressão é que a alegria vem da dos outros, não de Deus. Que relação essas duas maneiras de falar do amor têm entre si?

Penso que a resposta é que o amor não apenas se compraz cm causar alegria nos que estão vazios (2Co 8) mas também em contemplar a alegria nos que estão cheios (2Co 2). E essas duas alegrias de forma alguma se contradizem. A graça de Deus se compraz em conceder arrependimento (2Tm 2.25) e regozija-se com um pecador que se arrepende (Lc 14.7). Por isso, quando nosso coração está cheio de prazer na graça de Deus, não apenas desejamos causar alegria nos outros, mas também a contemplamos quando existe neles.

Portanto, não é incoerência dizer que o amor é o transbordar da alegria em Deus que atende com satisfação as necessidades dos outros, e dizer que o amor é ter sua alegria na alegria do outro. Se o amor é o esforço do cristão que se compraz em gerar sua alegria nos outros, então ele também é a satisfação do cristão que se compraz em ver sua alegria gerada nos outros.1

O amor chora

As palavras de Paulo em 2Coríntios 2 levantam outra questão. No v. 4 ele diz que escreveu "em muita tribulação e angústia do coração, com muitas lágrimas". Será que isso é um coração de amor? Insisti tanto que amor é o transbordar de alegria, que alguém poderia pensar que não há lugar para tristeza ou angústia no coração de amor, nem lugar para lágrimas em sua face. Isso seria bastante errado.

O contentamento de um cristão que busca o prazer não é uma serenidade de estilo budista, insensível às dores dos outros. É um contentamento profundamente insatisfeito. Ele está constantemente faminto por mais do banquete da graça de Deus. E mesmo a medida de contentamento que Deus concede contém um impulso insaciável para expandir-se para outros (2Co 8.4;1Jo 1.4). A alegria cristã revela-se como contentamento insatisfeito sempre que detectar uma necessidade humana. Ela começa a expandir-se em amor para suprir essa necessidade e produzira alegria da fé no coração da outra pessoa. Mas como freqüentemente há um lapso de tempo entre nossa percepção da necessidade de alguém e nosso prazer final com a sua alegria restaurada, há lugar para lágrimas nesse intervalo. O choro da compaixão é o choro da alegria impedida de estender-se até o outro.

O amor mantém cm mente a recompensa do amor

Outra experiência triste aparece quando Paulo revela seu compromisso com o prazer cristão. Em Atos 20 ele se reúne pela última vez com os líderes da igreja em Éfeso. Há muitas lágrimas e abraços quando ele encerra seu discurso de despedida (At 20.37). Essas lágrimas, porém, apenas acentuam a grande afeição que os líderes têm por aquele que lhes ensinou a alegria do ministério.

No v. 35, Paulo diz: "Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber". A última coisa que Paulo deixou ecoando nos ouvidos deles na praia em Mileto foi a incumbência ministerial do prazer cristão. "Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber."

A maioria das pessoas não sente a ênfase no prazer dessas palavras porque não medita no significado das palavras "e recordar". Paulo está dizendo que duas coisas são necessárias: 1) ajudar os fracos e 2) lembrar que Jesus disse que quem dá é mais feliz do que quem recebe. Por que essas duas coisas são necessárias? Por que não apenas ajudar os necessitados? Por que também devemos recordar que dar traz bênçãos?

A maioria dos cristãos hoje concorda que dar traz bênçãos, mas não que devemos nos recordar disso. A sabedoria cristã popular diz que a bênção virá como resultado de dar, mas se você mantém esse fato em mente como motivação, isso arruinará o valor moral do seu gesto e fará de você um mercenário. A palavra "recordar" em Atos 20.35 é um grande obstáculo a essa sabedoria popular. Por que Paulo diria aos líderes da igreja que tivessem em mente os benefícios do ministério, se isso transformasse ministros em mercenários?

A resposta do prazer cristão é que é preciso ter em mente as verdadeiras recompensas do ministério, exatamente a fim de não nos tornarmos mercenários. C. S. Lewis vê isso com clareza:

Não precisamos incomodar-nos com os incrédulos, quando dizem que essa promessa de recompensa transforma a vida cristã num empreendimento mercenário. Há vários tipos de recompensa. Existe uma recompensa que não se relaciona com os esforços que você faz para conquistá-la4 e é inteiramente alheia aos desejos que devem acompanhar esses esforços. O dinheiro não é a recompensa do amor; por isso chamamos de mercenário o homem que casa por interesse. Mas o casamento é a recompensa lógica da pessoa que ama, e essa pessoa não é mercenária por desejá-lo. O general que se distingue em combate na esperança de ganhar um título de nobreza é mercenário; o que se bate pela vitória não o é, visto que a vitória está para a batalha como o casamento para o amor. As verdadeiras recompensas não se adicionam simplesmente a atividade que premiam, são a própria atividade em consumação.''

 

Não vejo como alguém pode honrar a palavra "recordar" em Atos 20.35 enquanto continua considerando errado buscar a recompensa de alegria no ministério. Pelo contrário, Paulo acha que é necessário manter a alegria com firmeza diante dos olhos. Essa é a última coisa e talvez a mais importante que ele tem a dizer aos líderes da igreja de Éfeso antes de partir, "lembrem-se! Quem dá é mais feliz do que quem recebe."

Quem ama gosta de ministrar

Paulo não é o único apóstolo que aconselhou os líderes das igrejas a recordar e buscar a bênção do ministério. Pedro escreve (lPe 5.1, 2):

Aos presbíteros, que estão entre vós, admoesto eu, que sou também presbítero com eles: [...] Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto.

 

Em outras palavras, "Deus gosta de pastores alegres". Observe como essas exortações recomendam o prazer. Pedro não exorta os pastores a simplesmente fazerem o seu trabalho, venha o que vier. Perseverar nos momentos difíceis é bom. É essencial! Mas isso não é tudo o que se ordena aos pastores. Temos a ordem de gostar do nosso trabalho!

Pedro condena duas motivações. Uma é "por força". Não façam seu trabalho por obrigação. Isso quer dizer que o impulso deve vir alegremente de dentro, não opressivamente de fora. Pressão dos pais, expectativas da congregação, medo do fracasso ou da repreensão divina — esses não são bons motivos para permanecer no ministério pastoral. Deve haver disposição interior. Devemos querer fazer o ministério. Ele deve ser a nossa alegria. A alegria no ministério é uma obrigação! — um fardo leve e um jugo suave.

A outra motivação que Pedro condena é a ganância por dinheiro: "Não por torpe ganância, mas de ânimo pronto". Se o dinheiro é a motivação, sua alegria não virá do ministério mas das coisas que você poderá comprar com seu salário. Isso é o que Lewis chama de ser mercenário. A "ânsia" pelo ministério não deve vir da recompensa extrínseca em dinheiro, mas da recompensa intrínseca de ver a graça de Deus fluir através de você para os outros.

João dá um bom exemplo disso em 3João 4: "Não tenho maior gozo do que este, o de ouvir que os meus filhos andam na verdade". Quando esse tipo de recompensa cria uma disposição alegre no ministério, Cristo é honrado (pois ele é a "verdade" que sua congregação seguirá) e eles são amados (pois não podem ter maior benefício do que a graça de seguir a Cristo).

Assim, a ordem do apóstolo Pedro é buscar alegria no ministério. Isso não é opcional. Não é um mero resultado inesperado. É uma obrigação. Dizer que se é indiferente ao que o apóstolo ordena experimentar significa ser indiferente à vontade de Deus. E isso é pecado.

Phillips Brooks, pastor episcopal em Boston cem anos atrás, captou o espírito do conselho de Pedro aos pastores:

Penso, mais uma vez, que é essencial ao sucesso do pregador que ele goste totalmente do seu trabalho. Estou falando do exercício prático dele, não apenas da sua idéia. Ninguém que tem repulsa pelos detalhes da sua tarefa pode desincumbir-se bem dela constantemente, por mais cheio que esteja do seu espírito. Ele pode tomar um impulso corajoso e dominá-la apesar da má vontade, mas não conseguirá trabalhar nela ano após ano, dia após dia. Por isso, considere não apenas um prazer perfeitamente legítimo, mas um elemento essencial do seu poder o fato de conseguir sentir um prazer singelo no que você tem para fazer como ministro, ao escrever com fervor, ao falar com brilho, ao estar diante de pessoas e motivá-las, ao ter contato com os jovens. Quanto mais completo for o seu prazer, melhor você o fará.

Isso vale totalmente para a pregação. Sua maior alegria está na grande ambição que lhe é proposta, de glorificar o Senhor e salvar pessoas. Nenhuma outra alegria na terra se compara com essa. O ministério que não sente essa alegria está morto. Porém, por trás dessa maior das alegrias, em humilde uníssono com ela, do mesmo modo como o corpo saudável vibra de simpatia com os pensamentos profundos e os desejos puros da mente e da alma, os melhores ministros sempre estiveram conscientes de outro prazer inerente ao próprio desempenho do trabalho. Ao lermos sobre a vida de todos os pregadores mais eficientes do passado, ou quando encontramos os que são pregadores poderosos da Palavra hoje, sentimos com que certeza e profundidade o próprio exercício do seu ministério lhes dá prazer.6

 

O amor não é fácil de agradar 

Será que não podemos, então, dizer que o obstáculo a amar outras pessoas, seja pelo ministério pastoral, seja por qualquer outro caminho da vida, é o mesmo obstáculo à adoração, que descobrimos no capítulo 3? O obstáculo que nos impede de obedecer ao primeiro mandamento (vertical) é o mesmo que nos impede de obedecer ao segundo (horizontal). O problema não é que estamos todos tentando agradar a nós mesmos, mas que somos todos muito fáceis de agradar. Não cremos em Jesus quando ele diz que há mais bênção, mais alegria, mais prazer duradouro na vida dedicada a ajudar os outros do que na vida dedicada ao nosso conforto material. E por isso o próprio anseio por satisfação, que deveria nos levar a uma vida simples e a esforços de amor, contenta-se com as cisternas rachadas da prosperidade e do conforto.

A mensagem que precisa ser comunicada aos brados do alto dos prédios dos bancos é esta: Homem secularizado, você está longe de ser hedonista!

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem e onde os ladrões não minam nem roubam (Mt 6.19, 20).

 

Deixe de estar satisfeito com os poucos 5% de rendimento de prazer devorados pelas traças da inflação e pela ferrugem da morte. Invista nas ações de primeira linha, de alto rendimento, com garantia divina no céu. Dedicar a vida a confortos e prazeres materiais é como jogar dinheiro pelo ralo. Investir a vida no esforço do amor rende dividendos de amor insuperáveis e intermináveis.

Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus (Lc 12.33).

 

Essa mensagem é realmente boa nova: Venha para Cristo, em cuja presença há plenitude de alegria e prazeres sem fim. Junte-se a nós no trabalho do prazer cristão. Porque foi o Senhor quem disse: Há mais felicidade em amar do que em viver no luxo!

Quem ama sofre pela alegria

Amar custa caro. O amor sempre inclui algum tipo de autonegação. Ele com freqüência exige sofrimento. Mas o prazer cristão insiste em que o lucro supera a dor. Ele afirma que há raros e maravilhosos espécimes de alegria que florescem apenas no ambiente chuvoso do sofrimento. "A alma não teria arco-íris se o olho não tivesse lágrimas."

A cara alegria do amor é ilustrada várias vezes em Hebreus 10-12. Veja esses três exemplos:

Hebreus 10.32-35

Lembrai-vos, porém, dos dias passados, em que, depois de serdes iluminados, suportastes grande combate de aflições. Em parte fostes feitos espetáculo com vitupérios e tribulações, e em parte fostes participantes com os que assim foram tratados. Porque também vos compadecestes das minhas prisões, e com alegria permitistes o roubo dos vossos bens, sabendo que em vós mesmos tendes nos céus uma possessão melhor e permanente. Não rejeiteis, pois, a vossa confiança, que tem grande e avultado galardão.

 

Baseado em minha pequena experiência com o sofrimento, eu não teria direito em mim mesmo de dizer que algo assim é possível — aceitar com alegria o saque dos bens. Mas a autoridade do prazer cristão não está em mim, está na Bíblia. Não tenho o direito por mim mesmo de dizer: "Alegrai-vos no fato de serdes participantes das aflições de Cristo" (IPe 4.13). Pedro pode fazê-lo porque ele e os outros apóstolos foram torturados por causa do evangelho e "retiraram-se da presença do conselho, regozijando-se de terem sido julgados dignos de padecer afronta pelo nome de Jesus" (At 5.41).

Os cristãos em Hebreus 10.32-35 obtiveram o direito de ensinar-nos sobre o amor caro. A situação parece ter sido essa: nos primeiros dias da sua conversão, alguns deles tinham sido presos por causa da fé. Os outros tiveram de enfrentar uma decisão difícil: Devemos nos esconder e permanecer "seguros", ou devemos visitar nossos irmãos e irmãs na prisão e arriscar nossa vida e nossas propriedades? Eles escolheram o caminho do amor e aceitaram pagar o preço. "Vocês participaram do sofrimento dos prisioneiros. E, quando tiraram tudo o que vocês tinham, vocês suportaram isso com alegria" (blh).

Será que eles saíram perdendo? De forma alguma. Eles perderam bens e ganharam alegria! Eles aceitaram a perda com alegria. Em um sentido eles negaram a Si mesmos. Mas em outro não. Eles escolheram o caminho da alegria. É evidente que esses cristãos foram motivados para o ministério na prisão da mesma maneira que os macedônios (cf. 2Co 8.1 -8) foram motivados a ajudar os pobres. Sua alegria em Deus transbordou em amor pelos outros.

Eles olharam para sua própria vida e disseram: "A tua benignidade é melhor do que a vida" (SL 63.3). Olharam para todas as suas posses e disseram: "Temos uma propriedade no céu que é melhor e dura mais que qualquer uma dessas" (v. 34). Depois olharam um para o outro e disseram:

Se temos de perder Os filhos, bens, mulher,

Embora a vida vá,

Por nós Jesus está,

E dar-nos-á seu reino.

Martinho Lutero

 

Com alegria eles "renunciaram a tudo quanto tinham" (Lc 14.33) e seguiram Cristo para a prisão, para visitar seus irmãos e irmãs. O amor é o transbordar da alegria em Deus que atende as necessidades dos outros.

Hebreus 11.24-26

Para gravar bem a lição, o autor de Hebreus cita Moisés como exemplo desse tipo de prazer cristão. Observe como a motivação é semelhante à dos primeiros cristãos no capítulo 10.

Pela fé Moisés, sendo já grande, recusou ser chamado filho da filha de Faraó, escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus, do que por um pouco de tempo ter o gozo do pecado; tendo por maiores riquezas o vitupério de Cristo do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa.

 

Em Hebreus 10.34 o autor disse que o anseio dos cristãos por uma propriedade melhor e mais duradoura transbordou em amor feliz, que lhes custou suas propriedades. Aqui no capítulo 11, Moisés é um herói para a igreja porque seu prazer na recompensa prometida transbordou em tal alegria que considerou, em comparação, os prazeres do Egito como lixo e dedicou se para sempre ao povo de Deus em amor.

Nada aqui trata de autonegação completa. Ele recebeu olhos para ver que os prazeres do Egito eram "por um pouco de tempo", não eternos. Foi lhe concedido ver que sofrer pela causa do Messias era "maior riqueza do que os tesouros do Egito". Avaliando essas coisas, ele foi induzido a dar a Si mesmo pelo esforço do prazer cristão — o amor. E ele passou o resto dos seus dias canalizando a graça de Deus para o povo de Israel. Sua alegria em Deus transbordou em uma vida de serviço a um povo recalcitrante e carente. Ele escolheu o caminho da alegria máxima, não dos "prazeres transitórios".

Hebreus 12.1, 2

Levantamos acima a questão de o exemplo de Jesus contradizer ou não o princípio do prazer cristão, ou seja, que o amor é o caminho da alegria e que devemos escolhê-lo exatamente por essa razão, para não sermos descobertos recusando obedecer ao Todo-poderoso ou enterrando o privilégio de ser um canal da graça, ou desprezando a recompensa prometida. Hebreus 12.2 parece dizer com muita clareza que Jesus não contrariou esse princípio.

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos com perseverança a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o autor e consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

 

O maior esforço de amor jamais feito foi possível porque Jesus buscou a maior alegria imaginável, que é a alegria de ser exaltado a direita de Deus na assembléia do povo redimido. "... em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz!"

Em 1978 eu estava tentando explicar algumas dessas coisas a uma classe de estudantes universitários. Como de costume, encontrei vários que eram bem céticos. Um dos mais pensativos escreveu-me uma carta para expressar seu desacordo. Como essa é uma das objeções mais sérias levantadas contra o prazer cristão, creio que será útil para outros se eu transcrever aqui a carta de Ronn e minha resposta.

Dr. Piper,

Discordo da sua posição de que quem ama busca seu próprio prazer ou é por ele motivado. Aceito que todos os exemplos que citou são verídicos: o senhor mencionou muitos casos em que a alegria pessoal é aumentada e pode até ser a motivação para alguém amar a Deus ou outra pessoa.

Mas o senhor não pode estabelecer uma doutrina sobre o fato de que algumas evidências a sustentam, enquanto não puder mostrar que nenhuma evidência a contradiz.

Dois exemplos do segundo tipo:

Imagine-se com Jesus no Getsêmani. Ele está para realizar o supremo ato de amor de toda a história. Você anda até ele, decidido a testar a posição que você tem em relação ao prazer cristão. Esse ato supremo de amor não deveria proporcionar grande prazer, abundante alegria? Todavia, o que é que você vê? Cristo está suando terrivelmente, angustiado, chorando. Não é possível encontrar alegria em nenhum lugar. Cristo está orando. Você o ouve perguntando a Deus se não há saída. Ele diz a Deus que o ato iminente será difícil e doloroso ao extremo. Não há um caminho divertido?

Graças a Deus, Cristo escolheu o caminho difícil.

Meu segundo exemplo não é bíblico, apesar de poder ter tirado muitos outros dali. Você já ouviu falar em Dorothy Day? É uma mulher muito idosa que dedicou sua vida a amar os outros, em especial os pobres, deslocados, oprimidos. Sua experiência de amar quando não havia alegria levou-a a dizer isso: "O amor em ação é algo doloroso e assustador".

Não tenho como não concordar com ela.

Eu gostaria de saber que resposta você dá a dá a pensamentos como esses. No fundo, sinto que essa apresentação é simplista. Mas é sincera.

Ronn

 

Respondi a Ronn na mesma semana, em dezembro de 1978. Dorothy Day já morreu, mas preservarei as referências como eram na época. Por acaso, hoje tenho em Ronn um amigo, alguém que pensa a fundo sobre a cosmovisão cristã.

Ronn,

Muito obrigado por seu interesse em ter uma posição bem bíblica nessa questão do prazer cristão — uma posição que faça justiça a todos os dados disponíveis. Esse também é o meu objetivo. Assim, tenho de perguntar se seus dois exemplos (Cristo no Getsêmani e Dorothy Day no serviço doloroso do amor) contradizem ou confirmam minha posição.

1) Vejamos primeiro o Getsêmani. Para que minha tese fique comprovada, tenho de ser capaz de mostrar que, apesar do horror da cruz, a decisão de Jesus de aceitá-la foi motivada por sua convicção de que esse caminho lhe daria mais alegria do que o caminho da desobediência. Hebreus 12.2 diz "... em troca da alegria que lhe estava proposta, [Jesus] suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia". Ao dizer isso, o escritor quer citar Jesus como mais um exemplo, além dos santos de Hebreus 11, de uma pessoa que anseia pela alegria que Deus proporciona e tem tanta certeza de recebê-la que rejeita "o gozo do pecado", que dura "um pouco de tempo" (Hb 11.25), para escolher ser maltratada para não deixar de alinhar-se com a vontade de Deus. Por isso, não é errado dizer que o que sustentou Cristo nas horas escuras do Getsemani foi a esperança da alegria além da cruz.

Isso não diminui a realidade e a grandeza do seu amor por nós, porque a alegria em que ele esperava era conduzir muitos filhos à glória (Hb 2.10). Ele se alegra em nossa redenção, que redunda na glória de Deus. Abandonar a cruz, e com isso a nós e a vontade do Pai, era uma possibilidade tão horrível na mente de Cristo que ele a repeliu e aceitou a morte.

Meu artigo sobre "Satisfação insatisfeita", no entanto lera a esse artigo que Ronn estava reagindo; seu conteúdo foi incorporado nesse capítulo], propõe ainda mais: que em algum sentido muito profundo deve haver alegria no próprio ato de amor, para que este possa agradar a Deus.

Você mostrou claramente que, para isso ser verdade no caso da morte de Jesus, tem de haver uma diferença radical entre alegria e "diversão". Todos nós sabemos que isso é verdade.

Não é justo que você mude de dizer "não há um caminho divertido" no Getsemani para "não é possível encontrar alegria em nenhum lugar". Eu sei que, naqueles momentos em minha vida em que escolhi fazer as boas ações que mais me custaram, senti (com e sob as feridas) uma alegria muito profunda ao fazer o bem.

Eu imagino que, quando Jesus se levantou da sua última oração no Getsêmani com a decisão de morrer, fluiu por sua alma um sentimento glorioso de triunfo sobre a tentação daquela noite. Não dissera ele: "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra" (Jo 4.34)? Jesus gostava de fazer a vontade do Pai assim como nós gostamos de comer. Terminar a obra do Pai era o que o alimentava; abandoná-la seria escolher morrer de fome. Eu acho que houve alegria no Getsêmani quando Jesus foi levado —  não diversão, não prazer sensual, nem riso, na verdade nada que esse mundo pode oferecer. Mas havia, no fundo do coração de Jesus, um sentimento bom de que sua ação estava agradando seu Pai, e que a recompensa que viria superaria toda a dor. Esse sentimento profundamente bom é o que capacitou Jesus a fazer por nós o que ele fez.

(2) Sobre Dorothy Day você afirma: "A experiência por que ela passou de amar (os pobres, deslocados e oprimidos) quando não restava mais alegria levou-a a dizer isto: 'O amor em ação é algo doloroso e assustador'". Tentarei responder de duas formas.

Primeiro, não se precipite concluindo não existir alegria nas coisas "dolorosas e assustadoras". Há alpinistas que passaram noites sem dormir escalando montanhas e que perderam dedos das mãos e dos pés por causa das temperaturas abaixo de zero, vivendo momentos horríveis para alcançar o cume. Eles dizem: "Foi doloroso e assustador". Mas se você lhes perguntar por que o fazem, a resposta sempre será esta: "Há uma alegria na alma que proporciona uma sensação tão boa que compensa todo o sofrimento".

Se isso acontece com alpinistas, o mesmo não pode valer para o amor? Não é uma prova de como somos mundanos em nossa tendência de sentir mais alegria em escalar montanhas do que em superar os precipícios do desamor em nossa vida e sociedade? Sim, o amor com freqüência é algo "doloroso e assustador", mas não vejo como alguém que preza o que é bom e admira Jesus pode deixar de sentir uma grande alegria quando (pela graça) pode amar outra pessoa.

Agora deixe-me abordar a situação de Dorothy Day de outra maneira. Imaginemos que eu seja um dos pobres que ela está tentando ajudar com muito esforço. Creio que poderíamos ter o seguinte diálogo:

—Por que a senhora está fazendo isso por mim, Miss Day?

—Porque eu o amo.

—O que a senhora quer dizer com "eu o amo"? Eu não tenho nada a oferecer. Não sou digno de amor.

—Pode ser. Mas não há formulários a preencher para receber o meu amor. Aprendi isso de Jesus. O que quero dizer é que eu quero ajudá-lo porque Jesus me ajudou muito.

—Então a senhora está tentando satisfazer seus anseios?

—Você pode colocá-lo nesses termos. Um dos meus anseios mais profundos é fazer de você uma pessoa feliz e com propósito na vida.

—Incomoda a senhora o fato de eu ser mais feliz e ter mais sentido na vida desde que a conheci?

—Deus o livre dessa idéia! O que poderia fazer-me mais feliz?

—Então, no fundo, a senhora passa todas essas noites aqui sem dormir pelo que a deixa feliz, não é verdade?

—Se eu disser que sim, alguém poderia entender-me mal. Poderia pensar que no fundo eu não me importo com você, apenas comigo mesma.

—Mas, pelo menos para mim, a senhora não concordaria?

—Sim, para você eu digo: eu trabalho pelo que me dá a maior alegria: a sua alegria.

—Obrigado. Agora eu sei que a senhora me ama.

 

A mão e a recompensa do amor estão organicamente ligadas

Uma coisa mencionada rapidamente nessa carta que pode carecer de uma explanação um pouco mais ampla é a questão da relação entre a alegria que vem do próprio ato de amor e a alegria que vem da recompensa prometida no futuro mais distante. A razão por que creio que essa questão é importante é que a motivação de receber uma recompensa futura pode dar ao amor uma motivação mercenária (como já vimos), se a recompensa esperada não tiver alguma relação orgânica com o ato que fazemos para receber a recompensa.

Se a natureza da ação não é igual à natureza da recompensa, você pode fazer coisas que considera estúpidas ou más para obter a recompensa que considera sábia ou boa. Porém estaríamos ultrapassando os limites bíblicos da palavra "amor" se disséssemos que estamos amando quando fazemos coisas que consideramos estúpidas ou más. Um ato de amor (mesmo quando muito doloroso) tem de ser aprovado por nossa consciência.

Assim, dizer que é correto e bom ser motivado pela esperança de recompensa (como foi o caso de Moisés e dos primeiros cristãos e de Jesus, de acordo com Hb 11.26; 10.34; 12.2) não significa que essa visão do futuro cancela a necessidade de escolher ações que, em sua natureza, têm relação orgânica com a recompensa esperada.

O que quero dizer com relação orgânica é isto: qualquer ato de amor que escolhemos em vista de uma recompensa santa tem de no; impulsionar porque vemos nesse ato os traços morais dessa recompensa prometida. Ou, em outras palavras, a única recompensa apropriada por um ato de amor é a experiência da glória divina, cuja dimensão moral tornou atraente a ação escolhida.

A recompensa que temos em vista como cristãos que buscam o prazer, por todo o bem que somos ordenados a praticar, destila-se para nós em Romanos 8.29: "Os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos". Dois objetivos da nossa predestinação são mencionados aqui: um que destaca a nossa glória e outro que destaca a glória de Cristo.

O primeiro objetivo da nossa predestinação é ser como Cristo. Isso inclui corpos ressurretos gloriosos como o dele (Fp 3.21; ICo 15.49). Mais importante que isso, porém, é que inclui qualidades e capacidades espirituais e morais como as de Cristo (1Jo 3.2, 3).

O segundo e mais importante objetivo da nossa predestinação é que Cristo "seja o primogênito entre muitos irmãos". Em outras palavras, Deus tem por objetivo cercar seu Filho com imagens vivas de Si mesmo, de modo que a grandiosidade destacada do original brilhe ainda mais em suas imagens. O objetivo da predestinação é: 1) nossa alegria em nos tornar santos como ele é santo; e 2) seu prazer em ser exaltado com destaque supremo em meio a um povo transformado e alegre.

Contudo, se a recompensa pela qual ansiamos é contemplar e ser como Cristo que está em destaque, seria contraditório se as ações que escolhemos não forem moralmente coerentes com o caráter de Cristo. Se estamos realmente sendo atraídos pela recompensa de sermos feitos santos como ele é santo, então seremos atraídos a ações que partilham da sua santidade. Se nos regozijamos na expectativa de conhecer a Cristo assim como somos conhecidos, nos alegraremos nos tipos de ações e atitudes que refletem seu caráter moral.

Assim, no prazer cristão há uma relação orgânica entre o amor que Cristo nos ordena e a recompensa que ele promete. A questão jamais e mercenária, em que fazemos o que detestamos para obter o que gostamos. Jesus ilustra essa conexão entre ação e recompensa em Lucas 6.35:

Amai a vossos inimigos, fazei bem e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus.

 

Não devemos nos preocupar com a recompensa humana ("sem nada esperardes"), mas o Senhor nos dá um incentivo para amarmos, prometendo-nos a sua recompensa, que é que seremos filhos do Altíssimo. Essa filiação implica semelhança ("porque ele é benigno para com os ingratos"). Assim, a ordem e a recompensa são do mesmo material. A ordem é amar. A recompensa é tornar-se como alguém que ama.

Portanto, é importante enfatizar por um lado que a recompensa que tal cristão almeja é o prazer incomparável de ser como Deus e amar o que ele ama com uma intensidade que se aproxima da dele (Jo 17.26). E é importante enfatizar, por outro lado, que as ações de amor que tal cristão realiza são de medida prazerosa em Si mesmas porque contêm o aroma dessa recompensa final. Essa, como vimos, também era a convicção de C. S. Lewis quando falou das "recompensas apropriadas" de uma atividade, que são "a própria atividade em consumação".

Quem ama anseia pelo poder da graça

Uma última questão precisa ser tratada neste capítulo. Defini "amor" como o transbordar da alegria em Deus, que atende as necessidades dos outros. Para concluir, será de utilidade prática perguntar como isso funciona realmente na experiência. Como é o processo psicológico que passa da alegria em Deus à ação prática do amor?

Começamos com um milagre, a saber, eu como pecador devo alegrar-me em Deus. Não apenas em suas recompensas materiais, mas nele, em toda a sua grandiosidade multiforme! Essa experiência de conversão, como vimos, é a "criação" de um cristão que busca o prazer. E agora, como o amor prático emerge desse coração de alegria em Deus?

Quando o objeto da nossa alegria é a beleza moral, o anseio de contemplar é inseparável do anseio de ser. Quando o Espírito Santo desperta o coração de uma pessoa para ter prazer na santidade de Deus, nasce um desejo insaciável não apenas de contemplar essa santidade mas também de ser santo como Deus é santo. Nossa alegria é incompleta se pudermos apenas contemplar a glória de Deus de fora, sem permissão de participar dela. Uma coisa é um menino aplaudir os grandes jogadores numa partida de futebol. Mas sua alegria será completa se puder ir para casa, formar um time e jogar pessoalmente.

Nós não queremos somente ver a graça de Deus em toda a sua beleza, salvando pecadores e santificando santos. Queremos participar do poder dessa graça. Queremos senti-la salvando.

Queremos senti-la derrotando tentações em nossa vida. Queremos senti-la usando-nos para salvar outros. E por quê? Porque nossa alegria em Deus é de uma ganância insaciável. Quanto mais você tem, mais você quer. Quanto mais você vê, mais você quer ver. Quanto mais você sente, mais você quer sentir.

Isso significa que a ganância por alegria em Deus, que quer ver e sentir cada vez mais manifestações da sua glória, induzirá a pessoa a amar. Meu anseio de sentir o poder da graça de Deus derrotando orgulho e egoísmo em minha vida induz-me a uma conduta que demonstra a vitória da graça, que é amar. O amor genuíno é tão contrário à natureza humana que sua presença dá testemunho de um poder extraordinário. O cristão que busca o prazer busca o amor porque está viciado na experiência desse poder. Ele quer sentir mais e mais a graça de Deus reinando em sua vida.

Vencendo a montanha interior do orgulho

Temos aqui uma analogia para uma motivação poderosa que existe também no coração dos descrentes. Praticamente todas as pessoas sem Cristo estão dominadas pelo desejo de encontrar felicidade vencendo alguma limitação em sua vida e tendo a sensação do poder. Heinrich Harrer, membro da primeira equipe que escalou a parede norte do monte Eiger nos Alpes suíços, confessou que sua razão para tentar essa escalada foi vencer seu senso de insegurança. "A autoconfiança", disse ele, "é o dom mais valioso que alguém pode possuir. [...] Todavia, para possuir essa confiança autêntica é necessário ter aprendido a conhecer a Si mesmo em momentos em que se está no limite extremo das coisas. [...] Na 'Aranha' da parede norte do Eiger eu passei por essas situações extremas, vendo as avalanches passar sem parar por cima de nós".7

O que faz toda a diferença entre quem não é cristão e o cristão que persegue o prazer nessa busca da alegria é que o cristão que busca o prazer já descobriu que a autoconfiança jamais satisfará o desejo do seu coração de vencer sua limitação.

Ele aprendeu que fomos feitos realmente não para a sensação de sentir nosso próprio poder aumentar, mas de sentir o poder de Deus aumentar -superando os precipícios do desamor em nosso coração pecaminoso.

Como eu disse na carta ao meu amigo Ronn, é uma prova de como somos mundanos o fato de sentirmos mais alegria quando conquistamos uma montanha exterior de granito com nossa própria força do que quando vencemos a montanha interior do orgulho na força do Senhor. O milagre do prazer cristão é que superar obstáculos ao amor pela graça de Deus tornou-se mais interessante que qualquer forma de autoconfiança. A alegria de experimentar o poder da graça de Deus derrotando o egoísmo é um vício insaciável.

Alegria duplicada na alegria de outro

Existe ainda outra maneira de descrever o processo psicológico que leva do prazer em Deus a atos de amor. Quando alguém se alegra na manifestação da gloriosa graça de Deus, desejará ver o maior número possível de manifestações dessa graça em outras pessoas. Se eu puder ser o meio de Deus salvar milagrosamente outra pessoa, para mim será tudo alegria, porque o que eu preferiria ver mais que outra manifestação da beleza da graça de Deus na alegria de outra pessoa? Minha alegria duplica-se com isso.

Quando o cristão que busca o prazer vê alguém sem esperança ou alegria, a necessidade dessa pessoa se torna como uma zona de pressão baixa que se aproxima da zona de pressão alta da alegria na graça de Deus. Nessa atmosfera espiritual, cria-se um repuxo da zona de pressão alta de alegria do cristão para a zona de pressão baixa de necessidade, pois a tendência da alegria é expandir-se para preencher a necessidade. Esse repuxo é chamado amor.

O amor é o transbordar da alegria em Deus que atende as necessidades dos outros. O transbordamento é experimentado conscientemente como a busca da nossa alegria na alegria do outro. Duplicamos nosso prazer em Deus ao expandi-lo para a vida dos outros. Se nosso objetivo principal Fosse qualquer outra coisa que não a alegria em Deus, seríamos idólatras e não levaríamos ajuda eterna para ninguém. Por isso, a busca do prazer é uma motivação essencial para toda boa ação. E se você tentar abandonar a busca do prazer pleno e duradouro, você não poderá amar as pessoas nem agradar a Deus.

 

NOTAS

1     Jonathan Edwards, Charity and its fruits. Edimburgo, Banner of Truth Trust, 1969 (original de 1852), p. 164.

2     Essa passagem de Romanos inclui a frase: "Porque também Cristo não se agradou a Sl mesmo; antes, como está escrito: As injúrias dos que te ultrajavam caíram sobre mim" (15.3). Sobre isso, veja a análise de Hebreus 12.1, 2 sob o título "Quem ama sofre pela alegria", mais adiante neste capítulo.

3     No transcurso da história, os teóricos da ética tenderam a distinguir entre essas duas formas de amor, ágape e eros, ou benevolência e complacência. Eu, porém, creio que as duas têm o mesmo tipo de amor como raiz.

O ágape de Deus não "transcende" seu eros, mas o expressa. O amor remissor e sacrificial de Deus pelo seu povo pecador é descrito por Oséias nos termos mais sensuais: "Como te deixaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? [...] Meu coração está comovido dentro de mim, as minhas compaixões, à uma, se acendem. Não executarei o furor da minha ira, [...] porque eu sou Deus, e não homem (Os 11.8,9). Sobre seu povo exilado que pecou de modo tão hediondo, Deus diz mais tarde por meio de Jeremias: "Alegrar-me-ei por causa deles e lhes farei bem; plantá-los-ei firmemente nesta terra, de todo o meu coração e de toda a minha alma" (Jr 32.41). O tema da alegria auto-satisfatória de Deus também se vê no ministério do próprio Jesus. Quando lhe cobraram uma explicação por que se rebaixava para comer com cobradores de impostos e com outros pecadores, sua resposta foi: "Haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento" (Lc 15.1-7). Por fim, ficamos sabendo em Hebreus 12.2 com que poder Jesus suportou o sofrimento: "Em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus". Não deveríamos concluir que, no esforço penoso do amor redentor, Deus está muito interessado na satisfação que resulta dos seus esforços, e que ele exige o prazer de um grande proveito do seu sacrifício?

Ao mesmo tempo que temos a noção de que Deus não tem nenhuma necessidade da criação (At 17.25) e que ele está profundamente realizado e feliz na comunhão eterna da Trindade, há na alegria uma pressão para aumentar, para expandir-se para outros que, se necessário, precisam ser primeiro criados e redimidos. Essa pressão divina é o desejo de Deus pela alegria composta que vem de ter outros participando da própria alegria que ele tem em Si mesmo.

Portanto, torna-se evidente que não se deve perguntar: Será que Deus busca sua própria felicidade como meio para a felicidade do seu povo, ou será que ele busca a felicidade do seu povo como meio para a sua? Não existe ou-ou. Ambos são um. É isso que distingue o eros santo e divino do caído e humano: o eros de Deus anseia e se delicia na alegria eterna e santa do seu povo.

4     Jamais eu usaria o termo conquistar para a maneira como os cristão vêm a gozar as recompensas do amor. Conquistar implica a troca de um valor por outro, obrigando o outro a pagar pelo valor que recebeu. Na verdade, porém, tudo o que os cristãos "dão" a Deus é simplesmente uma devolução do presente de Deus para eles. Todo o nosso

serviço é feito "na força que Deus supre" (IPe 4.11), de modo que, na verdade, é Deus quem "ganha" a recompensa em nosso lugar e por meio de nós. Mas isso não diminui a utilidade do comentário de Lewis sobre a natureza das recompensas.

5     CS. Lewis, Peso de glória. São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 12.

6     Phillips Brooks, Lectures on preaching. Grand Rapids, Baker Book House, 1969 (original
de 1907), p. 53-54, 82-83. Citado em Daniel R Fuller, Hermeneutics. Pasadena, Fuller Theological Seminary, 1969, p. vii-4, 5.

 

 

Os preceitos do Senhor são retos

e alegram o coração. [...]

São mais desejáveis do que o ouro,

mais do que muito ouro depurado;

e são mais doces do que o mel

e o destilar dos favos.

Além disso, por eles se admoesta o teu servo;

em os guardar, há grande recompensa.

Salmos 19.8, 10, 11

 

 

Digo com toda clareza possível que o maior e principal assunto com que eu deveria

ocupar-me todos os dias era ter minha alma feliz no Senhor. A primeira coisa com

que preocupar-me não era o quanto eu poderia servir ao Senhor, como eu poderia

glorificar ao Senhor, mas como poderia levar minha alma a um estado de felicidade e

alimentar meu Homem interior. [...] Eu vi que a coisa mais importante que tinha a

fazer era dedicar-me à leitura da Palavra de Deus e meditar nela.

George Mueller

 

 

 

 

Capítulo   5.
A Bíblia

Alimento para o Prazer

 

O prazer cristão está bem consciente de que cada dia com Jesus não (' "melhor que o dia anterior". Em alguns dias com Jesus nosso humor está em baixa. Em alguns dias com Jesus estamos tão tristes que achamos que nosso coração vai partir-se. Em alguns dias com Jesus estamos tão deprimidos e desanimados que entre a garagem e a casa temos vontade de sentar na grama e chorar.

Cada dia com Jesus não é melhor que o dia anterior. Sabemos isso por experiência própria e o sabemos pela Bíblia. Davi diz em Salmos 19.7: "A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma". Se cada dia com Jesus fosse melhor que o dia anterior, se a vida fosse uma ascensão constante sem quedas em nosso sentimento por Deus, não precisaríamos ser re-animados.

Em outra passagem, Davi exalta a Deus com palavras semelhantes: "Leva-me para junto das águas de descanso; refrigera-me a alma" (Sl 23.2, 3). Isso significa que Davi deve ter tido seus dias ruins.

Houve dias em que sua alma precisou ser reanimada. As palavras "restaura" em Salmos 19.7 e "refrigera" em Salmos 23.3 são a mesma no original. A vida cristã normal é um processo repetitivo de restauração e renovação. Nossa alegria não é estática. Ela flutua junto com a vida real. Ela é vulnerável aos ataques de Satanás.

Quando Paulo diz em 2Coríntios 1.24: "Não que tenhamos domínio sobre a vossa fé, mas somos cooperadores de vossa alegria", devemos destacar a idéia de que "cooperar" significa trabalhar junto. Preservar nossa alegria em Deus exige esforço. É uma luta. Nosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, e tem um apetite insaciável para destruir uma coisa: a alegria da fé. Mas o Espírito Santo nos deu uma espada chamada de Palavra de Deus, para a defesa da nossa alegria.

Ou, mudando de figura, quando Satanás sopra e sopra e tenta apagar a chama da sua alegria, você tem um suprimento infindável de combustível na Palavra de Deus. Mesmo em dias em que cada pedaço de carvão em nossa alma se esfria, se nos encolhemos debaixo da Palavra de Deus e clamamos que seus ouvidos nos ouçam, as cinzas frias são tiradas e uma pequena fagulha de vida é soprada. Porque "a lei do Senhor é perfeita e restaura a alma". A Bíblia é o alimento do prazer cristão.

Meu objetivo neste capítulo é ajudá-lo a usar a espada do espírito, a Palavra de Deus, e brandi-la para preservar sua alegria em Deus. Há três degraus que temos de escalar juntos:

Primeiro, temos de saber por que aceitamos a Bíblia como Palavra confiável de Deus.

Segundo, temos de ver os benefícios e o poder das Escrituras e como elas alimentam a nossa alegria.

Terceiro, temos de ouvir um desafio prático para renovar nossa meditação diária na Palavra de Deus e para amarrar essa espada com tanta firmeza em nossa cintura que nunca estamos sem ela.

Quão confiável é a Bíblia?

Praticamente todo mundo concordará que, se o único Deus verdadeiro falou, então as pessoas que ignoram sua palavra não podem ter felicidade duradoura. Mas nem todo mundo realmente crê que a Bíblia é a palavra do Deus vivo. E ninguém deve crer nela sem razões suficientes.

Algumas pessoas que lêem esse livro terão a mesma convicção do que eu de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Desejarão continuar usando-a. Outros terão dificuldades para dar à Bíblia um lugar tão poderoso em sua vida. Talvez queiram que eu faça uma defesa razoável da minha convicção. Sinto o profundo dever de honrar essa solicitação da base da minha confiança nas Escrituras. Por isso acrescentei o Apêndice 2: "Será que a Bíblia é um guia confiável para a alegria duradoura?" Espero que ele ajude alguns a depender com confiança das Escrituras como a verdadeira Palavra de Deus.

Para que nossa busca de felicidade permanente tenha sucesso, temos de procurá-la no relacionamento com nosso Criador. Podemos fazer isso somente ouvindo sua palavra. E a temos na Bíblia. E a melhor notícia de todas é que o que Deus disse em seu livro é combustível para o prazer cristão.

OS BENEFÍCIOS E O PODER DAS ESCRITURAS SAGRADAS

Na Bíblia há muitas confirmações de que seu propósito é alimentar e não abafar nossa alegria. Nós as encontramos quando colocamos os olhos nos benefícios da Bíblia que sustentam e aprofundam nossa verdadeira felicidade.

A Bíblia é a sua vida

Moisés disse em Denteronômio 52.46-47: 'Aplicai o coração a todas as palavras que, hoje, testifico entre vós, para que ordeneis a vossos filhos que cuidem de cumprir todas as palavras desta lei. Porque esta palavra não e para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida". A Palavra de Deus não é algo inútil; é uma questão de vida e morte. Se você trata a Bíblia como uma coisa vã, está desperdiçando vida.

Mesmo a nossa vida física depende da Palavra de Deus, porque fomos criados por sua palavra (Sl 33.6; Hb 11.3), e "ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder" (Hb 1.3). Nossa vida espiritual começa com a palavra de Deus: "Segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade" (Tg 1.18). "Fostes regenerados [...] mediante a palavra de Deus" (lPe 1.23).

Não apenas começamos a viver pela palavra de Deus, mas também continuamos a viver por ela: "Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Mt 4.4; Dt 8.3). Nossa vida física é criada e mantida pela palavra de Deus, e nossa vida espiritual é avivada e sustentada pela palavra de Deus.

Quantas histórias poderíamos reunir para dar testemunho do poder da Palavra de Deus para dar vida! Veja a história de "Little Bilney", um dos primeiros reformadores da Inglaterra, nascido em 1495. Ele estudou direito e esforçava-se rigorosamente em atividades religiosas. Mas não havia vida interior. Um dia ele recebeu uma tradução latina do Novo Testamento grego de Erasmo. Eis o que aconteceu:

Deparei com essa frase de Paulo (oh, como essa frase trouxe paz e consolo à minha alma!) em ITimóteo 1: "Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal". Essa frase isolada, pela instrução e atuação interna de Deus, que eu não percebi naquele momento, alegrou tanto o meu coração, que antes estava ferido com a culpa dos meus pecados e quase em desespero, que [...] eu, imediatamente,  [...]  senti um consolo e uma aquietação maravilhosos, tanto que "meus ossos feridos saltaram de alegria". Depois disso as Escrituras começaram a ser mais agradáveis para mim do que o mel ou o favo.1

 

De fato, a Bíblia "não é para vós outros coisa vã; antes, é a vossa vida!" O alicerce de toda alegria é a vida. Nada é mais fundamental que a própria existência — nossa criação e preservação. Tudo isso se deve ao poder da Palavra de Deus. Pelo mesmo poder ele pronunciou-se nas Escrituras em favor da criação e manutenção da nossa vida espiritual. Por isso a Bíblia não é inútil, ela é a sua vida — o combustível da sua alegria!

A fé vem pelo ouvir

A Palavra de Deus gera e conserva a vida porque gera e conserva a fé. "Estas coisas foram escritas", diz João, "para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" (Jo 20.31). "A fé vem pela pregação", escreve o apóstolo Paulo, "e a pregação, pela palavra de Cristo" (Rm 10.17). A fé que dá início à nossa vida em Cristo e pela qual continuamos a viver vem de ouvir a Palavra de Deus.

E não há alegria de verdade sem fé. "Que o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer" (Rm 15.13). "Estou certo de que ficarei e permanecerei com todos vós, para o vosso 'progresso e gozo da fé" (Fp 1.25). De que outra maneira podemos conservar nossa alegria nas horas escuras, senão pelas promessas da Palavra de Deus de que ele fará todas as coisas cooperarem para o nosso bem (Rm 8.28)?

Um grande testemunho do poder da Palavra de gerar e manter a fé encontra-se na história da conversão e execução de Tokichi Ichii — enforcado por assassinato em Tóquio em 1918. Ele fora colocado na prisão mais de vinte vezes e era conhecido como mais cruel que um tigre. Certa vez, depois de atacar um agente carcerário, foi amordaçado e algemado, e seu corpo foi pendurado de uma maneira que "meus pés mal tocavam o chão". Mas ele teimosamente recusou-se a pedir perdão pelo que tinha feito. Pouco antes de ser sentenciado à morte, duas missionárias, as senhoras West e McDonald, enviaram a Tokichi um Novo Testamento. Depois de uma visita da senhora West, ele começou a ler a história do julgamento e execução de Jesus. Sua atenção foi atraída para a frase de Jesus: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem". Essa frase transformou a sua vida.

Eu gemi. Era como se um prego de quinze centímetros fosse enfiado em meu coração. O que esse versículo me revelou? Devo chamá-lo o amor do coração de Cristo? Devo chamá-lo sua compaixão? Não sei como chamá-lo. Só sei que, com um coração indescritivelmente grato, eu cri.

 

Tokichi foi sentenciado à morte e aceitou-a como "o julgamento justo e imparcial de Deus". E a Palavra que o levara à fé também sustentou sua fé de maneira surpreendente. Perto do fim, a senhora West remeteu-o às palavras de 2Coríntios 6.8-10 sobre o sofrimento dos justos. Essas palavras tocaram fundo em seu coração, e ele escreveu:

"Entristecidos, mas sempre alegres." As pessoas dirão que eu devo ter um coração cheio de tristeza porque estou diariamente à espera da execução da sentença de morte. Não é assim. Não sinto nem tristeza nem desânimo nem nenhum sofrimento. Trancado em uma cela de prisão de dois por três metros, estou infinitamente mais feliz do que estava nos dias em que eu pecava, quando não conhecia a Deus. Dia e noite [...] estou conversando com Jesus Cristo.

"Pobres, mas enriquecendo a muitos." Isso certamente não se aplica à vida má que eu levei antes de me arrepender. Mas talvez no futuro alguém ouça que o vilão mais sem esperança que já viveu neste mundo arrependeu-se dos seus pecados e foi salvo pelo poder de Cristo, e muitos também venham a se arrepender. Então pode ser que, apesar de eu ser pobre, possa tornar muitos ricos.

A Palavra sustentou-o até o fim e, no cadafalso, com grande humildade e seriedade, ele pronunciou suas últimas palavras: "Minha alma, purificada, hoje retorna à Cidade de Deus".2

 

A fé é gerada e sustentada pela Palavra de Deus, e da fé brota a flor da alegria.

Deus concede o Espírito pelo ouvir da fé

A Bíblia nos ordena que nos enchamos do Espírito Santo: "Não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito" (Ef 5.18). Como vem o Espírito? Em Galatas 3.2, Paulo pergunta: "Recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?" A resposta, é claro, é: "Pela pregação da fé". Pregação do quê? Da Palavra de Deus!

O Espírito inspirou a Palavra, e por isso vai aonde a Palavra vai. Quanto mais da Palavra de Deus você conhece e ama, mais do Espírito de Deus você experimentará. Em vez de beber vinho, devemos beber o Espírito. Como? Deixando que ele controle a nossa mente: "Os que se inclinam para o Espírito, [cogitam] das coisas do Espírito" (Rm 8.5).

Quais são as coisas do Espírito? Quando Paulo disse em lCoríntios 2.14: "O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus", ele estava se referindo a seus próprios ensinos inspirados pelo Espírito (2.13). Por isso, antes de tudo os ensinos da Bíblia são as "coisas do Espírito". Bebemos o Espírito ao voltarmos nossa mente para as coisas do Espírito, especificamente a Palavra de Deus. E o fruto do Espírito é alegria (Gl 5.22).

A Bíblia dá esperança

Às vezes fé e esperança são praticamente sinônimos na Bíblia. "Fé é a certeza de coisas que se esperam" (Hb 11.1). Sem essa esperança no futuro ficamos desanimados e deprimidos, e nossa alegria se esvai. A esperança é absolutamente essencial à alegria cristã. "Alegramo-nos nos sofrimentos, pois sabemos que os sofrimentos produzem [...] esperança" (Rm 5.3,4; 15.13).

E como mantemos a esperança? Assim afirma o salmista: "Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou aos nossos pais que os transmitissem a seus filhos, [...] para que pusessem em Deus a sua confiança" (Sl 78.5, 7). Em outras palavras, o "testemunho" e a "lei" — a Palavra de Deus— são alimento para a esperança dos nossos filhos.

Paulo o diz claramente: "Tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança" (Rm 15.4). Toda a Bíblia tem este alvo e este poder: criar esperança no coração do povo de Deus. E quando a esperança é abundante, o coração está cheio de alegria.

A verdade vos libertará

Outro elemento essencial da alegria é a liberdade. Ninguém de nós será feliz se não for livre do que odeia e livre para o que ama. E onde encontramos liberdade verdadeira? Salmos 119.45 diz: "Viverei em completa liberdade porque tenho procurado seguir os teus ensinamentos" (blh). A idéia é de um lugar aberto. A Palavra nos liberta de uma mente estreita (lRs 4.29) e de limitações assustadoras (Sl 18.19).

Jesus disse: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará" (Jo 8.32). A liberdade que ele tem em mente é liberdade da escravidão do pecado (v. 34). Ou, de uma perspectiva positiva, é liberdade para ser santo. As promessas da graça de Deus conferem o poder que fazem das exigências da santidade de Deus uma experiência de liberdade e não de medo. "... nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis co-participantes da natureza divina, livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo" (2Pe 1.4; cf. Jo 15.3). Libertos da corrupção, libertos para participar da natureza divina — por meio das suas preciosas e mui grandes promessas!

Por essa razão devemos orar uns pelos outros assim como Jesus orou por nós em João 17.17: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade". Não existe alegria permanente sem santidade, pois a Bíblia diz: Buscai "a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" (Hb 12.14). Quão importante, então, é a verdade que santifica! Quão crucial é a Palavra que quebra o poder dos prazeres falsos! E como devemos ser vigilantes para iluminar nosso caminho e carregar nosso coração com a Palavra de Deus! "Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para os meus caminhos" (Sl 119.105). "Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti" (SL 119.11; cf. v. 9).

O testemunho do Senhor torna sábios os simples

É claro que a Bíblia não responde a todas as nossas perguntas sobre a vida. Nem todo entroncamento na estrada tem uma placa bíblica. Carecemos de sabedoria em nós mesmos para conhecer o caminho da alegria permanente. Mas isso, também, é uma dádiva da Escritura. "O testemunho do Senhor é fiel e dá sabedoria aos símplices. [...] O mandamento do Senhor é puro e ilumina os olhos" (Sl 19.7, 8; 119.98). A pessoa que tem a mente saturada com a Palavra de Deus e é submissa aos seus pensamentos tem uma sabedoria que até a eternidade provará ser superior a toda a sabedoria secular existente no mundo. "Feliz o homem que acha sabedoria, e o homem que adquire conhecimento" (Pv 3.13).

Escrita para podermos ter certeza

Apesar disso, nossa vontade pervertida e percepção imperfeita levam-nos repetidamente a ações estúpidas e situações perniciosas. O dia em que isso acontece não é melhor que o dia anterior, e precisamos de restauração e consolo. Para onde podemos nos voltar para obtê-los? Podemos seguir mais uma vez o salmista: "O que me consola na minha angústia é isto: que a tua palavra me vivifica. [...] Lembro-me dos teus juízos de outrora e me conforto, ó Senhor" (Sl 119.50, 52).

E quando nossos fracassos e aflições ameaçam nossa certeza de fé, para onde nos voltamos para reconstruir nossa confiança? João nos convida a nos voltarmos para a Palavra de Deus: "Estas coisas vos escrevi, a fim de saberdes que tendes a vida eterna, a vós outros que credes em o nome do Filho de Deus" (1Jo 5.13). A Bíblia foi escrita para nos dar certeza da vida eterna.

O maligno é vencido pela Palavra de Deus

O objetivo número um de Satanás é destruir nossa alegria da fé. Temos uma arma ofensiva: a espada do Espírito, a Palavra de Deus (Ef 6.17). O que muitos cristãos deixam de entender é que não podemos puxar a espada da bainha de alguma outra pessoa. Se não a portamos, não poderemos brandi-la. Se a Palavra de Deus não habitar em nós (Jo 15.7), nós a procuraremos em vão quando o inimigo atacar. Mas se a levarmos conosco, se ela viver em nós, que guerreiros valentes podemos ser! "Eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno" (1Jo 2.14).

Esse tem sido o segredo dos grandes guerreiros espirituais de Deus. Eles se saturaram com a Palavra de Deus. Hudson Taylor, fundador da Missão para o Interior da China, sustentou-se em meio a dificuldades incríveis por intermédio da meditação disciplinada na Bíblia todos os dias. O De. Howard Taylor e esposa nos dão um vislumbre dessa disciplina:

Não foi fácil para o Sr. Taylor, com sua vida movimentada, separar tempo para orar e estudar a Bíblia, mas ele sabia como isso era vital. Os autores lembram de ter viajado mês após mês com ele pelo norte da China, de carroça ou charrete, passando as noites nas piores estalagens. Com freqüência pernoitando cm um mesmo espaço com carregadores e viajantes, eles isolavam um canto para seu pai e outro para si, com algum tipo de cortina; então, depois que o sono linha trazido ao menos certa medida de silêncio, eles ouviam um fósforo ser riscado e uma vela acender, o que lhes dizia que o Sr. Taylor, apesar de cansado, concentrara-se na pequena Bíblia em dois vol­umes que sempre tinha à mão. Das duas às quatro da madrugada era o período que ele costumava dedicar à oração; era a hora que ele tinha mais certeza de poder esperar por Deus sem ser perturbado.3

 

A espada do Espírito é plena de vitória. Quão poucos, porém, dedicam-se ao exercício profundo e disciplinado da alma de tomá-la e brandi-la com alegria e poder!

Uma exortação séria

Portanto, a Bíblia é a Palavra de Deus. E a Palavra de Deus não é inútil. Ela é a fonte de vida, fé, poder, esperança, liberdade, sabedoria, consolo, segurança e vitória sobre nosso maior inimigo. Assim, seria de estranhar que aqueles que tinham conhecimento de causa tenham dito: "Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração" (SL 19.8)? "Terei prazer nos teus decretos; não me esquecerei da tua palavra" (SL 119.16).

"Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!" (SL 119.97). "Os teus testemunhos, recebi-os por legado perpétuo, porque me constituem o prazer do coração" (SL 119.111). "Achadas as tuas palavras, logo as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração, pois pelo teu nome sou chamado" (Jr 15.16).

Entretanto, devemos procurar essa alegria como cristãos que buscam o prazer? Devemos jogar o combustível da Palavra de Deus todos os dias no fogo da alegria? Realmente, devemos! Não apenas todos os dias, mas dia e noite: "Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores. Antes, o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite" (SL 1.1, 2). Esse prazer é o verdadeiro objetivo do nosso Senhor ao falar conosco: "Tenho-vos dito estas coisas para que o meu gozo esteja em vós, e o vosso gozo seja completo" (Jo 15.11). Não buscar nossa alegria todos os dias na Palavra de Deus significa abandonar a vontade revelada de Deus. Isso é pecado.

Oh, que não tratemos a Bíblia como algo inútil! Se o fizermos, estaremos nos opondo a nós mesmos e desprezando os santos que trabalharam e sofreram pela Palavra de Deus. Pense na coragem de Martinho Lutero ao enfrentar os governantes seculares e eclesiásticos da sua época, que tinham poder para bani-lo e até para executá-lo por suas opiniões sobre a Palavra de Deus. O arcebispo de Trier fez uma última vez a pergunta a Lutero:

— Você repudia ou não seus livros e os erros que eles contêm? Lutem respondeu:

—Como sua majestade e os senhores desejam uma resposta simples, responderei sem papas na língua. Enquanto não for convencido pelas Escrituras e pelo raciocínio claro — não aceito a autoridade de papas e concílios, pois já se contradisseram entre si—minha consciência é prisioneira da Palavra de Deus. Não posso e não quero retirar nada, porque ir contra a consciência não é nem correto nem sábio. Aqui estou, não posso agir de modo diferente. Que Deus me ajude.4 Lutero desapareceu de repente logo depois que o decreto da sua condenação foi promulgado. O grande artista Albrecht Dürer refletiu em seu diário:

Não sei se ele está vivo ou foi assassinado mas, de qualquer forma, ele sofreu pela fé cristã. Se perdemos este homem, que escreveu com mais clareza que qualquer outro nos últimos séculos, que Deus conceda seu espírito a outro. [...] Ó Deus, se Lutero está morto, quem, agora, nos explicará o evangelho? O que não poderia ele ter escrito para nós nos próximos dez ou vinte anos?5

Ele não estava morto. E continuou escrevendo — por mais vinte e cinco anos. E, junto com muitos outros reformadores audazes, recuperou-nos a Palavra de Deus das prisões da tradição eclesiástica. Oh, que possamos prezar hoje a Palavra de Deus como eles! Oh, que a possamos brandir como eles o fizeram! Para eles ela era uma espada mui poderosa contra o Inimigo!

Martinho Lutero sabia tão bem como qualquer outra pessoa que cada dia com Jesus não é melhor que o dia anterior. E, de acordo com o seu biógrafo Roland Bainton, ele escreveu estas famosas linhas no ano de sua  pior depressão:

Se nos quisessem devorar

Demônios não contados,

Não nos podiam assustar,

Nem somos derrotados.

O grande acusador

Dos servos do Senhor

Já condenado está;

Vencido cairá

Por uma só palavra.

 

Para podermos brandi-la temos de usá-la

Se pretendemos brandi-la, temos de usá-la. Temos de ser como Esdras: "A boa mão de Deus [estava] sobre ele. Porque Esdras tinha disposto o coração para buscar a lei do Senhor, e para a cumprir, e para ensinar em Israel os seus estatutos e os seus juízos" (Ed 7.9, 10). E precisamos adquirir um coração como o do santo que escreveu o grandioso cântico de amor à lei no salmo 119:

"Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia!" (v.97). Esforcemo-nos por memorizar a Palavra de Deus — para adoração e combate. Se não a trouxermos conosco na mente, não poderemos sentir seu gosto no coração nem brandi-la no Espírito. Se você sair sem o combustível do prazer cristão, o fogo da felicidade cristã será apagado antes da metade da manhã.

Como George Mueller começava seu dia

Termino este capítulo com o testemunho de um grande homem de oração e fé. George Mueller (1805-1898) ficou famoso por fundar orfanatos na Inglaterra e por depender alegremente de Deus em todas as suas necessidades. Como ele alimentava sua alegria e fé? Em 1841 ele fez uma descoberta que mudou a sua vida. O testemunho dela em sua autobiografia provou ser de valor tremendo em minha vida, e minha oração é que também dê fruto na sua:

Enquanto morava em Nailsworth, agradou ao Senhor ensinar-me uma verdade, sem recorrer a instrumento humano, até onde sei, cujo benefício não perdi [...] apesar de terem passado mais de quarenta anos desde então.

O que aprendi foi isso: vi claramente como jamais antes que o maior e principal assunto com que eu devia ocupar-me todos os dias era ter minha alma feliz no Senhor. A primeira coisa com que preocupar-me não era o quanto eu poderia servir ao Senhor, como eu poderia glorificar ao Senhor, mas como poderia levar minha alma a um estado de felicidade, e como poderia alimentar meu homem interior. Isso porque eu poderia procurar colocar a verdade diante dos não convertidos, poderia procurar proporcionar benefícios aos crentes, poderia procurar trazer alívio aos desanimados, poderia de outras maneiras procurar comportar-me como convém a um filho de Deus neste mundo e, mesmo assim, por não ser feliz no Senhor, e não estar sendo alimentado e fortalecido em minha vida interior dia após dia, cuidar de tudo isso sem o espírito correto.

Antes dessa época meu costume fora, pelo menos nos dez anos anteriores, dedicar-me habitualmente à oração depois de me vestir de manhã. Agora eu vi que a coisa mais importante que tinha a fazer era dedicar-me à leitura da Palavra de Deus e a meditar nela, para que meu coração fosse confortado, encorajado, advertido, acusado, instruído; e que, assim, enquanto eu meditava, meu coração fosse trazido à experiência da comunhão com o Senhor. Por isso comecei a meditar no Novo Testamento, desde o princípio, de manhã cedo.

A primeira coisa que eu fazia, depois de pedir com poucas palavras a bênção do Senhor sobre sua preciosa Palavra, era começar a meditar na Palavra de Deus, investigando, por assim dizer, cada versículo para extrair bênçãos dele; não tendo em vista o ministério público da Palavra, nem com o propósito de pregar sobre o que tinha meditado, mas a fim de obter alimento para a minha própria alma. Descobri que o resultado quase invariavelmente é que, depois de uns poucos minutos, minha alma é levada a confessar, ou agradecer, ou interceder, ou suplicar; de modo que, apesar de eu não me dedicar à oração diretamente mas à meditação, ela se transformava quase imediatamente mais ou menos em oração.

Depois de ficar assim por algum tempo fazendo confissão, ou intercessão, ou súplica, ou dando graças, passo para as próximas palavras ou versículo seguinte, transformando tudo, à medida que continuo, em oração por mim ou por outros, do modo que a Palavra me conduza; sempre mantendo em vista que alimentar minha própria alma é o objetivo da minha meditação. O resultado disso é que sempre há uma boa parte de confissão, ação de graças, súplica ou intercessão mesclada com minha meditação, e que meu homem interior é quase invariavelmente alimentado e fortalecido até perceptivelmente, e que, na hora do café da manhã, com raras exceções, estou com uma disposição pacífica, quando não feliz. Assim também o Senhor se apraz em comunicar-me aquilo que, pouco tempo depois, descobri que se torna alimento para outros crentes, apesar de não ter sido em prol do ministério público da Palavra que me dediquei à meditação, mas para proveito do meu próprio homem interior.

A diferença entre meu costume anterior e o atual é esta: antes, quando eu me levantava, começava a orar o mais rápido possível, e geralmente passava todo o tempo até a hora do café em oração, ou quase todo o tempo. Todos os eventos eu começava quase invariavelmente com oração. [...] Mas qual era o resultado? Eu passava quinze minutos, ou meia hora, ou até uma hora de joelhos, até tomar consciência de ter recebido consolo, encorajamento, humilhação da alma etc; e, com freqüência, depois de ter sofrido com perda de concentração da mente pelos primeiros dez ou quinze minutos, ou até meia hora, só então eu começava realmente a orar.

Agora, raríssimas vezes sofro dessa maneira. Enquanto meu coração está sendo alimentado pela verdade e levado à comunhão experimental com Deus, eu falo com meu Pai, e com meu Amigo (apesar de eu ser mau e indigno disso!), sobre as coisas que ele me apresentou em sua preciosa Palavra.

Com freqüência fico perplexo por não ter visto isso antes. Em nenhum livro jamais li sobre isso. Nenhum pregador já me apresentou a questão. Nenhuma conversa com um irmão despertou-me para esse assunto. Mesmo assim, agora, desde que Deus ensinou-me essa questão, ficou muito claro para mim que a primeira coisa que um filho de Deus tem de fazer manhã após manhã é buscar o alimento para seu homem interior.

Assim como o homem exterior não está preparado para trabalhar, por pouco tempo que seja, se não ingerirmos alimento, e como essa é uma das primeiras coisas que fazemos de manhã, também deve ser com o homem interior. Devemos ingerir alimento para ele, sem sombra de dúvida. E o que é o alimento para o homem interior? Não é a oração, mas a Palavra de Deus; e novamente não a simples leitura da Palavra de Deus, para simplesmente fazê-la passar por nossa mente como água que corre por um cano, mas pensando no que lemos, ponderando e aplicando ao nosso coração. [...]

Detenho-me tanto neste ponto por causa do imenso proveito e refrigério espiritual que tenho consciência de ter extraído para mim, e insisto com carinho e seriedade com todos os meus companheiros crentes que levem isso em consideração. Pela bênção de Deus atribuo a essa prática a ajuda e força que tenho recebido de Deus para passar com paz por dificuldades de vários tipos, maiores do que jamais tive antes; e, depois de ter experimentado esse caminho por mais de quarenta nos, posso recomendá-lo plenamente, no temor de Deus. Que diferença quando a alma foi animada e alegrada de manhã cedo, de quando, sem preparo espiritual, o trabalho, as dificuldades e tentações do dia nos sobrevêm!6

 

NOTAS

1 De uma carta citada em Norman Anderson, God's Word for God's world. Londres, Hodder

and Stoughton, 1981, p. 25. 2A história é contada em God's Word for God's world, p. 38-41. 3 Hudson Taylor's spiritual secret. Chicago, Moody Press, s.d. (original de 1932), p. 235.

4     Citado em Roland Bainton, Here I stand. Nova York, Mentor, 1950, p. 144.

5     Here I stand, p. 149.

6     Autobiography of George Mueller, compilada por Fred Bergen. Londres, J. Nisbet Co., 1906, p. 152-154.

 

 

 

Até agora nada tendes pedido em meu nome;

pedi e recebereis,

para que a vossa alegria seja completa.

João 16.24

 

 

Tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta,

orarás a teu Pai, que está em secreto;

e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

Mateus 6.6

 

 

Ó que paz nós desprezamos,

ó que dor desnecessária sofremos,

só porque nós não levamos

tudo a Deus em oração!

Joseph Scriven

 

 

 

Capítulo   6
Oração

O Poder do Prazer Cristão

 

Uma objeção comum ao prazer cristão é que ele coloca os interesses humanos acima da glória de Deus — minha felicidade antes da honra de Deus. O prazer cristão, porém, definitivamente não faz isso.

Na verdade, nós que buscamos o prazer cristão esforçamo-nos em procurar nossos interesses e nossa felicidade com toda a nossa força. Endossamos a resolução do jovem Jonathan Edwards: "Resolvi: esforçar-me para conseguir para mim mesmo o máximo possível de felicidade no outro mundo, com todo o poder, força, vigor, veemência e até violência de que seja capaz ou consiga reunir e qualquer maneira em que consiga pensar".

Descobrimos com a Bíblia (e com Edwards!) que o interesse de Deus é magnificar a plenitude da sua glória, fazendo-a transbordar em misericórdia sobre nós. Por isso a busca dos nossos interesses e da nossa felicidade jamais está acima da de Deus, mas sempre dentro da de Deus. A verdade mais preciosa da Bíblia é que o maior interesse de Deus é glorificar a riqueza da sua graça fazendo pecadores felizes nele — nele!

Quando nos humilhamos como criancinhas e não assumimos ares de auto-suficiência, mas corremos alegremente para a alegria do abraço do nosso Pai, a glória da sua graça é magnificada e o anseio da nossa alma e satisfeito. Nosso interesse e a sua glória são a mesma coisa. Por essa razão, cristãos que buscam o prazer não estão pondo a sua felicidade acima da glória de Deus quando buscam sua felicidade nele.

Por que o cristão que busca o prazer está de joelhos

Uma das evidências de que a busca da nossa alegria e a busca da glória de Deus devem ser a mesma coisa é o ensino de Jesus sobre oração no Evangelho de João. As duas declarações-chave estão em João 14.13 e 16.24.

Uma mostra que a oração é a busca da glória de Deus. A outra mostra que a oração é a busca da nossa alegria.

Em João 14.13, Jesus diz: "Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho". E em João 16.24 ele diz: "Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa". A união desses dois objetivos — a glória de Deus e a alegria dos seus filhos— é claramente preservada no ato da oração. Por isso, o cristão que busca o prazer será, acima de tudo, uma pessoa consagrada à oração séria. Assim como o cervo sedento se ajoelha para beber no riacho, a postura característica do cristão que busca o prazer é de joelhos.

Olhemos mais de perto a oração como busca da glória de Deus e como busca da nossa alegria, nessa ordem.

A oração como busca da glória de Deus

Ouça mais uma vez as palavras de Jesus em João 14.13: "Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho". Imagine que você está totalmente paralisado e não pode fazer nada por Si mesmo, a não ser falar. E imagine que um amigo forte e confiável prometeu morar com você e fazer tudo o que você precisa fazer. Como você pode glorificar seu amigo se um estranho vem ver você? Você tentaria glorificar sua generosidade e força tentando sair da cama a carregando-o?

Não! Você diria: "Meu amigo, por favor venha levantar-me, ponha um travesseiro nas minhas costas para que eu possa olhar para o meu visitante. E, por favor, ponha os óculos em mim". Desse modo, seu visitante concluiria a partir de seus pedidos que você está impossibilitado e que seu amigo é forte e gentil. Você glorifica seu amigo precisando dele, pedindo-lhe que o ajude e dependendo dele.

Em João 15.5, Jesus diz: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer". Portanto, somos realmente paralíticos. Sem Cristo não somos capazes de nada bom. Como Paulo diz em Romanos 7.18: "Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum".

Mas, de acordo com João 15.5, Deus quer que façamos algo bom — dar fruto. Assim, como nosso amigo forte e confiável — "Tenho-vos chamado amigos" (Jo 15.15)— ele promete fazer por nós o que não podemos fazer pessoalmente.

Como, então, podemos glorificá-lo? Jesus dá a resposta em João 15.7: "Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito". Nós oramos! Pedimos a Deus que faça por nós por intermédio de Cristo o que não podemos fazer por nós mesmos — dar fruto. O versículo 8 apresenta o resultado: "Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto". E como Deus é glorificado pela oração?

A oração e a admissão publico de que sem Cristo não podemos fazer nada. Orar é desviar-se de Si mesmo para Deus, na confiança de que ele providenciará a ajuda de que precisamos. A oração nos humilha, como necessitados, e exalta Deus, como rico.

Se você o conhecesse, você pediria!

Em outro texto em João, que mostra como a oração glorifica a Deus, Jesus pede a uma mulher que lhe dê um copo de água:

—O senhor é judeu, e eu sou samaritana. Então como é que o senhor me pede água?— respondeu a mulher. (Ela disse isso porque os judeus não se dão com os samaritanos.) Então Jesus disse: — Se você soubesse o que Deus pode dar e quem é que está pedindo água, você pediria, e ele lhe daria água da vida! (Jo 4.9,10 blh).

 

Se você fosse um marinheiro severamente afligido de escorbuto, e um homem generoso viesse a bordo com os bolsos cheios de vitamina E e lhe pedisse um gomo de laranja, você até poderia dar-lhe. Mas se você soubesse que ele é generoso, e que ele tinha consigo tudo de que você precisa para ficar bom, você viraria a mesa e lhe pediria ajuda.

Jesus disse à mulher: "Se você conhecesse a dádiva de Deus e quem sou eu — você oraria a mim!" Há uma relação direta entre não conhecer Jesus bem e não pedir muito a ele. A pessoa que não ora geralmente não conhece a Jesus. "Se você soubesse quem estava falando com você, você pediria!" Uma vida cristã sem oração é como um motorista de ônibus que tenta sozinho tirar o veículo de um atoleiro porque não sabe que Clark Kent está a bordo. "Se você soubesse, você pediria." Uma vida cristã sem oração é como ter as paredes do quarto revestidas de cupons de brinde das Lojas Americanas, mas sempre comprar no brechó da esquina porque você não sabe ler. "Se você conhecesse a dádiva de Deus e quem está falando com você, você pediria — você pediria!"

E a implicação é que aqueles que pedem — cristãos que passam tempo em oração— fazem-no porque vêem que Deus é um grande doador e que Cristo é sábio, cheio de misericórdia e poderoso além de qualquer medida. E por isso sua oração glorifica a Cristo e honra seu Pai. O propósito principal do ser humano é glorificar a Deus. Por isso, quando nos tornamos aquilo para o que Deus nos criou, tornamo-nos pessoas de oração.

O texto de Robinson Crusoé

Charles Spurgeon certa vez pregou um sermão sobre esse mesmo assunto e chamou-o de "texto de Robinson Crusoé". Começava assim:

Robinson Crusoé sobreviveu a um naufrágio. Ficou totalmente sozinho em uma ilha deserta. Sua situação era de causar dó. Deitou-se em seu leito, acometido de febre. A febre durou bastante tempo, e ele não tinha ninguém para cuidar dele — nem para lhe trazer um copo de água fresca. Ele estava pronto para morrer. Estivera habituado ao pecado, e tinha todos os vícios de um marinheiro; mas sua condição desesperadora o fez pensar. Abriu a Bíblia que encontrou em seu baú, e seus olhos caíram sobre a passagem: "Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás". Naquela noite ele orou pela primeira vez em sua vida, e dali em diante houve nele sempre esperança em Deus, o que marcou o nascimento da vida celestial.1

 

O texto de Robinson Crusoé foi Salmos 50.15. Esse é o meio de Deus obter glória para si — Ore a mim! Eu o libertarei! E o resultado será: Você me glorificará!

A explanação de Spurgeon é penetrante:

Deus e a pessoa que ora são parceiros. [...] Primeiro a nossa parte: "Invoca-me no dia da angústia". Depois a parte de Deus: "Eu te livrarei". Novamente é a sua vez — você será livrado. Depois volta a ser a vez de Deus — "Tu me glorificarás". Aqui temos um acordo, uma aliança que Deus faz com você que ora a ele, a quem ele ajuda. Ele diz: "Você terá seu livramento, mas eu tenho de receber a glória". Aqui temos uma parceria no prazer: nós obtemos o que necessitamos tão desesperadamente, e tudo o que Deus recebe é a glória devida ao seu nome.2

 

De fato, uma parceria de prazer! A oração é o verdadeiro centro do prazer cristão. Deus recebe a glória; nós, o prazer. Ele recebe a glória exatamente porque se mostra pleno e forte para nos libertar para a alegria. E nós recebemos plenitude de alegria exatamente porque ele é a plena origem da glória e o alvo da vida.

Aqui temos uma grande descoberta. Não glorificamos a Deus atendendo suas necessidades, mas orando para que ele supra as nossas — e confiando em sua resposta.

Será que oração é egocêntrica?

Alguém poderá dizer que isso é egocentrismo. Mas, o que significa "egocêntrico"? Se significa o desejo passional de ser feliz, então sim, a oração é egocêntrica.

Mas será que isso é mau, se o que eu suplico é que o nome de Deus seja santificado em minha vida? Se meu clamor é que ele reine em meu coração? Se meu pedido é que sua vontade seja feita em minha vida assim como é feita pelos anjos no céu? Se almejo a felicidade de ver e experimentar essas coisas em minha vida, isso é ruim?

Como a vontade de Deus é feita no céu? Com tristeza? Com gemidos? Com murmuração? Não! Ela é feita alegremente! Então, se eu oro: "Seja feita a sua vontade, assim na terra como no céu", como posso não ser motivado pelo desejo de ser feliz? Será que é uma contradição orar para que a vontade de Deus seja feita em minha vida do mesmo modo como é feita no céu, e depois dizer que para mim é indiferente se sou feliz ou não? Quando a terra se alegrar em fazer sua vontade e o fizer de modo perfeito, sua vontade será feita na terra como é no céu.

Com certeza, porém, não devemos chamar de "egocêntrica" essa busca de felicidade na oração. Ela é radicalmente centrada em Deus. Ao almejar ser feliz, eu reconheço que, no centro da minha vida, há um grande espaço vazio. Anseio por vê-lo cheio. Eu sei que, se ele for preenchido com Deus, minha alegria será completa. "Egocentrismo" não é uma boa maneira de descrever essa paixão por ser feliz em Deus.

Orando como uma adúltera

Mas talvez alguém diga: "Sim, mas nem todas as orações são para que o nome de Deus seja santificado, ou para que seu reino venha. Muitas orações são por comida, roupa, proteção e cura. Esse tipo de oração não é egocêntrico?

Pode ser. Tiago condenou certo tipo de oração. Disse ele:

Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós? (Tg 4.3-5).

 

Portanto, há um tipo de oração que é errado, porque faz de Deus um marido traído. Usamos a generosidade do nosso Marido para contratar prostitutas para prazeres pessoais. Essas palavras nos assombram. Tiago nos chama de "adúlteras" se oramos assim.

Ele retrata a igreja como a esposa de Deus. Deus nos fez para si e se deu a nós para nosso prazer. Por isso é adultério quando tentamos ser "amigos" do mundo. Se procuramos no mundo os prazeres que deveríamos buscar em Deus, estamos sendo infiéis aos nossos votos matrimoniais. E, pior que isso, quando nos achegamos ao nosso Marido Celestial e oramos diretamente pelos recursos com que cometeremos adultério com o mundo, isso é uma coisa muito pior. É como se pedíssemos ao nosso marido dinheiro para contratar prostitutos que nos dêem o prazer que não encontramos nele!

Portanto, sim, há um tipo de oração que é egocêntrico num sentido negativo. Agora surge a pergunta: O que impede que todas as nossas orações sejam adúlteras?

Deliciando-se com a criação sem cometer idolatria

Isso na verdade faz parte de uma pergunta muito maior, que é: Como uma criatura pode desejar e alegrar-se na criação sem cometer idolatria (que é adultério)? Para alguns essa pergunta pode parecer ser impertinente. Mas para pessoas que anseiam cantar como os salmistas, ela é muito pertinente, Eles cantam assim:

Quem mais tenho eu no céu?

Não há outro em quem eu me compraza na terra.

Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam,

Deus é a fortaleza do meu coração

e a minha herança para sempre (SL 73.25, 26).

 

Uma coisa peço ao Senhor,

e a buscarei:

que eu possa morar na Casa do Senhor

todos os dias da minha vida,

para contemplar a beleza do Senhor

e meditar no seu templo (SL 27.4).

 

Se seu coração anseia por concentrar-se assim em Deus, então como desejar e alegrar-se em "coisas" sem tornar-se um idólatra é uma questão crucial. Como a oração pode glorificar a Deus se ela é uma oração por coisas? Ela parece glorificar coisas.

Naturalmente, parte da resposta foi dada no texto de Robinson Crusoé, ou seja, que Deus recebe a glória como o Doador todo-suficiente. Mas isso é apenas parte da resposta, porque pode haver um mau uso das coisas, mesmo quando agradecemos a Deus como o Doador.

O restante da resposta é dado por Thomas Traherne e por Agostinho. Traherne disse:

Você não se compraz no mundo corretamente enquanto não vê como um grão de areia demonstra a sabedoria e o poder de Deus, e preza em cada coisa o serviço que presta a você, manifestando a glória e a bondade de Deus à sua alma, bem mais que a beleza visível na sua superfície ou os serviços materiais que pode prestar ao seu corpo.3

 

E Agostinho orou com as palavras abaixo, que provaram ser imensamente importantes em meu esforço para amar a Deus de todo o meu coração:

Ama-te muito pouco

Aquele que ama outra coisa junto contigo,

Que ele ama não por tua causa.4

 

Em outras palavras, se coisas criadas são vistas e usadas como dádivas de Deus e como espelhos da sua glória, não precisam ser ocasiões para idolatria — se nosso prazer nelas é sempre também um prazer em quem as Fez.

C. S. Lewis o formulou assim em uma "Carta a Malcolm":

Não podemos — ou eu não posso— ouvir o gorjeio de um pássaro simplesmente como um som. Seu sentido ou mensagem ("isto é um pássaro") acompanha-o inevitavelmente— assim como não se pode ver uma palavra conhecida impressa como um mero padrão visual. Ler é tão involuntário como ver. Quando o vento estrondeia eu não ouço simplesmente o estrondo; eu "ouço o vento". Da mesma maneira é possível "ler" assim como "ter" um prazer. Ou nem mesmo "como". A distinção deve tornar-se, e às vezes é, impossível; recebê-la e reconhecer sua origem divina são uma só experiência. Este fruto celestial espalha instantaneamente o aroma do pomar onde cresceu. Essa brisa suave sussurra da terra de onde sopra. É uma mensagem. Sabemos que estamos sendo tocados por um dedo daquela mão direita em que há delícias perpetuamente. Não é preciso haver agradecimentos ou louvor como um evento distinto, algo que se faz depois. O ato de experimentar a pequena teofania já é adoração em si.5

 

Se nossa experiência da criação se torna uma experiência do pomar celestial, ou do dedo divino, então pode ser adoração e não idolatria. Lewis o diz ainda de outra maneira em suas meditações sobre Salmos:

Esvaziando  a Natureza da divindade — ou,  digamos,  das divindades— você pode enchê-la de Deus, porque agora ela é portadora de mensagens. Há um sentido em que a adoração da Natureza a silencia — como quando uma criança ou um débil mental fica tão impressionada com o uniforme do carteiro que esquece de pegar as cartas.6

 

Portanto, pode ser idolatria ou não, orar para que o carteiro venha. Se estamos apenas apaixonados pelos breves prazeres mundanos que seu uniforme nos traz, isso é idolatria. Mas se consideramos o uniforme um bônus grátis que acompanha o prazer real das mensagens divinas, então não é idolatria. Se podemos orar por um cônjuge, um emprego, por cura física, comida ou abrigo por amor a Deus, então mesmo nisso estamos centrados em Deus e não nos revelamos "egocêntricos". Estamos concordando com o salmista: "Não há nada na terra que eu deseje além de ti!" Ou seja, não há nada que eu deseje mais do que o Senhor, e não há nada do que eu quero que não me mostre mais do Senhor.

Glorificando a Deus não o servindo, mas sendo servido por ele

Voltemos à linha de pensamento principal. Eu disse há pouco que o texto de Robinson Crusoé nos proporcionou uma grande descoberta (foi quando alguém objetou que tudo isso é egocentrismo). A descoberta foi que não glorificamos a Deus atendendo suas necessidades, mas orando para que ele supra as nossas — com confiança em sua resposta. Aqui estamos no cerne das boas novas do prazer cristão.

A insistência de Deus em que lhe pecamos que ele nos dê ajuda para que receba glória (SL 50.15) impõe-nos o fato surpreendente de que temos de parar de servir a Deus e tomar o cuidado especial de deixar que ele nos sirva, para não roubarmos dele a sua glória.

Isso soa muito estranho. A maioria de nós pensa que servir a Deus é algo totalmente positivo. Nunca pensamos que servir a Deus pode ser um insulto para ele. No entanto, meditar no sentido da oração requer que pensemos assim.

Atos 17.24, 25 deixa isso claro:

O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais.

 

Esse é o mesmo raciocínio do texto de Robinson Crusoé sobre oração:

Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e quanto nele se contém. [...] Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás" (SL 50.12, 15).

 

É evidente que há uma maneira de servir a Deus que o diminuiria, como carente do nosso serviço. "O Filho do homem não veio para ser servido" (Mc 10.45). Ele quer ser o servo. Ele quer receber a glória como doador.

Ainda servo na segunda vinda!

Mesmo em sua glória no fim desta era isso é verdade, não apenas nos dias da sua humilhação terrena. Para mim o quadro mais surpreendente da segunda vinda de Cristo está em Lucas 12.35-37, que retrata o retorno de um senhor de uma festa de casamento:

Cingido esteja o vosso corpo, e acesas, as vossas candeias. Sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamento; para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, os encontre vigilantes; em verdade vos afirmo que ele há de cingir-se, dar-lhes lugar à mesa e, aproximando-se, os servirá.

 

Em que sentido Deus é diferente de todos os outros deuses?

É verdade que nós somos chamados servos — e isso, sem dúvida, significa que devemos fazer exatamente o que nos é mandado. O que é assombroso neste quadro é que o "senhor" insiste em "servir", mesmo na época vindoura, quando ele se revelar em toda a sua glória, "com os seus anjos poderosos, em meio a uma chama flamejante" (2Ts 1.7, nvi). Por quê? Porque o âmago da sua glória é a plenitude da graça que transborda em bondade para com os necessitados. Por isso ele pretende "mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus" (Ef 2.7).

Em que consiste a grandeza do nosso Deus? Em que ele é único no mundo? Isaías responde:

Desde a antigüidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera (Is 64.4).

 

Todos os outros ditos deuses tentam conquistar exaltação fazendo as pessoas trabalhar por eles. Ao fazer isso, apenas provam sua fraqueza. Isaías ridiculariza os deuses que precisam ser servidos por seus seguidores:

Bel se encurva, Nebo se abaixa; os ídolos são postos sobre os animais, sobre as bestas; as cargas que costumáveis levar são canseira para as bestas já cansadas (Is 46.1).

 

Jeremias faz coro à ironia:

Os ídolos são como um espantalho em pepinal e não podem falar; necessitam de quem os leve, porquanto não podem andar (Jr 10.5).

 

Deus é único. "Desde a antigüidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu..." E sua singularidade é que ele se propõe ser nosso Funcionário, e não vice-versa. Nosso trabalho é "esperar nele".

Deus trabalha para aquele que nele espera

Esperar! Isso significa parar e conscientizar-se com sobriedade da nossa incompetência e da completa suficiência de Deus, buscar conselho e ajuda do Senhor, e esperar nele (SL 33.20-22; Is 8.17). Israel é repreendido por "não lhe ter aguardado os desígnios" (Sl 106.13). Por quê? Porque, ao não buscarem e esperarem pela ajuda de Deus, privaram-no de uma oportunidade de glorificar-se.

Por exemplo, em Isaías 30.15, 16 o Senhor diz a Israel: "Em vos converterdes e em sossegardes, está a vossa salvação; na tranqüilidade e na confiança, a vossa força". Mas Israel se recusou a esperar no Senhor, e disse: "Não! Sobre cavalos fugiremos!"

Então, no v. 18, revelam-se a estupidez e a malignidade dessa correria de iniciativa própria: "O Senhor espera, para ter misericórdia de vós, e se detém, para se compadecer de vós, porque o Senhor é Deus de justiça; bem-aventurados todos os que nele esperam". A estupidez de não esperar em Deus está em perdermos a bênção de ter Deus trabalhando por nós. A malignidade de não esperar por Deus está em nos opormos à vontade de Deus de exaltar-se em misericórdia.

Deus pretende exaltar a Si mesmo trabalhando por aqueles que nele esperam. A oração é a atividade essencial da espera por Deus: o reconhecimento da nossa incapacidade e do seu poder, o pedido por sua ajuda, a busca do seu conselho. Assim fica evidente porque Deus manda tantas vezes que oremos: seu propósito no mundo é ser exaltado por sua misericórdia. A oração é o antídoto para a doença da autoconfiança, que se opõe ao objetivo de Deus de obter glória ao trabalhar por aqueles que esperam nele.

"Quanto ao Senhor, seus olhos passam por toda a terra, para mostrar-se forte para com aqueles cujo coração é totalmente dele" (2Cr 16.9). Deus não está à procura de pessoas que trabalhem para ele, tanto quanto está à procura de pessoas que o deixem trabalhar por elas. O evangelho não é um anúncio de Precisa-se de Ajuda. O chamado para o serviço cristão também não. Pelo contrário, o evangelho nos ordena a desistir e pendurar um anúncio de Precisa-se de Ajuda (esse é o sentido básico da oração). Assim então o evangelho promete que Deus trabalhará por nós. Ele não transferirá a glória de ser o Doador.

Mas, será que não existe alguma coisa que podemos lhe dar, que não o rebaixe à condição de beneficiário? Sim, há — nossas ansiedades. É uma ordem: "Lançai sobre ele toda a vossa ansiedade" (lPe 5.7). Deus receberá com prazer qualquer coisa de nossa parte que mostre nossa dependência e sua total suficiência.

A diferença entre o tio Sam e Jesus Cristo

A diferença entre o tio Sam e Jesus Cristo é que o tio Sam não alista em seu serviço alguém que não seja saudável, e Jesus não alistarem não for doente. "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores" (Mc 2.17). O cristianismo é fundamentalmente convalescença ("Ore sem cessar" = toque constantemente a campainha da enfermeira). Não são os pacientes que servem os médicos. Eles confiam que os médicos farão bons prescrições. O Sermão do Monte e os Dez Mandamentos são o regime de saúde prescrito pelo Médico, não a descrição de cargo preparada pelo Empregador.

Portanto, nossa própria vida depende de não trabalharmos para Deus. "Ao que trabalha, o salário não é considerado como favor, e sim como dívida. Mas, ao que não trabalha, porém crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é atribuída como justiça" (Rm 4.4, 5). Operários não ganham presentes. Ganham direitos. Se queremos receber o presente da justificação, não podemos nos atrever a trabalhar. Deus é o Operário nesse negócio. E o que ele ganha é a confiança do seu cliente e a glória de ser o benfeitor da graça, não o beneficiário do serviço.

Também não devemos pensar que, depois da nossa justificação, começa nosso trabalho pelo salário de Deus. "Recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais, agora, vos aperfeiçoando na carne?" (Gl 3.2, 3). Deus foi quem trabalhou na nossa justificação e é quem trabalha em nossa santificação.

A "carne" religiosa sempre quer trabalhar para Deus (em vez de humilhar-se para entender que Deus tem de trabalhar por ela em graça gratuita). Porém, "se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte" (Rm 8.13). É exatamente por isso que nossa vida depende de não trabalharmos para Deus.

Isso quer dizer que não devemos servir a Cristo? Recebemos a ordem: "Servi ao Senhor!" (Rm 12.11). Aqueles que não servem a Cristo são repreendidos (Rm 16.18). Sim, temos de servi-lo. Mas tomaremos cuidado para não servi-lo de uma maneira que indica uma deficiência da sua parte ou nos exalta como indispensáveis.

Servir a Deus é sempre receber

Como, então, devemos servir? Salmos 123.2 indica o caminho: "Como os olhos dos servos estão fitos nas mãos dos seus senhores, e os olhos da serva, na mão de sua senhora, assim os nossos olhos estão fitos no Senhor, nosso Deus, até que se compadeça de nós". A maneira de servir a Deus de modo que ele receba a glória é olhando para ele para receber misericórdia. A oração evita que o serviço seja uma expressão de orgulho.

Todo servo que tenta livrar-se do domínio divino e estabelecer uma parceria de igual para igual com o seu senhor celestial está em revolta contra o Criador. Deus não faz trocas. Ele dá a misericórdia da vida aos servos que querem tê-la, e o salário da morte aos que não querem. O bom serviço é sempre e fundamentalmente receber misericórdia, não prestar ajuda. Portanto, não há bom serviço sem oração.

Como se serve ao dinheiro?

Mateus 6.24 dá outra indicação do que é bom serviço: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas". Com se serve ao dinheiro? Não se ajuda o dinheiro. Não se enriquece o dinheiro. Não se faz o bem ao dinheiro. Então, como se serve ao dinheiro?

O dinheiro exerce certo controle sobre nós porque parece trazer tantas promessas de felicidade. Ele sussurra com muita convicção: "Pense e aja para estar em condições de receber meus benefícios". Isso pode incluir roubar, emprestar ou trabalhar. O dinheiro promete felicidade, e nós o servimos crendo na promessa e andando por essa fé. Assim, não servimos o dinheiro colocando nosso poder à sua disposição para o seu bem; nós o servimos fazendo o que é necessário para que o poder do dinheiro esteja à nossa disposição para o nosso bem.

O mesmo tipo de serviço a Deus deve estar em vista em Mateus 6.24, já que Jesus põe os dois lado a lado: "Não podeis servir a Deus e ao dinheiro". Portanto, se queremos servir a Deus e não ao dinheiro, teremos de abrir os nossos olhos para a promessa de felicidade enormemente superior que Deus faz. Só então Deus exercerá um controle maior sobre nós do que o dinheiro.

Assim, serviremos a Deus crendo em sua promessa de alegria plena e andando por essa fé. Não serviremos tentando pôr o nosso poder à sua disposição para o seu bem, mas fazendo o que é necessário para que o seu poder esteja sempre à nossa disposição para o nosso bem. E, naturalmente, Deus mostrou que seu poder estará à nossa disposição pela oração: "Pedi e recebereis!" Portanto, servimos pelo poder que vem pela oração, quando servimos para a glória de Deus.

Sem dúvida esse tipo de serviço também implica obediência. O paciente que confia nas receitas do seu médico, obedece a elas. O pecador convalescente confia nas orientações dolorosas do seu terapeuta e as segue. Somente dessa maneira conservamo-nos em condições de nos beneficiar do que o Médico divino tem a oferecer. Em toda essa obediência, nós é que somos os beneficiários. Deus é sempre o Doador. Porque é o Doador quem recebe a glória.

O Doador recebe a glória

1Pedro 4.11 formula muito bem esse princípio: "Se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém". O Doador recebe a glória. Assim, todo serviço que honra a Deus tem de ser um ato de receber. Isso quer dizer que todo serviço tem de ser feito pela oração.

Na verdade, devemos trabalhar arduamente; mas jamais esqueçamos que não somos nós, mas a graça de Deus conosco (ICo 15.10). Obedeçamos agora, como sempre, sem jamais esquecer que é Deus quem trabalha em nós, tanto para querer como para fazer o que lhe agrada (Fp 2.13). Espalhemos o evangelho em todas as direções, e nos consumamos em prol dos eleitos de Deus, mas jamais nos aventuremos a falar de qualquer coisa que não seja o que Cristo operou por nosso intermédio (Rm 15.18). Oremos sempre por seu poder e sabedoria, de modo que todo o nosso serviço seja o transbordar de "justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Aquele que deste modo serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens" (Rm 14.17, 18).

Portanto, as surpreendentes boas novas implícitas no dever de orar são que Deus jamais abrirá mão da glória de ser nosso servo. "Nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera" (Is 64.4).

A oração como busca da nossa alegria

Preservada de modo singular no ato de orar está a junção de dois objetivos: a busca da glória de Deus e a busca da nossa alegria. Até aqui neste capítulo meditamos sobre a oração como a busca da glória de Deus, tendo João 14.13 como ponto de partida: "Tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho". Agora nos voltamos para as palavras de Jesus em João 16.24: "Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa".

Isso não é um convite claro ao prazer cristão? Busque a plenitude da sua alegria! Ore!

A partir dessa palavra sagrada e da experiência, podemos inferir uma regra simples: nos cristãos professos, a falta de oração produz falta de alegria. Por quê? Por que uma vida profunda de oração leva à plenitude de alegria, e uma vida superficial sem oração tira a alegria? Jesus apresenta pelo menos dois motivos no contexto de João 16.24.

A oração é o centro nervoso da comunhão com Jesus

A primeira razão por que a oração leva à alegria apresenta-se em João 16.20-22. Jesus previne os discípulos de que eles se entristecerão com sua morte, mas recuperarão a alegria com a sua ressurreição:

Em verdade, em verdade eu vos digo que chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se converterá em alegria. A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua honra é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo em um homem. Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará.

 

Separação de Jesus significa tristeza. Restauração à comunhão significa alegria. Com isso aprendemos que nenhum cristão pode ter alegria completa sem comunhão vital com Jesus Cristo. Conhecimento sobre ele não basta. Trabalhar para ele não basta. Precisamos ter comunhão pessoal, vital com ele; de outra forma, o cristianismo torna-se um peso desanimador.

Em sua primeira carta, João escreveu: "A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo. Estas coisas, pois, vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa" (1Jo 1.3, 4). Comunhão com Jesus compartilhada com outros é essencial à plenitude da alegria.

A primeira razão, portanto, por que a oração leva a plenitude de alegria é que a oração é o centro nervoso da nossa comunhão com Jesus. Ele não está aqui fisicamente para o vermos. Mas na oração, falamos com ele como se estivesse. E no sossego desses momentos sagrados ouvimos sua Palavra e derramamos perante ele nossas ansiedades.

Talvez João 15.7 seja o melhor resumo dessa comunhão bidirecional em oração: "Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito". Quando as palavras bíblicas de Jesus permanecem em nossa mente, ouvimos os pensamentos do próprio Cristo vivo, porque ele é o mesmo ontem, hoje e para sempre. E desse ouvir profundo do coração brota a linguagem da oração, um incenso suave diante do trono de Deus. A vida de oração leva à plenitude de alegria porque a oração é o centro nervoso da nossa comunhão vital com Jesus.

Jonathan Edwards nos faz um relato dos seus primeiros anos, para ilustrar até onde e com que intensidade essa comunhão pode se elevar:

Eu tinha anseios muito intensos na alma por Deus e Cristo, e por mais santidade, com o que meu coração parecia estar cheio, a ponto de se partir. [...] Passei a maior parte do tempo pensando em coisas divinas, ano após ano; com freqüência andando sozinho em florestas e em lugares solitários para meditar, falar sozinho, orar, conversar com Deus; e era sempre meu hábito, nessas ocasiões, cantar minhas contemplações. Eu estava quase constantemente expressando-me em oração, onde quer que estivesse. A oração parecia ser natural para mim, a respiração que dava vazão ao ardor de dentro do meu coração.

 

A oração é a maneira escolhida por Deus para nos encher de alegria, porque serve de válvula para o ardor de dentro do nosso coração por Cristo. Se não tivéssemos essa válvula, não poderíamos ter comunhão com ele em resposta à sua Palavra, seríamos realmente miseráveis.

A oração capacita para a missão do amor

Há uma segunda razão por que a oração leva à plenitude da alegria: ela fornece o poder para fazer o que gostamos de fazer, mas não conseguimos sem a ajuda de Deus. O texto diz: "Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa". Receberemos o quê? O que nos trará alegria completa? Não uma vida almofadada, protegida e confortável. Pessoas ricas são tão miseravelmente infelizes como as pobres. O que precisamos em resposta a oração para preencher nossa alegria é o poder para amar. Ou, como diz João, o poder de dar fruto. A oração é a fonte da alegria porque é a fonte do poder para amar.

Vemos isso duas vezes em João 15. Primeiro nos v. 7 e 8:

Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes, e vos será feito. Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto.

 

Fica bem clara a ligação entre a oração e dar fruto. Deus promete responder às orações de pessoas que estão buscando o fruto que cresce para a sua glória.

Os v. 16 e 17 apontam na mesma direção:

Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.

 

A lógica aqui é crucial. Observe: por que o Pai há de dar aos discípulos o que eles pedirem em nome de Jesus? A resposta é: porque eles receberam a ordem de dar fruto. A razão por que o Pai dá aos discípulos a dádiva da oração é que Jesus lhes deu uma missão. Realmente, a forma gramatical de João 15.16 dá a entender que a razão de Jesus lhes dar sua missão é que eles possam gozar o poder da oração: "Vos designei para que vades e deis fruto, [...] a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai, [...] ele vo-lo conceda".

Não está claro que o propósito da oração é realizar uma missão? Uma missão de amor — "isto vos mando: que vos ameis uns aos outros". É como se o comandante (Jesus) tivesse convocado a tropa, dado-lhe uma missão crucial (ir e dar fruto), entregado a cada soldado um transmissor pessoal sintonizado na freqüência do quartel general, e tivesse dito: "Camaradas, o general tem uma missão para vocês. Ele quer vê-la cumprida. Com esse propósito, ele deu a cada um de vocês acesso pessoal a ele por meio desses transmissores. Se vocês forem fiéis à sua missão e procurarem antes de qualquer coisa a sua vitória, ele estará sempre tão perto de vocês como este transmissor, para dar-lhes conselhos táticos e enviar cobertura aérea quando precisarem dela".

Será que um transmissor militar pode ser um interfone doméstico?

Será que muitos dos nossos problemas com a oração e boa parte da nossa fraqueza na oração vêm do fato de que não estamos todos no serviço ativo, e mesmo assim tentamos usar o transmissor? Pegamos um transmissor militar e tentamos transformá-lo num interfone civil para chamar os empregados para uma hora agradável na cozinha.

Há outros exemplos do significado militar da oração nas Escrituras. Em Lucas 21.34-36, Jesus avisa seus discípulos de que tempos de grande desânimo e oposição estão pela frente. No fim ele diz: "Vigiai, pois, a todo tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suceder e estar em pé na presença do Filho do homem".

Em outras palavras, seguir a Jesus nos levará inevitavelmente a um conflito intenso com o mal. Esse mal nos cercará, atacará e ameaçará destruir nossa fé. Por isso Deus nos deu um transmissor. Se formos dormir ele não nos servirá para nada, mas se estivermos alerta e chamarmos por ajuda no conflito, o reforço chegará, e o general não permitirá que aos seus soldados fiéis seja negada a coroa de vitória perante o Filho do homem.

A vida é uma guerra. E "a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Por isso Paulo nos manda tomar "o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isso vigiando com toda perseverança" (Ef 6.12, 17, 18).

Assim, vemos repetidas vezes na Escrituras que a oração é um transmissor militar para ser usado na guerra, não um interfone doméstico para aumentar nosso conforto. O objetivo da oração é capacitar para a missão. Orem "também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho" (Ef 6.19). "Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo" (Cl 4.3). "Lutai juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que [...] este meu serviço em Jerusalém seja bem aceito pelos santos" (Rm 15.30, 31). "Irmãos, orai por nós, para que a palavra do Senhor se propague e seja glorificada" (2Ts 3.1). "Rogai ao senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara!" (Mt 9.38).

A alegria completa que buscamos é a alegria do amor que transborda para outras pessoas. A alma nunca ficará satisfeita ganhando enquanto não transbordar dando. E não há sacrifício que destrua o prazer da alma de um povo obediente em uma missão de amor da parte de Deus, para o que a oração é sua provisão estragégica. Portanto, a razão por que oramos é "para que nossa alegria seja completa".

A comunhão com Jesus é essencial à alegria, mas há algo nela que nos impele para fora, para compartilhar a vida dele com outros. Um cristão não pode ser feliz e mesquinho. "Mais bem-aventurado é dar do que receber." Por isso, a segunda razão por que a vida de oração leva à plenitude de alegria é que nos dá poder para amar. Se a torneira do amor seca é porque o cano da oração não é suficientemente profundo.

Amor é fruto do Espírito (Gl 5.22), e o Espírito é dado em resposta à oração (Lc 11.13). Amor é produto da fé (Gl 5.6), e a fé é mantida pela oração (Mc 9.24; Lc 22.32). O amor está ancorado na esperança (Cl 1.4, 5), e a esperança é mantida pela oração (Ef 1.18). O amor é guiado e inspirado pelo conhecimento da Palavra de Deus (Fp 1.9; Jo 17.17), e a oração abre os olhos do coração para as maravilhas da Palavra (SL 119.18). Se o amor é o caminho da alegria completa, então oremos pelo poder de amar, "para que a nossa alegria seja completa"!

A alegria final do povo de Deus

Qual será a alegria final do povo de Deus? Não será o dia em que a glória do Senhor encher a terra como as águas cobrem o mar? Não será o dia em que nossa missão estiver cumprida e os filhos de Deus forem reunidos dentre todos os povos, línguas, tribos e nações (Jo 11.52; Ap 5.9; 7.9) —  quando todas as causas do pecado e do mal e todos os malfeitores forem tirados do reino de Cristo e os justos brilharem como o sol no reino do seu pai (Mt 13.42,43)?

E o trabalho missionário na linha de frente não é um caminho para essa alegria final? E não é o trabalho missionário da linha de frente despertado e mantido por um movimento de oração? Essa era a convicção da primeira igreja (At 1.14; 4.23-31; 6.4; 10.9; 12.5; 13.3; 14.23 etc.) e dos puritanos do século XVII,8 dos morávios9 e dos evangélicos americanos do século XVIII,10 e do movimento estudantil e leigo do século XIX.11 Também é convicção cada vez mais profunda de muitos líderes de agências missionárias de hoje.12

Como veio um grande avivamento

É verdade. A história dá testemunho do poder da oração como prelúdio do despertamento espiritual e do avanço missionário. Um exemplo da história da cidade de Nova York: pouco antes da metade do século XIX, a luz de despertamentos religiosos anteriores havia-se apagado. A cidade, como a maior parte do país, era próspera e sentia pouca necessidade de buscai a ajuda de Deus. Então vieram os últimos anos da década de 1850:

As condições seculares e religiosas se somaram para causar um desastre. O terceiro grande pânico na história americana varreu do mapa a estrutura precária da riqueza especulativa. Milhares de empresários foram colocados contra a parede com o fracasso dos bancos, e as estradas de ferro abriram falência. Fábricas foram fechadas e multidões de trabalhadores foram lançadas no desemprego, com 30 000 homens sem serviço apenas na cidade de Nova York. Em outubro de 1857, o coração das pessoas estava completamente curado da especulação e do ganho incerto, com a fome e o desespero a encará-las.

No dia primeiro de julho de 1857, um homem de negócios tranqüilo e esforçado de nome Jeremiah Lanphier assumiu o posto de missionário urbano no centro de Nova York. Ele fora indicado pela Igreja do Norte da Igreja Reformada Holandesa. Essa denominação estava sofrendo perda de membros por causa da mudança das pessoas do centro para bairros residenciais melhores, e o novo missionário urbano ocupou-se com visitas diligentes na vizinhança imediata, objetivando conquistar freqüentadores para os cultos entre a população flutuante da cidade baixa. A direção da igreja sentiu que tinha indicado o leigo ideal para a tarefa, e era mesmo.

Sentindo o fardo da necessidade, Jeremias Lanphier decidiu convidar outros a juntar-se a ele para orar na hora do almoço, uma vez por semana, nas quartas-feiras. Para tanto distribuiu um folheto com os seguintes dizeres:

COM QUE FREQÜÊNCIA DEVEMOS ORAR?

Com a freqüência com que a linguagem da oração estiver em meu coração; com a freqüência com que eu vir minha carência de ajuda; com a freqüência com que eu sentir a força da tentação; com a freqüência com que minha atenção for chamada para qualquer desvio espiritual ou eu sentir o ataque de um espírito mundano.

Na oração deixamos a ocupação do tempo pela da eternidade, e o relacionamento com as pessoas pelo relacionamento com Deus.

Uma reunião de oração diurna será realizada toda quarta-feira das 12 às 13 horas no escritório da denominação nos fundos da Igreja Holandesa do Norte, na esquina das ruas Fulton e William (com acesso pelas ruas Fulton e Ann).

Essa reunião tem o proposto de dar a comerciantes, mecânicos, escriturários, viajantes e negociantes em geral uma oportunidade para parar e invocar a Deus em meio à perplexidade inerente à sua respectiva vocação. Durará uma hora, mas também se destina àqueles para quem é inconveniente permanecer mais do que cinco ou dez minutos, bem como àqueles que podem separar uma hora inteira.

Como programado, ao meio-dia de 23 de setembro de 1857 a porta se abriu e o fiel Lanphier ocupou seu lugar para esperar a resposta ao seu convite. [...] Passaram-se cinco minutos. Ninguém apareceu. O missionário andou pela sala, em meio ao conflito entre medo e fé. Dez minutos passaram. Ainda ninguém. Quinze minutos.

Lanphier ainda estava sozinho. Vinte minutos. Vinte e cinco. Trinta. Então, às 12:30, ouviram-se passos na escada, e a primeira pessoa apareceu, depois outra, outra e mais outra, até que seis pessoas se fizeram presentes e a reunião de oração começou. Na quarta-feira seguinte [...] havia quarenta intercessores.

Por isso, na primeira semana de outubro de 1857 decidiu-se realizar a reunião todos os dias e não apenas uma vez por semana. [...]

No espaço de seis meses, dez mil homens de negócios estavam se reunindo diariamente em Nova York para orar, e dentro de dois anos um milhão de convertidos foi acrescentado às igrejas americanas. [...]

Sem dúvida alguma o maior avivamento da história colorida de Nova York estava varrendo a cidade, e foi de tal ordem que deixou todo o país curioso. Não houve fanatismo, nada de histeria, simplesmente um incrível mover das pessoas à oração.13

 

E a alegria de Jeremiah Lanphier foi muito grande. "Pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa."

Resumo e exortação

A Bíblia ensina claramente que o alvo de tudo o que fazemos deve ser glorificar a Deus. Mas ela também ensina que, em tudo o que fazemos, devemos buscar a plenitude da nossa alegria. Alguns teólogos têm tentado afastar essas duas buscas uma da outra. A Bíblia, porém, não nos força a escolher entre a glória de Deus e a nossa alegria. Na verdade, ela nos proíbe a escolha. E o que vimos neste capítulo é que a oração, talvez com mais clareza que qualquer outra coisa, preserva a unidade dessas duas buscas.

A oração busca a alegria na comunhão com Jesus e no poder de compartilhar a sua vida com outros. E a oração busca a glória de Deus tratando-o como o reservatório inexaurível de esperança e ajuda. Na oração admitimos nossa pobreza e a prosperidade de Deus, nossa falência e sua abundância, nossa miséria e sua misericórdia. Por isso, a oração exalta e glorifica a Deus grandemente, exatamente por buscar nele tudo o que ansiámos, e não em nós mesmos. "Pedi e recebereis, [...] a fim de que o Pai seja glorificado no Filho, [...] e a vossa alegria seja completa."

Termino este capítulo com uma exortação séria. Se eu não estiver tremendamente enganado, uma das principais razões por que tantos filhos de Deus não têm uma vida de oração significativa não se deve tanto a que não queremos, mas a que não planejamos. Se você quer tirar quatro semanas de férias, você não levanta simplesmente numa manhã de verão e diz: "Ei, é hoje que nós vamos!" Você não terá nada pronto. Você não saberá aonde ir. Nada foi planejado.

Mas é assim que muitos de nós tratam a oração. Levantamos dia após dia e constatamos que momentos significativos de oração deveriam fazer parte da nossa vida, mas as coisas nunca estão prontas. Não sabemos aonde ir. Nada foi planejado: nem o tempo, nem o lugar, nem o procedimento. E todos nós sabemos que o oposto do planejamento não é um fluir maravilhoso de experiências profundas e espontâneas em oração. O oposto de planejamento é rotina. Se você não planeja as férias, você provavelmente ficará em casa assistindo televisão. O fluir natural, não planejado da vida espiritual acompanha a maré mais baixa da vitalidade. Há uma corrida a correr e uma luta a encetar. Se você quer renovação em sua vida de oração, você tem de planejar para atingi-la.

Por isso, minha exortação simples é essa: separe tempo ainda hoje para repensar suas prioridades e onde a oração se encaixa. Tome alguma decisão nova. Tente uma nova aventura com Deus. Determine o período. Defina o lugar. Escolha um trecho da Bíblia para guiá-lo. Não se deixe tiranizar pela pressão das ocupações do dia-a-dia. Todos nós necessitamos de correções de rota no meio do caminho. Faça desse dia um dia de retorno à oração — pela glória de Deus e pela plenitude da sua alegria.

 

NOTAS

1     Twelve sermons on prayer. Grand Kapids, Baker Book House, 1971, p. 105.

2     Twelve sermons on prayer, p. 115.

3     Thomas Traherne, Centuries, poems, and thanksgivings. Londres, Oxford University Press,1958, p. 14.

4 Agostinho, citado das Confissões em Documents of the Christian church, Henry (ed.). Londres, Oxford University Press, 1967, p. 54 (publicado no Brasil pela Aste sob o título Documentos da igreja cristã).

5     Citado de Letters to Malcolm, em Amindawake:an anthology of C. S. Lewis, ed. Clyde Nova York, Harcourt, Brace and World, 1968, p. 204.

6     C. S. Lewis, Reflections on the Psalms. Nova York, Harcourt, Brace and World, 1958, p.82 83.

8     Iain H. Murray, The Puritan hope. Edingurbo, Banner of Truth, 1971, p. 99-103

9     Colin Grant, "Europe's Moravians: a pioneer missionary church", em Perspectives on the world Christian movement. Ralph Winter e Steven Hawthrone (eds.), Pasadena, William Carey Library, 1981, p. 206-209.

10    Jonathan Edwards, An humble attempt to promote explicit agreement and visible union of
God's people in extraordinary prayer for the revival of religion and the advancement of chrisfs kingdom on earth
[...], em Apocalyptic writings. Stephen Stein (ed.), New Haven, Yale University Press, 1977, p. 309-436.

11    Winter e Hawthrone, Perspectives on the world Christian movement, p. 210-226.

12    Veja especialmente David Bryant, Concerts of prayer. Ventura, Regai Books, 1984, e Diek Eastman, The hour that changes the world. Grand Rapids, Baker Book House, 1978.

13    J, Edwin Orr, The light ofthe nations. Grand Rapids, Eerdmans, 1965, p. 103-105

 

 

 

 

 

 

 

"Fazei para vós outros bolsas que não desgastem."

Lucas 12.33

 

 

'Das riquezas de origem iníqua fazei amigos;

para que, quando aquelas vos faltarem,

esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos."

Lucas 16.9

 

 

 

Capítulo   7.
Dinheiro

A MOEDA DO PRAZER CRISTÃO

 

O dinheiro é a moeda do prazer cristão. O que você faz com ele —  ou deseja fazer com ele— pode trazer ou levar sua felicidade para sempre. A Bíblia deixa muito claro que o que você sente pelo dinheiro pode destruir você:

Os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição (lTm 6.9).

Ou o que você faz com o dinheiro pode servir de base para a vida eterna:

Sejam [os ricos] generosos em dar e prontos a repartir; [...] acumulem para Si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida (lTm 6.18, 19).

 

Estes versículos nos ensinam a usar nosso dinheiro de uma maneira que nos traga o maior ganho possível e o mais duradouro. Em outras palavras, eles advogam o prazer cristão. Eles confirmam que Deus não apenas permite mas ordena que fujamos da destruição e busquemos nosso prazer pleno e duradouro. Eles mostram que todos os males do mundo advêm não porque nossos desejos de felicidade sejam fortes demais, mas porque são tão fracos que nos satisfazemos com prazeres passageiros que não atendem aos desejos profundos da nossa alma, mas acabam por destruí-la. A raiz de todo mal é que nós somos pessoas do tipo que se acomodam ao amor pelo dinheiro em vez de buscar o amor por Deus (1Tm 6.10).

Fuja do desejo de ser rico

Esse texto em ITimóteo é tão crucial que devemos meditar nele mais detidamente. Paulo está advertindo Timóteo contra ...homens cuja mente é pervertida e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro. De fato, grande fonte de lucro é a piedade com o contentamento. Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma poderemos levar dele. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor ao dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a Si mesmos se atormentaram com muitas dores.

Paulo escreve a Timóteo uma palavra de advertência contra enganadores ardilosos que descobriram que podiam lucrar com o crescimento dos crentes em Éfeso. De acordo com o v. 5, esses polemistas arrogantes tratam a vida espiritual como uma fonte de ganho. Estão tão presos ao amor ao dinheiro que a verdade ocupa um lugar bem inferior em seus sentimentos. Eles não "se alegram na verdade". Alegram-se com a sonegação de impostos. Estão dispostos a aproveitar-se de qualquer novo motivo de interesse popular para ganhar alguns trocados.

Nada é sagrado. Se o lucro é gordo, as estratégias de propaganda são indiferentes. Se ser cristão está na moda, é isto que eles vão vender.

Este texto é muito atual. Vivemos dias de muita lucratividade no campo da religião. Está aquecido o mercado de livros, discos, cruzes de prata, brincos de peixes, abridores de cartas de madeira de oliveira, adesivos para carros, crucifixos, vidrinhos com água do rio Jordão que fazem você ganhar no bingo ou receber seu dinheiro de volta em noventa dias. Vivemos dias lucrativos para quem está no ramo da espiritualidade!

Ele não disse: "Não tire lucro"

Tanto hoje como antigamente, Paulo poderia ter reagido assim ao esforço de lucrar com a religiosidade: "Um cristão não pode ter lucro. Um cristão faz o que é certo por amor à verdade. Cristãos não são motivados pelo que podem ganhar". Mas não foi isso que Paulo disse. O que ele disse foi: "Grande fonte de lucro é a piedade com contentamento" (v. 6).

Em vez de dizer que os cristãos não vivem em função do lucro, ele defende que eles devem correr atrás de um ganho maior do que os espertos amantes do dinheiro. A piedade é o meio para obter esse grande lucro, mas apenas se nos contentarmos com a simplicidade em vez de sermos gananciosos por riquezas. "Piedade com contentamento é grande fonte de lucro".

Se sua piedade, seu amor a Deus, o libertou do desejo de ficar rico e o ajudou a estar contente com o que tem, então sua vida cristã provou ser tremendamente lucrativa. "O exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa, porque tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser" (ITm 4.8). Espiritualidade que derrota a ganância por riquezas materiais gera grande riqueza espiritual. O que o v. 6 quer dizer é que é muito lucrativo não correr atrás das riquezas.

O que segue nos v. 7-10 são as três razões por que não devemos ambicionar riquezas.

Receber aumento não é a mesma coisa que ficar rico

Primeiro deixe-me inserir um esclarecimento. Vivemos em uma sociedade em que muitos negócios legítimos dependem de grande, concentrações de capital. Você não pode construir uma nova fábrica sem investir milhões. Por isso, executivos financeiros em grandes empresas muitas vezes têm a responsabilidade de formar reservas, por exemplo vendendo ações à comunidade. Ao condenar o desejo de ficar rico, a Bíblia não está necessariamente condenando uma firma que planeja expandir-se e para isso procura formar grandes reservas de capital. Os diretores do empreendimento podem ter a ambição de pessoalmente ficar mais ricos, ou a motivação mais nobre de como o aumento da sua capacidade de produção pode beneficiar as pessoas.

Mesmo quando uma pessoa que é competente em sua profissão recebe uma oferta de emprego com maior remuneração e a aceita, isso não é motivo suficiente para condená-la como se estivesse querendo ficar rica. Ela pode ter aceitado o emprego por causa do poder, da posição social e dos luxos que o dinheiro pode lhe trazer. Ou, contente com o que tem, pode querer usar o dinheiro extra para criar uma agência de adoções, dar uma bolsa, enviar um missionário, ou ajudar um ministério em algum bairro.

Trabalhar para ganhar dinheiro para a causa de Cristo não é a mesma coisa que querer ficar rico. Paulo não está advertindo contra o desejo de ganhar dinheiro para suprir nossas necessidades ou as de outros, mas contra o desejo de termais e mais dinheiro e contra promover o ego e o luxo material que ele pode proporcionar.

Carros funerários não têm reboques

Vejamos as três razões que Paulo dá nos v. 7-10 por que não devemos aspirar ser ricos:

1) Nov. 7 ele diz: "Nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele". Carros funerários não têm reboques.

Imagine que alguém passe de mãos vazias pelas catracas de um grande museu de arte e comece a tirar os quadros das paredes e carregá-los embora debaixo do braço. Você vai até ele e pergunta:

—O que você está fazendo?

—Estou me tornando um colecionador de arte — ele responde.

— Mas esses quadros não são seus—você revida. Ninguém vai deixar você sair daqui com eles. Você tem de sair do mesmo jeito que entrou.

Mas ele insiste:

—É claro que esses quadros são meus. Estão debaixo do meu braço. As pessoas nos corredores consideram-me um importante negociador de quadros. E não estou me preocupando com a idéia de sair. Não seja um estraga-prazeres.

 

Nós diríamos que essa pessoa é maluca! Está fora da realidade. O mesmo acontece com quem se ocupa em ficar rico nesta vida. Nós sairemos dela exatamente do modo que entramos.

Ou imagine 269 pessoas chegando à eternidade por causa da queda de um avião no mar do Japão. Nele havia um político importante, um empresário milionário, um playboy e sua amante, e um filho de missionários voltando de uma visita aos avós.

Agora eles estão diante de Deus totalmente privados de seus cartões de crédito, talões de cheques, linhas de crédito, roupas finas, livros de auto-ajuda e reservas de hotel. Ali estão o político, o executivo, o playboy e o filho de missionários todos no mesmo nível, com absolutamente nada nas mãos, possuindo apenas o que traziam no coração. Que absurda e trágica será naquele dia a posição do homem que amava o dinheiro — como a de alguém que passou a vida toda colecionando bilhetes de metrô e no fim não consegue carregar todos eles e perde o último trem. Não passe sua vida preciosa tentando ficar rico, diz Paulo, porque "nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele".

A simplicidade é possível e boa

2) Em seguida, no v. 8, Paulo acrescenta a segunda razão por que não devemos correr atrás das riquezas: "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes". O cristão pode e deve estar contente ao ter supridas as necessidades mais simples da vida.

Mencionarei três razões por que essa simplicidade é possível e boa: Primeira, quando você tem Deus perto de você e a favor de você, não precisa de mais dinheiro ou coisas para ter paz e segurança:

Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma, te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem? (Hb 13.5, 6).

 

Não importa em que direção o mercado está andando, Deus é sempre melhor do que o ouro. Por isso, com a ajuda de Deus podemos e devemos estar contentes com o suprimento das necessidades mais simples da vida.

Segunda, podemos estar contentes na simplicidade porque os prazeres mais profundos e satisfatórios que Deus nos dá pela criação são dádivas gratuitas da natureza e de relacionamentos amorosos com pessoas. Depois que suas necessidades básicas estão supridas, o acúmulo de dinheiro começa a diminuir sua capacidade de sentir esses prazeres, em vez de aumentá-la. Comprar coisas não contribui em nada para a capacidade do coração de alegrar-se.

Há uma diferença profunda entre a empolgação temporária com um novo brinquedo e um abraço de boas-vindas de um amigo do peito. Quem você acha que tem a alegria mais profunda e satisfatória na vida: o homem que paga 250 dólares por uma suíte num hotel de primeira e passa a noite no saguão com pouca luz e muita fumaça, impressionando mulheres desconhecidas com bebidas a 10 dólares por dose, ou o homem que escolhe um quarto de hotel por 40 dólares com vista para uma plantação de girassóis e para o pôr-do-sol, e passa a noite escrevendo uma carta apaixonada para sua mulher?

Terceira, devemos nos contentar com as necessidades mais simples da vida porque podemos investir o que ganhamos a mais naquilo que reamente importa. Atualmente há três bilhões de pessoas longe de Jesus Cristo. Dois terços destas não têm um testemunho cristão observável em sua cultura. Para que elas ouçam — e Cristo mandou que ouvissem— missionários transculturais têm de ser enviados e sustentados. Toda a riqueza necessária para enviar esse novo exército de embaixadores das boas novas já está na igreja.

Se nós, como Paulo, estamos contentes com as necessidades mais simples da vida, centenas de milhões de dólares na igreja serão investidos para levar o evangelho à linha de frente. A revolução de alegria e liberdade que isso causaria na igreja enviadora seria o melhor testemunho local imaginável. O chamado bíblico é que você pode e deve estar contente tendo as necessidades mais simples da vida satisfeitas.

Como traspassar o coração com muitas dores

3) A terceira razão para não correr atrás das riquezas é que essa busca acabará destruindo a sua vida. Essa é a lição dos v. 9 e 10:

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores.

 

Nenhum cristão que busca o prazer desejará lançar-se na ruína e destruição e ser atormentado com muitas dores. Por isso nenhum cristão que ama o prazer deseja ser rico.

Faça um teste consigo mesmo. Você aprendeu com a Bíblia sua atitude em relação ao dinheiro ou a absorveu dos meios de comunicação atuais? Ao andar de avião e ler a revista de bordo, verá que quase cada página ensina e passa um conceito de riqueza exatamente contrário ao de 1 Timóteo 6.9 de que aqueles que querem ser ricos cairão em ruína e destruição. Paulo mostra com muita clareza o perigo que há exatamente no desejo que as revistas exploram e promovem.

As imagens da riqueza

Lembro-me de uma propaganda de página inteira de uma cadeira giratória que mostrava um homem em um escritório todo atapetado. A frase que se destacava dizia: "Seus ternos são feitos por encomenda. Seu relógio é folheado a ouro. Sua cadeira de escritório é...". Sob o retrato do homem lia-se isto:

Trabalhei arduamente e também tive sorte: meu negócio é bem sucedido. Eu queria que meu escritório refletisse isso, e acho que consegui. Para minha cadeira escolhi uma da marca .... Ela combina com a imagem que eu queria transmitir. [...] Se você não pode dizer isso da sua cadeira, será que não está na hora de sentar-se em uma ...? Afinal de contas, você já não ficou muito tempo sem uma dessas?

 

A filosofia da riqueza nessas linhas é mais ou menos assim: se você trabalhou para ter as imagens da riqueza, seria burrice negá-las a Si mesmo. Se ITimóteo 6.9 é verdadeiro, e o desejo de ser rico nos leva à arapuca de Satanás e à destruição no inferno, então esse anúncio, que explora e promove o desejo, é tão destrutivo como qualquer coisa que você leia nos anúncios sobre sexo em um grande jornal.

Você está alerta e livre das mensagens falsas da propaganda? Ou será que a onipresente mentira econômica enganou-o a ponto de o único pecado em que você consegue pensar em relação ao dinheiro ser o roubo? Eu sou a favor da liberdade de expressão e de iniciativa porque não tenho nenhuma fé na capacidade moral de um governo pecaminoso de melhorar as instituições criadas por indivíduos pecaminosos. Mas, em nome de Deus, usemos nossa liberdade como cristãos para dizer não à ambição da riqueza e sim à verdade: há grande lucro na piedade, quando nos contentamos com a satisfação das necessidades mais simples da vida.

O que os ricos devem fazer?

Até aqui estivemos refletindo sobre as palavras dirigidas em ITimóteo 6.6-10 a pessoas que não são ricas mas são tentadas a ser. Em ITimóteo 6.17-19, Paulo fala a um grupo na igreja que já é rico. O que uma pessoa rica deve fazer com seu dinheiro quando se torna cristã? E que o cristão deve fazer se Deus fizer seu trabalho prosperar a ponto de ele ter grandes riquezas à sua disposição? Paulo responde nestes termos:

Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para Si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida.

 

As palavras do v. 19 simplesmente parafraseiam o ensino de Jesus, que disse:

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

Jesus não é contra o investimento. Ele é contra o mau investimento —  ou seja, colocar o coração no conforto e segurança que o dinheiro pode comprar neste mundo. O dinheiro deve ser investido em títulos eternos no céu — "ajuntai para vós outros tesouros no céu!" Como?

Lucas 12.32-34 nos dá uma resposta:

Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino. Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastam, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.

 

Portanto, a resposta à pergunta de como acumular tesouros no céu é gastar os tesouros terrenos em projetos de misericórdia em nome de Cristo aqui na terra. Dê esmolas — isto é, arranje para si uma bolsa no céu. Observe que Jesus não está dizendo simplesmente que o tesouro no céu será o resultado inesperado da generosidade na terra. Não, ele diz que devemos objetivar o tesouro no céu. Ajunte-o! Consiga para si bolsas e tesouros que não se estragam! Isso é puro prazer cristão.

Você receberá seus dividendos na ressurreição dos justos

Outro exemplo disso no ensino de Jesus está em Lucas 14.13, 14, em que ele é mais específico sobre como devemos usar nossos recursos para acumular tesouros no céu:

Ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.

 

Isto é praticamente o mesmo que dizer: "Dê esmolas; faça um tesouro no céu". Não busque a recompensa em títulos terrenos. Seja generoso. Não pavimente sua vida com luxos e confortos. Olhe para a ressurreição e para a grande recompensa em Deus, "em cuja presença há plenitude de alegria, em cuja destra, delícias perpetuamente" (SL 16.11).

Cuidado para não ser mais sábio que a Bíblia

Tome cuidado com comentaristas que desviam a atenção do sentido direto desses textos. Por exemplo, o que você acharia desse comentário comum sobre Lucas 14.13, 14: "A promessa de recompensa para esse tipo de vida consta aí como fato. Você não vive desse jeito pensando na recompensa. Se estiver, na verdade não está vivendo desse jeito mas do velho jeito egoísta".1

Será isso verdade — que somos egoístas e sem amor se formos motivados pela recompensa prometida? Se é assim, por que Jesus nos estimulou mencionando a recompensa, até colocando-a como base da nossa ação? E o que esse comentarista diria sobre Lucas 12.33, em que não nos é dito que a recompensa resultará de darmos esmolas, mas que devemos buscar ativamente a recompensa — "fazei para vós outros bolsas!"?

E o que diria ele sobre a parábola do administrador desonesto (Lc 16.1-13), em que Jesus conclui: "Das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando aquelas vos faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos" (Lc 16.9)? O objetivo dessa parábola é instruir os discípulos no uso correto e amoroso das posses terrenas. Jesus não diz que a conseqüência desse uso é receber habitações celestiais. Ele diz: que seja o seu objetivo garantir uma habitação eterna com o uso dos seus bens.

Portanto, é simplesmente errado dizer que Jesus não quer que busquemos a recompensa que ele promete. Ele ordena que a busquemos (Lc 12.33; 16.9). Mais de quarenta vezes no evangelho de Lucas temos promessas de recompensa e ameaças de castigo ligadas aos mandamentos de Jesus.2

É claro que não devemos buscar a recompensa do louvor terreno ou do ganho material. Isso é evidente não apenas em Lucas 14.14, mas também em Lucas 6.35: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo". Em outras palavras, não ligue para recompensas terrenas; olhe para a recompensa celestial, isto é, para as alegrias infinitas de ser filho de Deus!

Ou, como Jesus diz, em Mateus 6. 5, 4, não se importe com o louvor humano para seus atos de misericórdia. Se este é o seu propósito, isto é tudo o que você vai ganhai, e essa recompensa será lastimável comparada com a recompensa de Deus. "Ao dares esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê cm secreto, te recompensará."

Atraindo outros para a recompensa, amando-a

A razão por que nossa generosidade em relação aos outros não é amor fingido quando somos motivados pelo anseio pela promessa de Deus, é que nosso objetivo é levar os outros conosco para essa recompensa. Sabemos que nossa alegria no céu será maior se as pessoas que tratamos com misericórdia forem convencidas do valor insuperável de Cristo e se juntarem a nós no louvor a ele.

Todavia, como lhes mostraremos o valor infinito de Cristo se nós mesmos não formos impelidos, em tudo o que fazemos, pelo anseio de ter mais dele? Seria apenas falta de amor buscar a própria alegria à custa de outros. Mas se nossa busca inclui a alegria deles, como isso pode ser egoísta? Como posso eu ser menos amoroso se meu anseio por Deus me move a entregar minhas posses terrenas de modo que minha alegria nele possa ser duplicada para sempre na parceria com o outro em louvor?

Fazendo para Si mesmo um bom alicerce

O ensino de Paulo aos ricos em ITimóteo 6.19 continua e aplica esses ensinos de Jesus nos evangelhos. Eles diz que as pessoas ricas devem usar o dinheiro de uma maneira que coloque para eles um "sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida". Em outras palavras, há uma maneira de usar nosso dinheiro que nos faz perder a vida eterna.3

Sabemos que Paulo tem a vida eterna em vista porque sete versículos antes ele usa o mesmo tipo de expressão referindo-se a ela: "Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas" (lTm6.12).

A razão por que o uso do nosso dinheiro proporciona um bom fundamento para a vida eterna não é que a generosidade faz por merecer a vida eterna, mas que ela mostra onde está o nosso coração. A generosidade confirma que nossa esperança está em Deus e não em nós mesmos ou no nosso dinheiro. Nós não conquistamos a vida eterna. Ela é uma dádiva da graça (2Tm 1.9). Nós a recebemos ao descansar na promessa de Deus. Depois, como usamos nosso dinheiro confirma ou nega a realidade desse descanso.

Orgulho das posses

Paulo dá três instruções aos ricos sobre como usar o dinheiro para confirmar seu futuro eterno.

Primeira, não deixe seu dinheiro gerar orgulho. "Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos" (1Tm 6.17). Como nosso coração é enganoso quando se trata de dinheiro! Todos nós já tivemos o sentimento de superioridade que se infiltra depois de um investimento inteligente, após uma nova aquisição ou por causa de um grande depósito. As principais atrações do dinheiro são o poder que dá e o orgulho que alimenta. Paulo diz que não devemos deixar isso acontecer.

Por que é tão difícil para o rico receber a vida eterna

Em segundo lugar, ele acrescenta no v. 17: "... não depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento". Para o rico, isso não é fácil. Foi por isso que Jesus disse que é difícil para um rico entrar no reino de Deus (Mc 10.23). É difícil olhar para toda a esperança terrena que as riquezas oferecem e depois voltar-se dela para Deus, e fazer repousar toda a esperança nele. É difícil não amar a dádiva e sim o Doador. Mas essa é a única esperança para o rico. Se não puder fazer isso, estará perdido.

Ele precisa lembrar-se da advertência que Moisés deu ao povo de Israel quando este entrou na terra prometida:

Não digas, pois, no teu coração: A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas. Antes, te lembrarás do Senhor, teu Deus, porque é ele que te dá força para adquirires riquezas; para confirmar a sua aliança, que, sob juramento, prometeu a teus pais, como hoje se vê (Dt 8.17, 18).

 

O grande perigo das riquezas é que nossos sentimentos são desviados de Deus para as suas dádivas.

Será que esse ensino é de saúde, riqueza e prosperidade?

Antes de passar para a terceira exortação de Paulo aos ricos, temos de considerar um mau uso comum do v. 17. O texto diz que Deus "tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento". Isso significa em primeiro lugar que Deus geralmente é generoso na provisão que faz para atender nossas necessidades. Ele proporciona as coisas "ricamente". Em segundo lugar, significa que não precisamos nos sentir culpados por ter prazer nas coisas que ele nos dá. Elas foram dadas "para a nossa satisfação" (nvi). Jejum, celibato e outras formas de autonegação são corretas e boas no serviço de Deus, mas não devem ser exaltadas como norma espiritual. As provisões da natureza são dadas para o nosso bem e, por meio da nossa alegria diante de Deus, podem tornar-se ocasiões para ação de graças e adoração (lTm 4.2-5).

Todavia, nos dias atuais uma doutrina de riqueza e prosperidade grassa a nossa volta, moldada pela meia verdade que diz: "Nós glorificamos Deus com o nosso dinheiro, alegrando-nos em gratidão em todas as coisas que ele nos possibilita comprar. Por que um filho do Rei haveria de viver como um mendigo?" E assim por diante. A metade verdadeira dessa colocação é que devemos dar graças por toda coisa boa que Deus nos possibilita ter. Isso o glorifica. A metade falsa é a implicação enganosa de que Deus pode ser glorificado, desse modo, por toda e qualquer aquisição de luxo.

Se isso fosse verdade, Jesus não teria dito: "Vendei os vossos bens e daí esmolas" (Lc 12.33). João Batista não teria dito: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem" (Lc 3.11). O Filho do homem não teria andado por aí sem ter onde repousar a cabeça (Lc 9.58). E Zaqueu não teria dado metade dos seus bens aos pobres (Lc 19.8).

Deus não é glorificado quando ficamos (não importa quão agradecidos estejamos) com o que deveríamos estar usando para aliviar a desgraça dos milhões que estão sem o evangelho, sem educação, sem tratamento médico, sem comida. A evidência de que muitos que professam ser cristãos foram iludidos por essa doutrina é quão pouco eles dão e quanto eles têm. Deus os fez prosperar. E por uma lei quase irresistível da cultura do consumo (batizados por uma doutrina de saúde, riqueza e prosperidade), compraram (mais e) maiores casas, carros mais novos (e em maior número), roupas mais sofisticadas (e em maior número), mais (e melhores) carnes, e todo tipo de bijuterias, engenhocas, utensílios, instrumentos e equipamentos para tornar a vida mais divertida.

Por que Deus faz muitos santos prosperar

Haverá quem diga: o Antigo Testamento não promete que Deus fará seu povo prosperar? É verdade! Deus aumenta nosso capital para que, dando, possamos provar que nosso capital não é nosso deus. Deus não faz prosperar o negócio de alguém para que possa trocar o carro popular por um modelo de luxo. Deus faz negócios prosperarem para que milhares de povos ainda não evangelizados possam ser alcançados com o evangelho. Ele faz um negócio prosperar para que 12% da população do mundo possa dar um passo para trás, afastando-se do precipício da inanição.

Sou pastor, não economista. Por isso vejo meu papel hoje em dia como James Stewart viu o seu na Escócia de três décadas atrás:

É função dos economistas, e não dos pregadores, elaborar planos de reconstrução. Mas, enfaticamente, é função do pregador despertar as pessoas em terras longínquas para que acordem para a formidável piedade de Jesus, para que abram seu coração à coação dessa compaixão divina que faz brilhar sua santidade em torno dos oprimidos e sofridos, e lançar chamas de juízo contra todo mal social. [...] Não há lugar para a pregação despida de franqueza ética e de paixão social, em dias em que as trombetas do céu ressoam e o Filho de Deus sai para a guerra.4

 

Nosso chamado: um estilo de vida pronto para a guerra

A referência à "guerra" não é apenas retórica. Precisa-se hoje em dia especificamente de um "estilo de vida pronto para a guerra". Usei a expressão "necessidades mais simples da vida" no começo deste capítulo porque Paulo disse em ITimóteo 6.8: "Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes". Essa idéia de simplicidade, contudo, pode ser enganosa. Entendo que ela se refere a um estilo de vida que não se carrega de coisas que não são essenciais — e o critério para o que é "essencial" não deve ser a antiga "simplicidade", mas a eficiência para tempos de guerra.

Ralph Winter ilustra essa idéia de estilo de vida pronto para a guerra:

O Queen Mary, ancorado no porto de Long Beach, na Califórnia, é um museu fascinante do passado. Usado tanto como navio de luxo em tempos de paz como para transporte de tropas durante a Segunda Guerra Mundial, sua condição atual de museu do tamanho de três campos de futebol serve de contraste impressionante entre o estilo de vida apropriado em tempo de paz ou de guerra. Em um lado da divisória você vê o salão de jantar reconstruído para retratar a disposição das mesas em tempos de paz, para uso dos ricaços refinados, para quem a disposição brilhante de facas, garfos e colheres não tinha segredos. Do outro lado da divisória as evidências da austeridade do tempo de guerra estabelecem o forte contraste. Uma bandeja de metal com baixos relevos substitui quinze pratos e molheiras. Beliches de não apenas duas camas mas oito explicam como a capacidade civil para 3 000 pessoas aumentava para 15 000 soldados. Como essa transformação deve ter sido repugnante para os senhores dos tempos de paz! Para efetuá-la foi necessária uma emergência nacional, é claro. A sobrevivência de uma nação dependia dela. A essência da Grande Comissão hoje em dia é que a sobrevivência de muitos milhões de pessoas depende do seu cumprimento.5

 

Estamos em guerra. Toda essa conversa sobre o direito do cristão de viver cercado de luxos, "como filho do Rei", soa vazia nessa atmosfera —  principalmente porque o próprio Rei tirou todos os trajes supérfluos para entrar na batalha. É mais proveitoso pensar em um estilo de vida "de guerra"

do que em um mero estilo de vida "simples". A simplicidade pode estar muito voltada para dentro e não trazer benefícios para ninguém mais. Um estilo de vida de guerra implica que há uma causa grande e digna, pela qual vale a pena gastar-se e ser gasto (2Co 12.15). Winter continua:

A sociedade ocidental atualmente é mais do que nunca de um salve-se-quem-puder. Mas será que isso realmente funciona? As sociedades subdesenvolvidas sofrem de certos tipos de doenças: tuberculose, subnutrição, pneumonia, parasitas, tifo, cólera, malária etc. Os países ricos praticamente inventaram um tipo completamente novo de doenças: obesidade, arteriosclerose, problemas cardíacos, derrame, câncer do pulmão, doenças venéreas, cirrose hepática, vício em drogas, alcoolismo, divórcio, crianças em risco, suicídio, assassinato. Faça sua escolha. Máquinas que economizam mão de obra provaram ser instrumentos de morte. Nossa prosperidade nos possibilitou tanto a mobilidade quanto o isolamento da família e, em conseqüência, nossas varas de família, nossas prisões e nossas instituições de saúde mental estão superlotadas. Ao salvarmos a nós mesmos praticamente perdemos a nós mesmos.

Quanto temos nos esforçado para salvar outros? Veja que o lema que nós evangélicos usamos, "Ore, contribua ou vá", permite às pessoas apenas orar, se chegarem a optar por isso! Em comparação, o Grupo de Oração dos Amigos dos Missionários, no sul da Índia, tem 8 000 inscritos nos vários grupos e sustenta 80 missionários de tempo integral no norte da índia. Se minha denominação (que tem uma riqueza per capita muitíssimo  maior) fosse fazer isso bem feito,estaríamos mantendo não 500 missionários, mas 26 000. Apesar da pobreza real deles, esses irmãos indianos estão enviando 50 vezes mais missionários transculturais do que nós.6

 

O que quero mostrar aqui é que aqueles que estão incentivando os cristãos a buscar um estilo de vida luxuoso de tempos de paz entenderam errado tudo o que Jesus ensinou sobre dinheiro. Ele nos chamou para perdermos nossa vida a fim de a ganharmos de novo (e o contexto com certeza tem que ver com dinheiro: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?", Mc 8.36). A maneira a que Jesus se refere de perdermos nossa vida é cumprindo a missão de amor que ele nos deu.

Seja rico em boas ações

Isso nos leva à última exortação que Paulo faz aos ricos: "Que sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir" (lTm 6.18). Uma vez libertos do ímã do orgulho e com a esperança colocada em Deus e não no dinheiro, somente uma coisa pode acontecer: o dinheiro deles fluirá livremente para multiplicar os multiformes ministérios de Cristo.

E a minha casa de campo?

O que um pastor dirá ao seu povo sobre a compra e posse de duas casas, em um mundo em que 2 000 pessoas morrem de fome todos os dias e em que as agências missionárias não conseguem atingir mais povos não alcançados por falta de fundos? Primeiro, ele pode citar Amós 3.15: "Derribarei a casa de inverno com a de verão; as casas,de marfim perecerão, e as grandes casas serão destruídas". Em seguida ele pode ler Lucas 3.11: "Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem".

Depois ele pode contar a história da família de St. Petersburg, na Flórida, que começou a preocupar-se com a carência de moradia dos pobres. Venderam a segunda casa que tinham em outro estado e usaram o dinheiro para construir casas para diversas famílias no seu bairro.

Mais adiante ele pode perguntar: É errado ter uma segunda casa que fica vazia uma parte do ano? E responder: Pode ser que sim, pode ser que não. Não tornará as coisas fáceis criando uma lei. Leis podem ser obedecidas por coação, sem mudança de coração; o profeta quer um coração novo para Deus, não apenas transferências imobiliárias. O pastor pode mostrar empatia com a insegurança deles e compartilhar da sua própria luta para descobrir a maneira de amar. Ele não presumirá que tem uma resposta simples para cada dúvida a respeito de estilo de vida.

Mas os ajudará a decidir. Dirá: "Sua casa simboliza ou estimula um grau de luxo usufruído em face da negligência perante as necessidades dos outros? Ou é um lugar simples de retiro, usado com freqüência para o necessário descanso, oração e meditação, que devolve a pessoa à cidade com um grande desejo de negar a Si mesma em prol da evangelização dos perdidos e da busca da justiça?"

Ele lhes sensibilizará a consciência e os desafiará a buscar um estilo de vida sintonizado com o ensino e com a vida do Senhor Jesus.

Por que Deus nos deu tanto?

Em Efésios 4.28, Paulo diz: "Aquele que furtava não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir o necessitado". Em outras palavras, há três níveis de como vivemos com as coisas: 1) você pode roubar para tê-las; 2) você pode trabalhar para tê-las; 3) você pode trabalhar para ter e para poder dar.

Um número demasiadamente alto de cristãos vive no nível dois. Quase todas as forças da nossa cultura nos pressionam a viver nesse nível. Porém a Bíblia nos empurra sem descanso para o nível três. "Deus pode fazer-vos abundar em toda graça, a fim de que, tendo sempre, em tudo, ampla suficiência, superabundeis em toda boa obra" (2Co 9.8). Por que Deus nos abençoa com abundância? Para termos o suficiente para vivermos e então usar o restante para todo tipo de boa ação que alivia a miséria espiritual e física. Suficiente para nós; abundância para os outros.

A questão não é quanto alguém ganha. Grandes empresas e altos salários são uma realidade do nosso tempo, e não são necessariamente maus. Mau é ser induzido a pensar que um salário de 10 mil por mês tem de ser acompanhado de um estilo de vida de 10 mil por mês. Deus nos fez para sermos condutores da sua graça. O perigo está em pensar que o canal precisa ser revestido de ouro. Não precisa. O plástico dá conta do recado.

Vivendo à beira da eternidade

Nossa última ênfase nesse resumo deve ser esta: Em ITimóteo o, o propósito de Paulo é nos ajudar a pôr as mãos na vida eterna e não soltá-la mais. Paulo nunca perde tempo com coisas não essenciais. Ele vive à beira da eternidade. É por isso que ele vê as coisas com tanta clareza. Ele está ali como porteiro de Deus e nos trata como cristãos racionais que buscam o prazer: você quer uma vida que é vida de verdade, não é (v. 19)? Você não quer ruína, destruição e dores interiores, não é (v. 9, 10)? Você quer todo o lucro que a vida cristã pode dar, não é (v. 6)? Então use a moeda do prazer cristão com sabedoria: não deseje ser rico, contente-se com o suprimento das necessidades mínimas de uma vida em época de guerra, ponha toda a sua esperança em Deus, cuide-se para não ficar orgulhoso e deixe sua alegria em Deus transbordar em riqueza de generosidade para com o mundo perdido e carente.

 

NOTAS

1     T. W. Manson, The sayings of Jesus. Londres, SCM Press, 1949, p. 280.

2     John Piper, Love your enemies. Cambridge, Cambridge University Press, 1979. Nas páginas anteriores relacionei alguns desses exemplos.

3     Isso não contradiz a doutrina bíblica da segurança eterna das pessoas que Deus escolheu e que são nascidas de novo de verdade, doutrina essa firmemente estabelecida em Romanos 8.30. Mas implica que há uma mudança de atitude interior quando nascemos de Deus; e isso inclui evidências na maneira como usamos nosso dinheiro. Jesus advertiu repetidas vezes contra a falsa confiança que não dá fruto e no fim faz a pessoa perder ávida (Mt 7.15-27; 13.47-50; 22.11-14).

4     James Stewart, Heralds of God. Grand Rapids, Baker Book House, 1972, p. 97.

5     Ralph Winter, "Reconsecration to a wartime, not a peacetime, lifestyle", em Perspectives on the world Christian movement. Ralph Winter e Steven Hawthorne (eds.). Pasadena, William Carey Library, 1981, p. 814.

6     Winter, "Reconsecration" p. 815.

 

 

 

Quem ama a esposa a Si mesmo se ama.

Efésios 5.28

 

 

Mulher virtuosa, quem a achará?

O seu valor muito excede o de finas jóias.

Provérbios 31.10

 

 

 

Capitulo   8.
Casamento

UMA FONTE DO PRAZER CRISTÃO

 

A razão por que há tantas desgraças no casamento não é que maridos e esposas buscam seu próprio prazer, mas que não o buscam no prazer do seu cônjuge. O mandato bíblico para maridos e esposas é buscar sua própria alegria na alegria do cônjuge. Que façam do casamento a fonte do prazer cristão.

Fazer uma esposa gloriosa

Dificilmente há na Bíblia uma passagem mais centrada no prazer do que esta sobre o casamento em Efésios 5.25-30:

Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a Si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito. Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a Si mesmo se ama. Porque ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a Igreja; porque somos membros do seu corpo.

 

Aos maridos é ordenado que amem sua esposa da maneira que Cristo amou a igreja. E como Cristo amou a igreja? Ele "a Si mesmo se entregou por ela". Mas por quê? "Para que a santificasse e purificasse." E por que ele quereria fazer isso? "Para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa!"

Ah! Ai está! "Em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz" (Hb 12.2). Que alegria? A alegria do matrimônio com sua noiva, a igreja. Jesus não quer uma esposa suja e profana. Por isso dispôs-se a morrer para "santificar e purificar'" sua prometida, para poder apresentar a Si mesmo uma esposa "gloriosa".

Buscando a alegria na alegria do amado

E qual é a maior alegria da igreja? Não é ser purificada e santificada, para depois ser apresentada como noiva ao Cristo soberano, cheio de glória? Assim Cristo buscou a sua própria alegria, sim — mas buscou-a na alegria da igreja! É isso que o amor é: a busca da própria alegria na alegria do amado.

Em Efésios 5.29, 30, Paulo leva o prazer de Cristo ainda mais longe: "Ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a Igreja; porque somos membros do seu corpo". Por que Cristo alimenta e cuida da igreja? Porque somos membros do seu corpo, e ninguém odeia o seu próprio corpo. Em outras palavras, a união entre Cristo e sua noiva é tão íntima ("uma só carne") que qualquer bem feito a ela é feito a ele mesmo. A afirmação direta desse texto é que esse fato motiva o Senhor a alimentar, cuidar, santificar e purificar sua noiva.

De acordo com algumas definições, isso não pode ser amor. Diz-se que o amor tem de ser isento de interesse próprio — especialmente o amor semelhante ao de Cristo, do tipo que se mostrou no Calvário. Nunca consegui ver este tipo de amor encaixar-se nessa passagem das Escrituras. No entanto, o que Cristo faz por sua noiva, esse texto claramente chama de amor: "Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a Igreja..." Por que não deixar o texto definir para nós o que é amor, em vez de tirar nossas definições da ética ou da filosofia?

Segundo esse texto, amor é a busca da nossa alegria na alegria santa do amado. Não há meio de separar o interesse próprio do amor, porque interesse próprio não é a mesma coisa que egoísmo. O egoísmo busca sua felicidade particular à custa dos outros. O amor busca a sua felicidade na felicidade do amado. Chega até a sofrer e a morrer pelo amado, para que sua alegria seja completa na vida e pureza do amado.

Mas Jesus não disse que devemos "odiar nossa vida"?

Quando Paulo diz: "Ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida", para depois usar o próprio Cristo como exemplo, será que está contradizendo João 12.25, onde Jesus disse: "Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna"? Não! Não há contradição. Pelo contrário, a concordância é notável.

A expressão chave é "neste mundo": quem odiar sua vida neste mundo mantê-la-á para a vida eterna. Não é um ódio definitivo, porque ao praticá-lo você conserva sua vida para sempre. Portanto, há uma maneira de odiar a vida que é boa e necessária, e Paulo não está negando isso ao dizer que ninguém odeia sua vida. Esse tipo de ódio e um meio de salvação, e, por isso, um tipo de amor. Por isso e que Jesus tem de limitar o ódio de que está falando com as palavras "neste mundo". Levando em conta o mundo futuro, isso não pode mais ser chamado de ódio. Odiar a vida neste mundo foi o que Jesus fez quando "entregou a Si mesmo pela igreja". Todavia, ele o fez pela alegria que lhe foi proposta. Ele o fez para poder apresentar sua noiva a Si mesmo gloriosa. Odiar a própria vida foi o mais profundo amor por sua própria vida — e pela igreja!

As palavras de Paulo também não são uma contradição de Apocalipse 12.22: "Eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida". Eles estavam dispostos a ser mortos por Jesus, mas, ao odiar sua vida dessa maneira, "venceram" Satanás e conquistaram a glória do céu: "Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida" (Ap 2.10). Esse "não amar a própria vida, mesmo em face da morte" na verdade foi amar a vida além da morte.

Todo mundo busca a felicidade

Ninguém neste mundo jamais odiou sua própria carne no sentido extremo de escolher o que tem certeza que produzirá a maior desgraça. Essa foi a conclusão de muitos grandes conhecedores do coração humano. Blaise Pascal afirmou-a nos seguintes termos:

Todas as pessoas buscam a felicidade. Não há exceção para isso. Por mais diferentes que sejam os meios que usam, todos têm esse fim em vista. A razão de alguns fazerem guerra e outros a evitarem é o mesmo desejo, visto de lados diferentes. A vontade jamais dá um passo sequer que não seja nessa direção. Essa é a motivação de toda ação de qualquer pessoa, até das que se enforcam.1

 

Jonathan Edwards vinculou isso à Palavra de Cristo:

Jesus sabia que toda a humanidade estava em busca de felicidade. Ele a dirigiu para a maneira correta de alcançá-la e disse-lhe em que precisa se tornar para ser abençoada e feliz.2

 

Edward Carnell generaliza a questão:

A ética cristã, recordemos, segue a premissa do amor de cada um por Si mesmo. Nada nos motiva a não ser que apele aos nossos interesses.3

 

Karl Barth, à sua maneira efusiva típica, escreveu várias páginas sobre essa verdade. Veja estes trechos escolhidos:

A vontade de viver é a vontade de ter alegria, prazer, felicidade. [...] Em toda pessoa autêntica a vontade de viver e também a vontade de ter alegria. Em tudo o que deseja, deseja e objetiva que também isso exista para ela de algum modo. Ela busca coisas diferentes com a intenção, expressa ou não mas muito definida, mesmo que inconsciente, de conseguir essa alegria. [...] É hipocrisia esconder isso de Si mesmo. E a hipocrisia seria à custa da verdade ética de que deve querer ser feliz, do mesmo modo que deve querer comer, beber, dormir, ter saúde, trabalhar, defender o que é certo e viver em comunhão com Deus e com seu próximo. Quem tenta privar-se dessa alegria, certamente não é uma pessoa obediente.4

 

Um marido, para ser obediente, precisa amar sua esposa assim como Cristo amou a igreja. Isto é, ele precisa buscar sua própria alegria na alegria santa da sua esposa.

Assim também os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a Si mesmo se ama (Ef 5.28).

 

Isso é claramente a paráfrase que Paulo faz do mandamento de Jesus, extraído de Levítico 19.18: "Ama o teu próximo como a ti mesmo" (Mt 22.39). A idéia popular errada é que este mandamento nos ensina a gostar de nós mesmos para podermos amar os outros. Não é isso que o mandamento significa (veja o Apêndice 3). Jesus não ordena que ame-nos a nós mesmos. Ele pressupõe que o fazemos. Ou seja, ele pressupõe, como disse Edwards, que todos nós buscamos nossa própria felicidade, para em seguida tornar a medida do nosso amor próprio inato a medida do nosso dever de amar os outros: "Assim como você ama a Si mesmo, ame os outros".

Paulo agora aplica isso ao casamento. Ele o vê ilustrado no relacionamento de Cristo com a igreja. E o vê ilustrado no fato de que marido e esposa se tornam "uma só carne" (v. 31): "Os maridos devem amar a sua mulher como ao próprio corpo. Quem ama a esposa a Si mesmo se ama". Em outras palavras, os maridos devem empenhar a mesma energia, tempo e criatividade para fazer sua esposa feliz que empenham naturalmente para fazer a Si mesmos felizes. O resultado será que, fazendo isso, tornarão a Si mesmos felizes. Porque quem ama sua esposa ama a Si mesmo. Como a esposa é uma só carne com seu marido, o mesmo se aplica ao amor dela por ele.

Paulo não está construindo um dique contra o rio do prazer; ele constrói um canal para ele. Ele diz: "Maridos e esposas, reconheçam que, no casamento, vocês se tornaram uma só carne. Se vocês viverem para seu próprio prazer à custa do cônjuge, estarão vivendo contra Si mesmos e destruindo sua alegria. Mas se vocês se dedicarem de todo o coração à alegria santa do seu cônjuge, também estarão vivendo para sua própria alegria e fazendo uma casamento a imagem de Cristo e sua igreja".

O padrão do prazer cristão no casamento

Ora, como é esse amor entre marido e esposa? Paulo ensina um padrão para o amor matrimonial nesse texto?

Efésios 5.31 é uma citação de Gênesis 2.24: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne". Paulo acrescenta, no v. 32: "Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à Igreja". Por que ele chama Gênesis 2.24 de um grande "mistério"?

Antes de responder, voltemos ao contexto do Antigo Testamento e vejamos mais claramente o que Gênesis 2.24 significava.

O contexto do Antigo Testamento

De acordo com Gênesis 2, Deus criou Adão primeiro e o pôs no jardim sozinho. Então o Senhor disse: "Não é bom que o homem esteja só: far-lhe ei uma auxiliadora que lhe seja idônea" (Gn 2.18). Isso não e necessariamente um demérito para a comunhão de Adão com Deus, nem um sinal de que o trabalho no jardim era demais para uma pessoa só. Antes, a idéia é que Deus fez o ser humano para ser alguém que compartilha. Deus nos criou não para sermos o fim da linha da sua abundância, mas condutores. Ninguém é completo a não ser que esteja transmitindo graça (como eletricidade) entre Deus e outra pessoa. (Nenhuma pessoa solteira deve concluir que isso pode ocorrer apenas no casamento!)

Tem de ser outra pessoa, não um animal. Por isso, em Gênesis 2.19, 20, Deus fez os animais desfilar diante de Adão para mostrar-lhe que um animal jamais lhe serviria de "ajudadora idônea". Animais ajudam muito, mas apenas uma pessoa pode ser co-herdeira da graça da vida (lPe 3.7). Apenas uma pessoa pode receber, valorizar e aproveitar a graça. O que o ser humano precisa é de outra pessoa com quem possa compartilhar o amor de Deus. Animais não servem! Há uma diferença infinita entre admirar a lua cheia junto com seu amado e admirá-la junto com seu cão.

Por isso, segundo o v. 21, "o Senhor Deus fez cair pesado sono sobre o homem, e este adormeceu; tomou uma das suas costelas e fechou o lugar com carne. E a costela que o Senhor Deus tomara ao homem, transformou a numa mulher e lha trouxe". Depois demostrarão ser humano que nenhum animal lhe serve de ajudador, Deus fez outro ser humano da própria carne e osso do homem, que fosse como ele — mas também muito diferente dele Ele não criou outro macho. Criou uma fêmea. E Adão reconheceu nela a contrapartida exata de Si mesmo —  totalmente diferente dos animais: "Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos. Ela será chamada de 'mulher' porque Deus a tirou do homem" (Gn 2.23, blh).

Ao criar uma pessoa como Adão e ao mesmo tempo muito diferente de Adão, Deus possibilitou uma profunda unidade que, de outra forma, teria sido impossível. Há uma tipo de unidade obtido pela junção de contrapartes diversas que se distingue do que se consegue pela junção de duas coisas iguais. Quando todos cantamos a mesma linha melódica, chama-se isso uníssono, que significa "um som". Porém, quando unimos linhas diferentes de soprano, contralto, tenor e baixo, chamamo-lo harmonia, e qualquer pessoa que tem ouvido para ouvir sabe que algo mais profundo em nós é tocado por uma grande harmonia do que pelo mero uníssono. Por isso Deus fez uma mulher e não outro homem. Ele criou a heterossexualidade, não a homossexualidade.

Note a relação entre os v. 23 e 24, assinalada pela palavra "por isso" no v.24:

Então o homem disse: "Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos. Ela será chamada de 'mulher' porque Deus a tirou do homem". É por isso que o homem deixa o seu pai e a sua mãe para se unir com a sua mulher, e os dois se tornam uma só pessoa (blh).

 

No v. 23 a ênfase está em duas coisas: objetivamente, no fato de que a mulher é parte da carne e dos ossos do homem; e subjetivamente, na alegria que Adão tem ao ser presenteado com a mulher. "Agora sim! Esta é carne da minha carne e osso dos meus ossos!" Dessas duas coisas o autor tira uma inferência para o casamento no v. 24: "Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne".

Em outras palavras, no começo Deus tirou a mulher do homem como osso dos seus ossos e carne da sua carne, e depois Deus a presenteou de volta ao homem, para que este descobrisse na comunhão viva o que significa ser uma só carne. O v. 24 tira a lição que o casamento é exatamente isso: um homem deixando pai e mãe, porque Deus lhe deu outra pessoa; um homem unindo-se à sua mulher apenas e a nenhuma outra; e um homem fazendo a experiência de ser uma só carne com essa mulher.

O grande mistério do casamento

Paulo olha para isso e o chama um "grande mistério". Por quê?

Ele aprendera de Jesus que a igreja é o corpo de Cristo (Ef 1.23). Pela fé, as pessoas são ligadas a Jesus Cristo. O novo crente, assim, se torna um com todos os outros crentes, de modo que "somos um em Cristo Jesus" (Gl 3.28). Os crentes em Cristo são o corpo de Cristo. Nós somos o organismo por meio do qual ele manifesta a sua vida, e no qual mora o seu Espírito.

Sabendo isso sobre o relacionamento entre Cristo e a igreja, Paulo vê um paralelo com o casamento. Ele vê que marido e esposa se tornam uma só carne e que Cristo e a igreja se tornam um só corpo. Por isso ele diz à

igreja, por exemplo, em 1Coríntios 11.2: "Zelo por vos com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo". Ele retrata Cristo como o marido, a igreja como a noiva, e a conversão como o momento do noivado, que Paulo ajudara a concretizar. A apresentação da noiva ao seu marido provavelmente acontecerá por ocasião da segunda vinda do Senhor, mencionada em Efésios 5.27 ("para a apresentar a Si mesmo Igreja gloriosa").

A impressão é que Paulo usa o relacionamento no casamento humano, tirado de Gênesis 2, para descrever e explicar o relacionamento entre Cristo e a igreja. Contudo, se fosse esse o caso, o casamento não seria um mistério, como Paulo o chama em Efésios 5.32; seria a coisa clara e óbvia que explica o mistério de Cristo e a igreja. Portanto, há mais no casamento do que o que se vê à primeira vista. O que é?

O mistério é este: Deus não criou a união entre Cristo e a igreja conforme o padrão do casamento humano; é o contrário! Ele criou o casamento humano segundo o padrão da relação de Cristo com a igreja.

O mistério de Gênesis 2.24 é que o casamento descrito é uma parábola ou símbolo do relacionamento de Cristo com seu povo. Havia mais coisas acontecendo na criação da mulher do que se percebe à primeira vista. Deus não faz as coisas à toa. Tudo tem propósito e sentido. Quando Deus se propôs criar homem e mulher e ordenar a união do casamento, ele não jogou dados nem palitos nem lançou uma moeda no ar para determinar como eles deveriam se relacionar. Ele organizou o casamento intencionalmente de acordo com o relacionamento entre seu Filho e a igreja, que ele já tinha planejado lá na eternidade.5

Por isso o casamento é um mistério — ele contém e oculta um sentido muito maior do que se vê de fora. Deus criou o ser humano macho e fêmea, e preparou o casamento para que essa união servisse de imagem do relacionamento da aliança eterna entre Cristo e sua igreja. Como escreveu Geoffrey Bromiley, "assim como Deus fez o ser humano à sua própria imagem, ele fez o casamento à imagem do seu próprio matrimônio eterno com seu povo".6

A inferência que Paulo tira desse mistério é que os papéis de marido e esposa no casamento não foram atribuídos arbitrariamente, mas estão fundados nos papéis distintos de Cristo e sua igreja. Os casados precisam ponderar repetidamente como é misterioso e maravilhoso que Deus nos concede, no casamento, o privilégio de servir de imagem de realidades divinas estupendas, infinitamente maiores e melhores do que nós mesmos.

Essa é a base do padrão de amor que Paulo descreve para o casamento. Não é suficiente dizer que cada cônjuge deve buscar sua alegria na alegria do outro. Também é importante dizer a maridos e esposas que devem copiar conscientemente o relacionamento pretendido por Deus para Cristo e a igreja.

A esposa deve copiar a atitude da Igreja

Por conseguinte, as esposas devem inferir sua postura do relacionamento da igreja com Cristo: "As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, como ao Senhor; porque o marido é o cabeça da mulher, como também Cristo é o cabeça da Igreja, sendo este mesmo o salvador do corpo. Como, porém, a Igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo submissas ao seu marido" (Ef 5.22-24).

Para compreender a submissão da esposa, temos de compreender em que sentido o marido é "cabeça", porque a submissão dela está relacionada com isso ("As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido; [...] porque o marido é o cabeça da mulher"). Qual é o significado de "cabeça" em Efésios 5.23?

A palavra grega para "cabeça" (kephale) é usada algumas vezes no Antigo Testamento como referência a um chefe ou líder (Jz 10.18; 11.8, 9; 2Sm 22.44; Sl 18.43; Is 7.8). Contudo, à primeira vista não é óbvio por que "cabeça" deve ser usado como referência a líder. Talvez sua posição no alto do corpo deu à cabeça a idéia de hierarquia e poder.

Para alguns antigos a principal faculdade do pensamento situava-se no coração, não na cabeça, apesar de que, segundo Charles Singer no Oxford classical dictionary, a opinião de Aristóteles de que a inteligência ficava no coração "era contrária à opinião de alguns médicos da sua época, contrária à opinião popular e contrária à doutrina de Timeu [de Platão]".7 A testemunha grega mais pertinente para o sentido de "cabeça" na época de Paulo deve ser Filo, seu contemporâneo, que disse:

Assim como a natureza colocou a soberania do corpo na cabeça quando lhe concedeu também a posse do castelo como mais apropriada à sua posição de soberana, deu-lhe uma posição firme para assumir o comando e estabeleceu-a no alto com toda a estrutura do pescoço aos pés abaixo de Sl, como o pedestal sob a estátua, assim também deu o senhorio dos sentidos aos olhos.8

 

Essa era a perspectiva popular nos dias de Paulo, de acordo com Heinrich Schlier, como é evidente em textos estóicos, além de Filo.9 Por isso, os críticos de hoje estão errados quando afirmam que, "para as pessoas de fala grega no tempo do Novo Testamento, havia muitos sentidos possíveis para 'cabeça', mas 'estar acima' ou 'ser responsável por' não estavam entre eles".10

"Supremacia" é precisamente a qualidade dada à cabeça por Filo e outros. Mais importante que isso, porém, é que o uso que o próprio Paulo faz da palavra "cabeça" em Efésios 1.22 "traz consigo inquestionavelmente a idéia de autoridade".11

Em Efésios 1.20-22, Paulo diz que Deus ressuscitou Cristo,

fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder; e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à Igreja.

 

Mesmo que a palavra "cabeça" significasse "fonte", como alguns afirmam,12 isso seria uma idéia estranha aqui, em que Cristo é empossado como soberano sobre todas as autoridades. Também é totalmente improvável que Paulo tinha esta idéia em mente em Efésios 5.23, em que a impressão mais natural da "subordinação" da esposa é que seu marido seja "cabeça" no sentido de líder ou autoridade.

Todavia, imaginemos que "fonte" fosse o sentido de "cabeça" nessa passagem. Que sentido isso teria no contexto? O marido é retratado como o cabeça da sua esposa assim como Cristo é retratado como cabeça da igreja, que é o seu corpo (Ef 5.29, 30). Não se pode dizer que "cabeça" é a cabeça de um rio ou algo assim. Paulo diz com muita precisão que tipo de "cabeça" ele tem em mente. É a cabeça que fica ligada a um pescoço, no alto de um "corpo".

Ora, se cabeça tem o sentido de "fonte", do que o marido é fonte? O que o corpo recebe da cabeça? Nutrição (isso é mencionado no v. 29: "Ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida, como também Cristo o faz com a Igreja"). Podemos entender isso, porque a boca fica na cabeça, e o alimento chega ao corpo pela boca. Mas isso não é tudo que o corpo recebe da cabeça. Ele recebe direção porque os olhos ficam na cabeça. E recebe percepção e proteção porque os ouvidos ficam na cabeça.

Em outras palavras, se o marido, como cabeça, é uma só carne com sua esposa, que é seu corpo, e se, por isso, ele é sua fonte de direção, alimento e proteção, então a conclusão natural é que a cabeça, o marido, tem a responsabilidade primordial de liderar, prover e proteger.

Portanto, mesmo que se atribua à "cabeça" o sentido de "fonte", a interpretação mais natural desses versículos é que os maridos receberam de Deus o chamado de assumir a responsabilidade primordial de ser líderes servos, provedores e protetores semelhantes a Cristo no lar. E as esposas têm o chamado de honrar e apoiar a liderança do marido e ajudá-lo a desempenhá-la com os dons que ela tem.

Por isso, quando Paulo diz: "As mulheres sejam submissas ao seu próprio marido, [...] porque o marido é o cabeça da mulher", ele quer dizer que a esposa deve reconhecer e honrar a responsabilidade maior do marido de liderar o lar. Ela deve ter a disposição para ceder à autoridade do marido e seguir sua liderança.

A razão por que falo de disposição para ceder e seguir é que nenhuma submissão de um ser humano a outro é absoluta. O marido não substitui Cristo como autoridade suprema da esposa. Ela jamais pode seguir a liderança do marido para o pecado. Mas mesmo quando uma esposa cristã tiver de posicionar-se com Cristo contra a vontade pecaminosa do seu marido, ela ainda pode manter um espírito de submissão. Ela pode mostrar com sua atitude e conduta que não gosta de resistir à vontade dele, e que anseia que ele esqueça o pecado e a lidere em justiça, para que a disposição dela de honrá-lo como cabeça possa novamente produzir harmonia.

Outra razão para sublinhar a disposição da submissão, e não ações em particular, é que a conduta específica que resulta desse espírito de submissão é diferente em cada casamento. Ela pode até parecer contraditória de uma cultura para outra.

O marido deve copiar a atitude de Cristo

Portanto, nessa misteriosa parábola do casamento, a esposa deve copiar sua postura do propósito de Deus com a igreja em sua relação com Cristo. E aos maridos Paulo diz: Copiem a postura de Cristo: "Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela" (v. 25). Se o marido é o cabeça da esposa, como diz o v. 23, que fique bem claro para todos os maridos que isso significa primordialmente ser líder no tipo de amor que está disposto a morrer para dar a vida por ela.

Como Jesus diz em Lucas 22.26: "Aquele que dirige seja como o que serve". O marido que se deixa cair na poltrona diante da televisão e faz sua esposa correr para cá e para lá como se fosse uma escrava desviou-se do caminho de Cristo. Jesus cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos apóstolos. Ai do marido que acha que a condição de macho requer que ele adote uma atitude de domínio e cobrança de sua esposa. Se você quer ser um marido cristão, você se torna um servo, não um chefe.

É verdade que o v. 21 põe toda essa seção sob o signo da submissão mútua: "Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo". Mas não há base nenhuma para concluir desse versículo que o modo em que Cristo se submete à igreja é igual ao modo em que a igreja se submete a Cristo. A igreja se submete a Cristo pela disposição de seguir sua liderança. Cristo se submete à igreja pela disposição de exercer sua liderança em serviço humilde à igreja.

Quando Cristo disse: "Aquele que dirige seja como o que serve", ele não quis dizer que o líder deve deixar de ser líder. Mesmo no momento em que ele estava ajoelhado lavando os pés deles, ninguém tinha dúvidas de quem era o líder. Da mesma maneira, nenhum marido cristão pode eximir-se da responsabilidade dada por Deus de prover visão moral e liderança espiritual, como servo humilde de sua esposa e família.

Dirijo-me por um momento diretamente aos homens: não permita que a retórica do feminismo antibíblico o induza a pensar que a liderança

segundo o exemplo de Cristo, por parte do marido, é má. Ela é o que nossos lares mais necessitam acima de qualquer outra coisa. Apesar de todo o seu carinho, toda a sua atitude de servo e toda a submissão aos profundos desejos e necessidades da sua esposa, você continua sendo o cabeça, o líder.

O que quero dizer é isto: Você deve sentir a responsabilidade maior de assumir a liderança nas coisas do Espírito; você deve liderar a família em uma vida de oração, no estudo da Palavra de Deus e na adoração; você deve liderar ao dar à família a visão do seu propósito e missão; você deve tomar a frente e moldar o padrão moral do lar e administrar sua paz feliz. Jamais encontrei uma mulher que geme debaixo de uma liderança semelhante à de Cristo. Mas sei de incontáveis esposas infelizes porque o marido abdicou da liderança que Deus lhe conferiu e não tem visão moral, um conceito espiritual do propósito da família, e por isso nenhum desejo de liderar ninguém para lugar algum.

Uma propaganda de cigarro famosa retrata um machão despenteado, bronzeado e musculoso, com um cigarro pendurado do canto da sua boca. Por baixo está a frase: "O lugar do homem". Mentira. O lugar do homem é ao lado da cama dos seus filhos, conduzindo-os em devoção e oração. O lugar do homem é na condução da sua família à casa de Deus. O lugar do homem está em levantar cedo e sozinho para buscar de Deus visão e direção para a família.

Formas de submissão

À mulher deve ser dito que a forma da sua submissão irá variar de acordo com a qualidade da liderança do marido. Se o marido é um homem de Deus que tem uma visão bíblica para a família e a lidera nas coisas do Espírito, a mulher de Deus se alegrará em sua liderança e lhe dará apoio. Você não ficará mais sufocada pela liderança dele do que os discípulos foram pela liderança de Jesus.

Se você acha que a visão do seu marido está distorcida ou sua direção não é bíblica, você não pode ficar em silêncio atordoado, mas terá de questioná-lo com um espírito de carinho, e talvez vá prevenir muitas vezes que ele tropece. O fato de o marido ser cabeça não quer dizer que seja infalível ou hostil à correção. Da mesma forma, a participação da esposa na definição da direção da família não implica insubordinação.

Não há relação necessária entre liderança e inteligência ou entre submissão e falta de inteligência. A esposa será sempre superior em algumas coisas e o marido em outras. Mas é um erro ignorar o padrão determinado por Deus para a liderança do marido, só porque a mulher é mais competente como líder. Qualquer homem que se empenha em obedecer à Palavra de Deus pode ser líder, não importa quão superior seja a competência da esposa.

Um pequeno exemplo: suponha que o marido tenha dificuldades para ler. Quando ele tenta ler a Bíblia em voz alta, sai tudo errado, e ele pronuncia mal as palavras. Sua esposa, por outro lado, é boa na leitura. O fato de ser líder não requer que ele faça a leitura durante o culto doméstico. A liderança pode consistir neste único anúncio: "Criançada, todo mundo para a sala! Está na hora do culto. Vamos continuar de onde paramos da última vez. Mamãe vai ler para nós". O pai pode até ser um inválido, e ainda ser reconhecido como líder. Isso tem que ver com o espírito de iniciativa e responsabilidade e com o apoio evidente da esposa a esse espírito.

E se uma mulher cristã é casada com um homem que não proporciona visão, não dá direção moral nem assume liderança nas coisas do Senhor? 1Pedro 3.1 deixa bem claro que a submissão ainda é a vontade de Deus ("Mulheres, sede vós, igualmente, submissas a vosso próprio marido, para que, se ele ainda não obedece à palavra, seja ganho, sem palavra alguma, por meio do procedimento da sua esposa"). A forma da submissão, no entanto, nesse caso será diferente.

Sob o senhorio de Cristo, ela não seguirá seu marido no pecado nem que ele queira, já que ela foi chamada para submeter-se a Cristo, que proíbe que se peque (Ef 5.22). Mas ela irá até onde sua consciência permitir no apoio ao seu marido e fazendo com ele o que ele gosta de fazer.

Em tudo o que puder, ela dará visão espiritual e direção moral aos filhos, sem manifestar um espírito arrogante de insubordinação ao marido descrente. Mesmo quando, por amor a Cristo, ela precisa fazer o que seu marido desaprova, ela pode tentar explicar com uma atitude tranqüila e gentil que ela não age assim porque quer ir contra ele, mas porque está ligada a Cristo. Contudo, não fará nenhum bem pregar para ele. No fundo do seu ser, ele tem um sentimento de culpa por não estar assumindo a liderança moral da sua casa. Ela precisa lhe dar espaço e ganhá-lo em silêncio, com seu amor poderoso e sacrificial (1Pe 3.1-6).

Redimindo liderança e submissão decaídas

Argumentei até aqui que existe um padrão de amor no casamento, ordenado por Deus. Os papéis de marido e esposa não são iguais. O marido deve copiar sua postura de Cristo como cabeça da igreja. A esposa deve copiar da igreja a submissão a Cristo. Fazendo isso, os resultados pecaminosos e prejudiciais da queda começam a ser revertidos. A queda distorceu a liderança amorosa do homem em domínio hostil em alguns e indiferença preguiçosa em outros. A queda distorceu a submissão inteligente e disposta da mulher em obsequiosidade manipuladora em algumas e insubordinação irada em outras.

A redenção que esperamos com a vinda de Cristo não é o desmantelamento da ordem criada de liderança amorosa e submissão disposta,13 mas a recuperação dela. É precisamente isso que encontramos em Efésios 5.21-33. Esposas, redimam sua submissão decaída remodelando a segundo a intenção de Deus para a igreja! Maridos, redimam sua liderança decaída remodelando-a segundo o propósito de Deus para Cristo!

O objetivo de tudo isso é orientar os que estão convictos de que o amor do casamento é a busca da nossa própria alegria na alegria santa do nosso cônjuge. Vejo duas coisas em Efésios 5.21-33: 1) a apresentação do prazer cristão no casamento; e 2) a direção que seus impulsos devem tomar. Esposas, busquem sua alegria na alegria do marido, apoiando e honrando seu papel, determinado por Deus, como líder no relacionamento de vocês. Maridos, busquem sua alegria na alegria da esposa, aceitando a responsabilidade de liderar como Cristo, que liderou a igreja e entregou a Si mesmo por ela.

Não que meu testemunho pessoal possa acrescentar alguma coisa ao peso da Palavra de Deus, mas gostaria de dar testemunho da bondade de Deus em minha vida. Descobri o prazer cristão no mesmo ano em que casei, em 1968. Desde então, Noël e eu, em obediência a Jesus Cristo, buscamos da maneira mais apaixonada que podíamos as alegria mais profundas e duradouras possíveis. Às vezes de modo bem imperfeito e de coração dividido, mas assim mesmo procuramos nossa alegria na alegria um do outro. E podemos testemunhar juntos: para aqueles que casam, este é o caminho para o desejo do coração. Para nós, o casamento tem sido uma fonte do prazer cristão. À medida que cada um busca a alegria na do outro e desempenha o papel ordenado por Deus, o mistério do casamento como parábola de Cristo e da igreja se torna manifesto, para sua grande glória e nossa grande alegria.14

 

NOTAS

1     Blaise Pascal, Pascal's pensées. Nova York, E.R Dutton and Co., 1958, p. 113 (pensamento n°425).

2     Jonathan Edwards, The works of Jonathan Edwards, vol. 2. Edinburgo, Banner of Truth, 1974, p. 905. A citação se acha em um sermão sobre Mateus 5.8 intitulado: "Bem-aventurados os puros de coração".

3     E. J. Carnell, Christian commitment. Nova York, Macmülan, 1957, p. 96.

4     Karl Barth, The doctrine of creation. Chruch dogmatics, vol. III, 4. Edinburgo, T. and T. Clark, 1961, p. 375.

5     O pacto que une Cristo à igreja é chamado em Hebreus 13.20 de "aliança eterna": "Ora, o Deus da paz, que tornou a trazer dentre os mortos a Jesus, nosso Senhor, o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da eterna aliança...". Por isso, o relacionamento entre Cristo e a igreja esteve desde a eternidade na mente de Deus e, na ordem do seu pensamento, precede e governa a criação do casamento.

6     Geoffrey Bromiley, God and marriage. Grand Rapids, Eerdmans, 1980, p. 43.

7     N. G. L. Hammond e H. H. Scuixard (eds.), The Oxford classical dictionary. Oxford, The Clarendon Press, 1970, p. 59.

8     The special laws, III, 184, citado de Loeb classical library, vol. 8, p. 591.

9     Theological dictionary of the New Testament, vol. 3, Gerhard Kittel (ed.). Grand Rapids, Eerdmans, 1965, p. 674.

10    Alvera e Berkeley Mickelsen, "Does male dominance tarnish our transiations?" [Será que o domínio masculino distorce nossas traduções?], em Christianity Today, 5 de outubro de 1979, p. 25.

11    Stephen Bedale, "The meaning of kephale in the Pauline epistles", em Journal of Theological Studies 5, outubro de 1954, p. 215.

12    Veja Gilbert Bilezekian, Beyond sex roles. Grand Rapids, Baker Book House, 1985,p. 157-162. Wayne Grudem, porém, mostrou que isso é um sentido extremamente improvável para o uso singular de "cabeça" nos dias de Paulo. Veja seu apêndice em Recovering Biblical manhood and womanhood. Wheaton, Crossway Books, 1991,p. 425-468.

13    Liderança e submissão não se originaram com a queda, como tantas pessoas afirmam, mas, em sua forma pura, foram parte da intenção de Deus desde o começo da criação, antes da queda. Veja Raymond E. Ortlund Jr., "Male-female equality and male headship [Igualdade entre homem e mulher e a liderança masculina], Gênesis 1-3", em Recovering Biblical manhood and womanhood, p. 95-112.

14    Tentei, em outro contexto, junto com outras pessoas, explicar e justificar a visão do que significa ser homem e mulher neste capítulo. Veja Recovering Biblical manhood and womanhood, John Piper e Wayne Grudem (eds.).

 

 

A maioria das pessoas não está satisfeita com o resultado da vida que leva. A vida

de Cristo em seus seguidores não pode ser satisfatória a não ser que eles adotem o

propósito de Cristo para com o mundo que ele veio redimir. Fama, prazer e riquezas

não passam de palha e cinzas em contraste com a alegria ilimitada e permanente

de colaborar com Deus no cumprimento dos seus planos eternos. Aqueles que estão

investindo tudo no empreendimento de Cristo estão tirando da vida seus dividendos

mais agradáveis e valiosos.

J. Campbell White (1909),

SECRETÁRIO DO MOVIMENTO MISSIONÁRIO LEIGO

 

 

Com certeza não pode haver alegria maior do que salvar almas.

Lottie Moon (1887), "santa padroeira" da obra missionária batista

 

 

 

Capítulo    9.
Trabalho Missionário

O Grito de Guerra do Prazer Cristão

 

O que é missão de vanguarda?

A maioria das pessoas não morre de velhice; morre de aposentadoria. Li em algum lugar que, das pessoas que se aposentam no estado de Nova York, metade morre num prazo de dois anos. Poupe sua vida e você irá perdê-la. Igual a outras drogas e a outros vícios psicológicos, a aposentadoria é uma doença terrível, não uma bênção.1

 

Essas são palavras de Ralph Winter, fundador do United States Conter for World Mission. Sua vida e estratégia têm sido um lembrete constante para jovens e mais velhos de que a única maneira de achar a vida é entregá-la. Ele é um dos meus heróis. Ele diz tantas coisas que cristãos hedonistas devem dizer (apesar de ele preferir que eu não usasse o termo "hedonista")!

Ele não apenas intima cristãos aposentados a parar de jogar fora sua vida em cursos de golfe quando podiam estar se dedicando à causa global de Cristo, mas também convoca alunos a buscar com afinco a mais plena e profunda alegria da vida. Em seu livrete Say yes to missions [Diga sim a missões], ele diz: "Jesus, pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a fama. [...] Segui-lo é escolha sua. Você foi avisado! Mas não se esqueça da alegria".

De fato, em todas as minhas leituras fora da Bíblia nos últimos quinze anos, a maior fonte de confirmação da minha busca emergente de prazer cristão esteve na literatura missionária, em especial nas biografias. E aqueles que sofreram mais parecem declarar essa verdade sem tanto constrangimento. Neste capítulo mostrarei algumas das minhas descobertas.

Primeiro, porém, voltemos à questão da aposentadoria. Winter pergunta: "Onde eles vêem isso na Bíblia? Moisés se aposentou? Paulo se aposentou? Pedro? João? Será que oficiais do exército se aposentam no meio de uma guerra?"2 Boas perguntas. Se tentarmos responder a elas no caso do apóstolo Paulo, saltamos diretamente para uma definição de "missão", que é o que precisamos aqui no começo deste capítulo.

Paulo, ao escrever sua carta aos Romanos, já era missionário havia uns vinte anos. Ele tinha entre vinte e quarenta anos de idade (essa é a abrangência do termo grego traduzido por "jovem" em Atos 7.58) quando se converteu. Podemos supor, então, que tinha por volta de cinqüenta anos ao escrever essa carta grandiosa.

Isso pode parecer pouca idade para nós. Mas lembre-se de duas coisas: naquele tempo, a expectativa de vida era mais baixa, e Paulo levara uma vida incrivelmente estressante — por cinco vezes recebera 39 chicotadas, três vezes fora castigado com varas, uma vez apedrejado, naufragara três vezes, estava sempre indo de um lugar para outro e constantemente em perigo (2Co 11.24-29).

Por nossos padrões atuais, ele deveria estar "passando o bastão" e planejando sua aposentadoria. Mas em Romanos 15 ele diz que está planejando ir para a Espanha! De fato, uma das principais razões de escrever aos romanos foi conseguir o apoio deles para essa grande e nova missão de vanguarda. Paulo não está perto de se aposentar. Grandes regiões do Império Romano ainda não haviam sido alcançadas, isso sem falar das regiões além das fronteiras do império! Por isso ele diz:

Agora, não tendo já campo de atividades nestas regiões e desejando há muito visitar-vos, penso em fazê-lo quando em viagem para a Espanha, pois espero que, de passagem, estarei convosco e que para lá seja por vós encaminhado, depois de haver primeiro desfrutado um pouco a vossa companhia (Rm 15.23, 24).

 

Paulo provavelmente foi morto em Roma antes de poder realizar seu sonho de pregar na Espanha. Mas uma coisa é certa: ele foi derrubado em plena luta, não na aposentadoria. Ele estava na vanguarda e não na retaguarda, sentando-se para gozar os resultados das suas realizações impressionantes. É exatamente aqui que aprendemos o sentido de "missões".

Como Paulo podia dizer, em Romanos 15.23: "Já não tenho campo de atividades nestas regiões"? Havia milhares de descrentes a serem convertidos na Judéia, Samaria, Síria, Ásia Menor, Macedônia e Acaia. Isso fica evidente nas instruções de Paulo às igrejas sobre como relacionar-se com os descrentes. Mas para Paulo não sobrou espaço para trabalhar!

A explicação aparece nos v. 19-21:

Desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo, esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio, antes, como está escrito: Hão de vê-lo aqueles que não tiveram noticia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a sou respeito.

 

A estratégia missionária de Paulo é pregar onde ninguém pregou antes. Isso é o que queremos dizer com "missões de vanguarda". Paulo tinha a paixão de ir aonde não havia ainda igrejas estabelecidas — e isso lhe indicava a Espanha.

Surpreendente nesses versículos é que Paulo pode dizer que tem "divulgado" (blh: "anunciado de modo completo"; literalmente: "cumprido") o evangelho desde Jerusalém, no sul da Palestina, até o Ilírico, a noroeste da Grécia! Compreendendo isso compreenderemos o que são missões de vanguarda. O trabalho de Paulo de "plantar" estava feito, e outra pessoa viria depois dele para "regar" (ICo 3.6).

Portanto, quando falo do trabalho missionário neste capítulo, via de regra refiro-me ao esforço contínuo da igreja para executar a estratégia de Paulo: pregar o evangelho de Jesus Cristo e plantar sua igreja entre grupos étnicos ainda não alcançados.

A necessidade das missões de vanguarda

Estou convicto de que as pessoas sem o evangelho estão sem esperança, porque somente o evangelho pode libertá-las do seu pecado. Por isso o trabalho missionário é totalmente essencial na vida de uma igreja que ama, mesmo que nem todos os cristãos creiam isso.

Walbert Buhlmann, secretário de missões católicas em Roma, falou por muitos líderes de grandes denominações quando disse:

No passado tínhamos a chamada motivação de salvar almas. Estávamos convictos de que as pessoas da multidão que não fossem batizadas iriam para o inferno. Agora, graças a Deus, cremos que todas as pessoas e todas as religiões já vivem na graça e no amor do Deus e serão salvas pela misericórdia de Deus.3

 

A irmã Emmanuelle do Cairo disse: "Hoje em dia não falamos mais em conversão. Falamos de ser amigos. Meu trabalho é provar que Deus é amor, e levar ânimo para essa gente".4

É natural querer crer em um deus que salva todas as pessoas, não importa o que elas creiam ou façam. Mas isso não é bíblico.5 Ensinos essenciais nas Escrituras têm de ser rejeitados para que se possa crer em tal deus. Veja as palavras do Filho de Deus quando chamou o apóstolo Paulo para o serviço missionário:

Por isso te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda, livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio, para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim (At 26.16-18).

 

Essa é uma tarefa vazia se, na verdade, os olhos das nações não precisam ser abertos, e elas não precisam converter-se das trevas para a luz, nem escapar do poder de Satanás e vir para Deus, nem necessitam do perdão dos pecados que vem somente pela fé em Cristo, pregado pelos embaixadores do Senhor. Paulo não dedicou sua vida como missionário à Ásia Menor, Macedônia, Grécia, Roma e Espanha para informar às pessoas que elas já eram salvas. Ele se deu "com o fim de, por todos os modos, salvar alguns" (1C0 9.22).

Portanto, quando a mensagem de Paulo sobre Cristo era rejeitada (por exemplo em Antioquia da Pisídia, pelos judeus), ele dizia: "Posto que rejeitais a palavra de Deus e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos para os gentios" (At 13.46). O que está em jogo no avanço missionário para povos não alcançados é a vida eterna! O objetivo é exatamente a conversão a Cristo de todo e qualquer outro compromisso. "Não há salvação em nenhum outro, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4.12).

A justiça de Deus ao condenar e salvar

Deus não é injusto. Ninguém será condenado por não crer em uma mensagem que nunca ouviu. Aqueles que nunca ouviram o evangelho serão julgados por não reconhecer a luz da graça e do poder de Deus na natureza e em sua própria consciência. É isso que diz Romanos 1.20, 21:

Os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças.

 

Longe da graça especial, salvadora, de Deus, as pessoas estão mortas no pecado, embotadas em seu entendimento, alienadas da vida de Deus e endurecidas em seu coração (Ef 2.1; 4.18). E o meio que Deus escolheu para distribuir essa graça especial é a pregação do evangelho de Jesus Cristo:

Sou devedor tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes; por isso, quanto está em mim, estou pronto a anunciar o evangelho também a vós outros, em Roma. Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê (Rm1.14-16).

 

Os efeitos do universalismo no campo missionário

A idéia de que as pessoas são salvas sem ouvir o evangelho fez. um grande estrago no esforço missionário de denominações e igrejas que amenizam o ensino bíblico da perdição do ser humano sem Cristo. Entre 1953 e 1980, a força missionária das principais igrejas protestantes norte americanas no exterior diminuiu de 9 844 para 2 813 pessoas, enquanto a força missionária das igrejas evangelicais, que levam esse ensino bíblico mais a sério, aumentou mais de 200 porcento. A Aliança Cristã e Missionária, por exemplo, com seus 200 mil membros, sustenta 40 porcento mais missionários do que a Igreja Metodista Unida com seus 9,5 milhões de membros. Há um poder missionário surpreendente quando se leva a sério toda a Palavra de Deus.6

Muitos cristãos pensaram que o fim da era colonial, depois da Segunda Guerra Mundial, marcou também o fim do trabalho missionário transcultural. O evangelho tinha penetrado em maior ou menor grau em todos os países do mundo. No entanto, durante a última geração demo-nos conta claramente de que a ordem de Jesus de fazermos discípulos de "todas as nações" não se refere às organizações políticas hoje conhecidas. A referência também não é a cada indivíduo, como se a grande comissão não pudesse ser consumada enquanto não se fizesse de cada pessoa no mundo um discípulo.

O que é um povo?

Está ficando cada vez mais claro que a intenção de Deus é que cada "grupo étnico" seja evangelizado — que uma igreja viva seja plantada em cada povo. Ninguém consegue definir com exatidão o que é um povo, mas temos uma idéia aproximada em passagens como Apocalipse 7.9:

Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e do Cordeiro...

 

É praticamente impossível fazer distinção clara entre "nações", "tribos", "povos" e "línguas". O que está claro é que o propósito redentor de Deus não é atingido com a mera presença de discípulos de Jesus em todos os "países" que temos hoje, ou seja, nos estados oficialmente reconhecidos. Dentro desses países há milhares de tribos, castas, subculturas e línguas.

Portanto, a tarefa restante do trabalho missionário de vanguarda não e mais entendido principalmente em termos geográficos. A pergunta agora é: "Onde estão os povos não alcançados?".7

 

Desde que a primeira edição em inglês deste livro foi publicada em 1986, houve um avanço espetacular na cooperação entre as agências missionárias, denominações e igrejas na tarefa de pesquisar e evangelizar os povos não alcançados do mundo. Hoje em dia há uma concordância geral de que, "dos 12 mil grupos etnolingüísticos conhecidos no mundo, 10 mil já têm um movimento que planta igrejas entre eles. [... No fim de 1994, dos dois mil povos restantes] apenas mil não contavam com praticamente nenhuma presença de cristãos. [...] Atualmente temos uma lista de povos menos evangelizados, que é revista a cada ano para refletir uma maior exatidão. Os 100 maiores povos [...] reúnem quase dois bilhões de indivíduos".8 Estes fazem parte principalmente de povos muçulmanos, hindus, budistas e animistas da chamada Janela 10/40.9 Parece que Rick Wood não está exagerando quando diz: "Jamais antes na história cristã houve um movimento tão grande, com tantos crentes sinceros, denominações e agências trabalhando juntos para atingir o alvo de plantar uma igreja em cada povo. Este nível global de cooperação não tem precedentes".10

O trabalho missionário pode ser terminado, o evangelístico não

Para nos manter sóbrios em nossas estimativas da tarefa que resta para alcançar os povos ainda não evangelizados, Ralph Winter lembra-nos de dois fatos:

Primeiro, a evangelização nunca pode ser dada por encerrada, mas o trabalho missionário sim. A razão é a seguinte: a obra de missões tem a tarefa singular de transpor barreiras lingüísticas e culturais para penetrar em um grupo étnico e estabelecer um movimento crescente de igrejas; a evangelização, por sua vez, é a tarefa contínua de compartilhar o evangelho com pessoas dentro da mesma cultura. Essa fato nos permite falar em termos realistas do "encerramento" — a conclusão da tarefa missionária, mesmo que ainda haja milhões de pessoas que ainda não foram ganhas para Cristo em todos os povos do mundo onde a igreja foi plantada.

O segundo fato que Winter nos faz lembrar é que provavelmente há mais povos do que os relacionados entre os 12 mil mencionados acima. Ele ilustra isso mostrando que as divisões de tribos, segundo as linhas de dialetos mutuamente incompreensíveis, podem variar muito, dependendo se o dialeto é falado ou escrito. Por exemplo, a Associação Wycliff de Tradutores da Bíblia pode detectar que uma tradução pode ser lida em um dialeto que cobre uma ampla região, enquanto a Gospel Recordings pode determinar que sete ou mais gravações diferentes em fita de áudio são necessárias, por causa das distinções audíveis no dialeto mais abrangente.

Por isso, Winter pergunta que nível de grupo étnico Jesus tinha em mente quando disse: "Será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim" (Mt 24.14), E responde: "Descobriremos [...] quanto mais perto estivermos da situação. Enquanto isso, teremos de conviver com suposições. [...] Podemos aprender mais somente à medida que avançamos! E, em nossos dias, recursos humanos avultam-se diante de nós como nunca antes para terminarmos a tarefa!"11

O objetivo dessas observações é mostrar que o trabalho missionário de vanguarda ainda não está terminado. Na verdade, a grande maioria dos missionários está trabalhando em "campos" onde a igreja já foi plantada há décadas. A necessidade de missionários na linha de frente é muito grande. A ordem do Senhor, de fazer discípulos dos grupos não alcançados restantes, ainda está em vigor. E meu alvo, aqui, é despertar em seu coração o desejo de fazer parte do último capítulo da história mais grandiosa do mundo.

Crescimento drástico

Há razões históricas além de teológicas para termos esperança de que é possível terminar a tarefa missionária mundial. O quadro abaixo é realmente impressionante. Ele mostra que o número de povos não alcançados está diminuindo drasticamente em proporção ao número de comunidades evangélicas à disposição para evangelizá-los:

A proporção entre povos não alcançados e comunidades cristãs12

Ano

Descrentes por crente13 

Povos não alcançados14 

Comunidades por povo não alcançado15 

100

360 por 1

60 000

1 por 12

1000

220 por 1

50 000

1 por 5

1500

69 por 1

44 000

1 por 1

1900

27 por 1

40 000

10 por 1

1950

21 por 1

24 000

33 por 1

1980

11 por 1

17 000

162 por 1

1989

7 por 1

12 000

416 por 1

2000

7

0?

7

 

Ralph Winter observou que a queda de 11 para 7 (62 porcento) entre 1980 e 1989 (na segunda coluna) eqüivale à queda de 360 para 220 (62 porcento) nos primeiros novecentos anos da história da igreja! As medidas das segunda e quarta colunas, e as tendências que revelam, são duas descobertas das mais esperançosas no estudo do crescimento da igreja.

Mesmo havendo necessidade contínua e urgente de mais missionários na linha de frente para atingir com o evangelho os últimos povos não alcançados, parece que o movimento em direção ao encerramento está se acelerando. Além da promessa indubitável de Jesus em Mateus 24.14, de que o evangelho alcançará todos os povos, há a evidência empírica de que isso está realmente acontecendo, e em ritmo cada vez maior. A tarefa é "terminável"!

Tornando-se cristão do mundo

Eu gostaria de crer que muitos que lêem este capítulo estão na iminência de definir um novo rumo em seu compromisso com a obra missionária: alguns, um novo compromisso de ir para um povo na linha de frente; outros, um novo rumo de formação; outros, um novo uso da vocação em uma cultura menos saturada pela igreja; outros, um novo estilo de vida e novo hábito de contribuir, orar e ler. Quero pressionar você a dar o primeiro passo. Gostaria de tornar a causa missionária tão atraente para você que você não conseguisse mais resistir à sua atração magnética.

Não que eu acredite que todos se tornarão missionários, nem que devam. Minha oração é que cada leitor deste livro se torne o que David Bryant chamou de cristão do mundo — reorganizando sua vida em torno da causa global de Deus. Em seu livro inspirativo In the gap [Na brecha], Bryant define cristãos do mundo como aqueles cristãos que dizem:

Queremos assumir responsabilidade pessoal de alcançar alguns ainda não alcançados, especialmente dentre os bilhões na extremidade mais aberta da brecha, que podem ser alcançados somente com grandes e novos esforços por parte do povo de Deus. Em cada grupo étnico em que ainda não existe uma comunidade cristã viva e evangelizadora deve existir uma, precisa existir uma, haverá uma. Juntos queremos ajudar para que isso aconteça.16

 

O jovem rico

A base bíblica para o compromisso missionário de um cristão que busca o prazer encontra-se na história do jovem rico (Mc 10.17-31):

Pondo-se Jesus a caminho, correu um homem ao seu encontro e, ajoelhando-se, perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus. Sabes os mandamentos: Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, não defraudarás ninguém, honra a teu pai e a tua mãe.

Então ele respondeu: Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude. E Jesus, fitando-o, disse: Só uma coisa te falta:

Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; então, vem e segue-me. Ele, porém, contrariado com essa palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades.

Então, Jesus, olhando ao redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! Os discípulos estranharam estas palavras; mas Jesus insistiu em dizer-lhes: Filhos, quão difícil é entrar no reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus.

Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível. Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. Porém muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros.

 

Essa história contém pelo menos dois grandes incentivos à dedicação integral pela causa missionária na linha de frente.

Impossível aos homens, mas não para Deus

Primeiro, em Marcos 10.25-27 Jesus disse aos seus discípulos: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus".

Eles ficaram sobremodo maravilhados, dizendo entre si: Então, quem pode ser salvo? Jesus, porém, fitando neles o olhar, disse: Para os homens é impossível; contudo, não para Deus, porque para Deus tudo é possível.

 

Esta é uma das conversas missionárias mais animadoras na Bíblia. Quantos missionários já não olharam para o seu trabalho e disseram:"É impossível!"? Nenhum mero ser humano pode libertar outro ser humano do poder escravizador do amor ao dinheiro. O jovem rico foi embora triste porque a escravidão às coisas não pode ser vencida pelo ser humano. Ao homem, isso é impossível! E por isso o trabalho missionário, que é simplesmente libertar o coração das pessoas da escravidão a outros compromissos que não Cristo, é impossível — para as pessoas!

Se Deus não estivesse à frente dessa questão, fazendo o que é humanamente impossível, a tarefa missionária não teria esperança. Quem, senão Deus, pode ressuscitar os que estão espiritualmente mortos e dar-lhes ouvidos para ouvir o evangelho? "Estando nós mortos em nossos delitos, [Deus] nos deu vida juntamente com Cristo" (Ef 2.5). A grande esperança do missionário é que, quando o evangelho é pregado no poder do Espírito Santo, o próprio Deus faz o que o ser humano não pode — ele produz a fé que salva.

O chamado de Deus faz o que o chamado do ser humano não pode. Ele ressuscita os mortos. Ele cria vida espiritual. É como o chamado de Jesus para Lázaro no túmulo: "Vem para fora!" (Jo 11.43). Podemos, com nosso chamado, acordar alguém que está dormindo, mas o chamado de Deus pode trazer à existência coisas que não existem (Rm 4.17).

O chamado de Deus é irresistível no sentido de que pode vencer qualquer resistência. Ele é infalivelmente eficaz, de acordo com o propósito de Deus — tanto que Paulo pode dizer: "Aos que [Deus] chamou, a esses também justificou" [Rm 8.30]. Em outras palavras, o chamado de Deus é tão eficaz que infalivelmente cria a fé pela qual a pessoa é justificada. Todos os que ele chamou estão justificados. Porém ninguém é justificado sem fé (Rm 5.1). Portanto, o chamado de Deus não pode falhar em seu efeito pretendido. Ele concede irresistivelmente a fé que justifica.

Isso é o que o ser humano não pode fazer. É impossível. Somente Deus pode tirar o coração de pedra (Ez 36.26). Somente Deus pode atrair as pessoas ao Filho (Jo 6.44, 65). Somente Deus pode abrir o coração para que acolha o evangelho (At 16.14). Somente o Bom Pastor conhece suas ovelhas pelo nome. Ele as chama e elas o seguem (Jo 10.3, 4, 14). A graça soberana de Deus, que faz o que é humanamente impossível, é a grande esperança missionária.

O que os cristãos que buscam o prazer mais amam

Isso é também a fonte de vida para o cristão que busca o prazer. Porque o que ele mais ama é a experiência da graça soberana de Deus enchendo-o e transbordando para o bem dos outros. Missionários cristãos que buscam o prazer amam a experiência de "não eu, mas a graça de Deus comigo" (ICo 15.10). Eles se regalam na verdade de que o fruto do seu labor missionário é totalmente de Deus (ICo 3.7; Rm 11.36). Eles sentem apenas alegria quando o Mestre diz: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15.5). Eles saltam como cordeiros diante da verdade de que Deus tirou o peso insuportável da nova criação dos ombros deles e o pôs sobre os seus.

Sem relutar, eles dizem: "Não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus" (2Co 3.5). Quando voltam aos países de origem para descansar e divulgar o trabalho, nada lhes dá maior alegria do que dizer às igrejas: "Não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir gentios à obediência" (Rm 15.18). "Com Deus, tudo é possível!" — primeiro, essas palavras conferem esperança, e depois, humildade. Elas são o antídoto para desespero e orgulho — o remédio missionário perfeito.

Incentivos da graça soberana ao trabalho missionário

Essa grande confiança do empreendimento missionário é apresentada mais uma vez por Jesus em João 10.16, com palavras diferentes:

Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor.

 

Veja três incentivos muito fortes nesse texto para missionários da linha de frente:

1)         Cristo tem mesmo outras ovelhas fora do atual rebanho! Elas foram "compradas de toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9). Os filhos de Deus "andam dispersos" (Jo 11.52). Nenhum missionário jamais poderá alcançar um grupo oculto e dizer que Deus não tem os seus lá.

Foi exatamente assim que o Senhor animou a Paulo quando eslava abatido em Corinto, confrontado pela "impossibilidade" de plantar uma igreja naquele solo rochoso:

Teve Paulo durante a noite uma visão em que o Senhor lhe disse: Não temas; pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade" (At 18.9, 10).

 

Em outras palavras, anime-se! Pode parecer impossível, mas Deus tem um povo escolhido (as "outras ovelhas", de João 10.16), e o Bom Pastor conhece as que são suas e as chamará pelo nome, quando você pregar fielmente o evangelho.

Jesus tem de trazer suas outras ovelhas

2)         Isso nos leva ao segundo incentivo ao trabalho missionário em João 10.16, que está nestas palavras: "A mim me convém conduzi-las". Cristo tem a necessidade divina de reunir as suas ovelhas. Ele tem de fazê-lo. Ele tem de fazê-lo. Todavia, é claro que isso não nos leva à idéia hipercalvinista17 de que ele o fará sem nos usar como instrumentos. William Carey, "pai das missões modernas", prestou um grande serviço à causa missionária da linha de frente quando publicou, em 1792, seu livrete intitulado: Uma averiguação da obrigação dos cristãos de usar meios para a conversão dos pagãos.

Deus sempre usará meios. Jesus deixa isso claro quando diz: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra" (Jo 17.20). Mesmo assim, Carey acreditava, como o Senhor ensinara, que ele era incapaz e que na verdade era Cristo quem chama e salva e opera em nós o que lhe agrada (Hb 13.21). Depois de 40 anos de realizações espetaculares (por exemplo, ele traduziu toda a Bíblia para o bengali, oria, marati, hindi, assamês e sânscrito, e partes dela para 29 outras línguas), William Carey morreu; e o epitáfio simples em seu túmulo dizia, a seu pedido:

WILLIAM CAREY

Nascido a 17 de agosto de 1761

Falecido em junho de 1834

Eu, verme miserável, pobre e incapaz,

Caio em teus braços carinhosos.

 

O grande incentivo de João 10.16 é que o próprio Senhor fará o que é impossível para os "pobres, incapazes vermes" como nós. "Ainda há outras [ovelhas] que me pertencem e não estão neste curral. É preciso trazer também essas (blh)".

Elas ouvirão a voz dele

3) O terceiro incentivo desse versículo é que as ovelhas que ele chama virão com certeza. "É preciso trazer também essas, e elas ouvirão a minha voz." O que é impossível aos homens, é possível para Deus! Quando Paulo terminou de pregar na cidade de Antioquia [da Pisídia], Lucas descreve assim os resultados: "Creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna" (At 13.48). Deus tem uma pessoa em cada povo. Ele a chamará com poder criador. E eles crerão!

Que poder há nessas palavras para vencer o desânimo nos lugares difíceis da vanguarda! A história de Peter Cameron Scott é uma boa ilustração do poder de João 10.16.

Ele nasceu em Glasgow em 1867 e foi o fundador da Missão para o Interior da África. Todavia, seu começo na África foi tudo, menos auspicioso. Sua primeira viagem ao continente terminou com um ataque muito sério de malária, que o mandou de volta para casa. Depois de se recuperar, ele resolveu voltar.

Esse retorno foi especialmente gratificante para Scott, porque dessa vez seu irmão John o acompanhou. Não demorou muito, porém, e John foi fulminado pela febre. Totalmente só, Peter enterrou seu irmão e, na agonia daqueles dias, reconsagrou-se à pregação do evangelho na África. Mais uma vez, no entanto, sua saúde cedeu, e ele teve de voltar à Inglaterra.

Como fazer para sair da desolação e depressão daqueles dias? Ele se consagrara a Deus. Todavia, onde encontrar a força para voltar novamente à África? Aos homens era impossível!

Ele encontrou Torças na abadia de Westminster. O túmulo de David Livingstone está ali. Scott entrou em silêncio, encontrou o túmulo e ajoelhou-se diante dele para orar. A lápide diz:

TENHO OUTRAS OVELHAS

QUE NÃO SÃO DESTE REBANHO;

PRECISO TRAZER TAMBÉM ESSAS.

 

Scott levantou-se com uma nova esperança. Voltou à África, e a missão que ele fundou é uma força vibrante e crescente em prol do evangelho na África hoje.

Se sua maior alegria é experimentar a graça de Deus enchendo você e transbordando para o bem dos outros, então a melhor notícia em todo o mundo é que Deus fará através de você o impossível pela salvação dos povos ocultos. "Para os seres humanos isso não é possível; mas, para Deus, é. Pois, para Deus, tudo é possível" (blh).

Você receberá de volta cem vezes mais

O segundo grande incentivo em Marcos 10.17-31 para a dedicação à causa missionária de vanguarda está nos versículos 28-30:

Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.

 

Este texto não significa que você ficará materialmente rico ao tornar-se um missionário — pelo menos não no sentido de que seus bens particulares aumentarão. Se você se apresentar para o trabalho missionário com esse objetivo, o Senhor o confrontará com estas palavras: "As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça" (Lc 9.58).

Em vez disso, parece que a idéia é que, se você for privado da sua família terrena no serviço de Cristo, ela será compensada cem vezes por sua família espiritual, a igreja. Mas até isso pode ser limitador demais. O que dizer de missionários solitários que labutam durante anos sem ser cercados de centenas de irmãs, irmãos, mães e filhos na fé? Será que a promessa não é verdadeira para eles?

Ele compensa qualquer sacrifício

Claro que sim. Certamente, o que Cristo quer dizer é que ele mesmo compensa qualquer sacrifício. Se você abre mão do afeto e cuidado próximo da mãe, você recebe cem vezes mais afeto e cuidado de Cristo, que está em todo lugar. Se você abre mão da camaradagem carinhosa de um irmão, você recebe em troca cem vezes mais carinho e camaradagem de Cristo. Se você abre mão da sensação de estar em casa que tinha em seu lar, você ganha cem vezes mais consolo e segurança por saber que seu Senhor possui todas as casas, terras, rios e árvores na terra. Aos candidatos a missionários, Jesus diz: Prometo trabalhar por você e estar com você tanto; que você não poderá dizer que fez algum sacrifício.

Qual foi a atitude de Jesus diante do espírito "sacrificial" de Pedro? Pedro dissera: "Eis que nós tudo deixamos e te seguimos". Esse espírito de "autonegação" é elogiado por Jesus? Não, ele é repreendido. Jesus diz: "Ninguém jamais sacrifica alguma coisa por mim que eu não pague de volta multiplicado por cem — sim, em certo sentido ainda nesta vida, sem falar na vida eterna na era futura". Por que Jesus repreende Pedro por pensar em termos de sacrifício? Ele mesmo exigira "autonegação" (Mc 8.34). A razão parece ser que Pedro não pensava em sacrifício do modo que se espera de um cristão que busca o prazer.

Como é isso?

A resposta de Jesus indica que a maneira de pensar na autonegação é negar a Si mesmo um bem menor em troca de um bem maior. Você nega a Sl uma mãe para ganhar cem. Em outras palavras, Jesus quer que pensemos no sacrifício de um modo que exclui qualquer autopiedade. Realmente, é exatamente isso o que os textos sobre autonegação ensinam:

Se alguém quer vir após mim, a Si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á (Mc 8.34, 35).18

 

O argumento é indiscutivelmente hedonista. Agostinho captou o paradoxo nestes termos:

Se você ama a sua alma, você corre o perigo de ela ser destruída. Por isso você não deve amá-la, já que você não quer que ela seja destruída. Contudo, ao não querer que ela seja destruída, você a ama.19

 

Jesus sabia disso. Essa era a base do seu argumento. Ele não está nos pedindo que sejamos indiferentes quanto a sermos destruídos. Pelo contrário, ele presume que o próprio anseio por vida verdadeira (lPe 3.10) nos fará negarmos a nós mesmos todos os prazeres e confortos menores da vida. Se fôssemos indiferentes ao valor do dom divino da vida, estaríamos desonrando-o. À medida do anseio por vida equivale e à quantidade de conforto que você está disposto a entregar para lê-la. A dádiva da vida eterna na presença de Deus será glorificada se estivermos dispostos a "odiarmos nossa vida neste mundo" para tê-la (Jo 12.25). Nisso consiste o valor, centrado em Deus, da autonegação.

Dois tipos de amor por Si mesmo

Quando Pedro não se conteve e disse que havia sacrificado tudo, não pensara tão a fundo como David Brainerd e David Livingstone. Como jovem missionário aos índios da Nova Inglaterra, Brainerd lutou com a questão do amor por Si mesmo e da autonegação. Em 24 de janeiro de 1744 ele escreveu em seu diário:

Ao entardecer fui visitado inesperadamente por um número considerável de pessoas, com as quais pude ter uma conversa proveitosa sobre coisas divinas. Tive dificuldades para descrever a diferença entre amor por Si mesmo regular e irregular, consistindo um em supremo amor a Deus e o outro não; o primeiro unindo a glória de Deus à felicidade da alma a ponto de se tornarem um in­teresse comum, mas o segundo desmembrando e separando a glória de Deus e a felicidade humana, buscando a última e negligenciando a primeira. Ilustrei isso com o amor genuíno que se vê entre os sexos, que é diferente do que se acalenta em relação a alguém apenas com argumento racional, ou esperança de interesse pessoal.20

 

Brainerd sabia em seu íntimo que, ao buscar viver para a glória de Deus, estava amando a Si mesmo! Ele sabia que não estava fazendo um sacrifício radical, apesar de estar morrendo de tuberculose. Mas ele sabia que Jesus condenava alguma forma de amor por Si mesmo e elogiava outra forma de amor por Si mesmo. Assim, ele apoiou a distinção entre o amor por Si mesmo que separa nossa busca de felicidade da nossa busca da glória de Deus, e o amor por Si mesmo que une essas duas buscas em "um interesse comum". Em outras palavras, ele não cometeu o erro de Pedro, de pensar que seu sofrimento por Cristo era realmente sacrificial. Com cada coisa que ele entregava, vinham novas experiências da glória de Deus. Cem vezes mais!

"Jamais fiz um sacrifício"

No dia 4 de dezembro de 1857, David Livingstone, o grande missionário pioneiro à África, fez um apelo desafiador aos alunos da Universidade de Cambridge, mostrando que aprendera, em anos de experiência, o que Jesus tentara ensinar a Pedro:

Da minha parte, nunca deixei de rejubilar-me por Deus ter-me indicado para tal posto. As pessoas falam do sacrifício que fiz, passando tanto da minha vida na África. Pode-se chamar de sacrifício o que não passa de um pequeno pagamento da grande dívida que temos com nosso Deus, que jamais conseguiremos cancelar? É sacrifício o que traz uma recompensa, ricamente abençoada, de atividade saudável, consciência de estar fazendo o bem, paz interior e uma grandiosa esperança de um destino glorioso depois? Rejeitemos essa palavra e esse conceito e esse pensamento! Digo, com ênfase, que não é sacrifício. É, antes, um privilégio. Ansiedade, doença, sofrimento ou perigo, de vez em quando; com a ausência das conveniências e carinhos comuns desta vida, podem nos fazer parar, e o espírito vacilar, e a alma afundar; mas que seja apenas por um momento. Tudo isso não é nada comparado com a glória que será revelada em nós e por nós. Jamais fiz um sacrifício.21

 

Uma frase dessa citação é, penso eu, inútil e incoerente: "Pode-se chamar de sacrifício o que não passa de um pequeno pagamento da grande dívida que temos com nosso Deus, que jamais conseguiremos cancelar?" Não creio que seja proveitoso descrever nossa obediência como uma tentativa (na verdade, impossível) de pagar alguma coisa a Deus por sua graça. É um contra-senso pensar na graça gratuita nesses termos. Não é apenas inútil, é incoerente com o restante que Livingstone diz. Ele está dizendo que sua obediência recebe mais do que dá — saúde, paz, esperança. Honraríamos e valorizaríamos mais a graça de Deus se deixássemos totalmente de lado a idéia de lhe pagar algo. Não estamos envolvidos em um negócio ou aquisição. Recebemos um presente. Fazendo essa ressalva, a última linha é magnífica: "Jamais fiz um sacrifício".

É isso que a repreensão de Jesus ao espírito sacrificial (autocomiserado) de Pedro deve ensinar. Nosso grande incentivo para lançarmos nossa vida na causa missionária de vanguarda é o lucro de 10 mil porcento do investimento. Os missionários têm dado testemunho disso desde o princípio — a começar com o apóstolo Paulo.

Paulo teve a coragem de dizer que tudo era lixo comparado com conhecer e sofrer com Jesus:

O que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir Cristo e ser achado nele, [...] para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos (Fp 3.7-10).

A nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eternos peso de glória, acima de toda comparação (2Co 4.17).

Tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a  ser revelada em nós (Rm 8.18).

Faço tudo isso por cansa do evangelho a fim de participar das suas bênçãos (1 Co 9.23, BLH).22

 

Missionários santos são os que mais buscam prazer

É simplesmente impressionante como são coerentes os testemunhos de missionários que sofreram pelo evangelho. Praticamente todos eles dão testemunho da alegria abundante e das compensações insuperáveis (ao cêntuplo!).

Colin Grant descreve como os Irmãos Morávios enviaram missionários das montanhas da Saxônia, na Europa central, sessenta anos antes de William Carey sair para a Índia. Sem nenhum sustento, eles alcançaram as Antilhas e o Suriname, a América do Norte e a Groenlândia, o sul da África, China e Pérsia entre 1732 e 1742 — "um recorde sem paralelo na era pós-Novo Testamento de evangelização do mundo". Ao descrever as principais características desse movimento, Grant põe a "obediência alegre" no topo da lista. "Em primeiro lugar, a obediência missionária dos Irmãos Morávios foi essencialmente alegre e espontânea, 'a resposta de um organismo sadio à lei da sua vida'."23

Andrew Murray faz referência a essa "lei da vida" em seu clássico missionário A chave para o problema missionário. "A natureza nos ensina que cada crente deve ser um ganhador de almas: Essa verdade é uma parte essencial da nova natureza. Nós a vemos em cada criança que quer falar sobre a sua felicidade e fazer com que outros participem da sua alegria."24 Fervor missionário é o fluir e transbordar automático do amor por Cristo. Nós nos deliciamos em aumentar nossa alegria nele estendendo-a a outros. Como disse Lottie Moon: "Com certeza não pode haver alegria maior do que salvar almas".25

O que Lottie Moon fez para promover a causa missionária transcultural entre as mulheres batistas do sul dos Estados Unidos, Amy Carmichael fez entre as mulheres cristãs de todas as denominações do Reino Unido. Ela escreveu 35 livros detalhando seus 55 anos na Índia. Sherwood Eddy, estadista e escritor missionário que a conheceu bem, disse: "Amy Carmichael foi o caráter mais semelhante a Cristo que já encontrei, e [...] sua vida foi a mais flagrante, a mais jubilosamente sacrificial, que já conheci".26 "Jubilosamente sacrificial!" É isso o que Jesus estava procurando quando repreendeu o espírito sacrificial de Pedro em Marcos 10.29, 30.

John Hyde, conhecido mais como "o Hyde que orava", levou uma vida de oração incrivelmente intensa como missionário na Índia, na virada do século. Alguns diziam que ele era mal-humorado. Mas uma história sobre ele revela o verdadeiro espírito que havia por trás da sua vida de oração sacrificial.

Uma senhora mundana certa vez pensou que podia divertir-se um pouco à custa do Sr. Hyde. Assim, perguntou: "Mr. Hyde, o senhor não acha que uma mulher que dança pode ir para o céu?" Ele olhou para ela com um sorriso e disse calmamente: "Eu não vejo como uma mulher poderia ir para o céus em dançar". E começou a falar da alegria de ter os pecados perdoados.27

Samuel Zwemer, famoso por seu trabalho missionário entre os muçulmanos, dá um testemunho comovente da alegria do sacrifício. Em 1897, ele, sua esposa e duas filhas viajaram por mar até o golfo Pérsico, para trabalhar entre os muçulmanos de Barein. Sua evangelização foi, grosso modo, infrutífera. A temperatura passava regularmente dos 40 graus, "na parte mais fresca da varanda". Em julho de 1904 as duas filhas, com quatro e sete anos de idade, morreram com um intervalo de oito dias entre uma e outra. Mesmo assim, 50 anos mais tarde Zwemer olhou de volta para esse período e escreveu: "A alegria pura de tudo o que aconteceu volta à memória. Eu repetiria tudo outra vez jubilosamente".28

No fim das contas, a razão por que Jesus nos repreende pelo espírito autocomiserado de sacrifício é que ele quer ser glorificado no grande empreendimento missionário. E a maneira que ele pretende ser glorificado é mantendo-se no papel de benfeitor e nós de beneficiários. Ele nunca haverá de inverter os papéis de paciente e médico. Mesmo quando somos chamados para sermos missionários, continuamos sendo inválidos no sanatório de Cristo. Continuamos precisando de um bom médico. Ainda somos dependentes dele para fazer o que é humanamente impossível, em nós e através de nós. Podemos sacrificar outras coisas para entrar no hospital de Cristo, mas estamos ali para obter saúde espiritual, não para pagar uma dívida com o médico!

Os inválidos são os melhores missionários

Daniel Fuller usa essa figura de paciente e médico para mostrar como o missionário eficiente evita a presunção de estar ajudando a Deus:

Uma analogia para compreender como viver a vida cristã sem ser legalista é reconhecer-se doente e carente de ajuda médica para ficar bom. O ser humano começa a vida com tamanha disposição para o mal que Jesus o chama de "filho do inferno" (Mt 23.15). [...] Em Marcos 2.17 e em outros lugares, Jesus comparou-se com um médico, com a tarefa de curar o ser humano dos seus pecados; ele recebeu o nome "Jesus" porque era sua missão "salvar o seu povo dos pecados deles" (Mt 1.21). No momento em que passamos das coisas que amamos neste mundo para a esperança em Deus e em suas promessas resumidas em Jesus Cristo, Jesus nos recebe, por assim dizer, em sua clínica, para nos curar das nossas inclinações infernais. [...] Fé verdadeira significa não apenas ter confiança de que os meus pecados estão perdoados, mas também crer nas promessas de Deus de que teremos um futuro feliz por toda a eternidade. Ou, invertendo a metáfora do médico e da clínica, temos de confiar nossa pessoa doente a Cristo como o grande médico, confiando que ele operará até que nossa inclinação para o inferno seja transformada em inclinação para Deus.

[Uma] conclusão a ser tirada da analogia do médico é que, além de prescrever certas instruções gerais que todos os seus pacientes têm de seguir, ele também elabora regimes de saúde individuais, para as necessidades particulares de cada paciente. Por exemplo, ele pode orientar alguns a sair da sua pátria e ir proclamar o evangelho em outro país. Em circunstâncias como essa, há a grande tentação de as pessoas reverterem ao legalismo de pensar que estão sendo heróis por Deus, por estarem deixando sua pátria para suportar os rigores de viver em terra estrangeira [esse era o problema de Pedro]. Aqueles que são orientados a fazer trabalhos difíceis para Deus precisam lembrar-se de que esses rigores são prescritos para a sua própria saúde. À medida que as dificuldades os ajudam a se tornar mais parecidos com Cristo, eles cantam um hino de louvor a Deus e, conseqüentemente, "muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no Senhor" (Sl 40.3). Aqueles que se consideram inválidos em vez de heróis tornam-se excelentes missionários.29

 

Em prol do crescimento da nossa fé santíssima

Por mais estranho que isso possa soar aos ouvidos das pessoas secularizadas, com autoconfiança e amor próprio, essa é realmente a maneira como muitos missionários viram seu trabalho. Francisco Xavier (1506-1552), que fundou o movimento missionário jesuíta e serviu na Índia e no Japão, estava sempre em busca de uma vida mais profunda com Deus. Ele morreu com 46 anos de idade, enquanto procurava um meio de entrar na China proibida. Tenha em mente a analogia do médico e do paciente, enquanto lê uma das suas últimas cartas, sobre seu desejo de entrar na China. Não precisamos minimizar os sérios problemas teológicos do ensino católico romano do século XVI para ver a verdade sobre a motivação missionária expressa nesta citação:

O maior perigo de todos deve ser perder a confiança na misericórdia de Deus, por cujo amor e serviço viemos manifestar a lei de Jesus Cristo, seu Filho, nosso Redentor e Senhor, como ele bem sabe. [...]Não confiar nele seria algo muito mais terrível que qualquer mal físico que todos os inimigos de Deus juntos pudessem nos infligir, porque, sem a permissão de Deus, nem os demônios nem seus servos humanos poderiam opor-se a nós no mínimo grau. [...] Por isso estamos determinados a abrir caminho para a China a qualquer custo, e espero em Deus que o resultado da nossa viagem seja o crescimento da nossa santa fé, por mais que o diabo e seus servos nos persigam. Se Deus é por nós, quem poderá nos derrotar?30

 

Primeiro a expectativa, depois a tentativa

William Carey, à primeira vista, pode parecer ser uma exceção à idéia de que o missionário deve ver seu ministério como tratamento de Deus para sua doença espiritual do pecado. No dia 31 de maio de 1792, uma quarta-feira, ele pregou seu famoso sermão de Isaías 54.2, 3 ("Alarga o espaço da tua tenda..."), em que pronunciou seu dito mais famoso: "Espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas por Deus". É essa a maneira de um inválido falar sobre seu relacionamento com seu médico/terapeuta?

Sim! Com ênfase, sim! Se um terapeuta diz a um inválido parcialmente paralisado: "Segure-se em mim e levante-se da sua cadeira de rodas", o inválido tem de confiar primeiro no terapeuta e "contar com grande ajuda". A interpretação de Mary Drewery do lema de Carey certamente abona essa intenção:

Uma vez convicto do seu chamado missionário, Carey pôs toda a sua fé em Deus para guiá-lo e suprir todas as suas necessidades. "Espere grandes coisas de Deus" fora a primeira parte da sua ordem à assembléia da Associação em Nottingham em 1792. Apesar de as expectativas não terem sempre sido realizadas na forma ou no tempo imaginado por Carey, mesmo assim ele afirmava que a ajuda sempre viera, e de modo cada vez maior. Assim ele pôde "realizar grandes coisas para Deus". As bênçãos não eram uma recompensa pelo trabalho feito; elas eram um pré-requisito para poder fazer o trabalho.31

 

Encontramos a confirmação dessa interpretação pelo próprio Carey, nas palavras que ele pediu fossem colocadas em sua lápide, como já vimos: "Eu, verme miserável, pobre e incapaz, caio em teus braços carinhosos". Essa é uma descrição perfeita de um inválido e de seu médico/terapeuta carinhoso e amoroso. Valeu para a vida ("Espere grandes coisas de Deus") e valeu para a morte ("Caio em teus braços carinhosos").

O descanso poderoso de Hudson Taylor

O mesmo valia para Hudson Taylor, fundador da Missão para o Interior da China. Seu filho compilou uma obra breve em 1932 chamada o segredo espiritual de Hudson Taylor. O segredo era simplesmente que Hudson Taylor aprendera a ser um paciente feliz na clínica da vida do Salvador:

Freqüentemente quem estivesse acordado na casinha em Chinkiang podia ouvir, às duas ou três da madrugada, o suave coro do hino predileto do Sr. Taylor ["Jesus, eu repouso em ti, que és meu gozo..."]. Ele havia aprendido que, para ele, só uma vida era possível — só aquela abençoada existência de descansar e regozijar-se no Senhor em todas as circunstâncias, enquanto lidava com as dificuldades internas e externas, grandes e pequenas.32

 

Quase nem precisamos dizer que toda terapia é dolorosa. "Através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus" (At 14.22). Isso é o que Jesus tinha em mente quando disse que nosso benefício centuplicado da terapia missionária seria "com perseguições" (Mc 10.30). Não sejamos ingênuos aqui. Para alguns a terapia inclui até a morte, porque a clínica serve de ponte entre a terra e o céu: "Vocês serão presos e perseguidos. [...] Eles matarão alguns de vocês. [...] Mas nem um fio de cabelo de vocês será perdido. Fiquem firmes, pois assim vocês se salvarão" (Lc 21.12, 16, 18, 19, blh).

Dando nomes carinhosos à morte

É por essa razão que os missionários martirizados com freqüência deram nomes carinhosos à morte. "Estamos tendo um café da manhã difícil, mas teremos um bom jantar, logo estaremos no céu."33 O inválido missionário fiel tem a promessa de uma melhora cêntupla em sua vida, com perseguições, e na era por vir, a vida eterna.

Missionários não são heróis que podem vangloriar-se de um grande sacrifício por Deus. Eles são os verdadeiros cristãos que buscam o prazer. Eles conhecem o grito de guerra da busca do prazer cristão no trabalho missionário. Descobriram alegria e satisfação na vida dedicada a Cristo e ao evangelho, cem vezes maior que na vida dedicada a confortos e prazeres frívolos e progressos mundanos. E levaram a sério a repreensão de Jesus; Cuidado com o espírito autocomiserado de sacrifício! A obra missionária é lucro! Lucro cêntuplo!

Resumo e exortação

Estes, então, são os dois grandes incentivos de Jesus para nos tornarmos cristãos do mundo e nos dedicarmos à causa missionária de vanguarda, nesta virada de século:

1)   Tudo o que é impossível ao ser humano, é possível para Deus (Mc 10.27). A conversão de pecadores endurecidos será obra de Deus e estará inserida em seu plano soberano. Não precisamos temer ou tremer por causa da nossa fraqueza. A batalha é do Senhor, e ele dará a vitória.

2)   Cristo promete trabalhar por nós e estar conosco, tanto que, quando nossa vida missionária terminar, não poderemos dizer que sacrificamos alguma coisa (Mc 10.29, 30). Seguindo sua receita missionária, descobrimos que mesmo os efeitos colaterais dolorosos colaboram para melhorar nossa condição. Nossa saúde espiritual, nossa alegria, melhora cem vezes. E quando morremos, não morremos. Ganhamos a vida eterna.

Não estou apelando a você que junte coragem e se sacrifique por Cristo. Meu apelo é que você renuncie a tudo o que tem, para obter a vida que satisfaz seus anseios mais profundos. Estou pedindo que considere tudo como lixo, em comparação com o valor insuperável de estar a serviço do Rei dos reis. Apelo que tire seus trapos comprados em loja e vista os trajes de embaixador de Deus. Prometo-lhe perseguições e privações, mas "lembre-se da alegria!" "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" (Mt 5.10).

No dia 8 de janeiro de 1956, cinco índios aucas do Equador mataram Jim Elliot e seus quatro companheiros missionários, que estavam tentando levar o evangelho à tribo auca, que contava 60 pessoas. Quatro jovens esposas perderam seus maridos, e nove filhos perderam seus pais. Elisabeth Elliot escreveu que o mundo chamou a tragédia de pesadelo. Mas ela acrescentou: "O mundo não entendeu a verdade da segunda parte do credo de Jim Elliot:

Não é tolo quem entrega o que não pode reter

para ganhar o que não pode perder.34

 

NOTAS

1 Ralph Winter, "The retirement booby trap" [A armadilha da aposentadoria], em Mission Frontiers, julho de 1985, p. 25.

2     "The retirement booby trap", p. 25.

3 Time, 27 de dezembro de 1982, p. 52.

4     Time, 27 de dezembro de 1982, p. 56.

5     Para uma defesa mais detalhada disso veja o cap. 4, "The supremacy oi Christ as the conscious focus of ali saving faith", em John Piper, Let the nations be glad: the supremacy of God in missions. Grand Rapids, Baker Book House, 1993, p. 115-166.

6     Em 1980 a Divisão de Ministérios no Exterior (dom) do Conselho Nacional de Igrejas dos eua tinha 32 agências missionárias como membros, que representavam um pouco menos de 5 mil missionários, nos quais se investe perto de 200 milhões de dólares por ano. A Associação Interdenominacional de Missões no Exterior (ifma) representava 90 agências com aproximadamente 10 700 missionários e 150 milhões de dólares de entradas. A Associação Evangélica de Agências Missionárias Transculturais (efma) tinha 82 agências como membros, que representavam mais de 10 mil missionários e 350 milhões de dólares de entradas.

Durante a década de 1970, a dom (o grupo mais liberal) perdeu 3 462 missionários, enquanto ifma e efma (os grupos mais evangelicais) ganharam 3 785. Quanto às entradas, a dom aumentou as suas em 28 milhões de dólares, ou 24 porcento, enquanto ifma e efma aumentaram as suas em 285 milhões de dólares, ou 293 porcento (Peter Wagner, On the crest of the wave. Ventura, Regal Books, 1983, p. 77-78).

7     Para um estudo detalhado da base bíblica para entender a grande comissão em termos de alcançar grupos étnicos, veja o cap. 5, "The supremacy of Christ as the conscious focus of all saving faith", em John Piper, Let the nations beglad: the supremacy of God in missions (Grand Rapids, Baker Book House, 1993), p. 167-223. Um estudo excelenle da definição de "povos não alcançados" e da questão da sua contagem e localização é feito por Ralph Winter em "Unreached peoples: the development of the conecpt", International Journal of Frontier Missions 1, 1984, p. 129-161.

8     Luis Bush, "What is the Joshua Project 2000?" em Mission Frontiers, vol. 17, nº 11-12, novembro/dezembro de 1995, p. 9.

9     A Janela 10/40 refere-se a uma área retangular no mapa-múndi, que vai horizontalmente do oeste da África até o extremo Oriente, e verticalmente do grau dez até o grau quarenta de latitude a norte do Equador.

10    Rick Wood, "MF behind the scenes", em Mission Frontiers, vol. 17,n° 11-12, novembro/ dezembro de 1995, p. 5.

11    "When Jesus said...", em Mission Frontiers, vol. 17, n° 11-12, novembro/dezembro de 1995, p. 56.

12    Esses dados foram extraídos de um artigo de Ralph Winter, "The momentum is building in global missions: basic concepts in frontier missiology", em Mission Frontiers, 1990 special edition, p. 17-26. Winter disse que os números foram fornecidos por David Barrett e pela Comissão de Estatística do Comitê de Lausanne para Evangelização Mundial.

13    "Descrentes" aqui se refere a pessoas que não se identificam como cristãos; "crentes" refere-se a uma estimativa de crentes verdadeiros no meio da grande multidão de pessoas que se consideram cristãs. Outra maneira de chamar esse grupo é "cristãos da grande comissão" —  termo sugerido por David Barrett —  aqueles que levam a tarefa de evangelização do mundo mais a sério.

14 Os números são elevados porque está sendo usada uma definição mais rígida de "grupo étnico" do que a definição "etnolingüísúca" mencionada antes. Veja a nota 8.

15 Entende-se como comunidade um grupo de em média 100 "cristãos da grande comissão" mencionados na nota 13.

16    David Bryant, In the gap. Madison, InterVarsity Press, 1981, p. 62.

17    Iain Murray escreve em The forgotten Spurgeon (Edinburgo, Banner of Truth, 1973),p. 47:

O hipercalvinismo, em sua tentativa de enquadrar toda a verdade no propósito de Deus de salvar os eleitos, nega que há uma ordem universal para arrepender-se e crer, e afirma que temos apenas o mandato de convidar para Cristo aqueles que estão conscientes de um senso de pecado e necessidade. Em outras palavras, é aos que foram espiritualmente despertados para buscar um salvador, e não aos que estão na morte da descrença e da indiferença, que as exortações do evangelho devem ser levadas. Desse modo, criou-se uma maneira de restringir o evangelho àqueles que demonstram terem sido eleitos. Este é um livro excelente para mostrar como Charles Spurgeon, pastor batista em Londres na segunda metade do século XIX, somou fortes convicções (calvinistas) sobre a soberania de Deus com um ministério poderoso e frutífero de ganhar vidas. Combateu o hipercalvinismo por um lado, e os arminianos por outro, de uma maneira que considero exemplar.

18    Veja também Mateus 10.39; 16.24-26; Lucas 9.24, 25; 17.33; João 12.25; Apocalipse 12.11.

19    Sermão 368, Migne patrologia latina 39, 1652.

20    Jonathan Edwards (ed.), The life and diary of David Brainerd. Chicago, Moody Press, 1949, original de 1749, p. 149. Entendo que Brainerd, com "interesse próprio", quer dizer "interesse pessoal, mundano, que não tem a glória de Deus por seu prazer". Ele continua dizendo que "o amor é uma paixão agradável; proporciona prazer à mente cm que está". Porém o objeto do amor nunca é esse prazer. O objeto é Deus, e o amor é agradável. E por isso que às vezes fica confuso quando falamos de buscar o prazer. Soa como se o prazer tomasse o lugar de Deus. Mas não é isso o que ocorre. Como Brainerd diz, a glória de Deus e nossa felicidade tornam-se um só interesse comum. Buscamos o prazer em Deus. Não de Deus.

21    Citado em Samuel Zwemer, "The glory of the impossible", em Perspectives on the world Christian movement, Ralph Winter e Stephen Hawthrone (eds.). Pasadena, William Carey Library, 1981, p. 259. Ênfase acrescentada.

22    Sobre esse texto, Adolf Schlatter tece este comentário poderoso: "Paulo não põe sua condição de cristão à parte de Si mesmo e do seu trabalho no serviço de Jesus, como se a maneira como faz o seu trabalho fosse indiferente para a situação da sua salvação. Como foi o Senhor quem lhe deu o seu posto, ele continua unido com ele somente se o executar com fidelidade, e a boa nova não teria mais validade para ele, se negligenciasse o seu serviço. É isso que dá ao amor de Paulo sua pureza. Ele estabeleceu comunhão com todos, para ganhá-los; mas sua vontade permanece livre de qualquer arrogância, que apenas diz aos outros que estão em perigo e carentes da salvação; antes, a questão da salvação é seria ao extremo, tanto para ele quanto para eles. Salvando os outros, ele cuida da sua própria salvação" (Erlinterungen zun Neuen Testament, vol6, Die Korintherbriefe. Stutgart, Calwer Verlag, 1974, p. 118).

23 Colin Grani, "Europe's Moravians: a pioneer missionary church", em Perspectives on the world Christian movement, p. 206.

24 Andrew Murkay, A chave para o problema missionário. Monte Verde, Missão Horizontes,

1983 (original de 1905), p. 98.

25    Citado em Ruth Tucker, Até os confins da terra. São Paulo, Ed. Vida Nova, I 986, p. 252. Charlotte (Lottie) Diggs Moon nasceu em 1840 na Virgínia e viajou de navio para a China como missionária batista em 1873. Ela não é conhecida apenas por seu trabalho pioneiro na China, mas também por ter mobilizado as mulheres da Convenção Batista do Sul dos eua para a causa missionária.

26    Citado em Até os confins da terra, p. 254.

27    E. G. Carre, Praying Hyde. South Plainfield, Bridge Publishing Co., s. d., p.66

28    Citado em Até os confins da terra, p. 295.

29    Daniel Fuller, Gospel and law: contrast or continuam? Grand Rapids, Eerdmans, 1980, p.117-119.

30    De uma carta ao padre Perez em Francis M. Dubose (ed.), Classics of Christian missions.Nashville, Broadman Press, 1979, p. 221ss.

51 Mary Duewery, William Carty, a biography. Grand Rapids, Zondervan, 1978, p. 157,

32    Howard Taylor, O segredo espiritual de Hudson Taylor. São Paulo, Editora Mundo Cristão, 1994 (original de 1932), p. 217. Coerente com isso, certa vez ele respondeu aos elogios de um admirador com estas palavras: "Muitas vezes penso que Deus devia ter estado procurando alguém suficientemente pequeno e fraco para poder usar, e assim me achou" (p. 210). Seu filho comenta que ele deve ter concordado plenamente com Andrew Murray, que escreveu: "Dê a Si mesmo tempo para estar quieto e silente perante ele, esperando receber, através do Espírito, sua palavra, para que dela você aprenda o que Deus lhe pede e o que lhe promete. Que a Palavra crie, à sua volta e no seu interior, um ambiente santo, uma luz santa celestial, na qual sua alma seja revigorada e fortalecida para o trabalho da vida diária" (p. 246).

33    Jeremiah Burroughs, The rare jewel of Christian contentment. Edinburgo, Banner of Truth, 1964 (original de 1648) p. 83.

34    Elisabeth Elliot, Shadow of the Almighty. the life and testament of Jim Elliot. Nova York, Harpei and Brothers, 1958, p. 19.

 

 

Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida,

somos os mais infelizes de todos os homens.

1 Coríntios 15.19

 

 

O nobre exército dos mártires te louva.

Te Deum

 

 

Regozijo-me nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja

COLOSSENSES  1.24

 

 

 

Capítulo    10
Sofrimento

O Sacrifício do Prazer Cristão

 

Sentado aos pés de um santo sofredor

Nunca mais fui o mesmo depois de sentar aos pés de Richard Wurmbrand. Era literalmente a seus pés. Ele tirou seus sapatos e sentou­se em uma cadeira na plataforma levemente elevada da Igreja Batista da Graça no sul de Minneapolis. (Fiquei sabendo mais tarde que a razão disso era que seus pés tinham ficado com seqüelas das torturas que sofrera em uma prisão romena.) Diante — e abaixo — dele sentavam mais ou menos uma dúzia de pastores. Ele falava do sofrimento. Ele sempre dizia que Jesus "escolheu" sofrer. Ele "escolheu". O sofrimento não o atingiu simplesmente. Ele o "escolheu". "Ninguém tira [a vida] de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou" (Jo 10.18). Então Wurmbrand nos perguntou se escolheríamos sofrer por amor a Cristo.

Seu livro devocional, Reaching toward the heights [Alcançando as alturas] o apresenta assim: Richard Wurmbrand é pastor evangélico luterano, de origem judaica, nascido na Romênia em 1909. Quando os comunistas ocuparam sua pátria em 1945, ele se tornou um dos líderes da igreja subterrânea. Em 1948 ele e sua esposa Sabina foram presos, e ele serviu catorze anos em prisões comunistas, sem jamais ver o sol, as estrelas nem as flores. Não via ninguém exceto seus guardas e torturadores. Amigos cristãos na Noruega compraram sua liberdade por 10 mil dólares em 1964.1

Quão belo é o sacrifício?

Uma das histórias que ele conta é sobre um abade cisterciense entrevistado pela televisão italiana. O entrevistador estava particularmente interessado na tradição cisterciense de viver em silêncio e isolamento. Por isso, perguntou ao abade: "E se, no fim da vida, o senhor viesse a descobrir que o ateísmo está certo, que não existe Deus? Diga me, e se isso fosse verdade?".

O abade replicou: "Santidade, silêncio e sacrifício são belos em Si mesmos, mesmo sem promessa de recompensa. Eu ainda teria usado bem a minha vida".

Poucos vislumbres do sentido da vida tiveram um impacto maior sobre minhas contemplações do sofrimento do que esse. O primeiro impacto da resposta do abade era uma visão superficial e romântica da glória. Mas então alguma coisa ficou atravessada, como se não se encaixasse. Alguma coisa estava errada. A princípio não consegui definir o que era. Então eu voltei para o grande sofredor cristão, o apóstolo Paulo, e fiquei perplexo com o abismo que havia entre ele e o abade.

A resposta de Paulo à pergunta do entrevistador foi totalmente oposta à do abade. O entrevistador perguntara: "E se ficar provado que seu estilo de vida está baseado em falsidade, e não há Deus?" A resposta do abade, em essência, foi: "De qualquer forma, foi uma vida boa e nobre". Paulo deu sua resposta em ICoríntios 15.19: "Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens". Este é exatamente o contrário da resposta do abade.

Por que Paulo não concordou com o monge? Por que Paulo não disse: "Mesmo se Cristo não ressuscitou dos mortos, e mesmo se não existe Deus, uma vida de amor, trabalho, sacrifício e sofrimento é uma vida boa"? Por que ele não disse que, "mesmo sem a recompensa da ressurreição, não somos infelizes"? Por que ele disse, em vez disso: "Se nossa esperança em Cristo, no fim, se provar errada, somos mais miseráveis que qualquer outra pessoa"?

A vida com Cristo vai melhor?

Essa é uma pergunta extremamente crucial para a igreja de Cristo, em especial em terras prósperas e confortáveis como a América e a Europa ocidental. Quantas vezes ouvimos testemunhos de cristãos que dizem que tornar-se cristão fez a vida ficar mais fácil? Recentemente eu ouvi o zagueiro de um time de futebol profissional dizer que, depois de orar para receber a Cristo, voltou a gostar do jogo e estava orgulhoso da boa campanha do time, porque podia sair todo domingo e dar o melhor de Si.

Parece que a maioria dos cristãos no Ocidente próspero descreve os benefícios do cristianismo em termos que fazem dele uma vida boa, mesmo se não houvesse Deus nem ressurreição. Pense em todos os benefícios psicológicos e relacionais. Eles, é claro, são autênticos e bíblicos: o fruto do Espírito Santo é amor, alegria e paz. Portanto, se conseguimos amor, alegria e paz por crermos nessas coisas, essa vida não é boa, mesmo se ficar provado que ela está baseada em uma falsidade? Por que os outros deveriam ter pena de nós?

O que, então, estava errado com Paulo? Ele não estava tendo a vida abundante? Por que ele diria que, se não há ressurreição, de todas as pessoas nós somos as mais dignas de pena? Não parece ser digno de dó viver mundo afora em ilusão alegre e realizadora, se essa ilusão não faz nenhuma diferença em termos de futuro. Se uma ilusão pode transformar vazio e falta de sentido em felicidade, por que não viver iludido?

A resposta parece ser que a vida cristã, para Paulo, não era a tão decantada vida boa de prosperidade e conforto. Em vez disso, era uma vida de sofrimento, escolhido livremente, que ultrapassava tudo o que experimentamos normalmente. A fé que Paulo tinha em Deus, sua certeza da ressurreição e sua esperança da comunhão eterna com Cristo não produziram uma vida de conforto e tranqüilidade, que teria sido realizadora mesmo sem ressurreição. Não, o que sua esperança produziu foi uma vida de sofrimento deliberado. Sim, ele conhecia a alegria indizível. Mas era um "regozijar na esperança" (Rm 12.12). E essa esperança o liberou para abraçar sofrimentos que ele jamais teria escolhido sem a esperança da sua própria ressurreição e a daqueles por quem ele sofria. Se não há ressurreição, as escolhas sacrificiais de Paulo, por seu próprio testemunho, eram dignas de dó.

Sim, havia alegria e um senso de profundo significado em seu sofrimento. Mas a alegria existia somente por causa da esperança alegre que excedia o sofrimento. Isso é o que quer dizer Romanos 5.3,4: "Alegramo-nos nos sofrimentos, pois sabemos que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência traz a aprovação de Deus, e esta aprovação cria esperança". Portanto, existe alegria na aflição. Mas a alegria vem por causa da esperança que a própria aflição está ajudando a criar e aumentar. Por isso, se não existe esperança, Paulo é tolo em abraçar essa aflição, e ainda mais tolo ao alegrar-se nela. Porém existe esperança. E, por isso, Paulo escolheu um estilo de vida que seria tolo e digno de pena sem a esperança da alegria além do túmulo. Ele respondeu à pergunta de Richard Wurmbrand, sim. Ele escolheu o sofrimento.

Existe diferença entre conflito e câncer?

Façamos um breve desvio de rota. Alguém pode perguntar, a esta a altura: "E o sofrimento que eu não escolhi? Câncer, por exemplo. Ou a morte de um filho num acidente de carro. Ou uma grande depressão. Esse capítulo tem que ver com algumas dessas coisas?" Minha resposta é que a maior parte deste capítulo é sobre o sofrimento que os cristãos aceitam como parte da escolha de serem abertamente cristãos em situações de risco. E todas as situações são de risco, de uma maneira ou de outra.

A diferença mais significativa entre doença e perseguição é que esta é uma hostilidade intencional de alguém porque nós somos conhecidos como cristãos, e a doença não. Por isso, em algumas situações, escolher ser publicamente cristão significa escolher um estilo de vida que aceita o sofrimento, se Deus quiser (1Pe4.19). Mas o sofrimento pode ser resultado de viver como cristão mesmo quando não há hostilidade intencional da parte dos descrentes. Por exemplo, um cristão pode ir ajudar em um bairro atingido por uma epidemia e contrair a doença. Isso é sofrer como cristão, mas não é "perseguição". É uma escolha de sofrimento, se Deus quiser, mas não pela hostilidade dos outros.

Mas então, se você pára para pensar, toda a vida, quando vivida seriamente pela fé, buscando a glória de Deus e a salvação dos outros, é como a do cristão que vai para o bairro atingido pela epidemia. O sofrimento que vem faz parte do preço de viver onde você está, em obediência ao chamado de Deus. Ao escolher seguir a Cristo da maneira que ele dirige, optamos por tudo o que esse caminho inclui, sob sua providência soberana. Assim, todo sofrimento que encontramos no caminho da obediência é sofrimento com Cristo e por Cristo — seja câncer, seja conflito. E ele é "escolhido" — ou seja, nós assumimos espontaneamente o caminho da obediência em que o sofrimento nos acomete e não murmuramos contra Deus. Podemos orar — como fez Paulo— para que o sofrimento seja retirado (2Co 12.8); mas, se Deus quiser, no fim das contas, nós o aceitamos, como parte do preço de ser discípulo no caminho da obediência a caminho do céu.

Todo sofrimento, no chamado cristão, é com Cristo e por Cristo

Todas as experiências de sofrimento no caminho da obediência cristã, venham elas de perseguição, doença ou acidente, têm isto em comum: elas ameaçam nossa fé na bondade de Deus e nos tentam a abandonar o caminho da obediência. Por isso, todo triunfo da fé e toda perseverança na obediência são testemunhas da bondade de Deus e da preciosidade de Cristo — quer o inimigo seja enfermidade, Satanás, pecado ou sabotagem.

Por essa razão, todo sofrimento, de qualquer tipo, que suportamos no caminho do nosso chamado cristão, é sofrimento "com Cristo" e "por Cristo". Com ele no sentido de que o sofrimento vem ao nosso encontro enquanto andamos com ele pela fé, e no sentido de que é suportado na força que ele supre, com seu ministério de empatia de sumo sacerdote (Hb 4.15). Por ele no sentido de que o sofrimento testa e prova nossa lealdade à sua bondade e poder, e no sentido de que revela seu valor como compensação e prêmio todo-suficiente.

O propósito de Deus e de Satanás no mesmo sofrimento

Além disso, o sofrimento por doença e o sofrimento por perseguição têm isto em comum: ambos são empregados por Satanás para destruir a fé, e dirigidos por Deus para purificá-la.

Veja primeiro a questão da perseguição. Em 1Tessalonicenses 3.4, 5, Paulo fala da sua preocupação com a fé dos tessalonicenses em face da perseguição:

Quando ainda estávamos convosco, predissemos que íamos ser afligidos, o que, de fato, aconteceu e é do vosso conhecimento. Foi por isso que, já não me sendo possível continuar esperando, mandei indagar o estado da vossa fé, temendo que o Tentador vos provasse, e se tornasse inútil o nosso labor.

 

O que está claro aqui é que o objetivo do "Tentador" nesta aflição é destruir a fé.

Satanás, porém, não é o único envolvido na questão. Deus domina Satanás e não lhe dá mais liberdade do que o suficiente para realizar seus próprios propósitos. Estes são opostos aos de Satanás, apesar de a experiência de sofrimento ser a mesma. Por exemplo, o escritor de Hebreus 12 mostra aos seus leitores como fazer para não desanimar em meio à perseguição, por causa do propósito amoroso que Deus tem com ele:

Considerai atentamente aquele [Cristo] que suportou tamanha oposição dos pecadores contra Si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossas almas. Ora, na vossa luta contra o pecado, ainda não tendes resistido até ao sangue e estais esquecidos da exortação que, como a filhos, discorre convosco: Filho meu, não menosprezes a correção que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado; porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe [Pv 3.11, 12]. É para disciplina que perseverais. [...] Toda disciplina, com efeito, no momento não parece ser motivo de alegria, mas de tristeza; ao depois, entretanto, produz fruto pacífico aos que têm sido por ela exercitados, fruto de justiça [Hb 12.3-7, 11].

 

Aqui temos sofrimento que vem da "hostilidade dos pecadores". Isso quer dizer que Satanás tem a sua participação , assim como no sofrimento de Jesus (Lc 22.3). Mesmo assim, esse sofrimento está sob a soberania de Deus, de tal maneira que tem o propósito amoroso e paternal da disciplina purificadora. Assim, Satanás tem um objetivo com nosso sofrimento na perseguição e Deus tem outro diferente, na mesma experiência.

A perseguição, contudo, não é única nisso. O mesmo vale para a enfermidade. Tanto o objetivo de Satanás como o de Deus são evidentes em 2Coríntios 12.7-10:

Foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte.

 

Aqui o sofrimento físico de Paulo — o espinho na carne— é chamado "mensageiro de Satanás". Mas o propósito desse sofrimento é "a fim de que não me exalte", o que jamais seria a intenção de Satanás. Portanto, a conclusão é que Cristo atinge soberanamente seu propósito de amor e purificação, derrotando os esforços destrutivos de Satanás, que está sempre tentando destruir nossa fé; mas Cristo engrandece seu poder na fraqueza.

Pode-se distinguir entre sofrimento por perseguição e por doença?

Outra razão para não fazer uma distinção acentuada entre perseguição e doença é que a dor da perseguição e a dor da doença nem sempre podem ser separadas claramente. Décadas após sua tortura por Cristo em uma prisão romena, Richard Wurmbrand ainda sofria com as seqüelas físicas. Estava ele sendo "perseguido" ao suportar a dor em seus pés, 30 anos depois? Ou pense no apóstolo Paulo. Entre os sofrimentos que ele relaciona como "servo de Cristo" constam três naufrágios, num dos quais ele passou uma noite e um dia na água. Ele também diz que seu sofrimento por Cristo incluía "trabalhos e fadigas, vigílias muitas vezes, fome e sede, jejuns muitas vezes, frio e nudez..." (2Co 11.25, 27).

Digamos que ele pegou pneumonia por causa da sua fadiga e exposição. Essa pneumonia seria "perseguição"? Paulo não fez distinção entre ser fustigado com varas, sofrer um acidente de barco ou sentir frio ao viajar de uma cidade para outra. Para ele, qualquer sofrimento que o acometesse enquanto servia a Cristo fazia parte do "preço" de ser discípulo. Quando o filho de um missionário fica com diarréia, consideramos isso parte do preço da fidelidade. Mas qualquer pai que anda no caminho da obediência ao chamado de Deus paga o mesmo preço. O que transforma o sofrimento em sofrimento "com" e "por" Cristo não é a intenção dos nossos inimigos, mas nossa fidelidade. Se somos de Cristo, então tudo o que nos acontece é para a sua glória e para o nosso bem, tenha sido por vírus ou pelos inimigos.

Será que a glutonaria é a alternativa para a ressurreição?

Agora voltamos do nosso breve desvio para a surpreendente declaração de Paulo em 1 Coríntios 15.19, que a vida que escolheu é de dar pena se não houver ressurreição. Em outras palavras, o cristianismo, como Paulo o entende, não é a melhor maneira de elevar ao máximo o prazer, se esta vida é tudo o que existe. Paulo nos diz qual é a melhor maneira de tirar o máximo de prazer desta vida: "Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos (1Co 15.32). Ele não está pensando em coisas tão ingênuas como a filosofia de vida dos epicureus ou a libertinagem descarada. Essa não é a melhor maneira de ter o máximo de prazer, como sabem todos os que já seguiram a trilha do alcoolismo e da glutonaria. Bêbados e glutões são de dar pena tanto quanto cristãos, se não houver ressurreição.

O que ele quer dizer com a frase "comamos e bebamos" é que, sem a esperança da ressurreição, é melhor buscar os prazeres comuns e evitar sofrimento extraordinário. Essa foi a vida que Paulo rejeitou como cristão. Por isso, se os mortos não ressuscitam, e se não existe Deus no céu, ele não teria esmurrado o seu corpo como fez. Não teria rejeitado bons pagamentos por suas tendas, como fez. Não teria encarado as cinco ocasiões em que recebeu trinta e nove chicotadas. Não teria suportado três surras com varas. Não teria arriscado sua vida enfrentando ladrões, desertos, rios, cidades, mares e multidões zangadas. Não teria aceito noites sem dormir, frio e nudez. Não teria tolerado por tanto tempo cristãos desviados e hipócritas (2Co 11.23-29). Em lugar disso, teria simplesmente levado uma boa vida de conforto e tranqüilidade, como um judeu respeitável com as prerrogativas da cidadania romana.

Quando Paulo diz: "Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos", ele não está dizendo: "Sejamos todos libertinos". O que ele tem em mente é uma vida normal, simples, confortável e comum de prazeres humanos que podemos ter sem nos incomodar com céu ou inferno, pecado ou santidade, Deus — se não existir ressurreição. E o que me deixa pasmo nessa linha de pensamento é que muitos que se dizem cristãos parecem buscar exatamente isso, e o chamam cristianismo.

Paulo não considerava seu relacionamento com Cristo a chave para tirar o máximo de conforto e prazer nesta vida. Não, o relacionamento de Paulo com Cristo era um chamado para escolher o sofrimento — um sofrimento que estava além do que daria "sentido", "beleza" ou "heroísmo" ao ateísmo. Era um sofrimento que teria sido totalmente estúpido e de dar dó, se não há ressurreição que conduza à presença alegre de Cristo.

Uma condenação quase incrível do cristianismo ocidental

Essa foi a coisa surpreendente que eu finalmente vi ao pensar na história de Wurmbrand sobre o abade cisterciense. Do ponto de vista radicalmente diferente de Paulo, eu vi uma condenação quase incrível do cristianismo ocidental. Estou exagerando? Julgue por Si mesmo. Quantos cristãos você conhece que diriam: "O estilo de vida que escolhi como cristão seria totalmente estúpido e digno de pena se não houvesse ressurreição"? Quantos cristãos existem que diriam: "O sofrimento que escolhi espontaneamente por amor a Cristo seria uma vida miserável se não houvesse ressurreição"? Vejo que essas perguntas são chocantes.

O cristianismo: uma vida de sofrimento por opção

"Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens" (ICo 15.19). A vida cristã, para Paulo, era a escolha de sacrifícios aqui na terra, para poder ganhar a alegria da comunhão com Cristo na era por vir. Ele o expressou assim:

O que, para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para conseguir Cristo e ser achado nele; [...] para conhecer [...] a comunhão dos seus sofrimentos [...] para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos (Fp 3.7-11).

 

Digo-o mais uma vez: o chamado de Cristo é para uma vida de sacrifício, perda e sofrimento que seria estupidez se não houvesse ressurreição. Para Paulo, essa escolha é consciente. Veja o seu protesto: "Se os mortos não ressuscitam, [...] por que nos expomos a perigos a toda hora? Dia após dia, morro! Eu o protesto, irmãos, pela glória que tenho em vós outros, em Cristo Jesus, nosso Senhor" (ICo 15.29-31). Foi isso que Paulo escolheu. Ele protesta porque não tem de viver dessa maneira. Ele opta: "Perigos a toda hora!" "Morro todos os dias!" É por isso que ele diz que se deveria ter pena dele se não existe ressurreição. Ele escolhera um caminho que levava a dificuldades e dor praticamente a cada dia da sua vida: "Dia após dia, morro!"

Por quê? Por que ele faz isso?

Isso não é normal. O ser humano foge do sofrimento. Mudamo-nos para bairros mais seguros. Procuramos climas mais amenos. Compramos condicionadores de ar. Tomamos aspirinas. Saímos da chuva. Evitamos ruas escuras. Purificamos nossa água. Normalmente não escolhemos um estilo de vida que nos ponha "em perigo toda hora". A vida de Paulo está fora de sintonia com as escolhas humanas comuns. Não se vêem propagandas que nos convidam a morrer diariamente.

Então, o que motiva o apóstolo Paulo a tomar "parte nos muitos sofrimentos de Cristo" (2Co 1.5, blh) e a ser louco por causa de Cristo (ICo 4.10)? Por que faria ele escolhas que o expõem a sofrer fome e sede, vestir-se com trapos, ser surrado e não ter morada certa, ser amaldiçoado, perseguido, insultado, considerado lixo, a escória deste mundo (ICo 4.11-13)?

"Eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer"

Talvez tenha sido simples obediência ao mandamento de Cristo expresso em Atos 9.15, 16. Quando Jesus enviou Ananias para abrir os olhos de Paulo depois de ele ter ficado cego na estrada para Damasco, disse: "Vai, porque este [Paulo] é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome. Em outras palavras, o sofrimento era simplesmente parte do chamado apostólico de Paulo. Para ser fiel ao seu chamado, ele tinha de receber tudo o que Cristo lhe dava: muito sofrimento.

"Dava" é a palavra certa. Porque, ao escrever aos filipenses, Paulo, incrivelmente, chama o sofrimento de dádiva, do mesmo modo que a fé: "Foi-vos concedida a graça (echaristhe - dar gratuitamente) de padecerdes por Cristo e não somente de crerdes nele" (Fp 1.29). Mas isso significaria que a "dádiva" dada a ele como parte do seu apostolado não é vista por Paulo como limitada aos apóstolos. Ela é "concedida" aos crentes de Filipos, a toda a igreja.

Outras pessoas têm feito a mesma descoberta estranha, de que o sofrimento é uma dádiva a ser recebida. Alexander Solzhenitsyn falou do seu tempo na prisão, com todo o seu sofrimento, como uma dádiva. "Foi apenas quando eu estava deitado sobre a palha podre da cela que eu senti dentro de mim o bem se movendo pela primeira vez. Gradualmente, foi-me revelado que a linha que separa o bem do mal não passa entre países, nem entre classes, nem mesmo entre partidos políticos, mas bem pelo meio de todo coração humano — e pelo meio de todos os corações humanos. [...] Bendita seja, prisão, por ter feito parte da minha vida."2 Solzhenitsyn concorda com o apóstolo Paulo em que o sofrimento é — ou pode ser— uma dádiva não apenas para os apóstolos, mas para cada cristão.

Para mostrar que ele era simplesmente um cristão

Isso levanta a seguinte pergunta: será que Paulo acatou seu sofrimento porque isso confirmaria que ele era simplesmente um discípulo fiel de Jesus? Jesus dissera: "Se alguém quer vir após mim, a Si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa, esse a salvará" (Lc 9.23, 24). Portanto, não existe cristianismo verdadeiro sem cruz para carregar e sem morrer diariamente —  o que se mostra bem parecido com a exclamação de Paulo: "Dia após dia, morro!" (ICo 15.31). Mais que isso, Jesus tinha dito aos seus discípulos: "Não é o servo maior que o seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros" (Jo 15.20). Por essa razão, alguma coisa estaria errada se Paulo não partilhasse os sofrimentos de Jesus. Jesus dera aos seus discípulos uma imagem sinistra do ministério deles: "Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos" (Lc 10.3). E lhes prometera: "Sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos; e matarão alguns dentre vós" (Lc 21.16); "sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome" (Mt 24.9).

É evidente que Paulo não pensava que essas promessas de sofrimento restringiam-se aos primeiros doze apóstolos, porque passou-as às suas igrejas. Por exemplo, ele encorajou todos os seus convertidos, dizendo-lhes: "Através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus" (At 14.22). E animou os atribulados crentes de Tessalônica, dizendo-lhes: "Ninguém se inquiete com estas tribulações. Porque vós mesmos sabeis que estamos designados para isto" (lTs 3.3). E, ao escrever para Timóteo, formulou um princípio geral: "Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos" (2Tm 3.12). Quando falava dos seus sofrimentos, não dizia que eram exclusivos, mas incentivava as igrejas: "Sede meus imitadores" (ICo 4.16). Portanto, seria compreensível se Paulo aceitasse uma vida de sofrimento porque simplesmente confirmaria que ele era cristão. "Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros."

Desmamando os cristãos dos seios da autoconfiança

Como Paulo cria que o sofrimento fazia parte da vida do cristão fiel, ele investigou por que isso acontecia. Sua própria experiência de sofrimento introduziu-o profundamente nas formas pelas quais Deus ama seus filhos. Por exemplo, ele aprendeu que Deus usa o sofrimento para nos desmamar da autoconfiança e nos fazer depender exclusivamente dele. Depois de sofrer na Ásia Menor, ele diz: "Não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida. Contudo, já em nós mesmos, tivemos a sentença de morte, para que não confiemos em nós e sim no Deus que ressuscita os mortos (2Co 1.8,9). Este é o propósito universal de Deus para todo sofrimento humano: que as pessoas estejam mais contentes com Deus e menos satisfeitas consigo mesmas e com o mundo.

Jamais ouvi alguém dizer: "As lições verdadeiramente profundas da vida aprendi-as em tempos de tranqüilidade e conforto". Mas ouvi santos fortes dizerem: "Todo avanço importante que já obtive em termos de compreender a profundidade do amor de Deus e de crescer profundamente com ele veio pelo sofrimento". Samuel Rutherford disse que, quando foi lançado nos porões da aflição, lembrou que o grande Rei sempre guardava seu vinho ali. Charles Spurgeon disse que aqueles que mergulham no mar da aflição trazem pérolas raras para cima.

Para engrandecer Cristo como a máxima satisfação

A pérola de maior valor é a glória de Cristo. Por isso Paulo destaca que, em nossos sofrimentos, a glória da graça todo-suficiente de Cristo é exaltada. Se nos apoiarmos nele em meio à calamidade, e ele nos sustentar ao nos "alegrarmos na esperança", então ficará visível que ele é o Deus de graça e força, que nos satisfaz em todos os aspectos. Se nos segurarmos firmes nele

"quando tudo desmorona à nossa volta", então fica evidente que vale mais a pena desejara ele do que tudo o que perdemos. Cristo disse ao seu apóstolo que sofria: "A minha graça te basta, porque o [meu] poder se aperfeiçoa na fraqueza". Paulo respondeu a isso: "Portanto, eu me sinto mais alegre ainda por estar orgulhoso pelas minhas fraquezas, para assim ter a proteção do poder de Cristo em mim. Alegro-me com essas fraquezas, insultos, necessidades, perseguições e dificuldades por causa de Cristo. Porque, quando estou fraco, aí sim é que sou forte" (2Co 12.9, 10). Portanto, o sofrimento é determinado claramente por Deus não apenas como meio de desmamar os cristãos de Si mesmos e fazê-los mamar na graça, mas também de iluminar a graça e fazê-la brilhar. É exatamente isso que faz a fé": ela engrandece a graça futura de Cristo.

As coisas profundas da vida em Deus são descobertas no sofrimento. Assim foi com o próprio Jesus: "Embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu" (Hb 5.8). O mesmo livro em que lemos isso também nos diz que Jesus nunca pecou (Hb 4.15). Portanto, "aprender a obediência" não significa mudar da desobediência para a obediência. Significa crescer cada vez mais profundamente com Deus na experiência da obediência. Significa experimentar as profundezas da entrega a Deus que, de outra forma, não seria exigida.

As palavras indizíveis do sofrimento cristão

Quando Paulo viu o caminho do seu Mestre, ele foi motivado a segui-lo. Mas exatamente nesse ponto fiquei perplexo com as palavras de Paulo. Ao descrever a relação entre os sofrimentos de Cristo e os seus, ele diz o que parece ser indizível. Ele declara à igreja em Colossos: "Agora, eu me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a Igreja" (Cl 1.24). Esse pode ter sido o motivo mais forte para Paulo escolher uma vida de sofrimento. Essas palavras encheram-me de amor pela igreja de Jesus Cristo. Oh, que aceitemos o sofrimento necessário indicado para o avanço do reino de Cristo no mundo!

Como podemos completar os sofrimentos de Cristo?

O que Paulo quer dizer com "preencho o que resta das aflições de Cristo"? Será que está diminuindo incrivelmente o valor todo-suficiente, expiatório da morte de Jesus? O próprio Jesus não dissera, ao morrer: "Está consumado" (Jo 19.30)? Não é verdade que, "com uma única oferta, [Cristo] aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados" (Hb 10.14)? E que, "pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas tendo obtido eterna redenção" (Hb 9.12)? Paulo sabia e ensinou que as aflições de Cristo tinham sido completas e base suficiente para nossa justificação Fomos "justificados pelo seu sangue" (Rm 5.9). Paulo ensinou que Cristo escolheu o sofrimento e foi "obediente até à morte" (Fp 2.8). Essa obediência no sofrimento foi a base todo-suficiente da nossa retidão perante Deus. "Como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos" (Rm 5.19). Portanto, Paulo não pensa que seus sofrimentos completam o valor expiatório das aflições de Jesus.

Há uma interpretação melhor. Os sofrimentos de Paulo completam a aflição de Cristo não por acrescentar algo ao seu valor, mas por estendê-las às pessoas a quem devem salvar. O que falta nas aflições de Cristo não é valor, como se não pudessem cobrir suficientemente os pecados de todos os que crêem. O que falta é que o valor infinito das aflições de Cristo não é conhecido e crido no mundo todo. Essas aflições e o que significam ainda estão ocultas à maioria das pessoas. E a intenção de Deus é que o mistério seja revelado a todas as nações. Portanto, as aflições de Cristo são "deficientes" no sentido de que não são vistas, conhecidas e amadas pelas nações. Precisam ser levadas por ministros da palavra. Esses ministros da palavra "completam" o que falta nas1 aflições de Cristo, estendendo-as aos outros.

Epafrodito é a chave

Há uma confirmação forte dessa interpretação no uso de palavras semelhantes em Filipenses 2.30. Na igreja em Filipos havia um homem de nome Epafrodito. Quando a igreja ali coletou ajuda para Paulo (talvez dinheiro, suprimentos ou livros), decidiram enviá-la a Paulo na prisão por mão de Epafrodito. Em sua viagem com esses suprimentos, Epafrodito quase perdeu a vida. Ele estava doente a ponto de morrer, mas Deus o poupou (Fp2.27).

Por isso Paulo diz à igreja em Filipos que honre Epafrodito quando ele voltar (v. 29), e explica sua razão com palavras muito semelhantes às de Colossenses 1.24: "Por causa da obra de Cristo, chegou ele às portas da morte e se dispôs a dar a própria vida, para suprir (palavra semelhante à de Cl 1.24) a vossa carência (mesma palavra de Cl 1.24) de socorro para comigo" [Fp 2.30]. No original grego, a frase "suprir a vossa carência de socorro para comigo" é quase idêntica a "preencher o que resta das aflições de Cristo". Este é o único lugar no Novo Testamento em que essas duas palavras (completar e falta) ocorrem juntas.

Em que sentido, então, o socorro dos filipenses a Paulo era "carente" e em que sentido Epafrodito "supriu" o que falta no serviço deles? Cem anos atrás, o comentarista Marvin Vincent explicou isso assim:

A dádiva para Paulo era um presente da igreja como um corpo. Era uma oferta sacrificial de amor. O que estava faltando, e seria gratificante tanto para Paulo como para a igreja, era a apresentação desta oferta pela Igreja pessoalmente. Isto era impossível, e Paulo mostra Epafrodito suprindo essa falta com seu ministério afetuoso e zeloso.3

 

Creio que é exatamente isso que as mesmas palavras significam em Colossenses 1.24. Cristo preparou uma oferta de amor para o mundo, sofrendo e morrendo pelos pecadores. Ela está completa e não lhe falta nada — exceto uma coisa, a entrega pessoal pelo próprio Cristo às nações do mundo. A resposta de Deus a esta falta é convocar o povo de Cristo (pessoas como Paulo) para fazer a entrega pessoal das aflições de Cristo ao mundo,

Ao fazermos isso, "completamos o que falta nas aflições de Cristo", Terminamos aquilo para o que fomos chamados, que é a entrega pessoal às pessoas que não sabem o valor infinito que têm.

Preenchendo aflições com aflições

A coisa mais surpreendente em Colossenses 1.24 é como Paulo completa o que falta nas aflições de Cristo. Ele diz que são seus próprios sofrimentos que completam as aflições de Cristo: "Regozijo-me nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne. Isto quer dizer, então, que Paulo exibe os sofrimentos de Cristo sofrendo ele mesmo pelos que está tentando ganhar. Em seus sofrimentos vemos os sofrimentos de Cristo. Esta é a conclusão surpreendente: Deus quer que as aflições de Cristo sejam apresentadas ao mundo por meio das aflições do seu povo. Deus realmente quer que o corpo de Cristo, a igreja, experimente parte do sofrimento pelo qual ele passou, de modo que, quando proclamamos que a cruz é o caminho para a vida, as pessoas vejam as marcas da cruz em nós e sintam de nossa parte o amor da cruz. Nosso chamado é tornar as aflições de Cristo reais para as pessoas, por meio das aflições que experimentamos, levando-lhes a mensagem da salvação.

Como Cristo não está mais na terra, ele quer que seu corpo, a igreja, revele seu sofrimento no sofrimento dela. Já que somos seus corpo, nossos sofrimentos são seus sofrimentos. O pastor romeno Joseph Tson expressou isso assim: "Eu sou uma extensão de Jesus Cristo. Quando fui espancado na Romênia, ele sofreu em meu corpo. O sofrimento não é meu; eu apenas tive a honra de partilhar dos seus sofrimentos".4 Assim, os nossos sofrimentos dão testemunho do tipo de amor que Cristo tem pelo mundo,

"Trago no corpo as marcas de Jesus"

Por essa razão é que Paulo chamou suas cicatrizes de "marcas de Jesus", Nas suas feridas, as pessoas podiam ver as feridas de Cristo. "Trago no corpo as marcas de Jesus" (Gl 6.17). O objetivo de trazer as marcas de Jesus é que Jesus possa ser visto e seu amor possa agir com poder naqueles que vêem, "Levamos sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste cm nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal. De modo que, em nós, opera a morte, mas, em vós, a vida" (2Co 4.10-12).

"O sangue dos mártires é a semente"

A história da expansão do cristianismo provou que "o sangue dos mártires é a semente" — semente da nova vida em Cristo que se espalha pelo mundo. Por quase trezentos anos, o cristianismo cresceu em solo molhado com o sangue de mártires. Em sua História das missões, Stephen Neill menciona os sofrimentos dos primeiros cristãos como uma das principais razões por que a igreja cresceu com tanta rapidez:

Em virtude da sua perigosa situação vis-à-vis da lei, os cristãos eram obrigados a encontrar-se em segredo. [...] Todos os cristãos sabiam que, mais tarde ou mais cedo, teriam de testemunhar pela sua fé, à custa da própria vida. [...] Quando eclodia uma perseguição, o martírio experimentava a maior publicidade possível. O público romano era cruel e duro, mas nem sempre desprovido de compaixão; e não restam dúvidas de que a atitude dos mártires, e particularmente das mulheres jovens, que sofriam juntamente com os homens, provocou uma profunda impressão. [...] Nas primeiras descrições, encontramos um comportamento calmo, digno e decente, uma coragem fria diante dos tormentos, uma cortesia em relação aos inimigos e uma aceitação alegre do sofrimento, como caminho, indicado pelo Senhor, conduzindo ao seu reino celeste. Existem vários casos bem autenticados de pagãos que se converteram no preciso momento em que assistiam à condenação e à morte de cristãos. E deve ter havido outros cujas impressões desse momento tenham vindo mais tarde a transformar-se em fé viva.5

 

"Como posso blasfemar o meu rei que me salvou?"

Um exemplo de testemunho forte pelo sofrimento foi o martírio de Policarpo, bispo de Esmirna que morreu em 155 d.C. Seu discípulo Ireneu disse que Policarpo fora discípulo do apóstolo João. Sabemos que ele era muito idoso quando morreu porque, quando o procônsul lhe ordenou que abjurasse e amaldiçoasse a Cristo, ele disse: "Por oitenta e seis anos o tenho servido e ele não me fez nenhum mal; como posso blasfemar o meu rei que me salvou?"6

Em um desses períodos de perseguição, uma multidão enlouquecida em Esmirna decidiu sair à procura de Policarpo. Ele se mudara para um povoado a pequena distância da cidade, e três dias antes da sua morte teve um sonho, do qual ele concluiu: "Tenho de ser queimado vivo". Assim, quando o encontraram, em vez de fugir, ele disse: "A vontade de Deus seja feita". O antigo relato do martírio segue as seguintes linhas:

Quando ouviu que eles tinham chegado, desceu e conversou com eles. Todos os presentes maravilharam-se com sua idade e firmeza, e com a estranheza da prisão de um homem tão idoso. Ele ordenou que lhes fosse servido alguma coisa para comer e beber, apesar do avançado da hora, pois muitos estavam com fome. Depois lhes pediu que lhe dessem uma hora, para que pudesse orar à vontade. Eles concordaram, e ele ficou ali de pé, orando, tão cheio da graça de Deus que por duas horas não conseguiu parar, enquanto os que ouviam ficaram atônitos e se arrependeram por terem vindo atrás de um homem tão digno de honra.7

 

Depois de finalmente ter sido levado e condenado à fogueira, seus algozes quiseram pregar suas mãos na estaca, mas ele protestou: "Deixem-me como estou. Aquele que me permitiu suportar o fogo também me ajudará a ficar junto à estaca sem precisar ser preso por pregos".8 Quando seu corpo parecia estar sendo consumido pelo fogo, um dos executores enfiou uma espada nele. O antigo relato conclui: "Toda a multidão admirou-se da grande diferença entre os descrentes e os eleitos".9 Em grande medida, é isso o que explica o triunfo do cristianismo nos primeiros séculos. Eles triunfaram pelo sofrimento. Ele não apenas acompanhou seu testemunho, mas era o seu ponto culminante. "Eles venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida" (Ap 12.11).

Não antes que o número de mártires esteja completo

Não foi um acaso da história o fato de a igreja expandir-se e fortalecer-se pelo sofrimento e pelo martírio. É assim que Deus quer que seja. Uma das evidências mais fortes de que Deus pretende atingir seus propósitos salvíficos no mundo por meio do sofrimento encontra-se no livro do Apocalipse. O cenário é uma visão do céu, onde as almas dos mártires clamam: "Até quando, ó Senhor?" Ou seja, quando a história estará completa e seus propósitos de salvação e condenação, atingidos? A resposta é um mau sinal para todos nós que queremos fazer parte da conclusão da grande comissão: "Disseram-lhes que repousassem ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como igualmente eles foram" (Ap 6.11).

O que isso quer dizer é que Deus planejou realizar seus propósitos apontando certo número de mártires. Quando o número deles estiver completo, o fim virá. George Otis chocou muitos no segundo Congresso de Lausanne de Evangelização Mundial em Manila em 1989, quando perguntou: "Será que não estamos conseguindo entrar nos países muçulmanos por falta de mártires? Pode uma igreja secreta crescer em força? Será que uma igreja jovem precisa de modelos de mártires? Apropriadamente, ele conclui seu livro The last of the giants [O último dos gigantes], com um capítulo intitulado "Segurança arriscada":

Será que a igreja, em circunstâncias angustiosas política ou socialmente, deve permanecer oculta, para evitar a possibilidade de ser erradicada por forças hostis ao cristianismo? Ou será que o confronto aberto com a ignorância e privação espiritual predominante — mesmo que produza mártires cristãos — tem mais possibilidades  de conduzir a avanços  evangelísticos? Os fundamentalistas islâmicos proclamam que sua revolução espiritual é alimentada com o sangue de mártires. Podemos concluir que o fracasso do cristianismo de invadir o mundo muçulmano deve-se à ausência nítida de mártires cristãos? E será que a comunidade muçulmana pode levar a sério as alegações de uma igreja que se esconde? [...] A pergunta não é se às vezes é sábio manter o culto e o testemunho discretos, mas quanto tempo isso pode continuar até nos tornarmos culpados de "ocultarmos nossa luz sob um cesto". O relato nos mostra que, de Jerusalém a Damasco e de Éfeso a Roma, os apóstolos foram surrados, apedrejados, cercados de conspirações e aprisionados por causa do seu testemunho. Convites foram raros, e nunca a base para suas investidas missionárias.10

 

Otis sem dúvida concordaria com Gregório, o Grande (papa de 590 a 604), quando este disse: "A morte dos mártires floresce na vida dos fiéis".11

O sangue fluiu das nossas feridas como de uma fonte

Há incontáveis exemplos, em nossos dias, de pessoas que escolhem sofrer com o propósito de Colossenses 1.24 — completar o que está faltando nas aflições de Cristo, apresentando-as a outros pelo sofrimento.12 Quando eu estava escrevendo este capítulo, no fim de 1995, a carta de um missionário que descrevia esse sofrimento chegou às minhas mãos. Rapidamente enviei uma mensagem por correio eletrônico a esse missionário na África, para confirmar os fatos. Ele falou pessoalmente com Dansa, o homem em questão, e obteve permissão dele para que eu citasse esta história da carta, nas palavras dele:

Por volta de 1980 houve um período de perseguição intensa por parte dos funcionários locais do governo comunista em minha região, Wolayta. Naquela época eu estava trabalhando em um escritório do governo, mas também atuava como líder da associação de jovens cristãos de todas as igrejas da minha região. Os funcionários comunistas vieram repetidas vezes pedir minha ajuda para ensinar as doutrinas da revolução aos jovens. Muitos outros cristãos estavam cedendo porque a pressão era muito grande, mas eu não podia fazer outra coisa a não ser dizer não.

A princípio, as tentativas deles eram positivas: ofereceram-me promoções e aumentos de salário. Depois começaram as detenções. As duas primeiras foram bastante breves. A terceira durou um ano inteiro. Durante todo esse tempo, quadros de oficiais comunistas vinham regularmente fazer lavagem cerebral com os nove crentes (seis homens e três mulheres — uma das quais mais tarde se tornaria minha esposa) que estávamos sendo mantidos presos juntos. Mas quando um dos funcionários converteu-se a Cristo, fomos surrados e forçados a carregar água por longas distâncias e a tirar pedras pesadas para limpar lavouras.

O pior período foram duas semanas em que o carcereiro nos acordava bem cedo, quando ainda estava escuro e ninguém podia nos ver, e nos forçava a andar ajoelhados, com os joelhos desprotegidos, por uma distância de um quilômetro e meio pelo cascalho da rua da cidade. Levávamos perto de três horas para cobrir a distância. No fim do primeiro dia, o sangue já jorrava das nossas feridas como de uma fonte, mas nós não sentimos nada.

Em outra ocasião, um carcereiro particularmente cruel nos forçou a ficar deitados de costas no sol escaldante por seis horas direto. Eu não sei porque eu o disse, mas quando terminamos eu falei: "Você fez os raios do sol nos ferirem, mas Deus vai ferir você". Pouco tempo depois, o carcereiro contraiu diabetes, ficou muito doente e morreu.

Quando o governo comunista caiu alguns anos depois, os principais oficiais nos convidaram para voltar à prisão para pregar. Logo na primeira vez, doze prisioneiros presos por assassinato receberam Cristo. Continuamos ministrando na prisão, e agora há 170 crentes. A maioria dos carcereiros também creu.

 

Somente Deus pode identificar todas as influências que levaram a esse tempo notável de colheita entre os companheiros de prisão e carcereiros, Mas certamente seria ingenuidade achar que o sofrimento de Dansa não fez parte da apresentação convincente da realidade de Cristo na vida dos que creram.

Rebaixado por Cristo e pela salvação

Joseph Tson aprendeu profundas lições sobre a questão do sofrimento por Cristo como meio de mostrá-lo ao mundo. Ele foi pastor da Segunda Igreja Batista em Oradea, na Romênia, até 1981, quando foi exilado pelo governo. Eu o ouvi interpretar Colossenses 1.24 dizendo que o sofrimento de Cristo era para propiciação, o nosso, para propagação. Ele destaca que não apenas Colossenses 1.24 mas também 2Timóteo 2.10 faz do sofrimento o meio da evangelização: "Tudo suporto por causa dos eleitos, para que também eles obtenham a salvação que está em Cristo Jesus". De acordo com Joseph Tson, Paulo está dizendo:

Se eu tivesse permanecido como pastor em Antioquia, uma cidade rica e pacífica, naquela igreja maravilhosa com tantos profetas e tão grandes bênçãos, ninguém na Ásia Menor ou na Europa teria sido salvo. Para que eles fossem salvos, tive de aceitar ser surrado com varas, maltratado, apedrejado, tratado como lixo do mundo, transformado em morto-vivo. Mas quando ando assim, ferido, sangrando, as pessoas vêem o amor de Deus, ouvem a mensagem da cruz e são salvas. Se ficamos na segurança das nossas igrejas ricas e não aceitamos a cruz, outros talvez não sejam salvos. Quantos não estão sendo salvos porque não aceitamos a cruz?13

 

Ele ilustra como realmente o sofrimento dos próprios cristãos foi o que muitas vezes proporcionou o meio para a evangelização frutífera:

Um homem de posição importante, que eu batizara, veio até mim para perguntar:

—E agora, o que vou fazer? Eles irão reunir três ou quatro mil pessoas para me desmascarar e ridicularizar. Irão me dar cinco minutos para eu me defender. Como farei isso?

—Irmão— eu lhe disse, — defender a Si mesmo é a única coisa que você não deve fazer. Essa é sua única chance de lhes dizer quem você era antes, e o que Jesus fez de você; quem é Jesus, e o que ele é para você agora.

Seu rosto brilhou, e ele disse:

—Irmão Joseph, já sei o que irei fazer.

E ele o fez muito bem — tão bem que em seguida ele foi rebaixado, e muito. Perdeu quase metade do seu salário. Mas ele continuou vindo falar comigo depois disso, para dizer:

—Irmão Joseph, você sabe que não posso mais chegar naquela fábrica sem que alguém venha falar comigo. Aonde quer que eu vá, alguém me puxa para um canto, olha em volta para verificar se alguém o está vendo falar comigo, e depois cochicha: "Dê-me o endereço da sua igreja", ou: "Fale mais sobre Jesus", ou: "Você tem uma Bíblia para mim?"

 

Qualquer tipo de sofrimento pode transformar-se num ministério de salvação de outras pessoas.14

Escolhendo sofrer por amor às nações

Por isso, concluo que, quando Paulo disse: "Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens", ele queria dizer que cristianismo significa escolher e aceitar uma vida de sofrimento por Cristo, que seria digna de pena se ficasse provado que Cristo é falso. O cristianismo não é uma vida que se aceita como abundante e realizadora sem a esperança de comunhão com Cristo na ressurreição. E o que vimos é que aceitamos o sofrimento não simplesmente como aquilo que acompanha nosso testemunho de Cristo, mas como expressão visível dele. Nossos sofrimentos tornam conhecidos os sofrimentos de Cristo, para que as pessoas possam ver o tipo de amor que Cristo oferece. Completamos as aflições de Cristo fornecendo o que elas não têm, ou seja, uma apresentação pessoal e viva àqueles que não viram Cristo sofrer em pessoa.

A surpreendente implicação disso é que os propósitos salvíficos de Cristo entre as nações e em nossa vizinhança não serão atingidos enquanto os cristãos não escolherem sofrer. No fim extremo desse sofrimento, o número de mártires ainda não está completo (Ap 6.11). Sem eles, as últimas fronteiras da evangelização mundial não serão transpostas. Menos extremo é o custo simples de tempo, conveniência, dinheiro e esforço para trocar lazer excessivo e que vicia por ações de amor que serve: "Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus" (Mt 5.16).

Mas será que um cristão assim é alguém que busca o prazer?

Intitulei este capítulo "Sofrimento: o sacrifício do prazer cristão", apesar de, no capítulo anterior, ter citado David Livingstone dizendo que os sofrimentos do seu trabalho missionário não eram um "sacrifício". Não estou contradizendo ou discordando de Livingstone. Com as palavras é assim: o contexto é quase tudo. Ao dizer que o sofrimento não é um sacrifício, ele está querendo dizer que as bênçãos compensam as perdas. Quando eu digo que o sofrimento é um sacrifício, quero dizer que há perdas — grandes perdas. Ao entender que eu concordo com Livingstone, você verá a implicação de que considero as bênçãos imensas.

Pretendo continuar usando a palavra sacrifício. A dor é tão grande e as perdas, tão reais, que não podemos fazer de conta que podemos falar apenas que não há sacrifício. Simplesmente temos de manter nossas definições claras.

Minha resposta é: Sim, isso é prazer cristão. Todo o Novo Testamento trata do sofrimento em um contexto de prazer cristão.

Será que Paulo estava buscando uma alegria profunda e duradoura quando escolheu o sofrimento — tanto sofrimento que sua vida seria totalmente louca e digna de pena se não houvesse ressurreição? A pergunta praticamente inclui a resposta. Se é apenas a ressurreição que faz com que as dolorosas escolhas da vida de Paulo não sejam dignas de pena mas de louvor (e possíveis!), então é exatamente sua esperança e busca dessa ressurreição que o sustenta e capacita para o sofrimento. Na verdade, é exatamente isso que ele diz: ele considera todos os privilégios humanos comuns como perda, "para conhecer [a Cristo] e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; para, de algum modo, alcançar a ressurreição dentre os mortos" (Fp 3.10, 11). Seu objetivo é viver — e sofrer— de modo que venha a ter a certeza da ressurreição.

Dar tudo para ganhar a Cristo

Por quê? Porque a ressurreição significava comunhão plena, corporal, eterna com Cristo. Este era o centro da esperança de Paulo: "Considero todas as coisas como refugo, para conseguir Cristo" (Fp 3.8). Ganhar a Cristo era a grande paixão e o objetivo de Paulo em tudo o que fazia: "O viver é Cristo, e o morrer é lucro" (Fp 1.21). Ganhar! Ganhar! Este é o objetivo da sua vida e do seu sofrimento. Paulo tinha "o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor" (Fp 1.23). "Incomparavelmente melhor" não é uma motivação altruísta. É a motivação de um cristão que busca o prazer. Paulo desejava o que lhe daria a satisfação mais profunda e duradoura na vida: estar com Cristo na glória.

Todavia, não sozinho com Cristo na glória!

Ninguém que conhece e ama Cristo pode contentar-se em ir a ele sozinho. O ponto culminante da sua glória é este: "Foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação" (Ap 5.9). Se esse é o auge da gloriosa misericórdia de Cristo, então aqueles que a consideram seu ganho infinito não podem viver para prazeres

particulares. Os prazeres, a destra de Cristo são prazeres públicos, prazeres compartilhados, prazeres comunitários. Quando Paulo disse que considerava tudo como perda para (ganhar a Cristo, suas perdas foram todas em prol de levar outros consigo a Cristo: "Talvez o meu sangue, isto é, a minha vida, seja juntado como uma oferta ao sacrifício que vocês, por meio da sua fé, apresentam a Deus. Se isso acontecer, ficarei contente e me alegrarei com vocês" (Fp 1.27, blh). É verdade que ele derramava a sua vida nos sofrimentos "para conseguir Cristo", mas ele também o fazia para ganhar a fé das nações, que engrandece a misericórdia de Cristo.

Minha alegria, minha coroa de exultação!

Por essa razão é que Paulo chamava as pessoas que ganhara para a fé de minha alegria: "Meus irmãos, amados e mui saudosos, minha alegria e coroa, sim, amados, permanecei, deste modo, firmes no Senhor" (Fp 4.1). "Quem é nossa esperança, ou alegria, ou coroa em que exultamos, na presença do nosso Senhor Jesus em sua vinda? Não sois vós? Sim, vós sois realmente a nossa glória e a nossa alegria!" (1Ts 2.19,20). A igreja era sua alegria porque na alegria deles em Cristo sua alegria em Cristo era maior. Mais da misericórdia de Cristo era exaltado na multiplicação de convertidos à cruz. Assim, quando Paulo escolheu sofrer na causa da evangelização mundial e disse que seu objetivo era "ganhar a Cristo", queria dizer que seu próprio prazer na comunhão com Cristo seria eternamente maior por causa da grande assembléia de redimidos que se alegrava em Cristo com ele.

Apesar de eu não estar tão longe como Paulo em seu amor apaixonado pela igreja, agradeço a Deus os momentos críticos em minha vida em que ele me salvou do abismo do cinismo. Lembro da época em que eu estava começando meus estudos de teologia. O ambiente da igreja local no fim da década de 1960 era inóspito. Lembro-me de andar pelas ruas de Pasadena nos domingos de manhã no outono de 1968, perguntando-me se havia algum futuro para a igreja — como um peixe que duvidava do valor da água, ou um pássaro perguntando pelo porquê do vento e do ar. Foi uma preciosa obra da graça Deus ter-me salvo dessa estupidez e me dado um lar com o povo de Deus na Igreja da Avenida do Lago durante três anos, e me deixado ver no coração de Ray Ortlund, meu pastor, um homem que transpirava o espírito de Paulo quando olhava para o seu rebanho e dizia: "Minha alegria, minha coroa de exultação".

Dez anos mais tarde, houve outro momento de crise, estando eu à minha escrivaninha tarde da noite em outubro de 1989, escrevendo em meu diário. A questão era se eu continuaria como professor no Bethel College ensinando Estudos Bíblicos, ou se me demitiria para procurar um pastorado. Uma das coisas que Deus estava fazendo naqueles dias era dar-me um amor profundo pela igreja — o corpo de pessoas que se reúne, cresce, ministra, que se encontra cada semana e avança na semelhança com Cristo. Ensinar tinha suas alegrias. É um grande chamado. Mas naquela noite outra paixão triunfou, e Deus me conduziu, nos próximos meses, a Igreja Batista Bethlehem. Agora que escrevo estas linhas, já se passaram mais de quinze anos. Se eu deixar, as lágrimas correm com facilidade quando penso no que esses irmãos significam para mim. Eles sabem, espero eu, que minha grande paixão é "ganhar a Cristo". E, se eu não estiver enganado, eles também sabem que eu vivo "para ajudá-los a progredir e a ter alegria na fé" (Fp 1.25, BLH). O propósito dos meus escritos e pregações é mostrar que esses dois objetivos são um só. Ganho mais de Cristo em um pecador que se converte e em um santo que cresce do que em centenas de tarefas rotineiras. Dizer que Cristo é minha alegria e que Bethlehem é minha alegria não é conversa fiada.

Se a alegria no sofrimento é digna de admiração, busque-a

Não deve surpreender-nos, apesar de ser totalmente antinatural, que Paulo tenha dito em Colossenses 1.24: "Regozijo-me nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne". Em outras palavras, quando eu completo as aflições de Cristo ao fazer uma demonstração pessoal delas para você em minhas próprias aflições e dores, regozijo-me. Regozijo-me.

O cristão que busca o prazer simplesmente diz que o que Paulo está fazendo é algo bom e admirável, e que devemos ir e fazer o mesmo. Tratar esse evento espiritual magnífico da alegria no sofrimento como algo pequeno, secundário e que não a vale a pena ser buscado, chega perto da blasfêmia. Digo isso com cuidado. Quando o próprio Espírito Santo faz algo tão grande, engrandecendo assim a todo-suficiência de Cristo no sofrimento, chega perto da blasfêmia dizer: "É permissível passar por sofrimento pelos outros, mas não correr atrás da alegria". O milagre que exalta Cristo não é simplesmente o sofrimento, mas a alegria no sofrimento. E devemos buscar isso também. Em ITessalonicenses 1.6, 7 Paulo diz: "Tendes recebido a palavra, posto que em meio de muita tribulação, com alegria do Espírito Santo, de sorte que vos tornastes o modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia". Observe duas coisas cruciais: Primeira, a alegria na tribulação é obra do Espírito Santo; segunda, é um exemplo que os outros devem seguir. Cuidado com aqueles que diminuem os milagres do Espírito de Deus dizendo que eles são boas dádivas mas não bons alvos.

Alegre-se na perseguição; sua recompensa é grande!

O cristão que busca o prazer diz que há duas maneiras diferentes de regozijar-se no sofrimento como cristão. Todas devem ser buscadas como expressão da graça todo-suficiente e todo-satisfatória de Deus. Uma maneira é expressa por Jesus em Mateus 5.11, 12: "Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus" (cf. Lc 6.22, 23). Uma maneira de regozijar no sofrimento é fixar a mente com firmeza na grande recompensa que receberemos na ressurreição. O resultado desse enfoque é fazer nossa dor presente parecer pequena em comparação com o que está por vir: "Tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós" (Rm8.18; cf. 2Co 4.16-18). Ao tornar o sofrimento suportável, a alegria com a recompensa também tornará o amor possível, como vimos no capítulo quatro: "Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão" (Lc 6.35). Seja generoso com os pobres "e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos" (Lc 14.14).

Alegre-se na tribulação; ela aprofunda a certeza!

Outra maneira de regozijar-se no sofrimento resulta dos efeitos do sofrimento sobre nossa certeza da esperança. A alegria em meio às aflições está arraigada na esperança da ressurreição, mas nossa experiência de sofrimento também aprofunda a raiz dessa esperança. Por exemplo, Paulo diz: "Também nos alegramos nos sofrimentos, pois sabemos que os sofrimentos produzem a paciência, a paciência traz a aprovação de Deus, e esta aprovação cria esperança" (Rm 5.3, 4). Aqui a alegria de Paulo não esta baseada apenas em sua grande recompensa, mas no efeito do sofrimento em solidificar sua esperança dessa recompensa. As aflições produzem perseverança, e a perseverança gera a certeza de que nossa fé é real e genuína, e isso fortalece nossa fé de que iremos, de fato, ganhar a Cristo.

Richard Wurmbrand mostra como se pode sobreviver a momentos de dor terrível na tortura por Cristo.

Você foi torturado tanto que nada mais importa. E se nada mais importa, isso também vale para a sua sobrevivência. Se nada mais importa, o fato de não querer sentir dor também não importa. Tire essa última conclusão no estágio em que você chegou, e verá que superará o momento de crise. E superar esse momento de crise lhe dá uma intensa alegria interior. Você sente que Cristo esteve com você naquele momento decisivo.15

 

Essa "intensa alegria" vem da certeza de que você perseverou com a ajuda de Cristo. Você foi provado no fogo e aprovado como genuíno. Você não abjurou. Cristo é real em sua vida. Ele é para você o Deus todo-satisfatório que diz ser. Foi isso que os apóstolos parecem ter experimentado em Atos 5.41, quando, depois de espancados, "retiraram-se do Sinédrio regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por esse Nome". A alegria veio com a constatação de que sua fé era considerada real por Deus, preparada para ser provada no fogo da tribulação.

Alegre-se no sofrimento com Cristo; ele leva à glória!

Outra maneira de alegrar-se no sofrimento nasce da verdade de que nossa alegria em si é um caminho testado para a glória. A alegria no sofrimento não vem somente: 1) de concentrar-se no sofrimento e 2) do efeito solidificador do sofrimento sobre nosso senso de autenticidade, mas também 3) da promessa de que a alegria no sofrimento nos trará alegria eterna no futuro. O apóstolo Pedro expressa isso assim: "Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação da sua glória, vos alegreis exultando" (1Pe 4.13). Alegria imediata no sofrimento é o caminho indicado para a exultação final na revelação de Cristo. Pedro está nos incentivando a buscar a alegria agora nos sofrimentos (ele o ordena!), para estarmos depois entre aqueles que se regozijarão sobremaneira na vinda de Cristo.

Alegre-se no sofrimento por outros; eles vêem Cristo!

Já discutimos a quarta maneira de regozijar-nos no sofrimento. Ela vem do entendimento de que, pelo nosso sofrimento, outros estão vendo o valor de Cristo e firmando-se por causa da nossa fé em meio ao fogo. Paulo diz aos tessalonicenses: "Agora, vivemos, se é que estais firmados no Senhor. Pois que ação de graças podemos tributar a Deus no tocante a vós outros, por toda a alegria com que nos regozijamos por vossa causa, diante do nosso Deus?" (1Ts 3.8, 9). Essa é a alegria de Colossenses 1.24: "Regozijo-me nos meus sofrimentos por vós". Sofremos para mostrar aos outros o amor e o valor de Cristo, porque todo novo convertido que fica firme na fé é um prisma novo e singular para refratar a glória totalmente realizadora de Cristo. A alegria que sentimos neles não é diferente da que sentimos em Cristo. A glória de Cristo é nosso "grande ganho". Por ela podemos sofrer a perda de tudo ou de qualquer coisa. E todo aquele que vê em nosso sofrimento o valor superior de Cristo e crê é outra imagem e evidência desse grande valor —  e, por isso, outra razão para rejubilar.

O povo mais feliz do mundo

O caminho do Calvário com Jesus não é um caminho sem alegria. É uma via dolorosa, mas profundamente feliz. Quando escolhemos os prazeres transitórios do conforto e da segurança e não os sacrifícios e sofrimentos do trabalho missionário, evangelístico, de ministério e amor, estamos nos privando da alegria. Rejeitamos a fonte cujas águas nunca secam (Is 58.11).

As pessoas mais felizes do mundo são as que experimentam o mistério de "Cristo em vós, a esperança da glória" (Cl 1.27), satisfazendo seus anseios mais profundos e libertando-o os para poderem estender ao mundo as aflições de Cristo, por meio dos seus próprios sofrimentos.

Deus está nos chamando a viver por amor a Cristo, e fazê-lo por meio do sofrimento. Cristo escolheu o sofrimento; ele não simplesmente lhe aconteceu. Ele o escolheu, como maneira de criar e tornar perfeita a igreja. Agora ele nos convoca para escolhermos o sofrimento. Ou seja, ele nos chama para tomarmos nossa cruz e o seguirmos na via do Calvário, negando a nós mesmos e fazendo sacrifícios para servir a igreja e mostrar os sofrimentos dele ao mundo.

O Irmão André, que lidera um ministério chamado Portas Abertas e que é muito conhecido por seu livro de 1967, O contrabandista de Deus, descreveu o chamado de Cristo em meados da década de 1990 nestes termos:

Não existem portas fechadas em nenhum lugar do mundo onde você queira testemunhar de Jesus. [...] Mostre-me uma porta fechada e eu lhe mostrarei como entrar por ela. O que eu não lhe garanto é um modo de sair...

Jesus não disse: "Vão se as portas estiverem abertas", porque elas não estavam. Ele não disse: "Vão se receberem um convite ou se forem tratados com tapete vermelho". Ele disse: "Vão", porque as pessoas careciam da sua Palavra. [...]

Precisamos ter uma nova atitude em relação ao trabalho missionário — uma atitude agressiva, experimental, evangélica, que não se detém ante obstáculos; [...] um espírito pioneiro. [...]

Desconfio de que teremos de passar por um vale profundo de necessidade e de situações ameaçadoras, banhos de sangue; mas chegaremos lá.

Deus retirará o que nos atrapalha, se levarmos a coisa a sério. Se dissermos: "Senhor, a qualquer preço..." — e ninguém jamais deve orar assim se não quiser realmente que Deus leve a sério sua oração— ele responderá. Isso é assustador. Mas temos de passar pelo processo. É assim que funcionou na Bíblia, e nos últimos dois mil anos.

Portanto, estamos diante de tempos que podem se tornar difíceis, e temos de passar por eles. [..] Estamos brincando de igreja e brincando de cristianismo. E nem mesmo percebemos que estamos mornos.

[...] Deveríamos ter de pagar um preço por nossa fé. Leia 2Timóteo 3.12: "Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos". A igreja tem sido muito purificada nos países em que houve bastante pressão. [...] Tudo o que posso dizer é: estejamos preparados.16

 

Não para provar nossa força, mas sua preciosidade

A resposta a esse chamado é um passo radical de prazer cristão. Não escolhemos o sofrimento simplesmente porque somos mandados, mas porque aquele que nos manda o apresenta como o caminho para a alegria eterna. Ele nos pede a obediência do sofrimento não para demonstrar a força da nossa dedicação ou cumprimento de dever, nem para manifestar o vigor da nossa determinação moral, nem para verificar os limites da nossa tolerância à dor; antes, para manifestar, na fé infantil, a preciosidade infinita das suas promessas que nos realizam completamente. Moisés "preferiu ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado, [...] porque contemplava o galardão" (Hb 11.25, 26). Por isso sua obediência, não a decisão de sofrer, glorificou o Deus da graça.

A essência do prazer cristão

Essa é a essência do prazer cristão. Na busca da alegria pelo sofrimento, engrandecemos o valor totalmente satisfatório da Fonte da nossa alegria. O próprio Deus tem o maior brilho no fim do nosso túnel de dor. Se não transmitirmos que ele é o objetivo e a razão da nossa alegria no sofrimento, então o sentido do nosso sofrimento terá se perdido. O sentido é este: Deus é lucro. Deus é lucro. Deus é lucro.

O propósito primordial do ser humano é glorificar a Deus. E é mais verdadeiro no sofrimento do que em qualquer outra instância que Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. Minha oração, por isso, é que o Espírito Santo derrame sobre seu povo em todo o mundo uma paixão pela supremacia de Deus em todas as coisas. E oro para que ele deixe claro que a busca da alegria em Deus, não importa qual seja a dor, seja um testemunho poderoso do valor supremo e totalmente satisfatório de Deus. E que assim aconteça, à medida que "preenchemos o que resta das aflições de Cristo", que todos os povos do mundo vejam o amor de Cristo e louvem sua graça na felicidade da fé.

 

NOTAS

1     Richard Wurmbrand, Realing toward the heights. Bartlesville, Living Sacrifice Books, 1992, contracapa.

2     Citado por Philip Yancey em "Frozen fire" [Fogo congelado], em Christianity Today, 5 de outubro de 1984, p. 109.

3     Marvin Vincent, I. E. E, Epistle to the Philippians and to Philemon. Edinburgo, T. & T. Clark, 1897, p. 78.

4     Joseph Tson, A theology of martyrdom, livrete s.d. da Romanian Missionary Socicly, P. O. Box 527, Wheaton, IL, 60189-057, p. 4.

5     Stephen Neill, História das missões. São Paulo, Vida Nova, 1989, p. 44-45.

6     Citado em "The martyrdom of Policarp", em Documents of the Christian church, Henry Bettenson (ed.). Londres, Oxford University Press, 1967, p. 10 (publicado no Brasil pela aste como Documentos da igreja cristã).

7     "The martyrdom of Policarp", p. 9-10.

8     "The martyrdom of Policarp", p. 11.

9     "The martyrdom of Policarp", p. 12.

10    George Otis, The last of the giants: lifting the veil on Islam and the end times. Grand Rapids, Chosen Books, 1991, p. 261, 263.

11    Citado em Joseph Tson, A theology of martyrdom, p. 1.

12    Veja os exemplos em John Piper, Let the nations beglad: the supremacy of God in missious. Grand Rapids, Baker Book House, 1993, p. 94-96. Veja praticamente todos os livros de Richard Wurmbrand, por exemplo: Torturado por amor a Cristo ou Ifthat were Christ, would you give him your blanket? [Se este fosse Cristo, você lhe daria seu cobertor? [ou Victorious faith. Entre outras fontes encontram-se Called to suffer, called to triumph, de Herbert Schlossberg, e God reigns in China, de Leslie Lyall.

13    Joseph Tson, A theology of martyrdom, p. 2.

14    A theology of martyrdom, p. 3.

15    Richard Wurmbrand, "Preparing for the underground church" [Preparando a igreja para viver escondida], em Epiphany Journal, vol. 5, n° 4, verão de 1985, p. 50.

16    Irmão André, "God's smuggler confesses" [O contrabandista de Deus confessa], entrevista com Michael Maudlin em Christianity Today, 11 de dezembro de 1995, p. 46.

 

 

 

 

Epílogo.
Por que Escrevi Este livro

Sete Razões

Primeira razão: o prazer foi meu!

Isto escrevi para que, quando for, não tenha tristeza da parte daqueles que deveriam alegrar-me, confiando em todos vós de que a minha alegria é também a vossa (2Co 2.3).

Estas coisas vos escrevemos para que a nossa alegria seja completa (1Jo 1.4).

 

Se você está morrendo de fome no meio de pessoas que também estão morrendo de fome, e encontra um banquete no deserto, você se torna devedor de todos eles. E o pagamento dessa dívida é um grande prazer, na comparação com o esplendor do banquete.

Tenho me sentido como os leprosos de Samaria. Os sírios cercaram a capital de Israel. Dentro da cidade sitiada, uma cabeça de jumento custava quase um quilo de prata, e as mulheres cozinhavam seus filhos para come los. Fora da cidade, porém, sem que as pessoas de dentro soubessem, o Senhor fizera os sírios fugir. E ali no deserto estava posto um banquete de salvação.

Os leprosos concluíram que não tinham nada a perder. Assim, aventuraram-se até o acampamento do inimigo e constataram que o inimigo se fora, deixando todas as provisões para trás. A princípio se preocuparam em guardar os tesouros para si. Mas então os primeiros lampejos do prazer cristão começaram a raiar para eles:

Então, disseram uns para os outros: Não fazemos bem; este dia é dia de boas-novas, e nós nos calamos; se esperarmos até à luz da manhã, seremos tidos por culpados; agora, pois, vamos e o anunciemos à casa do rei (2Rs 7.9).

 

Foi a partir desse texto que Daniel Fuller pregou no meu culto de ordenação em 1975. Foi profético, porque eu tenho sido um leproso que tropeça repetidas vezes sobre o banquete de Deus no deserto deste mundo. E eu descobri que o banquete é muito mais saboroso quando me delicio nele junto com as viúvas de Samaria do que quando o escondo no deserto.

Estou radicalmente comprometido com a busca da alegria plena e duradoura. Por isso, meu ouvido não tem estado surdo à sabedoria de palavras como estas de Karl Barth:

Tem de ser dito que podemos ter alegria, e a teremos, apenas quando a dermos a outros. [...] Pode haver casos em que alguém pode realmente ser feliz no isolamento. Mas esses são excepcionais e perigosos. [...] Certamente temos base para suspeitar da natureza dessa alegria, se é alegria de verdade, quando não deseja — "Alegrem-se comigo!"— que pelo menos uma pessoa, ou algumas ou muitas, representando as demais, partilhem essa alegria. [...] Podemos conseguir ter alegria exclusivamente para nós, mas temos de entender que, nesse caso, a não ser que aconteça um milagre (e é difícil imaginar milagres com esse propósito), essa alegria não será autêntica, radiante e sincera.1

 

A motivação para escrever este livro foi o desejo de duplicar minha alegria no banquete da graça de Deus, compartilhando-a com o maior número possível de pessoas. Estas coisas lhes escrevi para que a minha alegria seja completa.

Segunda razão: Deus é de tirar o fôlego!

Uma coisa peço ao Senhor,

e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor

todos os dias da minha vida,

para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo (Sl 27.4).

 

Vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo. Serafins estavam por cima dele; cada um tinha seis asas: com duas cobria o rosto, com duas cobria os seus pés e com duas voava. E clamavam um para os outros, dizendo:

Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória (Is 6.1-3).

 

Se você é guia turístico e sabe que as pessoas anseiam por ver coisas belas, e vocês estão subindo um desfiladeiro de tirar o fôlego, então você deve mostrá-lo ao seu grupo turístico e incentivá-los a deliciar-se na paisagem. De fato, a raça humana aspira pela experiência da reverência e da maravilha. E não existe realidade mais arrebatadora do que Deus. O pregador disse:

Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim (Ec 3.11).

 

A eternidade está no coração do ser humano, enchendo-o de anseio, Contudo, não sabemos o que anelamos até vermos o Deus arrebatador. Esta é a causa da inquietação universal:

Fizeste-nos para ti, e nosso coração está inquieto

até encontrar descanso em ti.

Agostinho

 

Quando Deus criou o ser humano,

tendo ao seu lado um cálice de bênçãos —

despejemos (disse ele) sobre ele tudo o que pudermos;

que as riquezas do mundo, que espalharam a mentira,

contraiam-se numa réstia.

Assim, primeiro a força abriu caminho;

depois a beleza floresceu, sabedoria, honra, prazer;

quando quase tudo saíra, Deus parou,

vendo que, de todos os seus tesouros,

restava um em seu colo.

Se eu desse (disse ele)

também esta jóia à minha criatura,

ela adoraria minhas dádivas e não a mim,

descansaria na natureza, não no Deus que a fez;

e ambos sairiam perdendo.

Que ela fique com o resto,

mas com inquietude descontente;

que seja rica e cansada, para que, no fim,

se não a bondade, o cansaço

a empurre para o meu abraço.

George Herbert, "The pulley" [A roldana]

 

O mundo tem um anseio inconsolável. Ele tenta safisfazer seu anseio com férias em lugares paradisíacos, realizações cheias de criatividade, produções cinematográficas fantásticas, aventuras sexuais, esportes radicais, drogas alucinógenas, rigores ascéticos, excelência administrativa etc. Mas o anseio permanece. O que isso significa?

Se encontro em mim um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui feito para outro mundo.2

Foi quando eu fui mais feliz que eu tive mais anseios. [...] A melhor coisa de toda a minha vida tem sido o anseio [...] de encontrar o lugar de onde veio toda a beleza.3

 

A tragédia do mundo é que o eco é confundido com o Grito que o origina. Quando estamos de costas para a beleza estonteante de Deus, lançamos uma sombra sobre a terra e nos apaixonamos por ela. Só que ela não nos satisfaz.

Os livros ou a música em que pensamos estar a beleza nos trairão se nos confiarmos a eles; se ela não está neles, então ela só veio através deles, e o que veio através deles foi anseio. Estas coisas— a beleza, a lembrança do nosso próprio passado— são boas imagens do que realmente desejamos; mas, se forem confundidas com a coisa em si, tornam-se ídolos mudos, que despedaçam o coração dos que os adoram. Eles não são a coisa em si; são apenas o perfume de uma flor que não encontramos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que ainda não visitamos.4

 

Escrevi este livro porque a Beleza estonteante nos visitou: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória (sua beleza!), glória como do unigênito do Pai" (Jo 1.14). Como podemos não exclamar: Veja!

Terceira razão: a Palavra de Deus nos ordena que busquemos a alegria

Deleita-te no Senhor! (SL 37.4, arc)

 

Alegrai-vos sempre no Senhor;

outra vez digo: alegrai-vos (Fp 4.4).

 

E a Palavra de Deus nos ameaça com coisas terríveis se não formos felizes:

Porquanto não serviste ao Senhor, teu Deus, com alegria e bondade de coração, não obstante a abundância de tudo, [...] servirás aos inimigos que o Senhor enviará contra ti (Dt 28.47, 48).

 

Há, contudo, numerosas objeções ao prazer cristão nesse particular.

Primeira objeção

Talvez alguém conteste: "Não, você não deve buscar sua alegria. Você deve buscar a Deus". Essa é uma objeção útil. Ela nos força a fazer vários esclarecimentos necessários.

O objetor está absolutamente certo ao dizer que, se concentrarmos a atenção em nossa própria experiência subjetiva de alegria, é muito provável que fiquemos frustrados, e Deus não será honrado. Quando você vai a um museu de arte, é melhor prestar atenção nos quadros e não no seu pulso. Ou não terá prazer na beleza da arte.

Cuidado, porém, para não partir para a conclusão de que não devemos mais dizer: "Venha e tenha prazer nestes quadros". Não parta para a conclusão de que a ordem de buscar a alegria nos conduz para caminhos errados, mas não a ordem de olhar para os quadros.

O que você diria que há de errado com alguém que vai a uma galeria de arte à procura de um quadro especial, porque sabe que pode tirar um bom lucro se o comprar e revender? Ele vai de sala em sala, olhando com atenção para cada pintura. Mas não está nem um pouco preocupado com sua experiência subjetiva, estética. O que há de errado com isso?

Ele é um mercenário. Seu motivo para olhar não é o motivo para o qual a pintura foi criada. Veja que não é suficiente dizer que devemos estar simplesmente interessados nos quadros. Há maneiras de desejá-los que são más.

Uma maneira comum de precaver-se contra esse espírito mercenário e buscar a arte por amor à arte. Mas o que isso significa? Significa, penso eu, buscar a arte de uma maneira que honre a arte e não o dinheiro. E como você honra a arte? Respondo: Você honra a arte primordialmente experimentando uma emoção adequada quando olha para ela.

Sabemos que perdemos essa emoção se prestarmos atenção em nós mesmos enquanto olhamos para o quadro. Também sabemos que a perdemos se estivermos pensando no dinheiro, na fama ou no poder enquanto olhamos o quadro. Por isso, parece-me que uma boa maneira de instruir os visitantes do museu é esta: "Deliciem-se nos quadros".

A palavra "deliciar-se" guarda-os de achar que devem pensar em dinheiro, fama ou poder em relação aos quadros. E o objeto indireto "nos quadros" guarda-os de achar que a emoção que honra os quadros pode ser experimentada de alguma outra maneira que não se concentrando nos quadros em si.

O mesmo acontece com Deus. Recebemos na Palavra de Deus a ordem: "Deleita-te no Senhor". Isso quer dizer: Busque alegria em Deus. A palavra "alegria" ou "deleite" nos protege de uma busca mercenária de Deus. E o qualificativo "em Deus" nos protege de pensar que, de algum modo, a alegria é uma experiência isolada, separada da nossa experiência do próprio Deus.

Segunda objeção

A objeção mais comum contra a ordem de buscar alegria é que Jesus mandou fazer exatamente o contrário quando exigiu que negássemos a nós mesmos: "Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á" (Mc 9.35). Já tratamos dessa questão (no capítulo sobre o trabalho missionário), mas pode ser bom apelar para mais um texto para ilustrar que a autonegação bíblica significa "negar a Si mesmo as alegrias menores para não perder as maiores". Isso é a mesma coisa que dizer: busque mesmo a alegria! Não se contente com nada menos que alegria completa e duradoura.

Veja Hebreus 12.15-17 como exemplo de como alguém não negou a Si mesmo e causou a sua própria destruição:

Ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus; nem haja alguma raiz de amargura que, brotando, vos perturbe, e, por meio dela, muitos sejam contaminados; nem haja algum impuro ou profano, como foi Esaú, o qual, por um repasto, vendeu o seu direito de primogenitura. Pois sabeis também que, posteriormente, querendo herdar a bênção, foi rejeitado, pois não achou lugar de arrependimento, embora, com lágrimas, o tivesse buscado.

 

Esaú perdeu a sua vida porque preferiu o prazer de uma única refeição em lugar da bênção do seu direito de primogenitura na família escolhida. Isso é um retrato de todas as pessoas que se recusam a negar a Si mesmas os "prazeres transitórios do pecado" (Hb 11.25). Mas veja bem! O maior mal não é querer a refeição, mas desprezar o direito de primogenitura. A autonegação nunca é uma virtude em Si mesma. Ela tem valor exatamente na relação de superioridade da realidade escolhida com a renegada. A autonegação que não estiver baseada no anseio por um objetivo superior torna-se base para vanglória.

Terceira objeção

A terceira objeção à ordem de buscar alegria para si pode ser formulada assim:

Você argumentou que a busca do prazer é parte necessária de toda adoração e virtude. Você disse que, se tentarmos abandonar essa busca, não podemos honrar a Deus ou amar as pessoas. Mas será que você consegue harmonizar isso com Romanos 9.3 e êxodo 32.32? A bem da verdade, parece que Paulo e Moisés abandonaram a busca dos próprios prazeres que expressaram a disposição de ser malditos em favor da salvação de Israel.

 

Esses versículos são de nos deixar perplexos!

Em Romanos 9.3, Paulo manifesta sua dor pela condição de perdição da maioria dos seus compatriotas judeus. Diz ele: "Eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne".

Em Êxodo 32 o povo de Israel cometera idolatria. A ira de Deus ardeu contra eles. Moisés assumiu o lugar do mediador para proteger o povo. Ele orou: "O povo cometeu grande pecado, fazendo para si um deus de outro. Agora, pois, perdoa-lhe o pecado; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste" (Êx 32.31, 32).

Primeiro, temos de entender que esses dois exemplos não nos apresentam o mesmo problema. A oração de Moisés não inclui necessariamente uma referência à condenação eterna, como a de Paulo. Não precisamos concluir que o "livro" a que ele se refere tem o mesmo significado eterno do "livro da vida" como, por exemplo, em Filipenses 4.3 e Apocalipse 13.8; 17.8; 20.15 e 21.27.

George Bush argumenta que ser riscado do livro em Êxodo 32.32 eqüivale a ter a vida retirada enquanto outros continuam a viver. Não há nenhuma referência, nessas palavras, a algum livro secreto dos decretos divinos, nem a qualquer coisa que envolva a questão da salvação ou perdição eterna de Moisés. Ele simplesmente expressou a posição de preferir morrer a testemunhar a destruição do seu povo. A terminologia é, provavelmente, uma alusão ao costume de ter os nomes de uma comunidade arrolados em um registro e, sempre que alguém morria, seu nome era apagado e subtraído do total.5

O desejo que uma pessoa tem de morrer não se opõe necessariamente ao prazer cristão. Hebreus 11.26 diz que Moisés "achou que era melhor sofrer o desprezo por causa do Messias do que possuir todos os tesouros do Egito, É que ele tinha os olhos fixos na recompensa futura" (blh). Não há motivo para pensar que Moisés parou de olhar para o prêmio que compensava tudo, quando se debateu com o pecado de Israel.

Isso, é claro, não diminui o problema maior, que está em Romanos 9.3, Paulo disse: "Para o bem deles eu mesmo poderia desejar estar debaixo da maldição de Deus e separado de Cristo" (blh). Isso parece ser a disposição de abandonar a busca da felicidade. Será que Paulo deixou de ser um cristão que busca o prazer, ao expressar esse tipo de amor pelos perdidos?

Observe que ele diz: "Eu mesmo poderia desejar estar debaixo da maldição de Deus". A razão de traduzir o verbo como "eu poderia desejar..." e que o tempo imperfeito é usado no grego para atenuar a expressão e mostrar que ela não pode ser executada. Henry Alford diz: "O tempo imperfeito nessas expressões é apropriado e exato: [...] a ação não foi terminada, um obstáculo se interpôs".6

O obstáculo é a promessa imediatamente anterior de Romanos 8.38, 39: "Porque eu estou bem certo de que nem a morte,; nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor". Paulo sabe que é impossível tomar o lugar dos seus compatriotas no inferno.

O que ele diz é que gostaria de fazer isso! Este é o problema dos cristãos que buscam o prazer. Simplesmente temos de levar isso a sério. Paulo pondera a hipótese de um mundo em que algo assim fosse possível. Imagine um mundo em que um pecador não convertido e uma pessoa de fé pudessem estar diante do tribunal de Deus para serem julgados. E imagine que, estando disposto o santo, Deus invertesse a posição deles. Se o santo estivesse disposto, Deus retiraria dele sua graça salvadora, para torná-lo merecedor do inferno em descrença e rebelião, e daria ao descrente graça conversora, para que pusesse sua fé em Cristo e se tornasse apto para o céu.

Em um mundo assim, o que o amor exigiria? Exigiria sacrifício pessoal total. E o princípio do prazer cristão deixaria de aplicar-se. Mas veja bem! Este mundo hipotético não existe! Deus não criou um mundo em que alguém pudesse ser condenado para sempre por um ato de amor.

No mundo real que Deus fez, nunca nos é pedido que façamos uma escolha assim: Você está disposto a ser condenado em favor da salvação de outro? Pelo contrário, somos lembrados constantemente de que fazer o bem aos outros nos trará grande recompensa e que devemos buscar essa recompensa.

Paradoxalmente, a disposição de Paulo de considerar um caso hipotético de sacrifício radical é uma maneira profunda e dramática de dizer, com toda a força que ele consegue reunir: "Até esse ponto eu exulto na perspectiva da salvação de Israel!" Mas vemos imediatamente a impossibilidade de concretizar o desejo: sendo a salvação deles uma alegria tão grande para ele, será que o inferno seria realmente inferno? Poderíamos realmente falar do inferno como o lugar em que Paulo alcançou seu mais profundo e nobre desejo de amor? Esse é o tipo de incoerência com que você se defronta em mundos hipotéticos, que não existem.

A felicidade seria impossível em qualquer caso, num mundo como esse, porque se Deus desse ao santo a opção de ser condenado para salvar outro, aquele nunca se perdoaria se dissesse não. E sofreria para sempre no inferno se dissesse sim. Ele perderia das duas maneiras.

Só que o prazer cristão não é uma filosofia para mundos hipotéticos. Ele está baseado no mundo real que Deus criou e regulamentou nas Escrituras Sagradas. Neste mundo real nunca se nos exige ou recomenda que nos tornemos maus para que o bem predomine. Sempre se exige que nos tornemos bons. Isso significa tornar-se o tipo de pessoa que se alegra no bem, sem praticá-lo apenas por obrigação. A Palavra de Deus nos ordena que busquemos nossa alegria.

Quarta razão: as emoções são essenciais à vida cristã, não opcionais

Fico perplexo de ver que tantas pessoas tentam definir o cristianismo verdadeiro em termos de decisões e não de emoções. Não que as decisões não sejam essenciais. O problema é que exigem bem pouca transformação para serem concretizadas. Não são evidência de uma obra autêntica da graça no coração. As pessoas podem tomar "decisões" a respeito da verdade de Deus, com o coração longe dele.

Afastamo-nos muito do cristianismo de Jonathan Edwards. Ele apontou para 1Pedro 1.8 e argumentou que "a verdadeira religião, em boa parte, consiste em emoções":

A quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória.

 

Edwards indica que "a verdadeira religião" gera duas coisas na alma dos santos, de acordo com esse texto: amor por Cristo ("aquém, não havendo visto, amais") e alegria em Cristo ("no qual [...] exultais com alegria indizível e cheia de glória"). Essas duas manifestações da alma são emoções, não meras decisões. O conceito de Edwards do cristianismo verdadeiro era que o novo nascimento realmente trazia à existência uma nova natureza com novas emoções ou sentimentos.7

Vejo que há apoio para isso em toda a Bíblia. Temos a ordem de sentir, não apenas de pensar ou decidir. Temos a ordem de ter a experiência de dezenas de emoções, não apenas realizar atos da força da vontade.

Por exemplo, temos a ordem de não cobiçar (Êx 20.17), e é óbvio que cada ordem para não ter certo sentimento também é uma ordem para sentir de certa maneira. O oposto de cobiça é satisfação com o que temos, e é exatamente isso que somos ordenados a experimentar em Hebreus 13.5 ("Contentai-vos com o que tendes").

É-nos ordenado que não guardemos rancor, mas que perdoemos "no íntimo" (Lv 19.17, 18; blh "no coração"). Veja: a lei não diz: Tome a mera decisão de esquecer o assunto. Ela diz: Tenha uma experiência no coração (Mt 18.35). Do mesmo modo, a intensidade do coração é ordenada em 1Pedro 1.22 ("Amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente") e em Romanos 12.10 ("Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal").

Veja alguns exemplos de emoções ou sentimentos que a Bíblia ordena que tenhamos:

Alegria

(SL 100.2; Fp 4.4; lTs 5.16; Rm 12.8, 12, 15)

Esperança

(SI42.5; lPe 1.13)

Temor

(Lc 12.5; Rm 11.20; lPe 1.17)

Paz

(Rm 5.1; Cl 3.15)

Zelo

(Rm 12.11)

Tristeza

(Rm 12.15; Tg 4.9)

Desejo

(lPe2.2)

Compaixão

(EÍ4.32)

Contrição

(SL 51.17)

Gratidão

(Ef 5.20; Cl 3.17)

Humildade

(Fp2.3)

Não creio que seja possível dizer que passagens como essas se referem a enfeites opcionais de decisões. Elas foram ordenadas pelo Senhor que disse: "Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?" (Lc 6.46).

É verdade que nossos corações com freqüência são meio obtusos. Não sentimos emoções com a profundidade ou intensidade apropriadas para com Deus ou sua causa. É verdade que, nessas horas, temos de, no que depender de nós, exercer nossa vontade e tomar decisões que, esperamos, reacendam nossa alegria. Apesar de o amor sem alegria não ser nossa meta ("Deus ama a quem dá com alegria!"), é melhor cumprir uma obrigação sem alegria do que não cumpri-la, desde que haja um espírito de arrependimento pela insensibilidade do nosso coração.

Com freqüência perguntam-me o que o cristão deve fazer se não sente alegria em obedecer. É uma boa pergunta. Minha resposta não é simplesmente continuar com seu dever porque os sentimentos são irrelevantes! Minha resposta tem três passos: primeiro, confesse o pecado da falta de alegria. Reconheça a frieza condenável do seu coração. Não diga que não importa como você se sente. Segundo, ore com sinceridade para que Deus restaure a alegria da obediência. Terceiro, vá em frente e execute a dimensão externa da sua obrigação, na esperança de que a ação reacenda a alegria.   ,.  ..

Isso é muito diferente de dizer: faça sua obrigação, porque os sentimentos não importam. Esses passos são prescritos levando em conta que existe algo chamado hipocrisia. Eles estão baseados na convicção de que nosso objetivo é a união de prazer e dever, e que justificar sua separá-lo é justificar o pecado. John Murray expressa isso assim:

Não há conflito entre satisfazer o desejo e aumentar o prazer do ser humano por um lado, e cumprir o mandamento de Deus por outro. [...] A tensão que com freqüência existe em nós entre o senso de dever e a espontaneidade sincera é a tensão que brota do pecado e da vontade desobediente. Essa tensão jamais teria invadido o coração do homem não caído. E a atuação da graça salvadora tem por alvo retirar a tensão para que haja, como era no princípio, complementação perfeita de dever e prazer, de mandamento e amor.8

 

Esse é o objetivo da graça salvadora e também deste livro.

Quinta razão: o prazer cristão combate o orgulho e a autocompaixão

Tudo o que Deus faz objetiva exaltar sua misericórdia e abater o orgulho humano:

Para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema grandeza da sua graça, [...] para que ninguém se glorie (Ef 2.7, 9).

Em amor [Deus] nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, [...] para louvor da glória da sua graça (Ef 1.5, 6).

Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, [...] a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus (ICo 1.28, 29).

 

O prazer cristão combate o orgulho, porque assim põe o ser humano na categoria de um recipiente vazio diante da fonte de Deus. Ele nos guarda da presunção de tentarmos ser benfeitores de Deus. Filantropos podem vangloriar-se. Beneficiários de caridade não podem. A principal experiência do cristão que busca o prazer é necessidade. Quando uma criança pequena o indefesa é arrastada por uma correnteza no mar e seu pai a segura bem na hora, a criança não se vangloria; ela se agarra.

A natureza e profundidade do orgulho humano são evidenciadas comparando-se vanglória com autocompaixão. Ambas são manifestações de orgulho. Vangloria é a reação do orgulho ao sucesso. Autocompaixão é a reação do orgulho ao sofrimento. Quem se vangloria diz: "Mereço admiração porque consegui fazer tudo isso". Quem tem pena de Si mesmo diz: "Mereço admiração porque fiz um sacrifício tão grande". A vangloria é a voz do orgulho no coração do forte. A autocompaixão é a voz do orgulho no coração do fraco. Vanglória reflete auto-suficiência. Autocompaixão reflete auto-sacrifício.

A razão de a autocompaixão não parecer ser orgulho é que parece ser carência. Acontece que a necessidade brota de um ego ferido, e no fundo o desejo do que tem pena de Si mesmo não é que os outros o vejam como incapaz, mas como herói. A necessidade que ele sente não vem de um sentimento de indignidade, mas de valor não reconhecido. É a reação do orgulho não aplaudido.

O prazer cristão corta a raiz da autopiedade. Ninguém tem pena de Si mesmo quando aceita o sofrimento por causa da alegria:

Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o, vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós (Mt 5.11, 12).

 

Esse é o machado que está posto na raiz da autocompaixão. Quando temos de sofrer por causa de Cristo, não reunimos nossos próprios recursos como heróis. Antes, tornamo-nos como criancinhas que confiam na força do seu pai e que querem a alegria da sua recompensa. Como vimos no último capítulo, aqueles que mais sofreram por Cristo sempre recusaram louvor e compaixão, dando testemunho do seu prazer cristão.

"Nunca fiz um sacrifício", Disse Hudson Taylor, anos mais tarde, recordando sua vida, uma vida em que, evidentemente, jamais deixou de existir esse elemento; isso, porém, não deixava de ser verdade, porque as compensações que recebeu foram tão reais e duradouras, que lhe provaram que ao se tratar com Deus de coração para coração, negar-se a Si mesmo significa, sempre, receber. [...] O sacrifício foi grande, mas a recompensa foi ainda maior.

"Alegria indizível (ele nos relata) no dia inteiro e todos os dias, foi a minha feliz experiência. Deus, o meu Deus, era uma realidade viva e reluzente, e tudo o que eu tinha para fazer era um serviço glorioso."9

 

"Negar-se a Si mesmo significa, sempre, receber." Esse é o lema do prazer cristão e a morte da autocompaixão. Você pode ver o princípio em ação repetidas vezes entre os que são de Deus. Por exemplo, conheci um professor de seminário que também servia como recepcionista na galeria de uma grande igreja. Certa vez, quando estava de serviço durante um culto, o pastor o elogiou por sua disposição de trabalhar naquele posto sem destaque, apesar de ter um doutorado em teologia. O professor humildemente recusou o elogio, citando Salmos 84.l0:

Um dia nos teus átrios vale mais que mil; prefiro estar à porta da casa do meu Deus, a permanecer nas tendas da perversidade.

 

Em outras palavras, não pensem que estou heroicamente transpondo grandes obstáculos colocados por minhas inclinações, ao ficar à porta do auditório. A Palavra de Deus diz que isso traz grandes bênçãos!

A maioria das pessoas pode reconhecer que fazer algo pelo prazer e uma experiência humilhante. Quando alguém leva amigos para jantar e depois paga a conta, eles podem começar a falar como ele está sendo gentil. Mas ele levanta a mão como que dizendo: Parem! e diz: "O prazer é meu" Em outras palavras, se faço uma boa ação por prazer, o impulso do orgulho é quebrado.

Quebrar esse impulso é a vontade de Deus e uma das razões por que escrevi este livro.

Sexta razão: o prazer cristão promove amor genuíno pelas pessoas

Ninguém jamais se sentiu não amado quando lhe dizem que sua alegria faria outra pessoa feliz. Nunca fui acusado de egoísmo quando justifiquei uma gentileza dizendo que isso me dava prazer. Pelo contrário, atos de amor são genuínos à medida que não são feitos de má vontade. E a boa alternativa à má vontade não é neutralidade ou dever, mas alegria. Quem tem um coração amoroso autêntico "ama a misericórdia" (Mq 6.8); ele não apenas age com misericórdia. O prazer cristão nos obriga a levar essa verdade em consideração.

Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos. Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; ora, os seus mandamentos não são penosos, porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo (1Jo 5.2-4).

 

Leia essas frases na ordem inversa e veja a lógica. Primeiro, ser nascido de Deus nos dá poder para vencer o mundo. Isso é citado como base ("porque") da afirmação de que os mandamentos de Deus não são difíceis de obedecer. Portanto, ser nascido de Deus nos dá poder para vencer nossa aversão mundana à vontade de Deus. Ora, seus mandamentos não são "penosos", mas o desejo e prazer do nosso coração. Este é o amor de Deus: não precisamos apenas cumprir seus mandamentos; eles também não são pesados.

Depois, o versículo 2 diz que a evidência de que nosso amor pelos filhos de Deus é genuíno é o amor a Deus. O que isso nos ensina sobre nosso amor pelos filhos de Deus? Já que o amor a Deus é fazer sua vontade alegremente e não com uma sensação de peso, e já que o amor a Deus é a medida da autenticidade do nosso amor pelos filhos de Deus, ele também precisa ser alegre e não de má vontade. O prazer cristão está diretamente associado a servir por amor, porque nos empurra para a obediência alegre.

Jesus falou muito de dar esmolas. Como ele motivava as pessoas para isso? Ele disse: "Vendei os vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não desgastem, tesouro inextinguível nos céus" (Lc 12.33). Em outras palavras, pare de correr atrás de posses insignificantes na terra, se você pode ter tesouros intermináveis no céu, dando esmolas! (Lembre-se de Hudson Taylor: "Negar-se a Si mesmo significa, sempre, receber".)

Ou, de um modo um pouco diferente, mas basicamente a mesma coisa, ele disse: "Ao dares a esmola, ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita; para que a tua esmola fique em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará" (Mt 6.3, 4). Em outras palavras, pare de ser motivado pelos louvores das pessoas e deixe que o pensar na recompensa de Deus o motive a amar.

Sim, é amor verdadeiro quando nossas esmolas são motivadas pelo tesouro celestial. Não é exploração, porque quem dá esmolas com amor quer que elas resgatem o que pede para a mesma recompensa. Um cristão que busca o prazer está sempre ciente de que seu prazer na recompensa do Pai será ainda maior quando repartido com aqueles que ele atraiu para a comunhão celestial.

O que quero dizer é isto: se Jesus considerou sábio motivar ações de amor por meio de promessas de recompensa (Mt 6.4) e de tesouros no céu (Lc 12.33), harmoniza-se com seu ensino dizer que o prazer cristão promove o amor genuíno pelas pessoas.

Veja esta outra ilustração. Hebreus 13.17 dá o seguinte conselho a toda igreja local:

Obedeçam aos seus líderes e sigam as suas ordens, pois eles cuidam sempre das necessidades espirituais de vocês, sabendo que vão prestar contas disso a Deus. Se vocês obedecerem, eles farão o trabalho com alegria; porque, se eles fizerem o trabalho com tristeza, isso não ajudará vocês em nada (blh).

 

Ora, se não traz proveito ao pastor cuidar do rebanho com tristeza em vez de alegria, então o pastor que não procura fazer seu trabalho com alegria na verdade não se importa com seu rebanho. Não buscar a alegria no ministério é não buscar o bem do povo.

É por isso que Paulo exortou os que exercem misericórdia a fazê-lo "com alegria" (Rm 12.8) e porque Deus ama quem dá com alegria (2Co 9.7). Serviço de má vontade não se classifica como amor. A busca da alegria por meio da misericórdia é o que faz com que o amor seja real. E essa é uma das razões por que escrevi este livro.

Sétima razão: o prazer cristão glorifica a Deus

Voltamos para onde começamos. E é assim que deveria ser, "porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas" (Rm 11.36).

Será que o prazer cristão põe o prazer do ser humano acima da glória de Deus? De forma alguma. Ele põe o prazer do ser humano na glória de Deus. Não estamos meramente à procura de alegria. Queremos alegria em Deus. E não existe meio de uma criatura manifestar conscientemente o valor e a beleza infinitos de Deus sem se alegrar nele. É melhor dizer que buscamos nossa alegria em Deus do que simplesmente dizer que buscamos a Deus, porque pode-se buscar a Deus de maneiras que não o honram:

De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? — diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de animais cevados (Is 1.11).

 

Nossas assembléias solenes podem cheirar mal diante de Deus (cf. Am 5.21-24). É possível buscar a Deus sem glorificar a Deus. Se queremos que nossa busca honre a Deus, temos de buscá-lo pela alegria da comunhão com ele.

Pense no dia de descanso como ilustração disso. O Senhor repreende seu povo por buscar "seu próprio" prazer nesse dia santo. O que ele está querendo dizer? Ele quer dizer que eles estão tendo prazer em seus próprios negócios e não na beleza do seu Deus. Ele não está repreendendo o prazer deles. Repreende a fraqueza deles. Eles se contentaram com interesses seculares, honrando-os acima do Senhor:

Se desviares o teu pé de profanar o sábado

e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia;

se chamares ao sábado deleitoso

e santo dia do Senhor, digno de honra,

e o honrares não seguindo os teus caminhos,

não pretendendo fazer a tua própria vontade,

nem falando palavras vãs,

então, te deleitarás no Senhor.

Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra

e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai,

porque a boca do Senhor o disse (Is 58.13, 14).

 

Veja que chamai o sábado deleitoso está em paralelo com chamar o dia santo do Senhor digno de honra. Isso significa simplesmente que você honra aquilo em que tem prazer. Ou glorifica aquilo em que se alegra.

Alegrar-se cm Deus e glorificar a Deus são a mesma coisa. Seu propósito eterno e nosso prazer eterno se unem. Engrandecer seu nome e multiplicar sua alegria é a razão por que escrevi este livro, porque

o principal propósito do ser humano é glorificar a Deus

AO

alegrar-se nele para sempre.

 

NOTAS

1 Karl Barth, Church dogmatics, III, A. Edinburgo, T and T. Clark, 1961,p. 579-180. 2 Clyde Kuby (ed.), A mind awake: au anthology of C. S. Lewis. Nova York, Harcourt Brace and World, 1968, p. 22.

3     A mind awake, p. 25

4     A mind awake, p. 22-23.

5     George Bush, Notes on Exodus, vol. 2. Minneapolis, James and Klock, 1976 (original de 1852), p. 225.

6     Henry Alford, The Greek New Testament, vol. 2. Chicago, Moody Press, 1958 (original de 1873), p. 403.

7     The treatise concerning the religious affections, em The works ofJonathan Edwards. Edimburgo, Banner of Truth, 1974, p. 236. Veja a discussão do sentido das emoções no capítulo três, nota 1.

8     John Murray, Principies of conduct. Grand Rapids, Eerdmans, 1957, p. 38-39.

9     Howard Taylor, O segredo espiritual de Hudson Taylor. São Paulo, Mundo Cristão, 4ª ed., 1994 (original de 1932), p. 23.

 

 

 

 

Apêndice    1.
O Propósito de Deus na História da Redenção

No capítulo 1 eu disse que o propósito final de Deus em tudo o que ele faz é preservar e mostrar a sua glória. Inferi disso que ele está em primeiro. lugar em seus próprios sentimentos. Ele preza e se alegra em sua própria glória, acima de todas as coisas. Este apêndice traz evidências bíblicas para essa afirmação. Esta é uma breve pesquisa dos pontos principais da história da redenção, investigando por que Deus faz o que faz.

Primeiro, um comentário sobre terminologia.

Na Bíblia, o termo "glória de Deus" geralmente se refere ao esplendor visível ou à beleza moral da perfeição multiforme de Deus. E uma tentativa de expressar com palavras o que não pode ser contido por palavras — como Deus é em sua magnificência e excelência revelada.

Outro termo que pode significar praticamente a mesma coisa é "o nome de Deus". Quando a Bíblia fala de fazer algo "por amor ao nome de Deus", isso quer dizer praticamente a mesma coisa que "para sua glória". O "nome" de Deus não é uma mera etiqueta, mas uma referência ao seu caráter. O termo "glória" simplesmente deixa mais explícito que o caráter de Deus é realmente magnífico e excelente. Isso está implícito no termo "nome" quando se refere a Deus.

O que segue é uma visão geral de alguns pontos principais da história da redenção, em que a Bíblia deixa claro o propósito de Deus. O objetivo é descobrir o propósito unificador de Deus em tudo o que ele faz.

 

Antigo Testamento

A criação

Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra. Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.26, 27).

 

A história bíblica da redenção atinge seu clímax com a criação do ser humano (homem e mulher) à imagem de Deus. Quatro coisas devem ser observadas nesse ato culminante: 1) o ser humano foi criado como última das obras de Deus e, por isso, é a criatura mais importante; 2) apenas com relação ao ser humano se diz que foi feito à imagem de Deus; 3) somente quando o ser humano está em cena como imagem de Deus o escritor diz que a criação é muito boa (1.31); 4) ao ser humano é dado domínio e a ordem de subjugar e encher a terra (1.28).

Qual é o propósito do ser humano aqui? De acordo com o texto, a criação foi feita para o ser humano. Porém, como Deus fez o ser humano semelhante a Si mesmo, o ato do homem de dominar o mundo e enchê-lo eqüivale a mostrar Deus — apresentar a imagem dele. O objetivo de Deus, portanto, era que o ser humano agisse de modo que espelhasse Deus, que tem o domínio supremo. Ao ser humano é dada a posição elevada de portador da imagem, não para que ficasse arrogante e autônomo (como tentou fazer por ocasião da queda), mas para que refletisse a glória de quem o fez, cuja imagem traz em si. O propósito de Deus na criação, portanto, era encher a terra com sua própria glória. Isso fica claro, por exemplo, em Números 14.21, em que o Senhor diz: "Toda a terra se encherá da glória do Senhor", e em Isaías 43.7, em que o Senhor se refere ao seu povo como "os que criei para minha glória".

A torre de Babel

Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinear; e habitaram ali. E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra (Gn 11.1-4).

 

O propósito dessa história é mostrar como o ser humano caído pensava, e ainda pensa. Em contraste, ela mostra também o propósito de Deus para o ser humano. A frase-chave é: "Tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra" (v. 4). O instinto da autopreservação no ser humano caído busca sua realização não pela confiança em Deus, exaltando assim o nome dele, mas recorrendo à sua própria genialidade humana, para tornar célebre o próprio nome.

Isso contrariava o propósito de Deus para o ser humano, e por isso ele frustrou esse esforço — e desde então o tem frustrado, às vezes mais, às vezes menos. O propósito de Deus era receber o crédito pela grandeza do ser humano, e que este dependesse dele. Isso ficará mais evidente quando olharmos para o que Deus fez a seguir na história da redenção.

O chamado de Abraão

Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! (Gn 12.1, 2).

 

Nesse que é um dos pontos essenciais na maneira de Deus lidar com a raça humana, ele chama Abraão e começa a tratar com o povo de Israel. Há um contraste claro entre o que Deus diz aqui e o que aconteceu na torre de Babel. Deus diz que ele tornará grande o nome de Abraão, em contraste direto com Gênesis 11.4, em que o ser humano quis engrandecer seu próprio nome.

A diferença principal é esta: quando o ser humano se propõe tornar seu próprio nome famoso, ele credita a Si mesmo suas realizações e não dá glória a Deus. Mas quando Deus se propõe tornar uma pessoa famosa, a única resposta apropriada é confiança e gratidão por parte da pessoa, que devolve toda a glória a Deus, a quem ela pertence. Abraão provou ser bem diferente dos construtores da torre de Babel, porque (como vimos em Gn 15.6) confiou em Deus.

Em Romanos 4.20, 21, o apóstolo Paulo nos mostra a ligação entre a fé de Abraão e a glória de Deus: "[Abraão] não duvidou, por incredulidade, da promessa de Deus; mas, pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus, estando plenamente convicto de que ele era poderoso para cumprir o que prometera". Assim, em contraste com os construtores da torre de Babel, os filhos de Abraão foram escolhidos por Deus para ser um povo que confia nele e, assim, lhe dão glória. É isso o que Deus diz em Isaías 49.3: "Tu és o meu servo, és Israel, por quem hei de ser glorificado ".

O êxodo

Depois do período dos patriarcas (Abraão, Isaque, Jacó), registrado no restante do livro de Gênesis, o povo de Israel passou várias centenas de anos aumentando no Egito, onde acabou se tornando escravo. Então clamaram a Deus por misericórdia. Em resposta, Deus se propôs libertá-los pela mão de Moisés, para conduzi-los através do deserto até a terra prometida de Canaã. O propósito de Deus nessa libertação do Egito está registrado em varias passagens além das de Êxodo — por exemplo, em Ezequiel e em Salmos:

Assim diz o Senhor Deus: No dia em que escolhi a Israel, levantando a mão, jurei à descendência da casa de Jacó e me dei a conhecer a eles na terra do Egito; levantei-lhes a mão e jurei: Eu sou o Senhor, vosso Deus. Naquele dia, levantei-lhes a mão e jurei tirá-los da terra do Egito para uma terra que lhes tinha previsto, a qual mana leite e mel, coroa de todas as terras. Então, lhes disse: Cada um lance de Sl as abominações de que se agradam os seus olhos, e não vos contamineis com os ídolos do Egito; eu sou o Senhor, vosso Deus. Mas rebelaram-se contra mim e não me quiseram ouvir; ninguém lançava de Sl as abominações de que se agradavam os seus olhos, nem abandonava os ídolos do Egito.

Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir a minha ira contra eles, no meio da terra do Egito. 0 que fiz, porém, foi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito (Ez 20.5-9).

Pecamos, como nossos pais; cometemos iniqüidade, procedemos mal. Nossos pais, no Egito, não atentaram às tuas maravilhas; não se lembraram da multidão das tuas misericórdias e foram rebeldes junto ao mar, o mar Vermelho. Mas ele os salvou por amor do seu nome, para lhes fazer notório o seu poder (SL 106.6-8).

 

Fica claro que a libertação do Egito não se deveu ao valor dos israelitas, mas ao valor do nome de Deus. Ele agiu "por amor ao seu nome". Isso também fica claro na história do êxodo em si, em Êxodo 14:

Endurecerei o coração de Faraó, para que os persiga, e serei glorificado em Faraó e em todo o seu exército; e saberão os egípcios que eu sou o Senhor. [...] E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando for glorificado em Faraó, nos seus carros e nos seus cavalarianos (Êx 14.4, 18).

 

O propósito de Deus é agir para levar as pessoas a reconhecer sua glória e confessar que ele é o único Senhor do universo. Por isso, o grande evento do êxodo, que se tornou um paradigma de todas as ações salvíficas de Deus, tinha a intenção de deixar claro para todas as gerações que o propósito de Deus com Israel era glorificar a Si mesmo e criar um povo que confiasse nele e se alegrasse em sua glória.

A entrega da lei

Quando Israel checou ao monte Sinai, Deus chamou Moisés para o topo do monte e lhe deu os dez mandamentos e outras normas para a nova comunidade social. Encabeçando essa lei está Êxodo 20.3-5:

Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o Senhor, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem.

 

Quando Deus diz que não devemos ter outros deuses além dele e que ele é um Deus ciumento, quer dizer que seu objetivo principal ao dar a lei é que lhe demos a honra que só ele merece. Ele acabara de se mostrar gloriosamente gracioso e poderoso no êxodo; agora simplesmente exige na lei uma resposta adequada por parte do seu povo — que o amemos e cumpramos seus mandamentos.

Amar a Deus não significa suprir suas necessidades, antes, alegrar-se nele e ser cativado por seu glorioso poder e graça, e valorizá-lo acima de todas as coisas na terra. Todos os demais mandamentos são coisas que faremos de coração, se nosso coração estiver verdadeiramente feliz com a glória da graça de Deus e descansando nela.

A peregrinação pelo deserto

Deus teve bons motivos para destruir seu povo no deserto, por causa da repetida murmuração, incredulidade e idolatria deles. Porém mais uma vez o Senhor detém sua mão e os trata com bondade, por amor do seu próprio nome:

Mas também os filhos se rebelaram contra mim e não andaram nos meus estatutos, nem guardaram os meus juízos, os quais, cumprindo-os o homem, viverá por eles; antes, profanaram os meus sábados. Então, eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra eles a minha ira no deserto. Mas detive a mão e o fiz por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações perante as quais os fiz sair (Ez 20.21, 22; cf. v. 13, 14).

 

Essa motivação de Deus em preservar seu povo no deserto é a mesma que aparece na oração de Moisés pelo povo em Deuteronômio 9.27-29, quando Deus estava a ponto de destruir o povo:

Lembra-te dos teus servos Abraão, Isaque e Jacó; não atentes para a dureza deste povo, nem para a sua maldade, nem para o seu pecado, para que o povo da terra donde nos tiraste não diga: Não tendo podido o Senhor introduzi-los na terra de que lhes tinha falado e porque os aborrecia, os tirou para matá-los no deserto. Todavia, são eles o teu povo e a tua herança, que tiraste com a tua grande força e com o braço estendido (veja também Nm 14.13-16; Êx 32.11-14).

 

Moisés apelou à promessa que Deus fizera aos patriarcas e argumentou com Deus que com certeza ele não queria que seu nome fosse ridicularizado, o que certamente aconteceria se Israel perecesse no deserto. Os egípcios diriam que Deus não fora capaz de levá-los a Canaã! Ao permitir que Moisés orasse dessa maneira, Deus deixa claro que sua decisão de reter sua ira contra Israel foi por amor do seu próprio nome.

A conquista de Canaã

O livro de Josué narra como Deus deu ao povo de Israel a vitória sobre os povos que habitavam a terra de Canaã. No fim do livro, encontramos a chave para a razão por que Deus fez isso por seu povo:

Enviei vespões adiante de vós, que os expulsaram da vossa presença, bem como os dois reis dos amorreus, e isso não com a tua espada, nem com o teu arco. Dei-vos a terra em que não trabalhastes e cidades que não edificastes, e habitais nelas; corneis das vinhas e dos olivais que não plantastes.

Agora, pois, temei ao Senhor e servi-o com integridade e com fidelidade; deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao Senhor (Js 24.12-14).

 

As palavras "agora, pois, temei ao Senhor" são uma inferência da graça de Deus em dar a terra a Israel. A lógica mostra que o propósito de Deus ao dar-lhes a terra era que temessem e honrassem somente a ele. Em outras palavras, ao dar a Israel a terra de Canaã, Deus quis criar um povo que reconhecesse sua glória e se alegrasse nela acima de todas as coisas. Esse propósito é confirmado na oração de Davi registrada em 2Samuel 7.23:

Quem há como o teu povo, como Israel, gente única na terra, a quem tu, ó Deus, foste resgatar para ser teu povo? E para fazer a ti mesmo um nome e fazer a teu povo estas grandes e tremendas coisas, para a tua terra, diante do teu povo, que tu resgataste do Egito, desterrando as nações e seus deuses?

 

Os primórdios da monarquia

Depois de um período sob juizes (narrado no livro com esse título), Israel pediu um rei. Apesar de a motivação para isso ser errada (Israel queria ser como as outras nações), Deus não destruiu o seu povo. O motivo desse gracioso ato de misericórdia e apresentado em I Samuel 12.19-23:

Todo o povo disse a Samuel: Roga pelos teus servos ao Senhor, teu Deus, para que não venhamos a morrer; porque a todos os nossos pecados acrescentamos o mal de pedir para nós um rei. Então, disse Samuel ao povo: Não temais; tendes cometido todo este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir o Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração. Não vos desvieis; pois seguiríeis coisas vãs, que nada aproveitam e tampouco vos podem livrar, porque vaidade são. Pois o Senhor, por causa do seu grande nome, não desamparará o seu povo, porque aprouve ao Senhor fazer-vos o seu povo. Quanto a mim, longe de mim que eu peque contra o Senhor, deixando de orar por vós; antes, vos ensinarei o caminho bom e direito.

 

Aqui a preservação do povo, apesar de seu pecado configurar o início da monarquia, deve-se ao propósito de Deus de preservar e mostrar a honra do seu nome. Seu objetivo é superior.

Outra maneira de Deus mostrar sua misericórdia durante a monarquia foi pela condução ao trono de um homem segundo o seu coração: um rei cujo objetivo era o mesmo de Deus. Vemos isso na maneira de Davi orar. No salmo 25.11 ele diz: "Por causa do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniqüidade, que é grande". E, no mais famoso salmo de todos, Davi diz que a motivação de Deus ao liderar seu povo é a glória do seu nome: "Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome" (Sl 23.3).

O templo de Deus

Os livros de 1 e 2Reis contam a história de Israel desde Salomão, filho de Davi, que construiu o templo de Deus, até o cativeiro babilônico. Esse foi um período de mais ou menos quatrocentos anos, terminando em 587 a.E. Em 1Reis 8 temos a oração de Salomão dedicando o templo recem-construído, que inclui estas palavras:

Também o estrangeiro, que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu nome (porque ouvirão do teu grande nome, e da tua mão poderosa, e do teu braço estendido), e orar, voltado par esta casa, ouve tu nos céus, lugar da tua habitação, e faze tudo o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome.

Quando o teu povo sair à guerra contra o seu inimigo, pelo caminho por que o enviares, e orar ao Senhor, voltado para esta cidade, que tu escolheste, e para  a casa, que edifiquei ao teu nome, ouve tu nos céus a sua oração e a sua súplica e faze-lhe justiça (1 Rs 8.41-45).

 

Essa oração mostra que a intenção de Salomão ao construir o templo — em concordância com o propósito de Deus: "O meu nome estará ali!" (v. 29)— era que o nome de Deus fosse exaltado e todas as nações conhecessem e temessem a Deus.

Libertação na época dos reis

Após a morte de Salomão, o reino de Israel foi dividido em dois, o do Norte e o do Sul. Um exemplo de que a graça de Deus continuou sobre o seu povo durante esse tempo, bem como seu propósito de ser glorificado e de preservar a honra do seu nome, evidencia-se na maneira como ele interveio quando Ezequias era rei de Judá, nos últimos anos do século VIII a.E.

Os assírios, liderados por Senaqueribe, tinham vindo contra o povo de Judá. Ezequias, então, orou ao Senhor por libertação. O profeta Isaías trouxe a resposta de Deus, registrada em 2Reis 19.34: "Eu defenderei esta cidade, para a livrar, por amor de mim e por amor de meu servo Davi". Ele diz a mesma coisa de novo em 2Reis 20.6: "Das mãos do rei da Assíria te livrarei, a ti e a esta cidade; e defenderei esta cidade por amor de mim e por amor de Davi, meu servo".

Exílio e promessa de restauração

Por fim, por volta de 587 a.E, Jerusalém caiu diante dos babilônios que invadiram o país (o reino do Norte tinha ido para o exílio com os assírios em 722 a.E). O povo de Judá foi deportado para a Babilônia. Parecia que Deus tinha desistido de seu povo Israel. Mas se esse fosse o caso, como ficaria seu santo nome, do qual ele tivera tanto ciúme durante todos aqueles séculos? Logo descobrimos que Deus não terminou com seu povo, mas será misericordioso mais uma vez. E mais uma vez, como Isaías deixa claro, os propósitos de Deus são os mesmos de sempre:

Por amor do meu nome, retardarei a minha ira e por causa da minha honra me conterei para contigo, para que te não venha a exterminar. Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de mim, é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória, não a dou a outrem (Is 48.9-11).

 

De modo semelhante, Ezequiel, que foi profeta durante o exílio babilônico, fala da misericordiosa restauração que Deus operará e por que o fará:

Dize, portanto, à casa dede Israel: Assim diz o Senhor Deus: Não é por amor de vós que eu faço isto, ó casa de Israel, mas pelo meu santo nome, que profanastes entre as nações para onde fostes. Vindicarei a santidade do meu grande nome, que foi profanado entre as nações, o qual profanastes no meio delas; as nações saberão que eu sou o Senhor, diz o Senhor Deus, quando eu vindicar a minha santidade perante elas. Não é por amor de vós, fique bem entendido, que eu faço isto, diz o Senhor Deus. Envergonhai-vos e confundi-vos por causa dos vossos caminhos, ó casa de Israel (Ez 36.22, 23, 32).

 

A salvação não é base para vangloriar-se do seu valor diante de Deus. É uma ocasião para humilhação própria e júbilo na gloriosa graça de Deus em seu favor — uma graça que nunca depende da nossa distinção mas flui do desejo supremo de Deus de engrandecer sua própria glória, em prol do seu povo.

Os profetas pós-exílicos

Zacarias, Ageu e Malaquias profetizaram após o retorno de Israel do exílio, e constituem os últimos escritos do período do Antigo Testamento. Cada um deles deixa entrever a convicção de que o objetivo de Deus depois do exílio continua sendo sua própria glória.

Zacarias profetizou em relação à reconstrução de Jerusalém:

"Eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória" (Zc 2.5).

 

Ageu traz a mesma afirmação:

"Edificai a casa [...] e serei glorificado" (Ag 1.8).

 

Malaquias criticou a maldade dos sacerdotes no novo templo:

Eles "não propuseram no coração dar honra ao meu nome" (Ml 2.2).

 

Novo Testamento

Passando do Antigo Testamento para o Novo, mudamos de uma época de promessa para uma época de cumprimento. O Messias esperado tinha vindo: Jesus Cristo. O objetivo supremo de Deus, porém, não tinha mudado, apenas algumas circunstâncias de como ele o está realizando.

Vida e ministério de Jesus

Dois textos do evangelho de João mostram que a vida e o ministério de Jesus foram dedicados a glorificar seu Pai no céu. Em João 17.4, Jesus orou, no fim da sua vida: "Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer". E em João 7.18, referindo-se ao seu próprio ministério, Jesus disse: "Quem fala por Si mesmo está procurando a sua própria gloria; mas o que procura a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e nele não há injustiça". Por isso, podemos dizer com convicção que o desejo que consumia Jesus, seu propósito mais importante na terra, era glorificar seu Pai no céu, fazendo a vontade dele (Jo 4.54).

A morte de Jesus

Em João 12.27, 28, Jesus pensou em fugir da morte, mas rejeitou essa alternativa, sabendo que exatamente pela morte ele consumaria sua missão de glorificar o Pai:

Agora está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora. Pai, glorifica o teu nome. Então, veio uma voz do céu: Eu já o glorifiquei e ainda o glorificarei.

 

O propósito da morte de Jesus era glorificar o Pai. Estar disposto, como Filho de Deus, a sofrer pessoalmente a perda de tanta glória a fim de reparar a injúria feita à glória de Deus pelo nosso pecado mostrou como a glória de Deus é infinitamente valiosa. É verdade que a morte de Cristo também mostra o amor de Deus por nós. Mas nós não estamos no centro.

Deus expôs seu Filho na cruz "para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos" (Rm 3.25). Em outras palavras, ao perdoar o pecado no Antigo Testamento e por tolerar muitos pecadores, Deus dera a impressão de que sua honra e glória não tinham valor infinito. Agora, para afirmar a honra do seu nome e o valor da sua glória, ele exigiu a morte do seu próprio Filho. Assim Cristo sofreu e morreu pela glória do seu Pai. Isso demonstra a justiça de Deus, porque a justiça de Deus é seu compromisso inamovível de preservar o valor da sua glória.1

A vida cristã

A ação de Cristo em favor da glória de Deus leva inevitavelmente à conclusão de que o propósito de Deus para o seu povo recém-redimido, a igreja, é que o objetivo da nossa vida seja glorificar a Deus. Paulo deixa isso explícito em ICoríntios 10.31, onde ele diz: "Quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus".

Pedro mostra que todo o nosso serviço como cristãos tem por objetivo que Deus seja glorificado como aquele que nos capacita a fazer todas as coisas boas: "Se alguém serve, faça-o na força que Deus supre, para que, em todas as coisas, seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém" (lPe 4.11).

E quando Jesus estava instruindo seus discípulos sobre o objetivo que deveriam ter na vida diária, ele disse, em Mateus 5.16: "Brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus".

A segunda vinda e o fim

Em 2Tessalonicenses 1.9, 10, a segunda vinda de Cristo é descrita como esperança e terror. Paulo diz sobre aqueles que não crêem no evangelho:

Estes sofrerão penalidade de eterna destruição, banidos da face do Senhor e da glória do seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram, naquele dia (porquanto foi crido entre vós o nosso testemunho).

 

Jesus Cristo está voltando não apenas para efetuar a salvação definitiva do seu povo, mas para, por meio dessa salvação, ser glorificado nos seus santos e ser admirado em todos os que creram.

Um comentário final diz respeito ao clímax da história no livro de Apocalipse. João retrata a nova Jerusalém, a igreja glorificada, em 21.23: "A cidade não precisa nem do sol, nem da lua, para lhe darem claridade, pois a glória de Deus a iluminou, e o Cordeiro é a sua lâmpada". Deus Pai e Deus Filho são a luz na qual os cristãos viverão sua eternidade. Assim se consuma o objetivo de Deus em toda a história — que era revelar sua glória para que todos pudessem ver e louvá-la. A oração do Filho confirma o propósito final do Pai: "Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo" (Jo 17.24).

Conclusão

O que podemos concluir desta visão panorâmica da história da redenção? Podemos concluir que o propósito primordial de Deus é glorificar a Deus e alegrar-se em Si mesmo para sempre. Ele permanece supremo no centro dos seus próprios sentimentos e emoções. E exatamente por essa razão ele é uma fonte de graça inexaurível e suficiente em Si mesma.

 

NOTAS

1Para um desenvolvimento maior dessa percepção da justiça de Deus, veja, de John Piper, The justification of God. Grand Rapids, Baker Book House, 2a ed., 1993.

 

 

 

 

Apêndice    2.
Será Que a Bíblia é um Guia Confiável Para a Alegria Duradoura?

Será que Deus existe?

Livros inteiros têm sido escritos sobre porque a Bíblia é digna de confiança.1 Contudo, por causa do nosso próprio senso de integridade, devíamos rever em espaço curto porque firmamos nossa esperança na mensagem deste livro. Espero poder manter-me neste apêndice entre o dogmatismo sem base, por um lado, e o exagero apologético, por outro.

Comecemos com o nível mais básico de fé religiosa. Eu creio em Deus. Pode haver razões familiares e sociais para como vim a ser assim, do mesmo modo que há razões sociais e familiares para porque você é como é. Todavia, quando tento ser razoável e testar a fé em Deus que herdei, não consigo fugir da sua realidade.

Imagine-me tentando voltar atrás um trilhão de anos para ver como era a realidade original. De que natureza ela era? O que vejo, e me deixa perplexo, é o fato de que a possibilidade de que a realidade original era uma pessoa ou um gás é a mesma. Pense nisso. Como o que era originalmente sempre existiu, não há absolutamente nenhuma causa que pudesse ter decidido que a realidade original fosse um gás e não uma pessoa. Todo ser humano razoável tem de admitir que as chances são iguais. Algum coisa indefinida pode ter existido desde a eternidade — ou pode ter sido uma pessoa!

Admitir a possibilidade razoável de que a realidade inicial pode ter sido pessoal libera você para considerar a evidência subseqüente com mais abertura. Minha própria inferência inescapável da ordem do universo, da existência do ser humano como pessoa, do senso universal de consciência (autojulgamento moral) e do sentimento judicial universal (condenação dos outros que nos desonram) — minha própria inferência de tudo isso é que a realidade última não é impessoal, mas e realmente uma pessoa. Simplesmente acho impossível crer que o drama humano dos séculos, com sua busca de sentido, beleza e verdade, não tem raízes mais profundas que mutações moleculares.

Muitas religiões, muitos deuses

Assim, quando penso onde a felicidade permanente pode ser achada, sou levado a buscar por ela em um relacionamento com deus — o criador pessoal de todas as coisas. Nada me parece ser mais razoável do que que a felicidade permanente jamais será encontrada por uma pessoa que ignora ou se opõe a seu criador. Fico sempre perplexo com pessoas que dizem crer em Deus mas vivem como se pudessem encontrar a felicidade dando-lhe dois porcento da sua atenção. Com certeza o fim das era revelará que isso é absurdo.

No entanto, uma vez que começamos a buscar nossa felicidade no relacionamento com deus, somos confrontados com muitas alegações e religiões diferentes. Por que deveríamos basear nossa esperança na afirmação de que a Bíblia cristã é uma revelação verdadeira de Deus? Minha resposta fundamental é que Jesus Cristo — o centro e somatória da Bíblia— ganhou minha confiança com sua autenticidade, amor e poder. Vejo sua autenticidade e amor no relato das suas palavras e ações, e vejo seu poder especialmente em sua ressurreição.

Ouvindo os testemunhos sobre Cristo

Você não precisa crer que a Bíblia é infalível para descobrir que ela apresenta uma pessoa histórica de qualidades incomparáveis. Na verdade, a maneira mais razoável de se aproximar da Bíblia pela primeira vez é ouvindo aberta e honestamente os vários testemunhos que ela traz sobre Cristo, para ver se esses testemunhos e essa pessoa se autenticam. Se sim, o que eles e Cristo dizem sobre a Bíblia em si assumirá uma nova autoridade, e é bem provável que você acabe aceitando toda a Bíblia (como eu!) como Palavra inspirada e infalível de Deus. Mas você não precisa começar com isso.

O Cristo incomparável

Deixe-me ilustrar o que quero dizer com a mensagem auto-autenticadora de Cristo e seus testemunhos. Os relatos bíblicos apresentam Jesus como um homem de amor incomparável por Deus e pelo ser humano. Ele ficou irado quando Deus foi desonrado pela falta de religião (Mc 11.15-17), e quando o ser humano foi destruído pela religião (Mc 3.4, 5). Ele nos ensinou a sermos pobres de espírito, mansos, com fome de justiça, puros de coração, misericordiosos e pacificadores (Mt 5.3-9). Ele nos exortou a honrarmos a Deus de coração (Mt 15.8) e a nos desfazermos de toda hipocrisia (Lc 12.1). E praticou o que pregava. Sua vida foi resumida como "fazendo o bem e curando" (At 10.38).

Ele tirou tempo para as criancinhas e as abençoou (Mc 10.13-16). Ultrapassou barreiras sociais para ajudar mulheres (Jo 4), estrangeiros (Mc 7.24-30), leprosos (Lc 17.11-19), prostitutas (Lc 7.36-50), cobradores de impostos (Mt 9.9-13) e mendigos (Mc 10.46-52). Lavou os pés dos seus discípulos como um escravo e ensinou-os a servir em vez de ser servidos (Jo 13.1-17). Mesmo quando estava exausto, seu coração comoveu-se de compaixão com a multidão que o apertava (Mc 6.31-34). Mesmo quando seus próprios discípulos fraquejaram e estavam a ponto de negar e esquecê-lo, ele quis estar com eles (Lc 22.15) e orou por eles (Lc 22.32). Ele disse que sua vida era um resgate para muitos (Mc 10.45) e, quando foi executado aos trinta e três anos de idade, orou pelo perdão dos seus assassinos (Lc 23.34).

Jesus não é somente retratado como cheio de amor por Deus e pelas pessoas, mas também é apresentado como totalmente confiável e autêntico. Ele não agiu com autoridade própria, para ganhar louvor mundano. Dirigiu as pessoas para o seu Pai no céu. "Quem fala por Si mesmo está procurando a sua própria glória; mas o que procura a glória de quem o enviou, esse é verdadeiro, e nele não há injustiça" (Jo 7.18). Ele não tem o espírito de um egomaníaco ou um charlatão. Parece estar completamente em paz consigo mesmo e com Deus. Ele é autêntico.

Isso é evidente na maneira que viu o que havia por trás da dissimulação das pessoas (Mt 22.18). Ele era tão puro e tão atento que não podia ser apanhado em armadilha ou encurralado em um debate (Mt 22.15-22). Tinha surpreendente ausência de sentimentos em suas exigências, mesmo em relação àqueles por quem tinha uma afeição especial (Mc 10.21). Nunca atenuou a mensagem da justiça para aumentar seu séquito ou granjear favores. Até seus opositores ficaram atônitos com sua indiferença em relação ao louvor humano: "Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens; antes, segundo a verdade, ensinas o caminho de Deus" (Mc 12.14). Jamais teve de retirar uma afirmação, e não pôde ser denunciado por ter agido mal (Jo 8.46). Era manso e humilde de coração (Mt 11.29).

O que tornava tudo isso surpreendente era a autoridade discreta mas inconfundível que emanava de tudo o que dizia. Os funcionários dos fariseus falaram por todos nós ao dizer: "Jamais alguém falou como este homem" (Jo 7.46). Havia algo inconfundivelmente diferente nele: "Ele ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas" (Mt 7.29).

Suas afirmações não eram as declarações abertas de poder mundano que os judeus esperavam do Messias. Mas, mesmo assim, eram inconfundíveis. Apesar de ninguém entendê-lo na época, não houve dúvidas de que ele dissera: "Destrui este santuário, e em três dias o reconstruirei" (Jo 2.19; Mt 26.61). Eles acharam que era absurda a afirmação de que ele sozinho reconstruiria um edifício que estivera em obras há quarenta e seis anos. Mas ele eslava declarando, em sua maneira tipicamente velada, que ressuscitaria — e por seu próprio poder.

Em seu último debate com os fariseus (Mt 22.41-45), Jesus os silenciou com esta pergunta: "O que vocês pensam sobre o Messias? De quem ele é descendente?" (blh). Eles responderam: "De Davi". A isto, Jesus citou Davi no Salmo 110.1: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés". Depois, com autoridade apenas levemente velada, Jesus perguntou: "Se Davi lhe chama Senhor, como é ele seu filho?" Em outras palavras, para quem tem olhos para ver, o filho de Davi e muito mais do que o filho estavam ali.

"Ninivitas se levantarão, no Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior do que Jonas. A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão" (Mt 12.41, 42). Essa forma de declaração velada perpassa tudo o que Jesus disse e fez.

Além disso, ele dava ordens aos espíritos maus e eles lhe obedeciam (Mc 1.27). Declarou perdão de pecados (Mc2.5). Conclamou pessoas a deixar tudo e o seguir para ter vida eterna e um tesouro no céu (Mc 10.17-22; Lc 14.26-33). E fez a declaração impressionante de que "todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus" (Mt 10.32, 33).

Será que estou raciocinando em círculos?

Talvez alguém diga que estou raciocinando em círculos. Não estou presumindo que o retrato que a Bíblia traça de Jesus é confiável, argumentando a favor dele? Não exatamente. O retrato que esbocei não está restrito a um só escritor, nem (como poderia dizer um estudioso crítico) a alguma camada particular de tradição. Não importa o quanto você se aprofunda em um estudo crítico dos evangelhos, você nunca encontra um Jesus histórico substancialmente diferente daquele descrito aqui. Em outras palavras, você não precisa presumir que os relatos são confiáveis. Você pode presumir que eles não são, se você quiser. Porém quanto mais rigorosamente você os analisar com um procedimento histórico justo, mais você concluirá que não existe nenhuma instância entre o Jesus histórico e o Jesus dos evangelhos em que este homem inigualável foi criado por artifício humano.

Em outras palavras, não estão partindo da suposição de que os evangelhos são inspirados ou infalíveis. Estou tentando mostrar que certo retrato de Jesus é comum a todos os testemunhos, e vai tanto para trás quanto a crítica histórica pode ir.

O que você acha de Jesus?

Como explicar essa harmonia e antigüidade? Será que algum gênio criativo desconhecido tomou um homem comum, Jesus, e inventou seus atos de poder e suas palavras de amor, autoridade e autenticidade, para depois apresentar este Jesus inventado a uma igreja, com tal poder de engano que muitas pessoas estiveram dispostas desde o começo a morrer por esse Cristo de ficção? Mais que isso: temos de crer que todos os escritores de evangelhos engoliram a invenção — e isso no espaço de várias décadas, enquanto muitos que conheceram o Jesus real ainda viviam! Essa suposição é mais razoável e bem fundada do que a afirmação direta de que um homem real, Jesus Cristo, realmente disse e fez as coisas que os testemunhos bíblicos disseram dele?

Você tem de decidir por Sl. A meu ver, um inventor desconhecido desse Jesus é mais incrível que a possibilidade de Jesus ser real. Por isso, para mim a pergunta passa a ser: O que achamos de um homem que deixa um legado como esse?

Não posso moralmente contá-lo entre as pobres almas enganadas que sofrem de ilusões patológicas de grandeza. Nem posso contá-lo entre os grandes vigaristas da história, um enganador que planejou e orquestrou um movimento missionário mundial com base em uma fraude. Pelo contrário, vejo-me constrangido a reconhecer sua veracidade. Tanto minha mente como meu coração vêem-se levados a jurar lealdade a este homem. Ele conquistou minha confiança.

A evidência da ressurreição de Jesus

Ao lado desta linha de evidências devemos pôr a evidência da ressurreição de Jesus. Se ele não ressuscitou mas seguiu pelo caminho de toda carne, as implicações extraordinárias da sua Palavra e sua vida dão em nada. Mas se ele venceu a morte, suas afirmações e sua natureza ficam provadas. E seu ensino sobre a Bíblia torna-se padrão para nós. Sem entrar em detalhes, quero mencionar seis coisas que fundamentam minha certeza de que Jesus ressuscitou.

1) Jesus deu testemunho da sua própria ressurreição futura.

Dois testemunhos separados confirmam de maneiras diferentes a afirmação que Jesus fez em vida que, se seus inimigos destruíssem o templo, ele o reconstruiria em três dias (Jo 2.19; Mc 14.58; cf. Mt 26.61). Jesus também falou figuradamente do "sinal de Jonas" — três dias no coração da terra (Mt 12.39, 40; 16.4). Por isso, a credibilidade de Jesus aponta para a realidade da ressurreição futura. E ele referiu-se mais uma vez a ela em Mateus 21.42: "A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular".

2)         O túmulo estava vazio na páscoa. Há quatro maneiras possíveis de explicar isso.

Seus inimigos roubaram o corpo. Se esse foi o caso (o que eles nunca afirmaram), eles certamente teriam mostrado o corpo, para deter a expansão bem sucedida da fé cristã na própria cidade em que a crucificação aconteceu. Mas eles não puderam mostrá-lo.

Seus amigos o roubaram. Este foi um dos primeiros rumores (Mt 28.11-15). Será que isso é provável? Poderiam eles ter dominado os guardas junto ao túmulo? E, mais importante que isso, será que eles teriam começado a pregar com tanta autoridade que Jesus ressuscitou, sabendo que isso não era verdade? Teriam eles arriscado sua vida e aceitado ser açoitados por algo que sabiam ser uma fraude?

Jesus não estava morto, apenas inconsciente quando o colocaram no túmulo. Ele acordou, removeu a pedra, dominou os soldados e desapareceu da história, depois de alguns encontros com seus discípulos, em que os convenceu de que tinha ressuscitado. Nem os inimigos de Jesus tentaram seguir esse caminho. Ele estava obviamente morto. A pedra não podia ser removida de dentro por um homem que passara seis horas pregado a uma cruz e fora perfurado lateralmente por uma lança.

Deus ressuscitou Jesus. Isso era o que ele disse que aconteceria. Foi o que os discípulos disseram que aconteceu.

Contudo, enquanto houver uma possibilidade remota de explicar a ressurreição de modo natural, as pessoas de hoje dizem que não devemos pular para uma explicação sobrenatural. Será que isso é razoável? Eu não acho. É claro que não queremos ser ingênuos. Mas também não queremos rejeitar a verdade só porque ela é estranha. Temos de estar cientes de que nossos compromissos a essa altura são muito afetados por nossas preferências — ou pelo estado de coisas que resultaria da verdade da ressurreição, ou pelo estado de coisas que resultaria da falsidade da ressurreição. Se a mensagem de Jesus abriu você para a realidade de Deus e a necessidade de perdão, por exemplo, então os dogmas contrários ao sobrenatural podem perder seu poder sobre sua mente. Poderia ser que essa abertura não é preconceito a favor da ressurreição, mas liberdade do preconceito contra ela?

3)         Os discípulos foram transformados quase imediatamente de homens sem esperança e medrosos depois da crucificação (Lc 24.21; Jo 20.19) em testemunhas confiantes e corajosos da ressurreição (At 2.24; 3.15; 4.2). Sua explicação era que tinham visto o Cristo ressurreto e recebido autorização para ser suas testemunhas (At 2.32). A explicação divergente mais popular é que sua confiança fora causada por alucinações. Há numerosos problemas com tal noção:

Por um lado,  alucinações, via de regra são algo particular, mas Paulo escreve em 1Coríntios 15.6 que Jesus "foi visto por mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maioria sobrevive até agora". Estavam disponíveis para serem questionados.

Além disso, os discípulos não eram ingênuos, mas céticos desconfiados tanto antes como depois da ressurreição (Mc 9.32; Lc 24.11; Jo 20.8, 9, 25),

Mais que isso, será que o ensino profundo e nobre dos que viram o Cristo ressurreto é material de que se faz alucinações? O que dizer da grande carta de Paulo aos Romanos?

4)  A própria existência de uma igreja crescente que conquistou o império apoia a verdade da afirmação da ressurreição. A igreja espalhou-se pelo poder do testemunho de que Jesus ressuscitou e que Deus com isso o tornara Senhor e Cristo (At 2.36). O senhorio de Cristo sobre todas as nações está baseado em sua vitória sobre a morte. Essa é a mensagem que se espalhou por todo o mundo. Seu poder para transpor barreiras culturais e criar um novo povo de Deus foi um testemunho poderoso da sua veracidade.

5)  A conversão do apóstolo Paulo apoia a verdade da ressurreição. Ele argumenta diante de uma audiência parcialmente não simpática em Gálatas 1.11-17 que seu evangelho vem do Jesus Cristo vivo. Seu argumento é que, antes da sua experiência na estrada para Damasco, ele era totalmente contrário à fé cristã. Mas agora, para surpresa de todos, está arriscando sua vida pelo evangelho. Sua explicação: o Jesus ressurreto lhe apareceu e autorizou a ser o ponta de lança do trabalho missionário entre os gentios (At 26.15-18). Podemos acreditar neste testemunho?

Isso nos leva ao meu último argumento em favor da ressurreição.

6)         As testemunhas do Novo Testamento não levam a chancela de tolos ou enganadores. Como você dá crédito a uma testemunha? Como você decide acreditar ou não no testemunho de alguém? A decisão de dar crédito ao testemunho de alguém não é como completar uma equação matemática. A certeza é de outro tipo, mas pode ser igualmente firme (eu confio no testemunho da minha esposa de que ela é fiel).

Quando uma testemunha está morta, podemos basear nosso julgamento apenas no conteúdo dos seus escritos e no testemunho de outras pessoas sobre ela. Como Pedro, João, Mateus e Paulo se qualificam?

A meu juízo (e, a esta altura, podemos viver de modo autêntico apenas por nosso próprio juízo — Lc 12.57), os escritos destes homens não se parecem com obras de pessoas ingênuas, fáceis de serem enganadas ou de enganarem. Seus conhecimentos da natureza humana são profundos. Seu compromisso pessoal é sóbrio e exposto com cuidado. Seus ensinos são coerentes e não se parecem com invenções de homens instáveis. Seu padrão moral e espiritual é elevado. E a vida destes homens, como transparece em seus escritos, é integralmente dedicada à verdade e à honra de Deus.

Jesus é a revelação autêntica de Deus

Estas, então, são algumas (não todas!) das evidências que fundamentam minha confiança em Jesus como a verdadeira revelação de Deus. Antes de eu tentar explicar como isto me leva a acreditar em toda a Bíblia como palavra de Deus, deixe-me dar-lhe uma exortação pessoal.

Sempre que um cristão conversa sobre a verdade da fé com alguém que não é cristão, toda solicitação, por parte do que não é cristão, de provas do cristianismo deve ser respondida com uma solicitação, igualmente séria, de provas da filosofia de vida do que não é cristão. De outro modo, ficamos com a impressão falsa de que a cosmovisão cristã é insegura e incompleta, enquanto as cosmovisões mais seculares são seguras e certas, acima da necessidade de prestar contas filosóficas e históricas de Si mesmas. Isso não é o caso.

Muitas pessoas que exigem de nós cristãos que aportemos provas das nossas afirmações não fazem a mesma exigência a Si mesmos. Presume-se que o ceticismo secular seja razoável porque está amplamente difundido, não porque é bem fundamentado. Devemos simplesmente insistir que o debate seja justo. Se o cristão precisa apresentar provas, o outro também precisa.

Agora, se Jesus conquistou nossa confiança com seu amor autêntico e seu poder sobre a morte, então sua visão das coisas será padrão para nós. Qual foi sua posição em relação ao Antigo Testamento?

Qual foi a posição de Jesus em relação ao Antigo Testamento?

Em primeiro lugar, o Antigo Testamento que ele prezava compunha-se dos mesmos livros como o que os protestantes prezam hoje em dia? Ou será que incluía outros (como os livros apócrifos2 do período anterior a ele)? Em outras palavras, será que a Bíblia de Jesus era o Antigo Testamento hebraico, com os mesmos trinta e nove livros do Antigo Testamento protestante, ou será que sua Bíblia era o Antigo Testamento grego (a Septuaginta), que continha quinze livros a mais? Norman Anderson, em seu livro inspirativo God's Word for God's world [A Palavra de Deus para o mundo de Deus], traz a minha resposta e o apoio para ela tão bem que quero simplesmente citá-lo:

Assim, temos de considerar o testemunho recíproco que Jesus deu da Bíblia — a princípio, é claro, o Antigo Testamento, a parte das Escrituras que existia na época. Que os livros que ele tinha em mente abrangiam toda a "Bíblia hebraica" fica, creio eu, claro a partir de duas referências do Novo Testamento: primeiro, da sua alusão, em Lucas 24.44, à "Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos", pois essa era a maneira de referir-se às três partes da estrutura das Escrituras judaicas — a "Lei", os "Profetas" e os "Escritos" (nos quais os Salmos tinham um lugar de destaque); e, em segundo lugar, da sua alusão a "todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias" [Ml 23.35], já que o sangue de Abel e mencionado no começo de Gênesis (4.8), o primeiro livro da Bíblia hebraica, e o de Zacarias perto do fim de 2Crônicas (24.21), o último livro das Escrituras judaicas.3

 

Portanto, se a Bíblia de Jesus era o mesmo Antigo Testamento que nós protestantes usamos hoje em dia, podemos passar à pergunta: Como ele o considerava?

1)  Ao citar o Salmo 110.1, ele disse que Davi falou pelo Espírito Santo: "O próprio Davi falou, pelo Espírito Santo...". (Mc 12.36).

2)  Em sua controvérsia com os fariseus quanto à interpretação deles do Antigo Testamento, ele opôs a tradição dos anciãos ao mandamento de Deus que se encontra na Escritura: "Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição!" (Mc 7.9).

3)  Quando respondeu aos fariseus sobre o problema do divórcio, referiu-se a Gênesis 2.24 como algo "dito" por Deus, apesar de as palavras serem do narrador bíblico e não uma citação direta de Deus: "O Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe" (Mt 19.4, 5).

4)  Ele faz uma declaração explícita sobre a infalibilidade em João 10.35: "A Escritura não pode falhar".

5)  Uma afirmação explícita da inerrância do Antigo Testamento é feita em Mateus 22.29: "Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus". Conhecer as Escrituras nos previne do erro.

6)  Repetidas vezes Jesus usa o Antigo Testamento como uma autoridade que precisa ser seguida: "Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da lei, até que tudo se cumpra" (Mt 5.17, 18; veja 26.54, 56; Lc 16.17).

7)  Jesus repreendeu os dois discípulos na estrada para Emaús por serem "néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram" (Lc 24.25).

8)  O próprio Jesus usou o Antigo Testamento como uma arma com autoridade contra as tentações de Satanás: "Jesus, porém, respondeu: Está escrito..." (Mt 4.4, 7, 10).

A diversidade desse testemunho e sua difusão por todo o material dos evangelhos mostra que o Senhor Jesus considerava o Antigo Testamento uma autoridade confiável, um guia inerrante em nossa busca da felicidade permanente. Por isso nós, que nos submetemos à autoridade de Cristo, também quereremos nos submeter à autoridade do livro que ele tinha em tão elevada estima.

A autoridade do Novo Testamento

E o que dizer do Novo Testamento? Poderíamos elaborar uma longa argumentação histórica em favor da inspiração e infalibilidade dos livros do Novo Testamento, mas isto expandiria este apêndice para além de limites apropriados.4 Assim, darei apenas indicações que podem fundamentar nossa confiança de que o Novo Testamento tem a mesma autoridade e confiabilidade que o Antigo.

Minha confiança no Novo Testamento como Palavra de Deus baseia-se em algumas observações:

1)  Jesus escolheu doze apóstolos para terem autoridade como seus representantes na fundação da igreja. No fim da sua vida ele lhes prometeu: "O Espírito Santo [...] vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito" (Jo 14.26; 16.13).

2)  O apóstolo Paulo teve uma conversão impressionante, de uma vida de assassinar cristãos para uma vida de fazer cristãos, que exige uma explicação especial. Ele diz que ele (e os outros apóstolos) foram comissionados pelo Cristo ressurreto para pregar "não em palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas ensinadas pelo Espírito" (1Co2.13). Em outras palavras, a predição de Cristo em João 14.26 estava sendo cumprida nessa inspiração.

3)  Pedro confirma isso em 2Pedro 3.16, colocando os escritos de Paulo na mesma categoria dos escritos inspirados do Antigo Testamento (2Pe 1.21).

4)  Todos os escritos do Novo Testamento vêm daqueles primeiros tempos de revelação especial prometida, e foram escritos pelos apóstolos e seus acompanhantes chegados.

5)  A mensagem desses livros tem "o som da verdade".5 Tanta realidade faz sentido. A mensagem da santidade de Deus e nossa culpa, por um lado, e da morte e ressurreição de Cristo como nossa única esperança, por outro — esta mensagem concorda com a realidade que vemos e com a esperança que anelamos e não vemos.

6)  Finalmente, como diz o Catecismo, "A Bíblia evidencia a Si mesma como Palavra de Deus, pelo caráter celeste da sua doutrina, a unidade das suas partes e seu poder para converter pecadores e edificar santos".6

 

NOTAS

1 Por exemplo, B.B. Warfield, The inspiration and authority of the Bible (Londres, Marshall Morgan and Scott, 1959); F.F. Bruce, The New Testament documents: are they reliable? (Grand RaRapids, Win. B. Eerdmans Co., 1943); J Norval Geldeniuys, Supreme authority (Grand Rapids, Wm. B. Eerdmans Co., 1953); J. I. Packer,  Fundamentalism and the Word of Cod (Londres, InlerVarsity Press, 1958); Edward J. YOUNG, Thy Word is truth (Grand Rapids, Wm. B. Ecrdmans Co., 1957); J. B. Phillips, The ring of truth (Nova York, The Macmillan Co., 1967); John W. Wenham, Christ and the Bible (Londres, Tyndale Press, 1972); James Boice (ed.), The foundation of Biblical authority (Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1978); D. A. Carson e John D. Woodbridge, Scripture and truth (Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1983).

2 Os apócrifos são um grupo de livros antigos, escritos na época entre o Antigo e o Novo Testamentos. Eles são incluídos em edições católicas do Antigo Testamento, mas os protestantes via de regra os têm rejeitado como parte do cânon das Escril ni as inspirado e com autoridade. Para os textos, veja The Oxford annotaded Apocrypha of the Old Testament. Bruce Metzger (ed.), Nova York, Oxford University Press, 1965.

3     Norman Anderson, God's Word for God's worid. Londres, Hodder and Sloughlon, 1981, p. 112. As Escrituras judaicas têm os mesmos livros do nosso Antigo Teslamento, apenas em outra ordem.

4     Para ampliar este estudo, recomendo Daniel Fuller, Easter faith and history. Grand Rapids, Eerdmans, 1965, e John W. Wenham, Christ and the Bible. Londres, Tyndale, 1972.

5     Depois de traduzir os evangelhos para "o puro inglês moderno", J. B. Philips escreveu o seguinte em The ring of truth [O som da verdade] (Londres, Hodder and Sloughton, 1967), p. 57-58: "Senti, e sinto, sem qualquer sombra de dúvida, que o contato íntimo com o texto dos evangelhos constrói no coração e na mente um caráter de estatura e qualidade que inspira temor. Li, em grego e latim, dúzias de mitos, mas aqui não encontrei nem o menor vestígio de mito. Não há histeria, nenhuma produção cuidadosa de reações, nenhuma tentativa de fraude. Não se trata de lendas enfeitadas: o material é enxuto até o osso. Sente-se sempre de novo a sisudez, que fomos ensinados a pensar que é mais "britânica" que oriental. Há uma sinceridade e simplicidade quase infantis, e o efeito global é tremendo. Ninguém jamais poderia ter inventado uma pessoa como Jesus. Ninguém poderia ter redigido relatos tão sem artifícios e tão vulneráveis como estes, a não ser que algum evento real esteja por trás deles.

6     The Baptist catechism, comumente chamado de Keach's catechism, revisado e editado por Paul Jewett. Grand Rapids, Baker Book House, 1952, p. 16.

 

 

 

 

Apêndice    3.
O Que Significa Amar o Próximo Como a Si mesmo?1

 

No capítulo 8 eu disse que a ordem de Jesus (Lc 10.27) de amar o próximo como a Si mesmo é amplamente mal interpretada hoje em dia em termos de auto-estima. Este apêndice é a base da minha afirmação e traz uma interpretação diferente.

De acordo com o espírito da nossa época, o maior pecado não é mais o fracasso em honrar e agradecer a Deus mas o fracasso em amar a Si mesmo. Rebaixar a Si mesmo, não rebaixar a Deus, é o mal. E o grito de libertação não é: "Miserável homem que sou, quem me libertará?" mas: "Grande homem que sou, gostaria de ver isso melhor!"

Hoje em dia o primeiro e maior mandamento é: "Ame a Si mesmo". Pensa-se que a explicação para quase todo problema de relacionamento está na baixa auto-estima de alguém. Sermões, artigos e livros enfiaram essa idéia fundo na mente dos cristãos. É rara a congregação, por exemplo, que não tropeça sobre a "teologia vermicular" do grande hino de Isaac Watts "Alas! And did my savior bleed" [Como sangrou meu salvador]. Alguns hinários chegam a reescrever o verso: "Daria ele a santa fronte por um verme como eu?" Eles dizem que somos muito nobres para seremos chamados de vermes.

Há muitos anos o culto de Si mesmo vem-se expandindo enormemente, e seus defensores profissionais aproveitam cada oportunidade para pôr um espelho à nossa frente e nos dizer para gostarmos do que vemos.

O que mais me desanima em tudo isso não é apenas o que considero mudanças de enfoque não bíblicas, de Deus para o ser humano como alvo da redenção (veja Ez 36.22-32), mas também a pouca oposição a isso. Estou ansioso para evitar que este livro seja construído como apenas mais uma voz no coro dos que buscam a auto-estima como o remédio para todos os nossos males. Este livro trata da estima de Deus e da graça, não de Si mesmo. É um livro sobre a busca da alegria, não do eu.

Um texto muito mal usado

Talvez o texto bíblico usado com mais freqüência para difundir a mensagem da auto-estima é: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19.18; Lc 10.27; Rm 13.9; Gl 5.14; Tg 2.8). Esse uso, porém, quase sempre envolve interpretações erradas.

Mesmo nos dias de Jesus essa ordem era mal-entendida. Será que há conexão entre os antigos mal-entendidos e os novos? O erro antigo girava em torno do termo "próximo", e foi denunciado por Jesus na parábola do Bom Samaritano (Lc 10.29-37). O erro moderno gira em torno do termo "como a ti mesmo".

Em Lucas 10.25, um mestre da lei acabara de perguntar a Jesus o que era preciso fazer para herdar a vida eterna. De acordo com Lucas, a pergunta não era sincera. O mestre não estava à procura da vida eterna; ele queria pôr Jesus à prova. Sob o disfarce de uma pergunta pessoal, ele propôs a Jesus um enigma acadêmico, na esperança de enredá-lo em alguma contradição herética com o Antigo Testamento.

Um professor da Lei se levantou e, querendo pegar Jesus em contradição, perguntou:

—Mestre, o que devo fazer para conseguir a vida eterna? [Lc 10.25, blh].

Na intenção de expor a duplicidade do homem, Jesus devolve a pergunta:

—O que é que as Escrituras Sagradas dizem a respeito disso? E como é que você as interpreta?

O homem respondeu:

—"Ame o Senhor seu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com toda a inteligência. E ame o seu próximo como você ama a você mesmo".

Jesus simplesmente concordou:

—A sua resposta está certa. Faça isso e você viverá.

 

Escravo das aparências

Agora o mestre da lei está em dificuldades. Ficou evidente para todos que ele já sabia a resposta à pergunta. Sua motivação ao fazê-la não era um desejo sincero de informação, mas o desejo de fazer Jesus cair numa armadilha. Sua duplicidade fora desmascarada. Agora todos podiam ver que ele fora insincero, hipócrita, culpado da injustiça do ludibrio. O que ele podia fazer? Fugir envergonhado como o apóstolo Pedro e chorar amargamente pelo seu pecado? Ou, assim como milhões de pessoas antes e depois dele, tentar salvar as aparências?

Porém o professor da Lei, querendo se desculpar, perguntou [e aí vem o erro antigo ligado ao termo "próximo": — Mas quem é o meu próximo?

 

Diante da ameaça à sua reputação e consideração de Si mesmo, o pecado da autojustificação brotou. O mestre da lei foi induzido a pensar que o problema não era sua indisposição orgulhosa para arrepender-se e obedecer, mas a ambigüidade da palavra "próximo". A pergunta: "Quem e o meu próximo?" era nada mais que um artifício para salvar as aparências.

Por trás da pergunta do mestre da lei há um mal-entendido tão sério da ordem de Deus que Jesus nem se dispõe a respondê-la.

Com freqüência entendemos a Palavra de Deus de modo errado não por causa de descuidos intelectuais inocentes ou falta de informação, mas por causa de uma profunda recusa a submeter-se às exigências de Deus. A pessoa que pretende dirigir seus próprios negócios, manter seu orgulho, granjear apreço e glória das demais pessoas, sempre distorcerá as palavras de Jesus de modo a obter apoio para sua própria auto-estima. O mal do coração humano precede e dá origem a muitas das nossas interpretações erradas da Bíblia aparentemente intelectuais.

Outra maneira de fazer a pergunta do professor da lei poderia ser: "Mestre, quem eu não preciso amar? Quais grupos da nossa sociedade são exceções a este mandamento? Com certeza os romanos, opressores do povo escolhido de Deus; e seus lacaios desprezíveis, os cobradores de impostos; e esses samaritanos mestiços — certamente todos esses não estão incluídos no termo 'próximo'. Diga-me quem é meu próximo, Mestre, para que, ao examinar os vários candidatos ao meu amor, eu cuide de escolher apenas este".

A parábola que denuncia

Jesus não quer saber de responder diretamente — o que, na verdade, era impossível— a esse tipo de pergunta. Em vez disso, ele conta uma parábola.

Um homem, provavelmente judeu, viajava de Jerusalém para Jericó quando foi atacado por assaltantes. Roubaram e espancaram-no, e o deixaram meio morto à beira da estrada. Passou por ali primeiro um sacerdote, depois um levita. Ao verem o homem, passaram pelo outro lado da estrada. Então veio um samaritano, e quando ele viu o homem ferido, sentiu compaixão por ele. Aproximou-se e tratou dos seus ferimentos, usando seu próprio óleo e vinho. Depois o colocou sobre sua própria montaria, levou-o até uma estalagem e cuidou dele até o dia seguinte. Aí deu do seu próprio dinheiro ao dono da pensão, para que continuasse tomando conta do homem, dizendo que pararia novamente na volta da viagem, para cobrir a diferença, caso não tivesse sido suficiente.

Depois de contar a parábola, Jesus devolve a pergunta ao professor da lei:

—Na sua opinião, qual desses três foi o próximo do homem assaltado?

—Aquele que o socorreu — respondeu o professor da lei.

—Pois vá e faça a mesma coisa — disse Jesus.

 

O objetivo da parábola de Jesus foi mostrar que o pedido do professor para que definisse o termo "próximo" na verdade tinha a intenção de desviar a atenção do que realmente interessava: o tipo de gente que ele mesmo era. O problema do professor não era definir a palavra "próximo"; seu problema, como o de todo ser humano, era tornar-se o tipo de pessoa que, por causa da compaixão, não pode passar do outro lado da estrada. Nenhum coração verdadeiramente compassivo ou misericordioso pode ficar parado enquanto a mente examina se um candidato sofredor se encaixa na definição de próximo.

Se o professor tivesse estado submisso à intenção do mandamento de Deus, teria visto como sua pergunta sobre seu próximo era irrelevante. A intenção de Deus é criar uma pessoa cheia de amor, compaixão e misericórdia, cujo coração a leve irresistivelmente à ação quando houver sofrimento no seu raio de alcance, uma pessoa que interrompa sua programação, arrisque passar vergonha, use seu óleo e vinho, reparta seu dinheiro para ajudar um estranho que sofre. Jesus diz: Torne-se essa pessoa, e você herdará a vida eterna; bem-aventurados são os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

É dessa maneira, então, que o mandamento "Ame o seu próximo como a Si mesmo" era entendido errado na época de Jesus e como Jesus reagiu a isso.

O erro moderno

O erro antigo girava em torno da palavra "próximo"; o moderno gira em torno de duas suposições sobre o que significa "como a Si mesmo". Primeiro, presume-se que as palavras são um mandamento e não uma afirmação. Ou seja, imagina-se que Jesus está convocando as pessoas ao amor a Si mesmas, para que possam amar os outros como amam a Si mesmas. Em segundo lugar, presume-se que este amor a Si mesmo que Jesus supostamente requer eqüivale a auto-estima, auto-aceitação, auto-imagem positiva ou coisas do gênero. Os proponentes dessa interpretação põe as duas suposições juntas da maneira seguinte: a primeira tarefa da pessoa que obedece a Jesus é desenvolver uma auto-estima elevada, para poder cumprir a segunda metade do mandamento, que é amar os outros como ama a Si mesma.

Será que era isso que Jesus queria dizer? Não creio. Essas duas suposições dependem uma da outra, portanto, vejamos as duas juntas para ver se o texto as confirma.

Em termos gramaticais, é impossível construir as palavras "como a Si mesmo" como uma ordem. Se você acrescenta o verbo, o mandamento fica simplesmente: "Você deve amar seu próximo assim como você, na verdade, já ama a Si mesmo". Jesus não está dizendo às pessoas que se amem; ele presume que elas já o fazem. Até onde sabemos, Jesus nunca considerou a hipótese de que houvesse alguém que não se ama. Usando as palavras de Paulo em Efésios 5.29, "ninguém jamais odiou a própria carne; antes, a alimenta e dela cuida".

Se isso é assim, então o amor a Si mesmo de que Jesus fala é bem diferente da auto-estima que com tanta freqüência se imagina que seja o sentido da frase. Para mostrar o que Jesus entende por amor a Si mesmo, podemos colocar a seguinte questão: Não é razoável presumir que as duas vezes que se usa "amar" no mandamento "Ame o seu próximo como você ama a Si mesmo" têm o mesmo sentido? Jesus deixa claro o que ele quer dizer com o verbo "amar" na primeira metade: significa interromper sua atividade e gastar seu óleo, vinho e dinheiro para fazer o que você acha que é melhor para o seu próximo. Significa ter um coração disposto para buscar o bem de outra pessoa.

Dando à palavra "amar" o mesmo sentido na segunda parle do mandamento, obtemos isso: "Você deve buscar o bem do seu próximo do mesmo modo que você naturalmente procura o seu próprio bem. Alimente e cuide do seu próximo carente, assim como você, por natureza, alimenta e cuida de Si mesmo".

Outra maneira em que Jesus disse essencialmente a mesma coisa foi: "Façam aos outros o que querem que eles façam a vocês" [Mt 7.12, BLH]. "Façam aos outros" corresponde a "Ame o seu próximo". "O que querem que eles façam a vocês" corresponde a "como você ama a Si mesmo". Assim, o amor a Si mesmo é definido na Regra Áurea pelo desejo que nós temos do bem que os outros devem nos fazer.

O amor por Si mesmo não é ordenado, mas pressuposto

Em resumo, então, "Ame o seu próximo como você ama a você mesmo" não é um mandamento, mas um pressuposto. Todas as pessoas se amam. Além disso, o amor a Si mesmo de que Jesus fala não tem nada a ver com a noção generalizada de auto-estima. Não significa ter uma boa imagem de Si mesmo ou sentir-se especialmente feliz consigo mesmo. Significa simplesmente desejar e buscar o próprio bem.

E nós devemos observar que a posição de Jesus não é afetada pelo fato que a maioria das pessoas tem uma noção distorcida do que é bom para elas. Um homem pode tentar encontrar seu bem em uma garrafa de cachaça, no sexo ilícito ou em uma moto veloz. Assim mesmo, todos os seres humanos desejam e buscam o que acham, pelo menos na hora de escolher, que os tornará mais felizes.

Um mandamento bem radical

Somente quando se vê "amor a Si mesmo" nesta luz é que a força tremenda do mandamento "Ame o seu próximo como você ama a Si mesmo" se manifesta. Este é um mandamento bem radical. Com "radical" quero dizer o seguinte: ele expõe a raiz da nossa pecaminosidade e, pela graça de Deus, a corta. A raiz da nossa pecaminosidade é o desejo da nossa própria felicidade longe de Deus e longe da felicidade dos outros em Deus. Todo pecado vêm do desejo de ser feliz, separado da glória de Deus e do bem dos outros.

Outro nome para esta raiz da pecaminosidade é orgulho. Orgulho é a presunção de que podemos ser felizes sem depender de Deus como a fonte da nossa felicidade e sem nos importarmos se outros encontram sua felicidade em Deus. Orgulho é a paixão de ser feliz, contaminada e corrompida por duas coisas: 1) a indisposição de ver Deus como a única fonte da alegria verdadeira e duradoura; e 2) a indisposição de ver que Deus quer que outras pessoas recebam de nós a alegria nele. Se você toma o desejo de ser feliz e tira dele Deus como a fonte da sua felicidade e as pessoas como recebedoras da sua felicidade, o que resta é orgulho. Orgulho é a busca de felicidade em todo lugar, menos na glória de Deus e no bem dos outros.

Agora, Jesus diz: "Ame o seu próximo como você ama a Si mesmo". E, com esse mandamento, ele corta a raiz da nossa pecaminosidade. Como ele faz isso?

O anseio de diminuir a dor e aumentar o prazer

Jesus diz, na verdade: Começo com este traço humano inato, profundo, característico — seu amor por Si mesmo. Isso é ponto pacífico; eu parto da convicção de que ele existe. Todos têm um instinto poderoso de preservação e realização própria. Todos querem ser felizes. Todos querem viver, e viver com satisfação. Você quer comida, você quer com que se vestir, você quer ter um lugar para morar. Você quer proteção da violência contra você. Você quer ter uma atividade agradável ou que faça sentido, para preencher os seus dias. Você quer ter alguns amigos que gostam de você e passam algum tempo com você. Você quer que, de alguma forma, sua vida faça diferença. Tudo isso é amor por Si mesmo. Amor por Si mesmo é o anseio profundo de diminuir a dor e aumentar o prazer.

Todo mundo, sem exceção, tem esse traço humano. Isto é o que nos leva a fazer isso ou aquilo. Mesmo o suicídio é procurado com este desejo de amor por Si mesmo. Em meio ao sentimento de total falta de sentido e esperança e da paralisia da depressão, a alma diz: "Não dá para ficar pior do que isso. Portanto, mesmo se eu não sei o que ganharei com a morte, sei que vou sair da situação em que estou". Destarte, o suicídio é uma tentativa de fugir ao que é intolerável. É um ato de amor a Si mesmo.

Agora Jesus diz: Começo com este amor a Si mesmo. Isso é o que eu sei sobre você. Isso é comum a todas as pessoas. Você não precisa aprendendo, Ele vem com sua humanidade. Meu Pai o criou. Em e de Si mesmo, ele é bom. Ter fome do bem não é mau. Querer aquecer-se no inverno não é mau. Querer estar seguro em meio a uma crise não é mau. Querer ficar com saúde no meio de uma epidemia não é mau. Querer ser amado por outros não é mau. Querer que a vida faça alguma diferença positiva não é mau. Este era um traço característico do ser humano antes da queda no pecado, e não é mau em si.

Faça da medida com que busca a sua realização a medida com que se dá aos outros

Se ele se tornou mau em sua vida será manifesto agora que você ouve e responde ao mandamento de Jesus. Ele ordena: "Assim como você ama a Si mesmo, ame o seu próximo". O que quer dizer: assim como você anseia por comida quando está com fome, anseie por alimentar seu próximo quando ele está com fome. Assim como você anseia por roupas bonitas para si, anseie por roupas bonitas para o seu próximo. Assim como você deseja ter um lugar confortável para viver, deseje um lugar confortável para o seu próximo viver. Assim como você procura estar seguro e protegido de calamidades e violência, procure consolo e segurança para o seu próximo. Assim como você quer que sua vida faça diferença positiva, deseje o mesmo sentido de vida para o seu próximo. Assim como você se esforça para tirar boas notas, ajude seu próximo para que ele também tire boas notas. Assim como você gosta de ser bem recebido em ambientes novos, receba bem um estranho no meio em que você está. O que você gostaria que as pessoas fizessem a você, faça-o a elas.

Em outras palavras, faça da medida com que busca a sua realização própria a medida com que se dá aos outros. A expressão "assim como" é muito radical: "Ame o seu próximo assim como você ama a Si mesmo", "Assim como!" Isso significa: Se você está empenhado em buscar sua própria felicidade, empenhe-se para que seu próximo também seja feliz. Se você é criativo na busca da sua felicidade, seja criativo na busca da felicidade do seu próximo. Se você é perseverante na busca da sua felicidade, seja perseverante na busca da felicidade do seu próximo. Em outras palavras, Jesus não está apenas dizendo: Busque para o seu próprio as mesmas coisas que você busca para si, mas: Busque-as da mesma maneira — com o mesmo empenho, energia, criatividade e perseverança. Faça da medida com que busca a sua realização a medida com que se dá aos outros. Meça sua busca da felicidade dos outros pela busca da sua própria. Como você busca seu próprio bem-estar? Busque assim também o bem-estar do seu próximo.

Amar os outros em vez de amar a Si mesmo?

Isto é muito ameaçador. Sentimos imediatamente que, se levamos Jesus a sério, teremos de amar os outros não apenas "como amamos a nós mesmos", mas teremos de amá-los "em vez de amar a nós mesmos". Temo que, se eu seguir a Jesus nisso, realmente dedicando-me à busca da felicidade dos outros, meu próprio desejo de felicidade ficará em segundo plano. A demanda do meu tempo, empenho e criatividade pelo próximo terá a preferência de qualquer tempo, energia e criatividade que eu tiver para buscar a minha própria felicidade. Portanto, o mandamento de amar meu próximo como amo a mim mesmo no fundo parece ser uma ameaça ao meu amor a mim mesmo. Como isso é possível? Se há inato em nós o desejo natural da nossa própria felicidade, e se isso em Si mesmo não é mau mas bom, como podemos abrir mão disso para buscar a felicidade dos outros às custas da nossa própria?

O primeiro mandamento salva o segundo

Creio que é exatamente essa ameaça que Jesus quer que sintamos, até entendermos que por isso — exatamente por isso— o primeiro mandamento é o primeiro mandamento. É o primeiro mandamento que faz com que o segundo seja praticável e tira a ameaça de que o segundo mandamento significa o suicídio da nossa própria felicidade. O primeiro mandamento é: "Ame o Senhor seu Deus com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com toda a inteligência" (Lc 10.27). O primeiro mandamento é a base do segundo. O segundo é uma expressão visível do primeiro. Isso significa que: antes de você tornar sua busca de Si mesmo a medida da sua doação de Si mesmo, torne Deus o alvo da sua busca de Si mesmo. Isto é o que ensina o primeiro mandamento.

"Ame a Deus com todo o coração" significa: Encontre em Deus uma satisfação tal que ela enche todo o seu coração. "Ame a Deus com toda a alma" significa: Encontre em Deus um significado tão rico e profundo que ele preenche todos os cantos angustiados da sua alma. "Ame a Deus com todas as forças" significa: Não poupe esforço ou empenho para pôr-se em posição de ver toda a graça de Deus, que nos satisfaz plenamente, derramada

sobre você e através de você. "Ame a Deus com toda a inteligência" significa: Encontre em Deus as riquezas de conhecimento, percepção e sabedoria que guiam e suprem tudo para o que a mente humana foi criada.

Em outras palavras, tome todo o seu amor a Si mesmo — todo o seu anseio, esperança, amor, segurança, realização e significado— tome tudo isso e dirija-o para Deus, até que ele satisfaça seu coração, alma e mente. Isso não implica cancelar o amor a Si mesmo. Essa é a realização do amor a Si mesmo. Amor a Si mesmo é o desejo por vida e satisfação, em vez de frustração e morte. Deus diz: Venha a mim, e eu lhe darei alegria plena (cf Sl 16.11). Satisfarei seu coração, alma, força e mente com minha glória. Este é o primeiro e grande mandamento.

O amor a Deus torna-se a forma do nosso amor pelos outros

Com essa grande descoberta — que Deus é a fonte inesgotável da nossa alegria— a maneira em que amamos os outros é mudada para sempre. Agora, quando Jesus diz: "Ame o seu próximo como a Si mesmo", não respondemos: "Oh, isso me amedronta. Meu amor a mim mesmo é impossibilitado pelas exigências do meu próximo. Jamais poderei fazer isso". Em vez disso, dizemos: "Oh sim, eu amo a mim mesmo. Anseio por alegria, satisfação, realização, significado e segurança. Mas Deus me chamou — na verdade, ordenou-me— para vir primeiro a ele para buscar todas essas coisas. Ele ordena que meu amor por ele seja a forma do meu amor por mim. Que todos os meus anseios por mim encontro nele. Isso é o que o meu amor a mim mesmo é agora. É meu amor a Deus. Eles se tornaram um. Minha busca por felicidade é agora nada mais que minha busca por Deus. E ele tem sido achado".

Então, o que Jesus está ordenando no segundo mandamento — que amemos nosso próximo como a nós mesmos? Ele está mandando que nosso amor a nós mesmos, que agora descobriu sua realização no amor a Deus, seja a medida e o conteúdo do nosso amor ao próximo. Ou, colocando de outra forma, ele está mandando que nossa busca inata de nós mesmos, que agora foi redirecionada em busca de Deus, transborde e se expanda em direção ao nosso próximo. Por exemplo:

Se você anseia por ver mais da abundância e liberalidade no suprimento de comida, casa e vestimenta, procure mostrar a outros a grandeza dessa abundância divina pela generosidade que você encontrou nele. Deixe-a realização do seu próprio amor a Si mesmo no amor a Deus transbordar em amor ao próximo. Ou, melhor, procure fazer com que Deus, que é a realização do seu amor a Si mesmo, transborde por meio de você e se torne a realização do amor do seu próximo a Si mesmo.

Se você quer experimentar mais da compaixão de Deus no consolo que ele lhe dá quando você está triste, procure mostrar a outros mais da compaixão de Deus, pelo consolo que você lhes estende quando eles estão tristes.

Se você anela por saborear mais da sabedoria de Deus nos conselhos que lhe dá quando seus relacionamentos estão sob tensão, procure passar mais da sabedoria de Deus a outros nos relacionamentos tensos deles.

Se você se compraz em ver a bondade de Deus em momentos relaxados de lazer, proporcione essa bondade a outros ajudando-os a ter lazer.

Se você quer ver mais da graça salvadora manifesta poderosamente em sua vida, estenda essa graça à vida dos outros que carecem de graça salvadora.

Se você se regozija nas riquezas da amizade pessoal de Deus em circunstâncias boas ou ruins, estenda essa amizade aos solitários, em qualquer circunstância.

Sempre haverá perplexidade

Não estou querendo dizer que isso responde a todas as nossas indagações sobre o amor, ou que afasta todo tipo de ameaça quando amamos nosso próximo. Há sempre momentos de perplexidade na vida de amor. Há demandas que competem por nosso tempo limitado. Há escolhas difíceis quanto ao que abrir mão e ao que conservar. Há interpretações diferentes do que é bom para a outra pessoa. Não estou dizendo aqui que tudo isso se torna simples.

O que quero dizer é isso: amar a Deus nos sustenta em toda a alegria, dor, perplexidade e incerteza do que amar o nosso próximo deve ser. Quando o sacrifício é grande, lembramos que sua graça nos basta. Quando somos distraídos pelo mundo e nosso coração cede espaço temporariamente ao egoísmo, lembramos que somente Deus pode nos satisfazer, arrependemo-nos e amamos sua graça ainda mais.

Um mundo de alegria em Deus em expansão

Esse é um mandamento muito radical. Ele corta a raiz do pecado, que se chama orgulho. Lembre-se, essa raiz de orgulho que dá origem a todos os outros pecados, essa ânsia de ser feliz, é contaminada e corrompida por duas coisas: 1) a indisposição de ver Deus como a única fonte de alegria verdadeira e douradoura, e 2) a indisposição de ver que Deus quer que outras pessoas recebam de nós a alegria nele. Mas é exatamente essa contaminação e corrupção que Jesus combate nesses dois mandamentos.

No primeiro mandamento ele concentra a ânsia de ser feliz firmemente em Deus e apenas nele. No segundo mandamento ele abre todo um mundo de alegria em Deus em expansão, e diz: As pessoas, os seres humanos, onde quer que você os encontre, foram designados para receber alegria em Deus de você. Ame-os do modo que você ama a Si mesmo. Mostre-lhes, dê-lhes por qualquer meio pratico disponível o que você encontrou para você mesmo em Deus.

Para resumir, o antigo mal-entendido do mandamento "Ame seu próximo como você ama a você mesmo" foi a tentativa do mestre da lei de restringir o sentido de "próximo" a certo grupo, levantando assim a pergunta que, esperava ele, escondesse o verdadeiro problema — seu fracasso em ser a pessoa que o mandamento exigia que ele fosse, alguém cujo coração compassivo jamais lhe permitiria passar pelo outro lado da estrada.

O mal-entendido moderno do mandamento, mais predominante no culto de Si mesmo, é a noção muitíssimo comum de que Jesus não está pressupondo mas ordenando que amemos a nós mesmos, e que o amor a Si mesmo eqüivale a auto-estima, ter um conceito positivo de Si mesmo e coisas assim. Só que Jesus colocou como um fato que as pessoas amam a Si mesmas. E o sentido desse amor a Si mesmo (comovemos do contexto, a Regra Áurea, e em Ef 5.28, 29), é que todas as pessoas desejam e buscam o que pensam que as fará felizes. Este traça humano universal torna-se a regra pela qual todo sacrifício amoroso pessoal tem de ser medido.

Parece-me que não é maior que um fio de cabelo a diferença entre a auto-justificação que ocasionou o erro do professor e a ânsia por auto-estima que alimenta o erro mais moderno. Quão intimamente relacionados estão os dois erros deixo a cargo da sua própria ponderação.

 

NOTAS

1Parte deste apêndice foi adaptado de um artigo publicado em Christianlty Today de 12 de agosto de 1977, p. 6-9.